30 de abr. de 2008

Calçadas iluminadas

Falar de como o universo privado invade o espaço público não é novidade. Novas são as formas dessa privatização.
Os prédios da Zona Sul (RJ) reproduzem o que há bastante tempo se faz em SP.
Quando o pedestre passa em frente a um prédio ele é atingido por uma luz que o cega.
A privatização do espaço público se confunde com as formas de o poder se exercer pela visibilidade. Além das grades, os que estão do lado de dentro super-expõe os que estão na rua e se escodem na escuridão.
Para se proteger da violência agridem os pedestres.

esse post parece uma daquelas infâmias do Góes do O Globo!

Em tempos de visibilidade total 2

27 de abr. de 2008

Assentamento São Bernardino

Saímos do centro Nova Iguaçu na sexta feira, por volta das 14:00 e em pouco mais de uma hora estávamos na frente das ruínas da fazenda São Bernardino, quase na entrada da Reserva do Tinguá, ainda em Nova Iguaçu.

Da frente da fazenda sai a rua das palmeiras, uma imponente viela cercada de palmeiras imperiais, como tantas fazendas do séc. XIX.

A rua da Palmeiras nos leva até o Assentamento São Bernardino, onde fomos conhecer a biblioteca comunitária que há dois anos ocupa a Associação dos Lavradores. Ali a Tânia com a ajuda de mais dois voluntários e com a boa vontade do pessoal da Associação reuniu mais de 7000 mil livros catalogados e quase 3000 esperando tempo e espaço para catálogo.

O Assentamento existe há 22 anos, permanece um lugar rural, de clima mais ameno que o do centro da cidade e cercado de verde. O ambiente tranquilo traz junto a dificuldade de estar longe do centro e mesmo de Vila de Cava, alí perto.

O ideal de Tânia é liberar a Associação de moradores e montar a biblioteca em Vila de Cava, mas até agora não houve dinheiro para tal.

Para cuidar desse acervo que inclui mais de 700 livros de literatura infantil e outros 800 de literatura adulta a D. Tânia ainda não conseguiu um computador, o que é o mais urgente. Apesar da falta de estrutura o lugar é bem cuidado, há uma sala só para as crianças e os livros e empréstimos são bastante organizados. Não se trata de uma relação fetichista com os livros.
Eles estão ali para serem usados, emprestados.

O estranhamento é ver um trabalho muito intenso com muito pouco retorno. Há um tempo e uma crença naquela dedicação que é comovente. Trabalha-se porque é necessário, ou, será necessário, não se sabe muito bem quando.

Ou não, o retorno está na moça que "ontem passou lá e levou quatro livros de história".

Na volta para o Centro atravessamos a Vila de Cava, compramos um cacho de banana-ouro e tomamos caldo de cana.

Andréa Tonacci e Cristina Amaral


ótima dica do Carlos Alberto de Mattos.
Uma entrevista com o Tonacci, diretor do brilhante Serras da Desordem e da Cristina Amaral, montadora do filme. Aula de Cinema, consciência e delicadeza com o trabalho de documentarista.

Na parte dois da entrevista, os entrevistados falam sobre a montagem com grande clareza sobre o processo e sobre a criação que ali acontece.

O cinema brasileiro é por vezes impressionante. Serras da Desordem é um filme raro. Já é um marco na história do nosso documentário. Ouvir Tonacci e Cristina Amaral, é um grande prazer, a inteligência e sensibilidade do filme continuam naquelas palavras, na elaboração que fazem sobre o trabalho.

Vontade de cinema.

26 de abr. de 2008

Internet e crianças

Como meu filho entrou em uma idade de utilização do computador com os mesmos fins que nós, ou seja, para estudar, se divertir, se organiza, etc, comecei a pesquisar um pouco sobre o que poderia haver na rede de interessante para a sua idade.

Minha pesquisa apenas confirma uma sensação geral. Quando se fala em criança e internet, se fala em perigo.

Antes de ser um lugar em que a criança pode criar e se divertir, a internet é tratada como espaço de ameaça, de risco. Lugar em que a criança pode ver coisas que afetarão seu amadurecimento ou como lugar em que ela pode ser manipulada, aproveitada, etc.

Em relação a internet se reproduz o clássico "não fale com estranhos".

Para o adulto, que não cresceu com a internet, essa relação da criança com a rede é uma novidade. Algo novo que rapidamente se transforma em ameaça.

