2 de jun. de 2011

Imagens alheias

Toda imagem que se preze é alheia a quem a produz.
Ela é encontro entre meu olho e eu mesmo, entre as vozes que me atravessam e meu olho, entre o filmado e a tecnologia, etc. 
Toda imagem é sempre a alheia a quem a vê, é sempre a imagem de um outro. Mas, ver uma imagem é toma-la para si, fazer dessa imagem a minha imagem.
Mas, o que podem as imagens?
Duas coisas. Elas podem ganhar pertencimento fixos – autores, informações, provas. Ou seja, podem encontrar uma finalidade.
Ou, melhor seria, elas podem continuar seus caminhos em que o pertencimento é inseparável do não-pertencimento.
Papel do espectador: fazer suas as imagens que lhe permanecem alheias.

Palocci e Ana de Hollanda, crises de naturezas distintas.

Depois da crise no Minc, o governo e a grande mídia parecem ocupados agora com a crise na Casa Civil, com Antonio Palocci. A princípio pode parecer apenas uma substituição de preocupações ou de pauta, entretanto, trata-se de dois tipos de crise, duas naturezas de crise.

A crise Palocci é a crise de sempre. No centro da máquina estatal uma peça fundamental é acusada de utilizar a máquina em seu favor. Trata-se de uma  crise grave, mas com a qual o estado está acostumado a lidar. Ela parte de denúncias de opositores políticos que a mídia, com razão, noticia e, a partir daí, uma série de opositores é mobilizada. Nessa crise há uma triangulação clara e contínua que envolve disputas palacianas, grande mídia e público passivo e indignado.

Independente da gravidade dessa crise específica, ela é parte do que há para ser administrado politicamente por qualquer governo, ela é da lógica do poder contemporâneo. Não há novidade para o poder, não há novidade para mídia e nem para o público. Os operadores do ataque e da defesa são conhecidos, bem como suas estratégias. No limite há apenas tristes trocas de nomes.  Quando a crise Palocci acabar, outra virá, com os mesmos termos: denúncias de corrupção, de uso dá máquina, de tráfico de influencia, etc.

A crise do Minc é de outra ordem e é isso que a política da Presidenta Dilma parece não entender. Depois de criticada, Ana de Hollanda não somente se absteve de abrir um diálogo com os críticos, como radicalizou o discurso. Em todas as suas falas ela fez questão de menosprezar os críticos além de reforçar constantemente uma visão privatista e espetacular da cultura.

Ana de Hollanda na abertura de simpósio sobre a Reforma dos Direitos Autorias (31.05.2011)
“Sim: é na lógica do mercado, na lei da oferta e da procura, no mundo mais difícil do jogo econômico, da remuneração da força de trabalho, que o criador conquista a sua independência, demarca o seu território específico, conquista a sua autonomia”

Bem, associar mercado e independência artística dessa maneira é de uma sinceridade liberal como raramente temos visto. Ana de Hollanda não tem nada para esconder, sua transparência é perturbadora. Uma transparência que é a própria morte da política, como diria o Bruno Latour.

Mas, voltemos à crise. Porque ela é de outra natureza?

Passados quatro meses de críticas intensas e que começaram no dia seguinte à posse da Ministra, Ana de Hollanda não abriu diálogo com os críticos, não matizou em nada os gestos e discursos, como o que transcrevi acima. Para o atual ministério, os entusiásticos apoiadores da eleição de Dilma se tornaram inimigos. A cultura que fora decisiva para que muitos apoiassem Dilma se tornara um estorvo para o atual MinC.

Como a crítica foi desconsiderada e o diálogo não se estabeleceu, ela acabou ganhando outros rumos, outras formas e focos. O governo adoraria dizer que uma vez que a ministra não caiu e que as críticas diretas diminuíram é sinal de que a crise acabou. Na minha opinião o melhor para o governo seria manter a crise no MinC. Contudo, não é isso que temos visto.

O que parece absolutamente singular nessa crise do MinC é que, à diferença das crises de estado, como a do Palocci, esta não se resolve com uma troca de nomes, ela não depende da grande mídia e nem é parte de uma triangulação entre articulações palacianas e mídia em que a população é espectadora. Trata-se de uma crise com outra lógica. Ela se espalha capilarmente minando o governo Dilma na base, afetando uma rede de apoiadores que articulam outras redes muito amplas de comunicação. As redes que apoiam Dilma sabem da importância transversal e democratizante da cultura no mundo contemporâneo e se não é com o apoio do MinC que essa cultura se potencializará, isso se torna secundário. Sem críticas diretas ao Governo, os desdobramentos da crise do MinC ganham proporções que começam a se tornar irreversíveis. É uma crise viral, absolutamente horizontal. No momento que ela parece menor ela se torna incontrolável.

Muito mais do que uma crise de nomes, trata-se de uma abalo na confiança de uma multidão que, longe da grande mídia, ocupa as redes virtuais e as ruas.


30 de mai. de 2011

Montagem 3 e 4

Montar o tempo é fazer alguns instantes estarem mais próximos do que a inércia da cronologia nos faz sentir ou mais distantes do que a linha reta nos faz viver.

Montar é estender “uma linha sobre o caos” (Deleuze, Guattari) 

Montagem 1 –


fazer da informação uma força entre outras. Fazer da floresta um verdejar, um alongar em madeiras e um farfalhar sonoro.

