24 de jun. de 2015

A cadeirinha de Brasília

Infelizmente nossa democracia faz pouco mais do que manter os mesmos sistemas de poder no governo, com variáveis cada vez menores entre o que é ser de direita ou de esquerda.
Se há uma certa indiferença entre quem está no poder, é com outro tipo de pressão que democracia deveria existir.
A disputa entre superpoderosos nos acostumou a pensar pequeno.
A destruição do planeta, o escândalo da desigualdade e o poder do sistema financeiro e imobiliário não têm nem mais lugar no debate. São coisas grandes demais para serem pensadas. Enquanto isso discutimos as migalhas entre PT e PSDB.
Prato cheio para os grupos no poder, para os consumidores de agrotóxico do Ministério da Agricultura e para o Gerente do Bradesco nas finanças.
A democracia está em outro lugar: na urgência de levarmos a sério o escândalo da desigualdade – todas elas. Isso não será feito por nenhum partido nos próximos muitos anos.
Se a aberração do sistema que nos destrói e mata estiver em primeiro plano e nos mobilizar, dane-se se é Cunha, Aécio ou Dilma na cadeirinha de Brasília.


27.4.15

Crise ética e crise de legitimidade.

Uma imagem tem frequentado os jornais ultimamente.
Dois políticos conversam em lugares públicos e, para que não haja leitura labial, eles cobre a boca.
Por algum motivo os editores tem privilegiado essa imagem.
Talvez tenham razão para isso. O que a imagem diz sobre os políticos e sobre os jogos de poder é bastante evidente: “Estamos conversando e organizando coisas que não podem ser ouvidas por ninguém”. “Apesar de estarmos em público e sermos homens públicos, o que dizemos um para o outro não pode ser pronunciado, faz parte da opacidade dos jogos palacianos”
Por uma lado, felizmente que nem tudo é transparência. Por outro, que estranho que esses homens precisem cotidianamente trocar confidências impublicáveis.
A mão que cobre a boca revela a instabilidade dos acordos, como se a cada dia um novo acordo tivesse que ser feito.
Mais do que uma imagem que explicita que os políticos tem algo a nos esconder – também porque são humanos – a presença reiterada dessas imagens corrobora uma instabilidade, um cotidiano de acordos feitos e refeitos. Um certa indeterminação das formas do poder atuar. Como se houvesse, no fundo, uma desconexão entre poder e liderança.
“Veja, o tempo todo eles precisam repactuar!” diz a imagem. Com se a própria representação estivesse em crise.
A imagem perfaz assim um discurso ancorado na realidade, é verdade, mas também representativo de um certo desejo de mundo. Esse discurso parece então nos dizer: "esse homens que fazem o inconfessável – já que não podemos saber o que combinam – também não mandam nada". Crise ética e crise de legitimidade.
Se é essa a situação do país, não sei, mas que parece haver um certo interesse nessa leitura, acho evidente.

Bangladesh, Mediterrâneo e Oxford St.

Bangladesh, Mediterrâneo e Oxford St.
Está programada para esta semana uma grande manifestação em Dhaka, capital de Bangladesh. Dois anos atrás, mais de mil pessoas morreram no desabamento de um prédio ilegalmente construído em que se fabricavam roupas para marcas como Benetton, Primark, Matalan e Mango. Os manifestantes dizem que nem todas as indenizações devidas foram pagas.
Nos últimos anos, Bangladesh se tornou um centro de “máxima exploração”, garantido pela pobreza, pela fragilidade dos sindicatos, pelos baixíssimos salários, etc.
Nessa semana, como todos sabem, mais de mil pessoas morreram no mediterrâneo tentando chegar na Europa. Centro de máximo consumo, com seus salários altos, legislações trabalhistas que ainda sobrevivem em alguns países, além de algumas garantias mínimas de sobrevivência – como escolas gratuitas.
A relação entre as duas tragédias não é pequena.
Para garantir preços absurdamente baratos na Primark ou para que a Benetton possa fazer face à competição, é preciso garantir que nenhum trabalhador de Bangladesh chegue à Europa - eles são necessários lá onde estão.
A morte desses trabalhadores não traz nenhum problema para a ordem do capital. A impossibilidade de os imigrantes chegarem na Europa não impedirá que as roupas continuem viajando em primeira classe.
A única solução real para a imigração na Europa é que as leis trabalhistas e os salários sejam ditados pelo local de venda e não pelo local de fabricação. Diante do absurdo dessas mortes é preciso pensar em um outro mundo possível.