Nosso desconhecimento e incompreensão do universo das crianças e da internet faz com que ela se torne um espaço de perigos inenarráveis.

No momento que a internet é uma ameaça, poucos adultos se dedicam a criar conteúdo para crianças.

Outro problema é mercadológico. A grande mídia me parece ter todo interesse em manter a internet como espaço ameaçador. Uma criança vale mais sentada na frente da televisão do que surfando entre jogos, chats e orkuts.
Para a Globo, o Orkut é um inimigo.

No meio deste caminho, 3 links para os jovens:
Aniboom - Site que permite fazer animações com facilidade e que após algumas horas de brincadeira leva a criança a olhar para os desenhos animados da TV de maneira menos passiva.

Atlas Online


Miniweb Educação - site de educação, pode ser explorado por professores e crianças. Na parte de literatura um link "O fazendeiro do ar" do Fernando Sabino e do David Neves sobre o Drmmond, com o próprio.

25 de abr. de 2008

A mídia e os monstros

Desde que apareceu o caso Isabella fiz todo esforço para não acompanhar, não saber detalhes e me alienar do debate e da narrativa.
Como tantas outras narrativas encampadas pela mídia, essa, desde o início, mostrava seu potencial dramático e espetacular.
O problema de minha decisão de ficar longe do caso trágico dessa família, que definitivamente não me diz respeito nem é capaz de falar algo sobre nós - mundo e país - é que eu deveria também me abster das relações sociais.

Almoçar em um restaurante qualquer ou comer um sandwich em uma lanchonete se tornava impossível, o som da TV tudo invade.

Nas bancas a primeira página ocupada, no ônibus o assunto se repetia, as rodas estavam recheadas de opiniões.

Eles ganharam. O tragédia particular ganhou a cidade. Não há alienação possível.

O que é público nessa história não é a tragédia familiar, mas a mídia totalitária. Na lanchonete a Record dedicou o tempo do meu sandwich de carne assada - que é mais demorado que um misto quente - inteiro a uma imagem do caso. A madrasta deixava sua casa chorando.
Certo que isso não é novidade.

Em Cinema e a Invenção da Vida Moderna um dos textos narra como Paris ficara absorta com o mistério da morte de uma menina que caira no vão de uma escada. Seu corpo ficou por muitos dias exposto no necrotério de Paris e multidões se juntavam para vê-la. Nas imagens da Record uma nova multidão estava ali também pronta para fazer justiça.

Me sinto refém e indefeso e, nesse sentido, acabo me identificando com aqueles que a mídia chama de monstros.

19 de abr. de 2008

Nostalgia de Hollis Frampton

Também disponível no Ubu web.
Nostalgia (1971), do artista e teórico americano Hollis Frampton, morto em 1984, é citado por Bernardet no livro sobre Abbas Kiarostami como exemplo de um "Structural Film". Frampton escolhe 13 fotos e as coloca sobre uma boca de um fogão. Todas as fotos são de alguma forma parte da vida de Frampton, trata-se de um trabalho quase-autobiográfico. Enquanto as fotos queimam e se contorcem Frampton fala a data da foto e faz comentários sobre a imagem, composição, quem estava presente, etc. Cada plano dura 2:40. Mas há um detalhe perturbador, Frampton nunca comenta a foto que estamos vendo, mas a seguinte. No início, tudo parece muito simples, como se o texto dobrasse o que estamos vendo, mas, quando percebemos o dispositivo, a cada imagem tentamos ouvir o texto - para podermos lembrar dele enquanto vemos a foto seguinte e ver a imagem tentando se lembrar do texto que ouvimos na foto anterior. De repente, onde parecia haver redundância - o que demandava pouco esforço do espectador - se torna um jogo muito complexo em que o espectador está sempre perdendo algo em relação às imagens.