A principal função da montagem é impossibilitar o isolamento.
Uma imagem se liga a outra, certo. Assim um tempo único atravessa duas ou mil imagens – planos em linha reta.
Mas, como já sabemos, o cinema é torto. A montagem não é construção da linha reta ou da base que permite a estrutura crescer.
Todo plano tende à informação, ou seja, tende a eliminar tudo que o compõe, limitando-se a apagar de si a multiplicidade, o resto, as sobras, os vazios e excessos. Diante da complexidade da floresta, vemos uma floresta. Diante de uma igreja gótica vemos uma igreja. Nada mais triste.

Montar, no interior do plano para que o plano resgate o que está li submerso, submetido a forças excessivamente presentes. Autoritarismo da percepção.

Juntar imagens para garantir que novas linhas não cessem de inventar relações.
 

Montagem 2 -

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Garantir a heterogeneidade das relações. Sair de casa e pisar no asfalto feito de petróleo. Atravessar a rua e ouvir um vendedor com sotaque coreano. 300 mil coreanos no Brasil. Carros coreanos atravessam as ruas. Navios atravessam o mar com carros coreanos e são vendidos em concessionárias espalhadas pelas novas avenidas da Barra da Tijuca, construídas sobre favelas  para que carros coreanos e brasileiros possam circular durante as Olimpíadas em que vários países orientais estarão representados.

A montagem pode ser esquizofrênica e nos impossibilitar de por o pé no asfalto. Mas que carros coreanos atravessam o oceano gastando petróleo no motor dos navios, é fato.

24 de mai. de 2011

Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu e UFF


Inauguramos ontem o Laboratório Kumã, na UFF. Associação entre o departamento de Cinema e Vídeo e a Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu: http://escolalivredecinema.blogspot.com/2011/05/kuma-um-espaco-de-experimentacoes.html
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Viveiros de Castro sobre o pensamento yawalapíti: “Quando eu perguntava simplesmente a alguém o que significava o termo “(nome do animal)- kumã”, a resposta mais comum era: “bicho bravo, valente, grande, que ninguém vê”. Esse modificador (kumã) articula, assim, vários atributos: ferocidade, tamanho, invisibilidade... A sufixação kumã a um conceito – tipo marca uma alteridade. Essa alteridade é exterioridade, mas também excesso.

22 de mai. de 2011

2011, a praça é a praça.


                                No mundo árabe e agora na Espanha esse movimento acentrado, multidões nas ruas, poderes sem resposta possível ou reação.
E nós nos perguntando, sem esconder um certo entusiasmo, que mundo é esse?
Que política é essa?
Veja, não quero me perguntar no que isso vai dar.
Se há algo muito forte nesses movimentos é justamente a impossibilidade de ele ser atendido com algum gesto de algum poder que se flexibilize.
Não há respostas prontas, não se trata da busca de um consenso qualquer, como normalmente entendemos a política.
O que há de perturbador nessa semana na Espanha é justamente a abrangência da demanda. Queremos democracia, nos dizem os milhares de manifestantes.
Mas, dizem os poderes, já há democracia. Todos votam, há liberdade de imprensa.
Mas democracia é muito mais.
Ai aparece o curto circuito entre a multidão de manifestantes e os múltiplos poderes que tentam por todo lado transformar o desejo de democracia em demandas objetivas.
A falta de emprego, a crise, a ausência de perspectivas de futuro, etc.
Ou seja, tenta-se organizar respostas possíveis dentro de uma mesma lógica, sem perceber que o que se passa traz um problema para a lógica de onde saem essas perguntas. Assim, não devemos perguntar o que querem os manifestantes, mas apenas perceber a evidência do desejo e o que eles estão efetivamente fazendo.

As praças ocupadas talvez precisem ser vistas como o fim e não como o meio para outra coisa. Se assim entendermos, talvez possamos arriscar algumas leituras.
Primeiramente, trata-se de fazer do espaço público um espaço comum. Isso me parece uma das coisas mais flagrantes. A Espanha talvez seja o lugar onde a mercantilização do espaço público tenha chegado aos maiores níveis.
Barcelona é uma cidade inacessível. Tudo parece organizado para turistas e compradores – ou seja, consumidores.
A praça ocupada faz do espaço público um lugar em que a cidade se inventa, se disputa.
Assim, não se ocupa as praças para se chegar a algum lugar, se ocupa para se retomar o que foi expropriado.
Trata-se de investir o espaço público de uma outra movimentação e de uma outra estética. Dominada pelos grandes outdoors, pelas pessoas com sacolas e por vitrines que inventam modos de vida; dormir na praça é fazer dela um lugar em que os amores, as festas e a luta se encontram; um  gesto essencialmente político. É para essa evidência que os poderes do estado, da grande mídia e do mercado parecem cegos.
Mas seria ingênuo dizer, trata-se da multidão contra o capitalismo, isso está na praça, mas, antes disso, há o desejo de inventar outra forma de estar junto. Pouca coisa?
Para entender o que se passa, não é preciso sair da praça.