Internet e a lentidão da delicadeza

Nesta última semana dois eventos que circularam por aqui me tocaram. O caso da fala preconceituosa do Ed Motta e do texto equivocado José Jr. Pouco tempo depois, diante da repercussão, os dois fizeram notas públicas, pedindo desculpas, dizendo que erram no tom e que se expressaram mal. Entretanto, não houve saída, os dois continuaram sendo severamente agredidos, como se tivesse revelado a verdade de seus seres com os seus erros. Como um ato falho.
O ato falho é parte do “ser polícia” que a psicanálise criou. Quando alguém diz ou escreve o que não queria dizer, mesmo que depois negue o que disse, sempre haverá uma psico-policial para dizer: “A verdade é o que sai sem querer. É essa que vale.” Não adianta se justificar, dizer que errou, que se expressou sem precisão ou que não foi bem interpretado. “Te pegamos no flagra. Sabemos tudo sobre você.”
O que me toca em nossa prática nessa rede social - e fora dela -, nesses tempos de emoções agudas e posturas polarizadas, é a enorme indelicadeza que temos produzido e feito circular. Cometido o erro, o sujeito está perdido.
Não guardo simpatia por José Jr., por exemplo, mas a distância política e estética que tenho não deveria me dar o direito de usar esse momento em que ele comete um erro, para acusa-lo, inclusive, de defender que crianças sejam mortas.
A indelicadeza está na velocidade e contundência das acusações. Não há tempo para nada, apenas para reações que precisam ser maiores que as ações. Nessa lógica de vingança, uma frase que nos desagrada, mesmo que alterada por uma reflexão do autor, será rebatida com violência destrutiva.
A lógica é a da eliminação.
Se não gosto da estética-carrão e das joias do José Júnior, nem de seu apoio ao Aécio, “quando ele abrir uma brecha eu o destruo”.
Trouxemos para o cotidiano a lógica das campanhas eleitorais, dos reality shows e do mundo corporativo. O outro é um inimigo a ser abatido. Para isso, não há limites.
A delicadeza demanda um certo tempo, uma espera, uma reflexão e um pouco de cautela, mas, ai, já há outra assunto para ganharmos “likes” ou outro inimigo menor para ser destruído.
A delicadeza é lenta, por isso deveria começar na frente.

De Sica e redução da maioridade penal

No belo “Vítimas da tormenta” (Sciuscià) (1946), de De Sica, os dois meninos que fazem os papéis principais são levados para uma prisão para jovens.
Na prisão há uma breve discussão entre o diretor do estabelecimento e um outro homem, seu assistente, que cobra melhores condições para os meninos.
A resposta do diretor fala muito sobre a lógica que organiza muitos dos defensores da redução da maioridade penal. Ele diz: “Isso aqui é uma prisão e não um centro de cuidados. Se você esquecer isso, será para sempre um assistente.”
O pragmatismo do diretor é cruel e explicita que o tratamento que ele deseja para os jovens não tem relação alguma com a segurança, com uma reflexão sobre a sociedade ou com o futuro dos jovens, mas exclusivamente com seu lugar de poder.
A questão da redução da maioridade penal também passa por essa tragédia. Enquanto os adolescentes são tratados como adolescentes, em espaços responsáveis pela escola e pelo futuro dos internos, ainda há uma negociação que a sociedade faz com esses jovens. Há portas abertas, o que impede o autoritarismo extremo.
A redução da maioridade penal parece caber em um raciocínio parecido com o diretor da prisão. Para garantir o poder é preciso negar os jovens como sujeitos.
60 anos depois do filme de De Sica, continuamos tentando afirmar que esses jovens existem.


12.4.15

Redução da maioridade penal

A violência de nossa sociedade não é novidade, grande parte do que nos move política e poeticamente é essa indignação, essa recusa da violência que toca a todos, de diferentes formas, é verdade.
No atual debate sobre a redução da maioridade penal há, mais uma vez, esse desconforto profundo com a violência. Muitos que defendem a redução acreditam que alguns crimes cometidos por adolescentes poderiam ser evitados, caso esses jovens tivessem medo de ir para a prisão. No pior dos casos, acham que é uma forma da sociedade se vingar daqueles que cometerem algum crime.
Pois, no último ano fizemos um trabalho com cinema e direitos humanos em muitas escolas do país. Três dessas escolas eram Centros Socioeducativos - em que os adolescentes podem ficar até três anos internos. Comprovadamente, a reincidência de crimes de pessoas que passaram por esses centros é muito menor do que a de pessoas que foram presas – menos de 30% nos Centros Socioeducativos, em torno de 70% nas prisões. Mas, mais do que isso, o que vimos nesses lugares foram jovens com profunda vontade de futuro, desejosos de criação, afeto, educação.
Nos trabalhos com o cinema, vimos esses jovens assumirem responsabilidades criativas, pensarem suas vidas e trabalharem intensamente. A cada momento esteve explicito o desacordo entre os desejos expressos nos filmes e as possibilidades que o mundo dava a esses jovens. Se a vingança for o que nos move, teremos que estar cada vez mais preparados para a vingança desses jovens contra o mundo que os colocou ali.
Os Centro Socioeducativos não são prisões, mas é ali que muitos passam anos fundamentais de suas vidas, tentando um futuro diferente daquele escrito na pobreza.
A cada filme feito pelos jovens tínhamos a certeza de que aquele lugar precisava ser passageiro e que fora dali precisávamos continuar um trabalho de apoio, para que eles pudessem continuar criando e expressando todo sua vitalidade.
Coloco abaixo o link para dois dos filmes-carta feitos em Centros Socioeducativos.
É difícil imaginar que são esse jovens que queremos ver nas prisões por muitos anos ou décadas. Vendo esses filmes, é difícil imaginar que perdemos a crença na possibilidade de um outro futuro para esses adolescentes.

http://www.inventarcomadiferenca.org/…/escola-carlos-albert…
https://vimeo.com/97866661
O primeiro desses filmes foi premiado no mais recente CinePE. Infelizmente as jovens diretores não puderam comparecer à cerimônia de premiação por não terem autorização para deixar o Centro Socioeducativo. A torcida é para que no próximo Festival elas tenham mais de 18 anos e estejam livres para receber pessoalmente seus prêmios.