Ainda o caso Isabella

- Como v. pode não ser tocado?
- Isso não é parte da realidade.
- Como assim? Isso aconteceu.
- Nem tudo que acontece é parte da realidade.
- Claro que é. Se acontece é a realidade.
- Não. Para ser parte da realidade é necessário uma narrativa e é disso que eu quero escapar.
- Mas ali é uma madrasta e um pai que matam uma criança, de verdade.
- Claro, a possibilidade disso existir é evidente, basta as pessoas estarem vivas.
- Mas se realmente aconteceu é outra história, o que levou eles a fazerem isso?
- Mas se eu tentar responder a pergunta estarei entrando na narrativa e enquanto eu não entrar o que aconteceu permanece como um absurdo inexplicável que não deve ser explicado.
- Então o problema é achar uma explicação.
- Também. Mas o problema é anterior. O assassinato aconteceu, mas ele só começar a me dizer respeito se começo a estabelecer relações de identificação. Como pode um pai fazer isso?
- Mas, uma vez que a gente sabe que isso aconteceu essa pergunta é inevitável.
- Mais ou menos. Não me relacionado com esse fato de maneira diferente de que se ele não tivesse acontecido.
-Não entendo.
- Em dez anos ou na Bolívia, ninguém saberá desse caso, ele não é parte da realidade. Mais, essa não é a primeira vez que isso acontece. Porque eu devo pensar e me envolver com algo tão extraordinário e fazer disso parte da minha vida? Porque eu devo ser contemporâneo a tudo?
- Mas escrever no blog sobre isso é se envolver.
- Justamente. Estou impressionado pela forma como a narrativa se impôs.
- Mas mesmo assim você diz que não é a realidade.
- A narrativa sobre o acontecimento é a realidade. Mas o assassinato não.
- Discordo

Em tempos de visibilidade total

Desiree Palmen

18 de abr. de 2008

Ao trabalho - os espanhois

Dois momentos da conquista espanhola em Raízes do Brasil.

Cortes manda desarmar as naus que o trouxeram para a "Nova Espanha" para aproveitar o lenho e construir em terra firme.

Pizarro, em 1553, assediado por um exército de 50 mil índios manda as naus saírem ao mar para impossibilitar a fuga de seus homens.

"Para esses homens, o mar certamente não existia, salvo como obstáculo a vencer" (SBH)


16 de abr. de 2008

Descanso e trabalho

Com uma certa frequência tenho pego o trem na Central e ido até Nova Iguaçu - Rio de Janeiro
O trem é um importante lugar para que as pessoas completem o sono do dia.
Ontem, de Nova Iguaçu para o Rio, das 32 pessoas que estavam no vagão 27 dormiam.
Na chegada à Central a disputa por um lugar sentado era muito grande, uma disputa árdua. O que está em jogo não é o conforto da viagem, mas a possibilidade de uma estruturante hora de sono. Este sono é parte da forma como o trabalho se organiza.

Em breve as fotos dos melhores lugares para o sono. Experiência própria.

15 de abr. de 2008

Manuel Bandeira 2 vezes

Esse as crianças já sabem de cor.

Céu

A criança olha
Para o céu azul
Levanta a mãozinha,
Quer tocar o céu

Não sente a criança
Que o céu é ilusão
Crê que o não alcança
Quando o tem na mão.

Na Piauí 19:
Antonieta sempre me pareceu um anjo. "Principia que é loura. Nisso eu fiquei criança: anjo para mim tem que ser louro. Adorei os anjos mulatinhos do quadro da Tarsila, mas francamente não acredito neles"


Como dizía nos últimos posts: Ser anjo também é um trabalho para uns e não outros.

Raízes do Brasil

Breve vocabulário do livro do Sérgio Buarque de Holanda

Tomista: seguidores da filosofia de São Tomás de Aquino.
Prosápia: Linhagem, raça.
Pelagianismo: Teoria Cristã atribuída a Pelágio (350-423) segundo o qual todo homem nasce moralmente neutro e que é capaz de converter-se por si só, sem influência externa.
Molinista: filosofia de Luis de Molina (1535 -1600) segundo o qual Deus oferece sua graça a todo homem e esse é livre para aceitá-la ou não.
Óbice: dificuldade, estorvo.
Menoscabo: menosprezo
Arroteado: Cultivado ,"terreno arroteado"
Almotacé: do árabe (al-muhtasib) inspetor de pesos e medidas de gêneros alimentícios.
Tirocínio: aprendizado

Trabalho 3

O dinheiro que se paga ao empregado faz diferença nas contas do empregador?
Essa é a principal diferença entre trabalho assalariado e escravidão.

O mundo do trabalho 2

Ainda em Raízes do Brasil.
em 1726 - Negros de até quarta geração - nem tão mais negros assim - eram proibidos de exercer cargos municipais em Minas Gerais.

O trabalho é o lugar da divisão dos lugares sociais por excelência.
Quem pode trabalhar onde?

13 de abr. de 2008

Grana

Quanto uma família da zona sul do Rio de Janeiro pensa em ganhar por mês?
Qual a perspectiva de renda para uma vida confortável nos parámetros da elite?