Como diria o Rancière, a democracia é um escândalo. Ela não designa uma forma de governo, mas a possibilidade de um qualquer, vindo de qualquer lugar fazer diferença na cidade.
O que a praça faz hoje parece ser essa diferença. Uma diferença que escandaliza porque não há lideres com quem negociar, não há estado a combater, apenas a multidão fazendo da vida pública o seu gesto mais político; essencialmente nômade. A revolta vai se desfazer em algum momento e os poderes estabelecidos dirão: viram, não deu em nada! Claro, eles só sabem pensar na lógica do estado, na tomado ou não do poder. O que se passa na praça é irredutível  a essa lógica, o inimigo não será apontado como se houvesse uma solução do outro lado.
A democracia na praça é uma prática escandalosa e utópica ligada às relações e não à lógica do estado. O estado não acabará, mas é com o nomadismo da multidão que ele será tensionado. Isso não é pouca coisa. Essa política não é uma forma, não se estabelece nessa ou naquela medida, nesse ou naquele governo, mas estabelece para a cidade uma potência de variação contínua. Assim é a praça; um corte no espaço e no tempo da cidade que tudo perturba.
Na véspera das eleições, a Justiça Eleitoral espanhola proibiu as manifestações. O que aconteceu? Nada, na verdade, mais pessoas foram para as ruas. E o que a polícia pôde fazer diante disso? Nada. Claro, a multidão na praça não é um poder instituído que possa ser confrontado, mas um poder da   com limites invisíveis, reações descontroladas, sem medida possível, sem hierarquia e acentrado. De uma postagem em uma rede social qualquer às milhões de pessoas em milhares de praças no mundo há um corpo que se constitui, que não busca representação mas que é em si a política que atravessa os modos de vida e de fazer política.
Uma praça, a alegria e o trabalho de inventar o mundo.
buena suerte



15 de mai. de 2011

Reforma Política - Paulo Teixeira

Bom texto do Paulo Teixeira sobre a reforma política. Entretanto há um ponto do qual discordo, referente ao voto em lista. Para o deputado isso diminuiria o personalismo das eleições. Essa é uma preocupação pertinente, mas será que a única forma é reforçando os partidos como eles existem hoje? Teixeira diz que essa proposta teria que ser acompanhada de uma reforma: "será necessário também discutir a legislação partidária". Sim, mas a proposta do voto em lista não pode ser antecipada a isso.
Da forma como a burocracia partidária funciona hoje prefiro o personalismo e as associações de momento e não programáticas.
Há ainda uma transformação das formas de representação que passa pela própria forma de o trabalho se articular. Como pensar o que é o trabalhador contemporâneo hoje, se quisermos pensar um partido dos trabalhadores? Tudo indica que o centralismo e a hierarquização que hoje organizam os partidos é uma forma de excluir do debate aqueles interessados em política. Ou seja, antes do voto em lista é preciso pensar esses partidos. Me parece que a militância hoje se organiza e se faz de maneira muito mais acentrada e por multiplicidade de interesses, menos classista, é isso que deve ser incorporado ao congresso.

14 de mai. de 2011

O STF e o cinema


Nada entendo de direito e confesso nunca ter lido a constituição, entretanto, semana passada, quando da votação no Supremo Tribunal Federal sobre a união estável homossexual, um fato me chamou especial atenção.
Ricardo Lewandowski, juiz do Supremo, ao ler o seu voto fez menção aos debates que ocorreram durante a Assembleia Constituinte, em 88.

Transcrevo:
“Verifico, ademais, que, nas discussões travadas na Assembléia Constituinte a questão do gênero na união estável foi amplamente debatida, quando se votou o dispositivo em tela, concluindo-se, de modo insofismável, que a união estável abrange, única e exclusivamente, pessoas de sexo distinto. Confira-se abaixo:

O SR. CONSTITUINTE GASTONE RIGHI: - Finalmente a emenda do constituinte Roberto Augusto. É o art. 225 (sic), § 3o. Este parágrafo prevê:
‘Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre homem e mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento’ Tem-se prestado a amplos comentários jocosos,
seja pela imprensa, seja pela televisão, com manifestação inclusive de grupos gays através do País, porque com a ausência do artigo poder-se-ia estar entendendo que a união poderia ser feita, inclusive, entre pessoas do mesmo sexo. Isto foi divulgado, por noticiário de televisão, no show do Fantástico, nas revistas e jornais. O bispo Roberto Augusto, autor deste parágrafo, teve a preocupação de deixar bem definido, e pede que se coloque no § 3o dois artigos: ‘Para efeito de proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento’. Claro que nunca foi outro o desiderato desta Assembléia, mas, para se evitar toda e qualquer malévola interpretação deste austero texto constitucional, recomendo a V. Exa. que me permitam aprovar pelo menos uma emenda.
O SR. CONSTITUINTE ROBERTO FREIRE: - Isso é coação moral irresistível.
O SR. PRESIDENTE (ULYSSES GUIMARÃES): - Concedo a palavra ao relator.
O SR. CONSTITUINTE GERSON PERES: - A Inglaterra já casa homem com homem há muito tempo.
O SR. RELATOR (BERNARDO CABRAL): - Sr. Presidente, estou de acordo.
O SR. PRESIDENTE (ULYSSES GUIMARÃES): - Todos os que estiverem de acordo permaneçam como estão. (Pausa). Aprovada (Palmas). 1

Os constituintes, como se vê, depois de debaterem o assunto, optaram, inequivocamente, pela impossibilidade de se abrigar a relação entre pessoas do mesmo sexo no conceito jurídico de união estável."