HSBC corrupção

O jornalista Fernando Rodrigues vai fazendo um péssimo trabalho com a lista do HSBC.
Na divulgação das "celebridades" que tem conta no banco suíço, trata a todos da mesma forma, divulga os nomes sem ouvir as partes, não encontra uma causa na divulgação e pior, dessa vez fez o constrangedor papel de associar o nome de atores e produtores à financiamentos públicos, insinuando desvio de verba pública.
No meio da matéria ele diz " Mas não é possível nem correto fazer uma conexão entre o dinheiro captado e os recursos que eventualmente circularam nas contas bancárias na Suíça." Para depois fazer exatamente isso.
Trabalhar com listas como esta do HSBC é muito difícil, não basta apenas colocar os nomes na roda, sem investigação e sem a tentativa de seguir um objetivo jornalístico.
A forma da divulgação apenas dispersa a atenção. Os empresários da mídia e os empreiteiros agradecem.


22.3.15

Constrangedor o trabalho dos jornalistas do Globo sobre o caso HSBC.
Eles estão cobrando declarações de imposto de renda das pessoas que estão na lista e, apesar de algumas pessoas mostrarem a declaração e provarem a legalidade das contas, seus nomes estão sendo citados nas matérias.
Colocam no mesmo saco políticos de primeiro escalão e políticos irrelevantes.
Fazem novas matérias sem acompanhar o desdobramento do que aconteceu com as listas previamente divulgadas.
O trabalho que fazem dispensa o jornalismo. A forma como as listas estão sendo divulgadas carecem de investigação e não é pautada pelo interesse público.
Em casos como estes, o jornalismo é absolutamente necessário, sobretudo quando muitas pessoas do governo e da política estão envolvidas, mas para fazer o que eles estão fazendo, bastava vazar a lista inteira, com os 8000 mil nomes.


25.3.15 

mulher comum

Dilma não precisa ser nenhuma líder carismática, afeita ao espetáculo midiático ou a populismo que organizou grande parte da política ocidental no século XX, para pautar o país pelas questões que interessam a nós e ao mundo. E parece que seu governo não tem outra saída.
É muito importante que a política seja feita por pessoas comuns, que façam parte do que somos e não por narrativas exemplares ou conquistas individuais fenomenais. Um dos grandes ganhos de Dilma como presidente é nos livrar do personalismo que torna a chegada a um cargo como algo escrito na trajetória do sujeito. Lula e Henrique Cardoso, com todas as suas diferenças, fazem parte dessa narrativa, quase heroica – no caso de Lula.
As falas golpistas aparecem porque mais insuportável para as elites que um operário com uma trajetória espetacular é uma mulher comum.

23.3.15

Negociação não é política

Fica fácil para o PMDB e Cunha se imporem no congresso. A pauta de pequenos ajustes que o governo tenta passar não mobiliza ninguém.
Se houvesse clareza e peso político em uma pauta de educação ou de meio ambiente, por exemplo, o embate não seria por conta de pequenos acordos, mas visões de mundo.
Dilma, na sua perspectiva gerencial, entende tudo como negociação, sem jamais vir a público com questões dignas de quem é presidente.
Não há melhor momento para a presidente dizer: Temos que ser protagonistas no combate ao aquecimento global, por exemplo. Se isso fosse uma pauta, não teríamos que ficar discutindo miudezas palacianas, mas as opções de cada grupo em aceitar ou não o fim da água potável e a morte de muitos por conta de nossa forma de consumo. Uma pauta como essa mobiliza questões econômicas, sócias, de política internacional, culturais, etc.
A mesma coisa a educação. O ex-ministro Cid Gomes, quando ainda era ministro deu entrevistas burocráticas sobre o papel do governo federal na educação. É preciso partir do escândalo que é a desigualdade na educação. De outra maneira vamos ficar no gerenciamento da miséria. Sem pautas que exponham opções de mundo, congressistas como o presidente da Câmara ficam no conforto de suas opções moralistas... (frequentemente fomentados por movimentos enfadonhos de esquerda)
O que é perturbador é ver o debate organizado pelos meios conservadores e pelo gerenciamento do mesmo, sem um pingo de invenção ou de explicitação de nossos desastres. Quando o executivo tiver uma causa a vida vai ficar mais leve

Dilma não é a regra

“Isso é a política: encontrar uma maneira de fazer o que não era esperado que fizéssemos, estar lá onde nós não deveríamos estar. Sem isso, não há política” Rancière
Se Dilma achar que é normal uma mulher com uma história na esquerda ser presidente, não haverá política.

1989 - Inventa Dilma!

Em 1989, quando Lula disputou sua primeira eleição, o PT elegeu menos de 7% dos deputados. Muito menos do que tem hoje.
Na época, votamos em Lula, mesmo sabendo das dificuldades que teria no congresso. Dilma hoje tem uma situação bem melhor que Lula teria tido em 89.
Se 89 fosse hoje, votaria novamente em Lula, mesmo sabendo que o congresso seria de oposição.
Já escolhemos viver situações mais difíceis que a atual. Inventa Dilma!

ciclovias SP

A questão das ciclovias de São Paulo não é nem apenas uma questão local, nem apenas um problema de planejamento urbano, mas das mais importantes tensões que podemos trazer ao capitalismo contemporâneo.
Quando os opositores reclamam de Haddad e das ciclovias, o que estão dizendo é que nada nem ninguém colocará um limite no estilo de vida que nos leva para o mesmo buraco.
O problema aqui não é o trânsito ou o planejamento, mas que mundo queremos.