10 de abr. de 2008

O mundo do trabalho

7 profissões:

Narrador de ofertas na porta de loja de roupas
Vendedora de ticket de trem em Mesquita
Mc
Tirador de xerox
Fritador de Pastel
Arrecadador de dinheiro para projeto social, no trem
Vendedor de esponja - 15 = 1Real

10 de fev. de 2008

O documentarista está de volta

Em um post anterior dizia que o documentarista é aquele que está de saída.
Pois, o documentarista está de retorno quando coloca-se a altura da desestabilização por ele causada, construída; são momentos em que o filme deve dar conta e ser afetado pela sua própria potência (do filme). Como se o filme gritasse, eu não sabia que poderia vir até aqui. O filme se auto-afetando.

Do lugar do documentarista

- Que o documentarista não carregue a culpa pelo feio, o horrível e o violento do mundo.

- Que o documentarista não se autorize a julgar o que seu personagem deseja ou não dizer para o mundo. O que é frequentemente inevitável.

- Que o documentarista separe temporal e espacialmente o filme do sujeito filmado.

É triste uma pré-estreia em que os loucos filmados também estão presentes ou que os travestis foram convidados para se ver e falar depois do filme.

Cinema na sala de aula 2 - com Alain Bergala


Continuação do post anterior

1 - O professor que leva o cinema para sala de aula deve estar comprometido com os filmes que escolhe.
Isso exclui qualquer paternalismo. O filme deve ser bom para o professor antes mesmo de ser bom para as crianças e jovens.

2 - O gosto pessoal dos professores está em jogo. É parte do que será levado à sala.

3 - Não devemos julgar o gosto das crianças e jovens.

4 - Crianças podem digerir tudo, o melhor e o pior.

5 - Não se deve perder tempo analisando filmes ruins. Não se trata de ensinar os alunos a se defender do cinema ou da linguagem, como se ela fosse intrinsicamente perigosa.

6 - O risco é que os bons filmes são raramente corretos, politica ou ideologicamente.

7 - O professor deve facilitar o acesso a filmes que só podem aparecer na escola.

8 - Só podemos exigir dos professores que estejam atentos ao que acontece na tela.

9 - A escola pode traçar linhas entre filmes, entre filiações. O filme não é um obra única, isolada do mundo e de outras obras.

10 - É função do professor fomentar uma leitura criativa, não somente analítica e crítica. Manter o filme como algo estranho.

11 - O filme deve ser visto e revisto!

12 - Em um plano que vale a pena "há algo que queima no seu interior" (Straub). Na sala de aula se busca o que queima, não a gramática ou os bons e grandes temas.

13 - Bergala marca no livro uma grande diferença entre o cinema e a televisão. O que ele se propõe a levar para a sala de aula é o cinema como arte e não o audiovisual.

O imaginário cinema (filmes, docs, clips) não se confunde com o dispositivo televisual (palco, jogos, talk-shows, jornais, esporte)
"Eu não vejo nenhum interesse ou benefício pedagógico em misturar as duas coisas"


14 - É ingênuo pensar que o cinema oferece instrumentos contra a televisão por dois motivos.
- O que as crianças tem prazer em ver não se transformará como uma análise que desmonte a TV.
- As poucas horas que a escola pode analisar o dispositivo TV são ínfimas diante das horas que se passa diariamente na frente da TV.

15 - Faremos mais pela crianças lhes apresentando um plano de Kiarostami do que duas horas desconstruindo uma emissão de TV.

16 - Um filme trabalha na surdina, lentamente.

17 - Podemos obrigar a aprender, mas não podemos obrigar a ser tocado. (isso me faz lembrar uma fala de Derrida dizendo que tudo que podemos pedir dos alunos é seu tempo.)

18 - A sala de aula deve se diferenciar do consumismo fílmico - cada semana um filme diferente - e do consumo jovem.

19 - Os filmes trabalhados com crianças de 7 a 17 anos não foram divididos por classe o faixa etária e as questões trabalhas eram frequentemente as mesmas: o ponto de vista, espaço real e espaço fílmico, o fora de quadro, o campo sonoro, etc.
Os alunos eram frequentemente convidados a trazer para a sala de aula fragmentos que continuassem a discussão em torno dos recortes propostos.

20 - Estágios de formação são essenciais. Colocam em contato múltiplas experiências de relação com os filmes. Aproximam professores de gerações diferentes com diferentes experiências de cinema.