Não deixa de ser interessante retomar esse momento histórico.
Entretanto, me causou estranhamento que o debate das intenções dos legisladores valesse para balizar uma interpretação da lei.
Certo, trata-se de um problema hermenêutico. É preciso interpretar a constituição para sabermos se esse tipo de família composta por membros do mesmo sexo não a fere. Entretanto, a partir do momento que as intenções dos legisladores passam a fazer parte do argumento, a impressão que tenho é que se perde o próprio texto.
Explico: A constituição existe e a interpretação será de um texto, de uma materialidade, com todos os desvios que possam acontecer nessa interpretação, entretanto não é qualquer coisa. Há um limite para a interpretação.
Minha impressão foi que com esse gesto argumentativo o juiz dava margem a uma interpretação que perdia qualquer referencial, ou seja, a própria constituição.
Como os deputados são representantes – e humanos - , eles estão repercutindo outras intenções e os debates sociais que os influenciaram, também.  Ou seja, entraríamos em uma universo sem nenhuma delimitação. No lugar de nos determos no presente do texto, faríamos um retorno aos infinitos debates, da câmara e fora dela. Perderíamos o real da constituição para entrar em um relativismo que tornaria toda interpretação válida.
Ler o real sem perdê-lo de vista, eis toda dificuldade da lei, da imagem e do cinema.


8 de mai. de 2011

Moradia, remoção e olimpíadas


Sequência de fotos feitas na antiga Favela do Recreio, na Avenida das Américas, (06.05.2011)
Casa do Seu Carlos.
A prefeitura ofereceu 8 mil reais pelo seu quarto e sala e ele não aceitou.
Hoje sua casa está inviabilizada pelas obras do entorno; as paredes racharam, a luz foi cortada, os mosquitos estão em todos os cantos e a água das obras da prefeitura invadiu a sala. Ele teve que sair de lá e luta na justiça.
Seus vizinhos foram transferidos para 30 km dali, para a Estrada dos Caboclos.
(clique na foto para aumentar)






24 de abr. de 2011

Cidade-produto





Postei esse vídeo há alguns dias no Facebook e desde então não o tiro da cabeça.
            No meio desse mar de clichês, uma ideia central: a cidade é um produto. Certo, quando precisamos vender o Rio para o turistas, para os consumidores de Copa do Mundo e Olimpíadas, vendemos a produto Rio de Janeiro. Mas, essa dimensão produto não para por ai. Se a cidade é pensada como produto, o que acontece com os investimentos públicos, o que acontece com os moradores, será que o melhor produto é também a melhor cidade para os moradores, sobretudo os pobres?            
            Se esse vídeo é perturbador é porque ele aponta para o futuro do Rio de janeiro, esse laboratório do capitalismo cognitivo em que o desafio é transformar modos de vida em produtos vendáveis, em informação. 
Turismo e democracia
            Para isso esse deslocamento, das vidas ao produto, o turismo é decisivo. O turismo talvez seja hoje o elo que transforma todos os espaços em matéria maleável e desubjetivada. O turismo é o choque de ordem que funcionaliza a desordem. De Paris à Rocinha, a presença humana local precisa ter a medida correta das demandas do comprador: Favela chique em Paris, café expresso na Rocinha. O turismo torna os espaços uma abstração, regula as experiências e objetiva os moradores, todos eles prontos para se tornarem parte de um cenário gentil em que até o mau humor pode ser capitalizado.
            O risco do turismo é ser apenas o choque de ordem que estanca a criação e interrompe a invenção para capitalizar, para transformar vida em produto. Na linha de Henri Lefevre, quando ainda nos anos 70 falava de um direito à cidade, precisamos lembrar que este direito não passa pelo direito de consumir a cidade, mas de vive-la democraticamente, ou seja, direito de fazer de uma vida qualquer uma vida que faça diferença na cidade. Ou seja, o direito à cidade implica que qualquer vida que não faz pleno uso de suas possibilidades em uma cidade, se torne um dano a ser reparado.  Trata-se de uma noção radical de democracia, mas esse é um dos escândalos da democracia, como diria o Rancière. 
Vidas em disputa
            Na cidade, é o cotidiano - o banal e corriqueiro  - que está em disputa. As armas do capital são claras, trata-se de tornar os modos de vida consumíveis e os espaços públicos cenários. Da mulher brasileira aos novos museus em portos renovados, o habitante é divido em duas categorias; aqueles que são consumidos e decoram a cidade com seus modos de vida singulares – vendedores nas praias, torcedores nos estádios, capoeiristas no centro, etc -  e a massa que consome e é espectadora do povo e da urbs.
            Estranho paradoxo. Por um lado são as pessoas e suas formas de vida que alimentam o imaginário da cidade, ao mesmo tempo são elas mesmas que são consumíveis. Parece ter chegado a hora em que os mais diversos poderes decidiram que é o momento de capitalizar, transformar em produto, com os dois mega eventos, esse descontrole inventivo que atravessa a cidade e que é parte de seus moradores.

Direito à cidade
            A cidade não é o lugar onde as coisas acontecem, os comunidades e os sujeitos aparecem e se constituem, a cidade é formada por esse aparecimento. Rua de mão dupla, a cidade é condição de possibilidade para a existência social e desdobramento dessa espaço de sociabilidade em que há a possibilidade de se conjugar o interesse social e o interesse individual. Nesse sentido é possível falar de um direito à cidade que é inseparável dos direito dos cidadãos.
            Antes de ser um espaço onde os indivíduos reclamam seus direitos, é a organização espacial e estética da cidade que permitirá ou não que esses direitos possas existir para serem reclamados quando não contemplados. A partilha da cidade é anterior a um ordem entre aqueles que tem direitos e outros que não tem, a partilha é entre aqueles que tem direito de ter direitos e os que não tem direito de ter direitos. Tal partilha esvazia a cidade como condição de possibilidade para a sua própria transformação.
            Quando a cidade se torna apenas um produto é toda sua dimensão política e conflitual que deve ser deixada de lado. Ter direito à cidade hoje é uma urgência política concreta, um problema ético urgente. Os mega-eventos podem facilitar um choque de democracia. Esse parece ser o desafio.