março 15

Unir e abrir

Diversos vídeos impressionantes sobre as manifestações de Domingo tem circulado na internet. Muitos bastante jocosos, pelo menos é minha leitura, por me sentir extremamente distante dos manifestantes.
Mas meu ponto é outro. As recentes manifestações contra o governo Dilma tem nos levado a pensar importantes questões sobre a macropolítica. Sobre a possibilidade de uma guinada à esquerda, sobre a retórica da corrupção como estratégia para desestabilizar o governo, sobre as possibilidade de governar sem o PMDB, etc.
Entretanto, assistindo esses vídeos, se explicita uma luta que se fará a longo prazo, que não se resolverá com as saídas que este governo dará para a crise. Trata-se de uma luta micropolítica que passa por desejos, estilos de vida, formas de consumo e relação com o outro.
Ao ver esses vídeos tenho a impressão que estamos perdendo feio essa luta.
A aposta ética que um dia fez parte da esquerda não era simplesmente uma relação não corrupta com a política, mas uma outra ética, que passava pelo respeito à diferença, por padrões de consumo que, pelo menos, adiem um pouco o fim do mundo, por relações urbanas mais democráticas, pela representação política de quem não é o mais rico ou parte de alguma oligarquia.
Estamos perdendo a luta micropolítica porque esse princípios de igualdade e democracia estão fracassando. Nossas opções energéticas, nossa falta de indignação com uma educação excludente, nossas opções de consumo que destroe cidades.
É claro que é criminosa uma defesa de golpe e intervenção militar, mas o que dizer da menina de 17 anos na passeata que diz que é de direita, sem saber exatamente o que isso quer dizer? Podemos coloca-la no mesmo saco de todos os outros manifestantes, chama-la de burra e alienada ou, podemos imaginar que como sociedade temos alguma responsabilidade. Que ali há um problema comum à todos que estão na luta democrática. Podemos chamar de coxinha os que estavam na rua e reforçar a oposição política a eles, mas o que dizer de um certo desejo de mundo liberal, competitivo e excludente que está ali, em meio a pessoas muito jovens.
Nesse momento, quanto mais nos fecharmos “no meu grupo”, na “minha causa justa”, mais distantes estaremos do lugar onde o país está em jogo.
Tão urgente quanto uma pauta de esquerda é trazer aquela menina de 17 anos para uma outra possibilidade de mundo.

Inventa Dilma!

Há algo fantástico acontecendo.
O PMDB está rompido com o executivo.
Não é possível que essa crise não seja a possibilidade de uma invenção.
Talvez seja esperar demais do governo Dilma, mas que há algo extremamente interessante no ar, estou certo.
O desafio do executivo é dos mais sedutores. Criar nos próximos anos um governo com novos pactos, com a mobilização das ruas de 2013, com pautas que mobilizem forças progressistas. Mesmo que seja para sobreviver, essa é a alternativa.
Inventa ai.


17.3.15

Governismo

Que somos um país conservador, que as forças da direita sempre estiveram presentes com um ódio de classe contra Lula e PT, é certo.
Agora, que a esquerda governista tenha abandonado o pensamento, é desesperador.
A estratégia da desqualificação parece ser a única arma.
Ser de esquerda é antes saber que o outro existe, mesmo que esse outro seja tão distante de mim, mesmo que rejeitemos com todas as forças suas opções políticas.
O que fazemos então? Dizemos que todos que estão na rua são fascistas e que devem ser desqualificados. Isso é tão assustador quanto o golpismo das manifestações.
Desqualificar torna-se a única arma porque não há projeto político a ser confrontado. É preciso dar motivos de esquerda para todos irem para a rua, de outra forma, ficamos pautados pela mediocridade de todos os lados.


15.3.15

Nossa ressaca

Dos mais duros efeitos dos últimos 20 anos de governos eleitos no Brasil parece ser uma profunda descrença na possibilidade de o Estado ser realmente um operador de transformações democráticas na sociedade.
No início do século XX os anarquistas já sabiam muito bem disso, mas a lição demanda confiança demais na forças sociais não pautadas pelo capital. Mais fácil é encontrarmos líderes que assumam nossas demandas.
O problema é que uma liderança verdadeiramente democrática é aquela que permite o descontrole em relação aos seus projetos, é aquela que não produz centralidades de discursos ou de poderes. Uma liderança democrática está sempre de saída.
Infelizmente, no Brasil, caminhamos para algo bem distinto, com raras exceções, o Estado não para de fortalecer centralidades, a dos projetos políticos de certos grupos e a do capital, com representantes de peso que transitam entre bancos e governo e que garantem a permanência das mesmas elites na terra e nas boas escolas.
Não temos exclusividade, nos Estados Unidos a rede de vigilância e controle tornou o Estado americano um gigantesco violador das liberdades individuais. Na França, em nome dos valores ocidentais se proíbe o véu nas escolas e se radicaliza a diferença entre nós e eles. Tudo dominar e controlar, é a regra de quem está no poder.
Talvez tenhamos sido entusiasta demais das manifestações de 2013, mas não poderia ser de outra maneira. Só algo que resista a essa centralidade do Estado e do Capital pode ter efeitos efetivamente transformadores na sociedade. Essa força vem das ruas e redes. De outra maneira, ficaremos medindo a capacidade do partido x ou y fazer pequenos ajustes em nossos desastres urbanos, ecológicos e humanos. Ou podemos também ficar contando quantos políticos de cada partido participam de cada nova lista.