9 de fev. de 2008

Cinema na sala de aula 1 - com Alain Bergala

Em 2000, o critico e cineasta Alain Bergala foi chamado pelo então Ministro da Educação da França, Jack Lang, para introduzir o cinema na escola elementar.

Essa experiência gerou o livro "L'hypothèse cinéma".

Trago agora um pouco da experiência de Bergala, neste livro que infelizmente não está traduzido.

Os comentários abaixo já são parte de de um diálogo com o Bergala.

1 - O primeiro embate é com a inércia das pessoas ligadas à educação. A dificuldade de mudar qualquer coisa é uma dura batalha, essa é a realidade. Com ela vamos em frente.

2 - É preciso começar com propostas radicais. O tempo, a transmissão e a colocação em prática tratarão de contê-las. Segundo Bergala é frequentemente necessário colocar a carroça na frente dos bois. Adorei isso!!

3 O primeiro efeito a ser procurado é simbólico.

4 O cinema vai para a escola não como texto ou como tema, mas como ato e criação.

5 - A questão é a criação, não a transmissão de uma saber audiovisual ou artístico. Arte não se ensina, experimenta. Ela deve ser nova para o professor e para o aluno. É pela experiência que o professor pode sair do lugar daquele que ensina para experimentar com os aluno.

6 - Aluno e professor: não sabemos porque é o outro.

7 - Podemos começar pela materialidade da imagem. O que vemos, as cores, os cortes, o corpo, o olhar, o gesto.

8 - A criação é um encontro com a alteridade. O audiovisual na sala de aula pode ser esse encontro.

9- A arte para ser arte deve guardar sua potência escandalosa, caótica.

10 - Bergala não chamou especialista, formados em cinema para a tarefa, os operadores/experimentadores deveriam ser os próprios professores, independente da sua especialidade.

12 - Princípio gerais: reduzir a desigualdade, revelar na criação qualidades intuitivas e de sensibilidade, desenvolver o espírito crítico das crianças.

13 - É preciso não transformar em receita o processo. "Sobretudo se funciona!" Funcionar não é um valor suficiente. O capitalismo funciona, a grande mídia funciona....

14 - Não se trata de colocar o cinema na sala de aula porque ele pode dizer melhor o que já sabemos, mas porque ele tem uma forma sensível que nenhuma outra tem.

15 - A arte é anti-institucional. É com este paradoxo que temos que ter a coragem de colocá-la na sala de aula.

16 - A escola não é feita para o encontro com a arte, mas para muitas crianças ela é o único lugar onde isso pode acontecer.

17 - O cinema entra na escola como um processo criativo, como marca de um processo de pensamento que não se pode ensinar de outra forma.

18 - Analisar um filme e realizá-lo implicam um mesmo tipo de relação com um processo criativo.

19 - A tentativa é encontra formas de se dialogar sobre o prazer e dificuldades daqueles que participaram do processo criativo de um filme - realizadores, atores, roteiristas, montadores, etc.

20 - O medo da alteridade faz com que tendamos a ler o novo à partir do velho. O cinema se torna assim texto, história, tema, ilustração. O que pode um filme e mais ninguém?

21 - O cinema na sala de aula não pode ter pressa.

segue...

8 de fev. de 2008

Pobre fica em casa

As declarações do Coronel na PM Marcus Jardim (Primeiro Comando da Área da Capital ) no O Globo de hoje são escandalosas.

- Baile Funk em favela é reunião de Vagabundo.
- Não posso proibir mas posso dificultar.
Sua tática consiste em abordar e revistar os frequentadores inibindo os "jovens que vão ao baile apenas se divertir."

No Globo são tratadas com normalidade.
Cria-se o consenso de que o poder pode e deve restringir os acessos, movimentos e conexões dos pobres (aqueles que não são leitores deste mesmo jornal).

Escândalos no lugar da política

Nos últimos vinte dias a oposição ao atual governo conseguiu mudar de pauta três vezes.
Energia e um possível racionamento, febre amarela e, agora, os cartões corporativos.

O racionamento não foi necessário, a febre amarela não virou a epidemia que a mídia anunciava e, agora, os cartões corporativos....

é triste ver uma oposição e uma mídia pautando o debate em escândalos. A transposição do Rio São Francisco, as cotas, o desmatamento, a reforma trabalhista, nada disso importa diante do gasto do cartão corporativo para pagar tapioca ou flores para os visitantes da China!