 


11 de abr. de 2011

Universidade e mercado no capitalismo contemporâneo






Universidade e mercado no capitalismo contemporâneo: reflexões sobre o caso do cinema e do audiovisual
Por Cezar Migliorin

No último final de semana de março, dezenas de professores de cinema ligados ao FORCINE  (Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual) se reuniram nas confortáveis instalações da FAAP para debater o ensino de cinema e audiovisual no Brasil. Uma das questões centrais desse último encontro foi a relação entre as universidades e o(s) mercado(s). O debate não é novo, mas nesse momento em que o trabalho, não só no cinema, mas em toda a economia, vem sofrendo profundas transformações, a discussão parece ganhar urgência.

Deslimites do trabalho

            De certa maneira estão todos a se perguntar; para onde vão nossos alunos? que tipo de trabalho farão? Estarão preparados para “o mercado”? Apesar das inquietantes perguntas, precisamos dar um passo atrás para refletir sobre elas. Talvez uma das mudanças mais significativas hoje no campo do trabalho seja a dificuldade de separarmos o que é o mercado e o que não é. Trata-se de um evidente desdobramento contemporâneo que tende a borrar as fronteiras entre o que é o dentro e o fora do trabalho. No Facebook estamos trabalhando ou não? Quando escrevemos uma crítica, de graça, para um blog, quando fazemos um vídeo e colocamos no Youtube,  quando conversamos sobre cinema em um cineclube que acontece em um bar, quando mandamos comentários para um jornal, etc. Estamos trabalhando ou não? Em muitos campos o deslimite do trabalho é a regra.
            Em recente campanha da Rufflles a marca de batata frita, quem inventar um novo sabor a ser adotado pela empresa ganhará 50 mil reais e passará a receber 1% do lucro, a empresa pede ainda que a pessoa mande a imagem que o inspirou, facilitando a campanha publicitária que será feita; todos com mais de 18 anos podem participar. Em uma outra companha, a seguradora Heritage Provider oferece 3 milhões de dólares para o pesquisador que inventar um software que permita a seguradora calcular com mais precisão os riscos de saúde de seus clientes. Algo que certamente só pode acontecer com a vigilância da vida, através das redes sociais, provavelmente. Mais diretamente ligado à universidade, recentemente tivemos outro exemplo desses estado de mobilização total do trabalhador, como chamou André Gorz. Trata-se do projeto da Rede Globo “Parceiro do RJ. Neste projeto os universitários de bairros pobres atuam como repórteres, fazendo matérias para o jornal local, trazendo um olhar e uma legitimidade – sobretudo – de quem está dentro. As chamadas imagens amadoras se profissionalizam. No próprio FORCINE, por exemplo, tivemos a apresentação de uma distribuidora de filmes que contrata estudantes universitários para fazer o marketing de seus filmes, dentro das universidades. Claro que quanto mais popular e conectado o aluno for, melhor, mais chances de ele ser escolhido. Nesse caso, o mercado depende do fato de ele ser estudante e estar na universidade. Algo muito parecido acontece com os festivais de cinema que contratam jovens universitários para a produção e divulgação, fazendo com que o público e o trabalhador/estudante venha a se confundir. Uma outra confusão entre o público e o profissional eu ouvi em relatos de pessoas que trabalham em canais a cabo, onde as experimentos com novos programas são mais prováveis. O que faz um bom jovem funcionário que trabalha em um programa do Multishow, por exemplo, é o fato de ele conhecer muito bem o público alvo - ele mesmo - e o universo retratado pelo programa; moda, festas, viagens, etc. Se o jovem for da classe C - frequente eufemismo para falar de pobres consumidores -  sua forma de vida terá ainda mais valor e será transformada em informação.
           
            Esses exemplos evidenciam que a universidade não forma para o mercado. Mas que o mercado e a universidade estão em diálogo o tempo todo, sem a separação frequentemente fictícia entre estar estudando e estar trabalhando, no limite, sem a separação entre vida e trabalho. Enquanto no capitalismo fordista os trabalhadores só podia atuar depois de despidos de seus saberes e gestos cotidianos – gostos, hobbies, família, lazer - no capitalismo cognitivo, imaterial, são estes mesmos gestos e modos de vida que tem valor.  Como escreveu o Gorz : « O que as empresas consideram o seu capital humano é uma fonte gratuita, uma externalidade, que se autoproduz e que não para de se produzir e que as empresas captam e canalizam a possibilidade de se produzir » (GORZ 2003:19)
            A educação continuada, aquela escola que nunca nos abandona, como chamava atenção Deleuze no Post-scriptum sobre as sociedades de controle, é também um mercado continuado, que penetra a universidade e vai buscar os modos de vida que interessam ao mercado. Como dizia Guattari nos idos dos anos 70, “ao capitalismo não interessa mais que o trabalhador saiba fazer, mas que ele saiba ser.” Ou seja, tornar-se um trabalhador valorizado é inseparável de uma produção de subjetividade. Antonio Negri desdobrou tal reflexão falando de uma feminização do trabalho contemporâneo, que não trata apenas de uma maior presença da mulher no mercado de trabalho, mas de um trabalho em que “os investimentos afetivos da reprodução da comunidade tornam-se fonte de riqueza da sociedade; porque a mercadoria-serviço nada vale se não for sustentada por capacidades relacionais; porque a gestão do intercâmbio vital e a educação dos cérebros tornam-se os desafios centrais de toda a sociedade produtiva.” (Negri) Estamos no limite de um trabalho sem fim, velha característica do trabalho feminino.
            A falta de limite entre estudo e trabalho, entre atividade economia comercial e as atividades econômicas de compartilhamento, abarca muitas das atividades posteriores à universidade. O caso da crítica é exemplar. Nos últimos anos, muito por conta da internet, vimos surgir uma geração de críticos que levou o “amadorismo” da crítica para além da universidade em um modelo de profissionalização não-remunerada. Ou seja, aquilo que os alunos faziam quando na universidade se prolonga para o trabalho fora dela. Entretanto, essa prática iniciada na universidade se torna o pilar da inserção no mundo do trabalho remunerado.
            Assim, as características do trabalho contemporâneo perturbam na base a pergunta: devemos preparar para o mercado ou não? No limite essa pergunta perde o sentido.