8.3.15

meio ambiente

Com o dólar alto viajaremos menos e queimaremos menos petróleo.
Com a crise energética e o preço da luz desligaremos o ar-condicionado e adiaremos novas usinas, alagamentos e deslocamento de populações.
Com a crise econômica menos caminhões terão que atravessar o país para comermos melão o ano todo.
Com a alta da inflação e o preço da gasolina deixaremos o carro em casa e queimaremos menos combustível.
Finalmente temos políticas para o meio ambiente!

O dissenso necessário


Um mesmo processo político-subjetivo parece atravessar questões no Brasil e na Europa. Esse processo é pautada pela impossibilidade do dissenso.
Na Inglaterra, muitos educadores e políticos dizem que a resposta possível ao caso das meninas que foram se juntar ao Estado Islâmico é dar uma maior ênfase nos Valores Britânicos. Essa solução parte do princípio que a sociedade está pronta, que os valores são imutáveis e que resta aos cidadãos se adequarem a estes valores.
Esquecemos que das mais importantes mudanças no século passado aconteceram por conta de “revoluções moleculares”, como diria Guattari. O direito das mulheres, negros e homossexuais aconteceram por conta de transformações nos valores, antes de serem leis. O que a imobilidade dos valores traz é uma enorme exclusão, uma ame-o ou deixe-o que não abre espaço para nenhum dissenso.
Em Londres, a escola das meninas não tinha nenhuma pista da radicalização de suas posições políticas, ao mesmo tempo, mais de dez dias depois de elas terem abandonado o país, o assunto não foi levantado nas escolas das redondezas, com muitos muçulmanos. Trazer a comunidade para a escola é perceber que uma comunidade se faz diferenciando-se de si mesma e não reproduzindo-se como igual.
Ainda nas palavras de Guattari: uma revolução molecular, uma transformação nos valores e práticas de uma comunidade, “é menos uma questão de criar consenso, ao contrário, quanto menos concordamos, mais criamos uma área, um campo de vitalidade em diferentes ramos dessa revolução molecular”. No caso inglês, os valores britânicos operam, antes, uma dicotomia entre o dentro e o fora, o aceito e o não aceito, o pensável e o não pensável. Sem trazer para a comunidade o dissenso, ele parece acabar explodindo em violências, com a do britânico que matou o jornalista inglês no Oriente Médio, ou radicalizações dicotômicas, como a das meninas.
No Brasil nossos problemas são outros, mas o adensamento da dicotomia política tem impossibilitado a criação e o pensamento. A dicotomia é a negação da transversalidade, ou seja, quando tudo se organiza em dois lados, não é possível relações e conexões parciais, construções momentâneas e intensificações circunstanciais. Se não trouxermos o dissenso para aquilo que constitui o nosso mundo, a nossa comunidade, operamos isolando, julgando e excluindo. Cada vez mais milimétrico, o julgamento do outro impossibilita que esse dissenso produtivo, de que fala Guattari, se estabeleça.
Não são poucos hoje os exemplos em que as dicotomias são reforçadas: PT e PSDB, evangélicos e os outros, homens e mulheres, intelectuais e pessoas da prática, etc, etc. A consequência é o empobrecimento geral da comunidade, a moralização das práticas, o isolamento e a radicalização de posições que tendem a se tornar violentas. Sem a dissenso nega-se o outro, uma negação que pode ser sempre milimetricamente intensificada.


1.3.15

HSBC e educação

Na última semana três adolescentes deixaram Londres para se juntarem ao Estado Islâmico, na Síria.
Os educadores ingleses rapidamente perguntam: qual a responsabilidade da escola na radicalização dos engajamentos das meninas?
Até agora não perguntaram qual o papel da escola e da universidade nos bem formados diretores do HSBC.

28.02.15

Destruindo a política

PT e PSDB parecem ter encontrado uma zona de conforto.
Transformaram a política em uma briga entre dois grupos com o PMDB ganhando sempre.
Podem estar no poder ou não, o que importa é que atuam como inimigos, justificando seus atos sempre em comparação com o outro.
A tristeza dessa dicotomia pode ser ótima para as eleições. O eleitorado não precisa pensar em nenhuma questão efetiva, apenas dizer para quem torce, com a garantia de que um dos dois leva.
A estratégia desses grupos é matar a política e esvaziar o debate. O espaço público é transformado em disputa partidária, como se uma coisa se confundisse com a outra.
A parte mais patética aparece quando também os militantes, fora de períodos eleitorais, continuam pensando o que faz Dilma, Alckmin ou Aécio na mesma lógica que proíbe o pensamento e a reflexão.
Ao que parece, cada gesto ou comentário que estimula a dicotomia dá força para o “inimigo”. Qualquer defesa cega de Dilma é ótima para o PSDB e vice-versa.