6 de fev. de 2008

Godard, para nos livrar das imagens únicas (e das inúteis também)

Não há imagem, somente imagens.
Assim que há duas, há três, é o fundamento aritimético do cinema.
Não há imagem, apenas relação entre imagens.


No desejo de fazermos um filme por alguém corremos o risco de fazer um filme contra:

5 de fev. de 2008

Para escutar (pop) no carnaval


Para quem está em casa, longe do samba, tente:

Just Jack
- hip hop animado dançante
The veil - para quem gostou de rock inglês nos anos 80
Beastie Boys - The Mix up - instrumental jazzistico muito bom
Destroyer - Destroyer's Rubies - Canção pra quem gostou de Radiohead e afins

4 de fev. de 2008

Porque uns e não outros?


Esse é o título do livro de Jailson de Souza e Silva.
O livro relata diversas histórias de vida e tenta entender porque certas pessoas vindas de meios populares, a favela da Maré, sobretudo, conseguem chegar à universidade e outras não.

Jailson desenvolve noções como inteligência institucional e pertencimento que são interessantes para entendermos ações públicas ligadas à educação que ultrapassam uma ação direta do estado e que são fundamentais para o sucesso de uns.

O livro traz ainda uma dimensão pessoal, uma vez que Jailson fez, ele próprio o caminho da Maré ao doutorado e uma dimensão prática, ligada ao CEASM - Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré - que oferece cursos pré-vestibular que auxiliam essa passagem à universidade.

3 de fev. de 2008

Bolívia, por Negri e Cocco

Antonio Negri e Giuseppe Cocco escrevem sobre a Bolívia.

Lembrando:
O recente papel da Governo Lula e da Governo do Chile (Michelle Bachelet) foi extremamente importante no momento em que defenderam a Bolívia unida contra a chantagem separatista daqueles que defendem a privatização dos recursos naturais.

Abaixo um trecho da entrevista com Francisco Carlos Teixeira da Silva
"O Evo (Morales) falou uma coisa que é muito interessante – mais do que uma posição política, é quase uma filosofia de história. Quando ele disse que iria nacionalizar o petróleo, o gás, etc, diziam que os investimentos iriam embora. E o Evo respondeu a isso da seguinte forma: 'nós éramos um povo digno, roubaram a prata, ficamos pobres; depois, eles vieram, roubaram o guano ( externo das aves do litoral), ficamos ainda mais pobres, e perdemos o litoral; depois, roubaram o manganês e continuamos pobres; agora, eles querem o petróleo, e nós vamos continuar pobres'. Quem já perdeu tanto, falar que não vai ter investimento..."

Volta às aulas

Em breve a fala e a escuta diante de dezenas de jovens.

Pensando no que é possível compartilhar com eles, volto a Rancière:

"Quem parte da desigualdade e se propõe a reduzi-la, hierarquiza as desigualdades, hierarquiza as prioridades, hierarquiza as inteligências e reproduz indefinidamente."

O desafio não é pequeno.

Entrevista com Rancière sobre instigante "O Mestre Ignorante".

2 de fev. de 2008

Tv por assinatura e futebol

O Brasil tem 8% da população com Tv por assinatura.
A Argentina 52%.

O negócio da tv aberta é bom demais para ser ameaçado pela tv paga, dominado pela Globo. A TV paga é passível de maior democratização = desinteresse da Globo em ter a Net com assinantes.

A Net é apenas uma forma de defesa de mercado. Não tem necessidade de atender seu telefone se você ligar para lá.

Ou o estado interfere ou continuaremos a ter o campeonato brasileiro de futebol apenas para a elite dos 8% que escolhe pagar mais para vê-lo.

Meu nome não é Johnny

Um primeiro estranhamento é o elogio que o filme faz à atuação da juiza que poupa o personagem da lei. Um verdadeiro estado de exceção. Trata-se da lei (a juiza) que suprime a lei (condenar o traficante pelo que fez).

A classe média adora. Encontra no filme um Estado que protege o filho caso esse "se deixe levar" pelas circunstâncias.

Outro estranhamento é o elogio esquemático ao limite. Os pais devem dar limite para os filhos, se não....
Tudo se resume ao limite. O problema não é o consumo, por exemplo, mas o limite do consumo.
A lógica do filme é a da moderação, mesmo para ser traficante é necessário moderação.

Vou levar meus filhos adolescentes para ver, dizem alguns. Para que? Para saberem que se decidirem pelo tráfico devem fazer com moderação. Ou para saberem que se forem pegos o Estado os protege, evitando que aquele que errou se junte aos criminosos.