O lugar da universidade

            A permeabilidade entra as práticas e invenções da vida universitária e a inserção profissional parece evidente. Por que isso interessa? Primeiramente porque  a precariedade, a intermitência do trabalho nos primeiros anos após a universidade - e que talvez não acabe nunca mais para aqueles que desejam o cinema e as artes - é a condições de trabalho no mundo hoje. Se antes o trabalho intermitente era fundamentalmente o lugar dos artistas, hoje ele parece abarcar todos os tipos de inserção profissional em que cada um deve ser um empreendedor de si. Gostemos ou não, é para a precariedade e para a constante demanda de mobilização total que nossos estudantes precisam estar preparados. Mesmo que seja para criticar tal pressuposto.
            Nesse sentido, na universidade podemos muito mais do que preparar nossos alunos para o mercado, como se “o mercado” existisse antes daquilo que  ele virá capturar na universidade e na vida dos estudantes. O que vemos hoje é que o mercado invade as universidades atrás de inovação e modos de vida. Preparar para o mercado suporia que ele é reconhecível e possui parâmetros duráveis, enquanto, na verdade, a velocidade de suas mudanças é parte de sua enorme força. Nossos alunos devem operar na transformação e para isso a formação não pode se centrar nas demandas de hoje, mas na possibilidade de inventar demandas, nas possibilidades de transitar entre diversas demandas e eventualmente, um dia, fazer uma opção de aprofundamento. Dai nascem os fotógrafos, montadores, distribuidores, etc. O que a pergunta “preparar ou não para o mercado” corre o risco de colocar à sombra é a importância da universidade como espaço de invenção de novas formas de intervenção na sociedade e nos territórios. Formas que passam pela criação entre professores, pesquisadores e estudantes.
            Se inventar lugares em que nossas capacidades e talentos sejam exigidos é algo que se faz necessário em lugares com mercados consolidados, como o Rio de Janeiro e São Paulo, o que falar das escolas de cinema e audiovisual que se encontram em Natal, Goiânia, Manaus, Aracaju? A existência dessas escolas é inseparável de uma criação que pense o cinema e o audiovisual para além do que o mercado nos oferece hoje.
            Como vemos, todas as vezes que pensarmos dentro da uma dicotomia colocada em termos de ser contra ou a favor do mercado na universidade, estaremos desconsiderando o que já é a realidade da universidade e do mercado. Ou seja, a universidade é atravessada pelo mercado, mas não pode ser pautada por ele, sob o risco de formamos técnicos sem perspectivas, incapazes de efetivamente acompanharem, questionarem, inventarem e se inserirem no mercado.
            Nesse sentido, formamos pessoas para a vida e não para uma capacitação imediatista, o que não significa, obviamente, que os estudantes de cinema e audiovisual hoje não terão trabalho, nem que este universo pós-emprego é o melhor dos mundo. Isso significa que não terão renda e que essa perspectiva é apenas para a elite, apta a se organizar na precariedade? Não, mas é aí que parece estar o embate e grande parte da luta. Que a precariedade é o destino do trabalho contemporâneo, não há dúvida. Se nos interessa a inserção democrática nesse campo, nesse mercado, para além de trabalhadores descartáveis, mesmo dos mais pobres que passam pelas universidade, não me parece que com a nostalgia do emprego ou com uma formação pautada pelas demandas imediatistas resolveremos o problema. Não é com nostalgia das linhas de montagem ou dos sindicatos fortes que encaminharemos bem o problema. O desafio não é pequeno, mas a universidade é certamente um lugar privilegiado para inventarmos formas de estar no trabalho e no mundo, de maneira socialmente responsável e ganhando a vida.

Referências:
DELEUZE, Gilles. Post-scriptum sobre as sociedades de controle. In Conversações. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.

MORINI, Cristina.  A feminilização do trabalho no capitalismo cognitivo. LUGAR COMUM Nº23-24, 2008 - pp.247-265

GORZ, André. L’immatérielConnaissance, valeur et capital. Paris : Éditions Galilée, 2003.

NEGRI, Antônio. Feminização do trabalho. Folha de S.Paulo, Caderno Mais, 14-06-1998, p.5.


* Agradeço o Marcus Faustini e a Moira Toledo pelas leituras e incentivos.