27.02.15

Grécia - futuro privatizado

A atual situação da Grécia é parte de um aprofundamento radical da privatização generalizada que destrói as bases da democracia na Europa.
Desde os anos 80, cada vez mais aspectos básicos da vida passam para o interesse privado.
Transporte, comunicação, água, educação, espaços públicos, etc.
O privado aqui não é um sujeito ou outro tocando seu negócio, mas grandes corporações que dominam ruas inteiras, bairros e serviços básicos.
Com a força do sistema financeiro mundial, que age endividando cidadãos e países, a privatização ganha novos contornos.
Na Inglaterra, um universitário termina sua seus estudos devendo 27 mil libras. Ele deve conseguir pagar, mas com austeridade e comprometendo suas escolhas profissionais. É difícil pensar em liberdade profissional com esse peso.
Na Grécia, o mesmo sistema de endividamento avisa que as eleições no país e o novo governo não tem autonomia nenhuma e que eles devem fazer o que o partido que perdeu as eleições estava fazendo.
A cartada final da privatização e das grandes corporações está dada.
O futuro foi privatizado, seja você um estudante de 18 anos ou um país.
As mais importantes disputas hoje na Europa passam pelo movimento dos estudantes contra o endividamento para pagar os estudos e pelo futuro da Grécia.
Mais que casos isolados, trata-se da possibilidade do futuro ser pensável e sonhável.


15.02.15

Iracema -

Rever "Iracema, uma transa amazônica" quase 40 anos depois de sua realização é impressionante.
Não só há uma atualidade no tema e nas tensões entre progresso e destruição, entre tradição e expansionismo, como há uma atualidade cinematográfica.
Quem hoje filma o inimigo como o Bodanzky e Orlando Senna filmaram?
Em Iracema há um posicionamento forte dos cineastas sem que esse posicionamento se confunda com palavras de ordem.
Sem abandonar os modos de vida e os micropoderes, o filme nos coloca no centro das violências da época.
Belo Monte, a falta de limite para o agronegócio, a gentrificação das cidades; atualidades que estão desenhando o país e que aguardam o cinema com invenção e engajamento

Aeroportos e viglância

Os aeroportos internacionais se tornaram o paroxismo do capitalismo.
Primeiramente se produz uma barreira. Nessa barreira com policiais, câmeras, sistemas de raio-x e vigilância eletrônica as pessoas são colocadas em estado de tensão em angústia.
- Se estou sendo vigiado e esquadrinhado a tal nível, alguma culpa devo ter.
Somos então revistados e parte de nossas roupas é retirada.
Depois desse sistema de humilhação, recolocamos as botas e cintos e chegamos no shopping center com luzes, marcas e vitrines feitas por artistas que acabamos de ver nas galerias.
Basta um passo depois da barreira policial e chegamos ao consumo que pode resolver nossas angústias.
Se em todo o mundo a violência e a humilhação do estado é parte do capital, em nenhum outro lugar as duas coisas estão tão próximas.
Depois da humilhação a recompensa não é o portão de embarque, mas o paraíso dos free-shops. Esse mercados que levam esse fantástico nome: free.
Uma liberdade que tem o preço da humilhação e da subserviência.
A globalização free-shop encontra o sujeito revistado, apalpado, cheirado, esquadrinhado, marcado.
Hora de comprar um perfume e um whisky pra relaxar.

Snowden

Mais duas ou três palavras sobre o livro do Glenn Greenwald sobre o caso Snowden.
O jornalista tem uma tese defendida com bastante consistência: o terrorismo é um retórica dos Estados Unidos e aliados para manter o controle sobre a população.
A relação de causa e efeito entre os atentados do Charlie Hebdo e a demanda por mais vigilância explicitam essa tese.
Os governos não tem interesse nenhum no debate sobre privacidade ou sobre eficácia do método em uso: recolher todas as informações sobre todos em todos os meios.
Diante dos assassinatos, o remédio é simples: mais vigilância, mais verbas para controlar a todos.
A tese do Greenwlad é que isso tem gerado pessoas cada vez mais conformadas com o status quo. Não há mudança sem rebeldia contra o estado.
Note, não se trata aqui de governo x ou y, de partido a ou b, mas contra o estado e o controle generalizado. Infelizmente as críticas ao estado, no Brasil em especial, parecem sempre associadas aos neoliberais, nunca aos anarquistas. Estes, como sabemos, se tornaram os “nossos terroristas” e sobre eles o mesmo remédio: mais vigilância.
Tão importante quanto a NSA e Snowden é a ótima discussão sobre o jornalismo, americano sobretudo, e a adesão ao governo. Bem, no nosso caso a independência jornalística virou coisa rara.
Depois de 10 dias com Snowden em Hong Kong, Greenwald se diz exausto física e psicologicamente. Hora de “voltar para o Brasil”, completa. O cara é divertido.


11.2.15

Ousadia

Em um mesmo dia o jornal The Guardian, da Inglaterra, traz duas notícias sobre bancos europeus.
Na primeira, as agências de risco apostam fundo na saída da Grécia da zona do Euro e, para isso, baixam as notas de cinco bancos gregos.
O novo governo grego não pode dar certo para os operadores centrais das finanças do mundo. As agências de risco são importantes para antecipar o futuro desejado desses operadores. Se acertarem, ótimo, é parte do plano, se errarem, fizeram seu papel e continuarão a ser pagos por empresas e governos.
Na segundo, descobrimos que o HSBC, segundo maior banco do mundo, atuou aconselhando seus clientes a burlar impostos e lavar dinheiro; permitindo e incentivando a corrupção e a circulação de dinheiro sujo em muitos países do mundo. Atuar no crime era parte do marketing do HSBC entre os ricos.
O ex-presidente do banco na época, Stephen Green, deixou o HSBC e se tonou ministro de estado do governo de Cameron. Uma prática que conhecemos.
Alguns terão prejuízos políticos e econômicos com essa história, mas sem nenhuma ameaça ao sistema. Já a Grécia, que absurdo, está querendo sentar à mesa com Merkel e Hollande. Como ousa?


10.02.15

7 de fev. de 2015

Vigilância e Direitos Humanos



Na última sexta-feira, o Investigatory Powers Tribunal, um órgão do poder jurídico inglês, pela primeira vez julgou que a agência de vigilância desse país (GCHQ) atuou contra os direitos humanos ao interceptar, junto com a agência americana (NSA), a comunicação de milhões de pessoas.
O processo aberto por ONGs de direitos humanos contra a agência foi possível depois que Snowden vazou os arquivos da NSA publicados por Greenwald no Guardian.
A decisão é no entanto bastante dura para os direitos humanos e para a defesa de uma internet livre.
Por que?
Durante anos a GCHQ e a NSA recolheram dados de milhões de pessoas, como ainda fazem. Até a comprovação desses documentos virem a público com Snowden, tudo isso era feito por baixo dos panos, em acordos entre os governos e as grandes empresas de comunicação – a Apple, onde escrevo essas linhas, o Facebook, onde as publico e a Google, onde tenho meu blog, entre outras. Com os documentos vazados por Snowden, a violação dos direitos humanos pelas agências e por essas empresas ficou claro. Foi isso que foi julgado pelo tribunal inglês.
Entretanto, ao mesmo tempo em que o tribunal condenava a falta de transparência, ou seja, empresas e estados não podiam coletar dados sobre nós sem que saibamos, o tribunal não considerou que a coleta em si dos dados é um crime.
Para o tribunal inglês, agora que sabemos, agora que há transparência na violação de todas as nossas mensagens e comunicações, as agências não estão fazendo nada de errado.
As mesmas ONGs continuam os processos em tribunais europeus de defesa dos direitos humanos.

A Grécia e o Brasil



    As enormes dificuldades econômicas da Grécia se transformaram em uma abertura para que certos paradigmas da Europa sejam questionados.
    A Grécia questiona a hegemonia dos bancos Frances e Alemães, explicitando como a Europa, distanciando-se de um projeto democrático, se tornou um projeto financeiro organizado por poucos. A recente matéria de capa do The Economist dava o tom de ameaça à Grécia; “ou vocês respeitam as regras ou acabamos de quebrar vocês”. Essa é a tradução do papel que a hegemonia financeira tenta fazer no momento. Nos padrões dessa hegemonia, matar o paciente é a melhor solução para os problemas.
    Essa situação me faz pensar na chance que o novo Governo Dilma está jogando fora.
    Diante de uma crise política, econômica e ambiental, o que faz o governo? Aumenta a dosagem do mesmo remédio.
    Mais poder para os desmatamentos, mais poder para os mesmo princípios financeiros e nenhum enfrentamento político verdadeiro.
    Diante da crise, esse governo tinha a obrigação de ter um pouco de ousadia. Olhar para as cidades e perceber que o modelo de crescimento nos últimos anos foi desastroso. Se muitos puderam comprar seus primeiros carros, hoje estão todos no mesmo engarrafamento sem um banho garantido quando chegar em casa.
    Diante da crise política, com novos escândalos de financiamento de campanha, o governo tem a faca e queijo na mão para um choque político que esvazie a necessidade de milhões de reais a cada quatro anos. O cinismo de PT e PSDB fazendo acusações mútuas sobre como desviam dinheiro de empresas para financiar campanhas, não deveria ser alvo apenas de partidos como o PSOL, mas deles mesmo. É difícil acreditar que haja conforto em todos desses partidos com a necessária corrupção para se manterem no poder. Com a crise política Dilma deveria colocar seu peso na imediata reforma política, de outra maneira há a simples opção pelo imobilismo que os escândalos causam no cotidiano do país, enquanto a elite política e financeira pensa em como conseguir a verba para a próxima campanha.
    O exemplo da Grécia é fundamental. Diante da radical crise é preciso olhar para as coisas e se abrir para mundos possíveis. Talvez seja essa possibilidade que esse início de governo esteja jogando fora.

Grécia e a violência da mídia

Grécia,
O The Economist é das mais influentes revistas do mundo.
Seus princípios liberais são conhecidos de todos, mas o texto dessa semana, sobre a Grécia, dá a dimensão do medo que esses poderes tem de que o basta que esse país quer dar para austeridade imposta pela Europa se espalhe por Espanha, Itália, Portugal e mesmo França.
O artigo é uma sequencia de ameaças, exemplo: “eles não tem escolha”, se Tsipras for provocativo demais o Banco da Grécia quebra” “se Tsipras mandar os sinais errados” sofrerá retaliações, “eles não tem experiência” para a tarefa que estão se propondo, “Tsipras está jogando com a sorte” etc, tudo isso com a constante ameaça de expulsão da Europa.
O recado para o sistema financeiro é claro. É preciso fazer a esquerda grega fracassar, de outra maneira teremos que renegociar nossos ganhos com todos os outros países. De outra forma a esquerda de muitos outros países pode se fortalecer.
A resposta do Grega tem sido: nosso problema não é um problema local, mas de todos os trabalhadores da Europa. O empobrecimento da Grécia é o mesmo que tem fomentado a xenofobia em muitos países.
O que o novo governo grego coloca para a Europa é a necessidade de recolocar em questão do porque haver uma “união”, seus princípios e prioridades.
Nas prioridades de Merkel e do The Economist não há lugar para esse debate. Diferentemente do que gostaria o jornalismo violento da revista e as ameaças da Alemanha, o que está em jogo é muito mais que economia, mas opções de mundo.