Essa reflexão se completa com dois outros artigos sobre o tema:

Audiovisual e trabalho imaterial: é preciso financiar vidas e não apenas filmes

e




 

5 de abr. de 2011

José Padilha no RioContentMarket, por Alex Patez - UFF/Ancine





O Alex Patez, trabalha na Ancine e é professor de Economia do Audiovisual da UFF.
Abaixo eu copio um relato que ele preparou para o corpo docente da UFF sobre a fala do Padilha no RioContentMarket. Depois do relato o Alex faz algumas considerações.
Agradeço a ele a possibilidade de compartilhar a reflexão e o relato.



Relato resumido da palestra de José Padilha no RioContentMarket, com algumas considerações. Por Alex Patez.

- Segundo Padilha, nos EUA são as grandes empresas distribuidoras quem financiam a atividade de produção - mesmo dos produtores 'independentes'. Ao assumir os riscos econômicos as distribuidoras retêm para si os lucros dos filmes.
- Já no Brasil, segundo o Padilha quem financia o longa é a empresa produtora que, portanto, é quem corre todos os riscos. Vale uma consideração aqui: é muito provável que Padilha, ao omitir a centralidade dos recursos públicos no financiamento da realização de longas e omitir também o fato de que há, de modo geral, pouco dinheiro privado na realização de filmes no Brasil, estava querendo acertadamente enfatizar que, no Brasil, é a empresa produtora quem corre atrás dos recursos para o financiamento dos filmes. É o contrário dos EUA, onde quem faz isso, (muitas vezes, mas nem sempre), é a empresa distribuidora, mesmo no caso dos filmes ditos 'independentes'. Vale observar ainda que no Brasil, ainda que a empresa produtora corra atrás dos recursos, parte considerável dos mesmos não precisem ser devolvidos (implicando risco quase zero para a empresa produtora), como é o caso da utilização de recursos incentivados na produção.
- De acordo com Padilha, o produtor brasileiro tem de assinar um contrato leonino com a distribuidora, de forma mais draconiana do que ocorre nos EUA.
- No modelo vigente a maior parte do lucro ficaria com a distribuidora, frequentemente uma major. Padilha não disse, mas muito desse modelo deve-se à existência do mecanismo do art. 3º da Lei do Audiovisual, que confere às majors (e a algumas distribuidoras de capital nacional) recursos públicos que podem ser alocadas por essas empresas na co-produção de filmes nacionais†.
- No Brasil, a empresa distribuidora faria, de acordo com Padilha, muito pouco: terceiriza todas as atividades, da cópia e logística ao marketing.
- Sendo assim, o produtor poderia, em tese, abrir mão da distribuidora e fazer a mesma coisa, contratando no mercado vários serviços que estão disponíveis às distribuidoras.
- Porém, haveria uma diferença de escala: uma distribuidora major controla, segundo Padilha, um fluxo de filmes americanos lucrativos e com isso detém um poder assimétrico na relação com a empresa exibidora, o que garantiria às grandes distribuidoras o poder de vetar o produto das produtoras independentes; (Padilha mencionou que isso ocorreu de fato com os filmes dele).
- Para o exibidor, só faria sentido exibir um filme independente se este tivesse perspectiva de grandes bilheterias (como Tropa2), e isso, além de  possibilitar o cumprimento da Cota de Tela das salas, compensaria uma eventual ‘represália’ das majors.
- Assim, a saída seria uma união das empresas produtoras brasileiras para, aproveitando a exigência da Cota de Tela,  manter um fluxo contínuo de filmes brasileiros de qualidade; ele propôs que  produtoras brasileiras constituíssem uma distribuidora.
- Sobre a nova distribuidora, Padilha  revelou que está negociando com outras produtoras e que a nova empresa faria apenas a prestação do serviço de distribuição, recebendo, para isso, apenas a comissão correspondente; esta distribuidora focaria seu papel de intermediário na atividade, mas a empresa exibidora repassaria diretamente para a produtora toda a parte da bilheteria que caberia à distribuidora/produtora e esta última, por sua vez, repassaria a parte da comissão para a distribuidora (normalmente é a distribuidora quem recebe do exibidor e repassa para o produtora).
- Padilha disse que o modelo por ele proposto não é absolutamente novo, ainda que não seja preponderante em nenhum lugar do mundo; ocorreria nos EUA com a Lions Gate, por exemplo, que topa apenas ‘prestar o serviço de distribuição’, especificamente nos casos em que o produtor consegue alavancar todos os recursos do filme.
- Com a nova distribuidora, Padilha acredita que as receitas das empresas produtoras, que hoje ficam na casa de 5% a 10% da bilheteria, cresceriam 5 vezes (a afirmação é baseada na experiência de Tropa 2).
- Para que um novo modelo prospere, o Estado deveria, segundo Padilha, destinar recursos (do Fundo Setorial do Audiovisual - FSA) prioritariamente para a distribuição, de forma que o produtor pudesse abrir mão de trabalhar a distribuição com uma major, e pudesse, assim, remunerar-se na bilheteria e gradualmente deixar de depender do fomento à produção.
- Padilha não fez distinção entre distribuidoras brasileiras (de capital nacional) e majors que, segundo ele, ‘explorariam’ igualmente as empresas produtoras.
- Padilha criticou o modelo de incentivos fiscais dizendo que comprovadamente não deu certo, e propôs que todo o dinheiro do FSA  fosse para o P&A dos filmes que fossem distribuídos por empresas que fizessem apenas o serviço de distribuição nos moldes proposto por ele.
- O novo modelo daria margem, segundo Padilha, para a revisão do modelo atual – fortemente centrado em recursos de renúncia fiscal – e propôs que as leis de incentivo fossem progressivamente extintas.
- A análise de Padilha, corajosa por revelar a dinâmica de relações e poderes entre os três agentes econômicos do segmento de exibição e importante por propor uma nova dinâmica mais propícia à rentabilidade do produtor, tem algumas fragilidades (o que absolutamente não desmerece sua análise):
- (i) omite a centralidade dos recursos públicos no financiamento da atividade e no comportamento das empresas produtoras quando financiam os seus filmes; no Brasil, o risco para a atividade de produção é certamente muito menor do que nos demais países (é só olhar para o lado, para a Argentina, e ver como funciona o financiamento dos filmes por lá), pelo fato de que grande parte dos recursos alocados na produção serem a fundo perdido (indiscriminadamente, sejam para filmes ‘pequenos’ ou ‘grandes’, e  indistintamente, sejam para produtoras ‘pequenas’ ou ‘grandes’);
- (ii) foca a possibilidade de sustentabilidade dos filmes brasileiros nas bilheterias das salas de exibição, algo que não ocorrem em nenhum país com uma indústria cinematográfica importante. Nesses países a televisão (aberta e por assinatura), tal como ocorre no Brasil, tem receitas de uma a duas dezenas superiores às salas de exibição. Não é possível uma atividade cinematográfica sustentável sem o envolvimento dos canais de televisão (pagos ou abertos) no financiamento prévio dos filmes (através de pré-licenciamentos) e/ou na rentabilidade dos mesmos (por meio da competição para sua veiculação, o que eleva o valor de licenciamento dos filmes para serem exibidos nas TVs).
- (iii) ignora que o FSA pode cumprir, dentro os instrumentos de política pública voltados ao fomento, funções maiores do que apenas financiar P&A dos filmes de longa-metragem; há que se considerar a estruturação, por exemplo, de toda a produção independente de televisão (incipiente no país) e mesmo o papel FSA na equação de financiamento da realização de filmes de longa-metragem (ainda tão dependente dos recursos de renúncia fiscal).

 

31 de mar. de 2011

Ana de Hollanda, Direitos Autorias.

Respondendo no Facebook!
Uns dizem que ela não entende nada de DA, outros que ela quer diálogo...

Cara amiga,
Independentemente de Ana de Hollanda saber ou não sobre o que está em jogo na reforma da lei dos direitos autorais, sobre o que é o Creative Commonc, etc. O que podemos observar é que ela vem atuando com clareza e que essa opção tem sido sempre na direção do conflito e do acirramento de posições.

Tirar o CC do site – e ele tratava apenas do que estava no site – foi um ato menor. Muito pior foi ter levado para cuidar da reforma da LDA uma advogada que é co-autora de um livro sobre Direitos Autorais com um advogado que atua para o Ecad, o Hildebrando Pontes Neto.
Ao fortalecer o Ecad fazendo essa nomeação e dizendo que o ECAD não pode ser fiscalizado, a ministra está fortalecendo as posições mais retrógradas e anti-democráticas hoje no mundo da cultura que são as posições das gravadoras multinacionais e, para isso, diz falar em nome dos artistas. Uma falácia.
Não sei se todos sabem mas a diretoria das principais Associações de Músicos ligadas ao Ecad – Abramus e UBC – é formada por pessoas ligadas às multinacionais – JA Perdano (EMI) e Marcelo Campello Falcão da universal music, por exemplo. Isso não é mera coincidência. O Ecad virou a forma de as gravadoras ganharem dinheiro depois do fim do CD. O faturamento deles passou de 80 milhões para quase 400 em menos de 10 anos. E os métodos para que isso acontecesse nós conhecemos né? Em relação ao Ecad, a Ministra precisa, primeiramente, cumprir a lei. Que lei? Em dezembro de 2010, a  Lei 12.343 foi sancionada e ela, instituiu o Plano Nacional de Cultura:

Veja o que determina essa lei :
1.9.1  Criar instituição especificamente voltada à promoção e regulação de direitos autorais e suas atividades de arrecadação e distribuição. 
1.9.2  Revisar a legislação brasileira sobre direitos autorais, com vistas em equilibrar os interesses dos criadores, investidores e usuários, estabelecendo relações contratuais mais justas e critérios mais transparentes de arrecadação e distribuição. 
1.9.3  Aprimorar e acompanhar a legislação autoral com representantes dos diversos agentes envolvidos com o tema, garantindo a participação da produção artística e cultural independente, por meio de consultas e debates abertos ao público. 
1.9.4  Adequar a regulação dos direitos autorais, suas limitações e exceções, ao uso das novas tecnologias de informação e comunicação. 
1.9.8  Estimular a criação e o aperfeiçoamento técnico das associações gestoras de direitos autorais e adotar medidas que tornem suas gestões mais democráticas e transparentes. 

As falas da Ana de Hollanda se negando a regular o Ecad e defendendo, cínica ou ingenuamente, os artistas , não só protegem os intermediários, como vão contra a lei.

Em relação às questões dos direitos autorais, não há consenso possível, desde o séc. XVIII. Escrevi sobre isso lá no blog: http://a8000.blogspot.com/2011/03/direitos-autorais-e-democracia.html

Mas o problema não é apenas o Ecad, é toda a lei dos DA que hoje é absolutamente anacrônica, sendo um entrave para a própria cultura que o Ministério deve promover.

Não acho que haja posições extremistas em jogo não. O que existe são visões de mundo bem definidas e infelizmente hoje a Ministra da Cultura do Brasil tem defendido os poderes mais privatistas e menos democráticos.

beijos
c.