Charlie Hebdo

As questões trazidas pelo assassinato do pessoal do Charlie Hebdo são das mais importantes. Claro, todos condenaram os assassinatos, mas não foram raros os casos em que uma certa responsabilidade foi colocada nos cartunistas. “Eles estavam brincando com fogo, assim não dá.”
Poucos dias depois, no afã de uma resposta à sociedade – ou de simplesmente fazer valer seu poder – o governo francês prendeu o comediante Dieudonné, detestado por muitos por conta de suas piadas anti-semintas. A prisão de Dieudonné, entretanto, foi feita sob acusação de defesa do terrorismo depois de ele ter publicado em seu Facebook, "Je suis Charlie Coulibaly" em referência ao homem morto pela polícia após matar quatro pessoas em um supermercado.
Aqui, novamente, não há mas. Assim como as charges não podem justificar o que foi feito aos jornalistas do Charlie, essa frase não pode justificar a prisão do comediante. Qualquer defesa de terroristas é crime na França, qualquer fala que incite o ódio. Se está certo ou não, é outro problema, mas prender o comediante por essa frase só é possível por conta do seu histórico antissemita, Mas, a frase, em si, de forma alguma justificaria a prisão agora. Prende-lo por essa frase é perder a dimensão paradoxal e ficcional de frase. Se no campo da ficção há esse limite imposto pelo estado, seu autoritarismo se torna ainda mais grave. Metade dos diretores e produtores de filmes de ação americanos teriam que estar na prisão.
A ação do governo francês é mais uma forma de expor um poder desprovido de qualquer legitimidade, tipicamente imperialista.
Mas, o mais inquietante me parece ainda a forma com nesses momentos entregamos para o estado a autoridade sobre o que é correto e o que não é. A cada vez que dizemos que algo não deve ser publicado estamos dizendo que o estado deve ter poderes para punir quem expressa opiniões fora do quadro esperado. No meu caso, preferiria confiar nos leitores do que entregar para algum juiz o direito de dizer o que deve ou não ser publicado. Levar esse argumento ao limite requer uma sociedade bastante madura, exatamente aquilo que não interessa aos poderes que tem interesse em guardar o monopólio sobre o que deve ou não ser dito e escrito. O estado diz, não podemos deixar alguém defender o terrorismo, isso traria uma péssima influência para a sociedade. Com esse argumento, as universidade inglesas são “aconselhadas” a não receber oradores radicais, os governos investigam jornalistas, como expostos no Guardian de hoje, o monitoramento da correção se torna uma moeda de troca, os que refletem sobre blackblocks são monitorados, etc. Na Europa, o terrorismo tem sido enfrentado com mais e mais polícia, a mesma que proíbe rezas muçulmanas em público na França, torres de mesquitas na Suiça e constrangedores nacionalismo em tantos lugares. Minha pergunta, nesses casos, é: Chamar o juiz e a polícia é o melhor a se fazer quando o que o preconceituoso, o blasfemo ou negacionista escreve? É uma dúvida.

A escola e os "valores da república"



Para o governo francês, a solução para o radicalismo religioso de alguns franceses está na escola.
Para isso, a escola irá comemorar o dia da laicidade, professores serão formados para ensinar moral e cívica e educar sobre mídia e informação. “É preciso ensinar os estudantes a diferenciar o que é e o que não é informação”, explicou Hollande. Cada escola será obrigada a ter um meio de comunicação – blog, jornal, rádio. Mas, para tudo isso, é preciso reforçar a posição e a autoridade dos professores, consolidar a disciplina e não deixar nenhum incidente em que os valores da república sejam questionados, sem punição, dizem os gestores escolares. Os pais terão que assinar um documento em que se colocam de acordo sobre a necessidade dos alunos não questionarem os valores da república. Em caso de punição, no lugar de castigos em que o estudante fica retido na escola, ele terá que prestar serviços à comunidade.
Na reação dos poderes públicos aos ataques terroristas, vemos novamente a escola colocada como instrumento para desfazer essa fratura nos princípios da república, uma vez que, não somente os assassinos cresceram no ensino francês, como, depois da morte dos jornalistas, o repúdio dos estudantes franceses não foi uma unanimidade.
Enquanto descobríamos as medidas dos franceses, uma blitz na Avenida Brasil fazia a triagem entre os jovens que poderiam chegar na praia em um domingo de sol, e os que teriam que ficar pelo asfalto. Os arrastões vinham assustando os banhistas na Zona Sul. Quando chegar na segunda-feira, esses mesmos jovens que foram revistados no domingo, porque eram negros e pobres, estarão da escola, encontrarão seus professores, entregarão ou não seus deveres de casa e provavelmente ficarão um dia mais próximos do fracasso escolar, longe das melhores universidades. O caso francês é muito diferente, é verdade. Mas não custa lembrar que na França, a esmagadora maioria dos alunos que estudam medicina, por exemplo, passaram por instituições privadas de ensino.
Aqui como lá, “os valores da república”, não estão separados de certas ordens da cidade, organizações do capital e do apartheid escolar. Para alguns, os valores da república mantém uma ordem de privilégios, para outros, as punições e as blitzs.