10 de set de 2016

O que é uma ocupação?

O que é uma ocupação?
Por Cezar Migliorin

Carta lida no dia 7 de setembro de 2016 aos estudantes da UFF que ocuparam o novo Instituto de Artes e Comunicação.

            Só posso começar agradecendo o convite para estar aqui nesse prédio e poder dar uma aula no espaço que nos é prometido desde 2008, ano em que entrei na UFF. Estar aqui hoje, com a ocupação de vocês, dá sentido ao esforço de muitos em fazer esse prédio, da sentido às verbas destinadas para a expansão da universidade. Ao mesmo tempo, quando vejo esse prédio sem janelas ou portas com aparelhos de ar condicionado nas paredes, me dou conta como o absurdo está na nossa porta.
            Nesse momento pavoroso do país, a invenção de um espaço político é das ações mais importantes que podem ser feitas. Chegar aqui, ler o que vocês escrevem, é perceber que há uma imaginação política inconteste. Uma energia e uma estética que expressam a inquietação macropolítica – e ai estão os embates com a instituição, com o estado, com o golpe – e expressam também as dissidências com os modos de vida majoritários.
            Nos dias que antecederam minha vinda para cá, me lembrava das ocupações que conheci, lia sobre vocês, pensava na universidade e me perguntava. O que é uma ocupação? É claro que não darei uma resposta, mas o texto que segue é um esforço nesse sentido.
            Subitamente, pessoas que não têm – ou não desejam - a necessária legalidade institucional ou econômica para estar em um lugar, se organizam e dizem: este lugar nos pertence. Não no sentido que gostaria capital -  com seus títulos de propriedade – mas apontando para o fato de que os títulos que garantem o pertencimento deste espaço à este ou àquele, na verdade, nada mais fazem que usurpar um teatro, uma universidade, um prédio, do bem comum.
            A ocupação é assim, antes de tudo um duplo questionamento: 1) questionamento das formas de legitimar a circulação e as divisões dos espaços em uma sociedade, 2) questionamento dos títulos de pertencimento e, no limite, da própria noção de propriedade.
            Em um movimento de ocupação o que parece estar em questão nunca é exclusivamente o espaço ocupado. Não se trata de tornar-se proprietário do espaço ocupado, mas de permitir uma circulação e um uso que os espaços proprietários não permitem. No limite, trata-se de fazer do espaço um agente na imaginação política. Espaço em que se imagina e se age fora de uma ordem que não para de definir os possíveis para os indivíduos, cada vez mais separados de destinos coletivos.
            A ocupação tem o espaço ocupado como um epicentro necessariamente conectado com o lado de fora. Uma ocupação é uma invenção de traços de conexão com pessoas, instituições, poderes. Uma ocupação é o epicentro conectivo. Como força disjuntiva, o espaço ocupado possui muros que estão ali para abrigar e não separar.
            Quando um espaço é desocupado por pedido, violência ou cansaço, dois outros podem ser ocupados mantendo a ocupação como uma perturbação do esquadrinhamento espacial feito pelos poderes. Ocupar e fazer como as abelhas que distribuem os pólens entre as flores quase sem querer. A insubordinação da ocupação não pode se tornar uma subordinação ao território. Quem ocupa vive a ocupação para além dos muros ou territórios. Ocupar é muito maior que o espaço ocupado.
            Não são paredes, tetos e portas que definem os espaços, mas as possibilidades subjetivas que ele enseja.
            Mas não abandonemos os territórios. Eles são porosos ao que está fora, se fazem na comunicação e vitalização de corpos e cérebros em contato. Território-corpo que se inventa em espaços fugidios.
            No interior da ocupação – interior atravessado por tudo o que não é aquele espaço – uma ordem está em constante transformação. O espaço demanda uma organização, mas não é uma associação direta entre indivíduos e ações. A limpeza, a comida, a comunicação não é feita por indivíduos especializados – ou terceirizados como vemos nas universidades e escritórios – mas por sujeitos que não param de ser uma coisa em dia, outra em outro.  Uma ocupação aponta para sujeitos que escorregam entre identidades, desorganizam a ordem do especialista ou a verticalidade dos que mandam e dos mandados. Uma invenção política passa pela intensidade que se esparrama com os novos arranjos colaborativos.
            O espaço ocupado desorganiza a associação entre corpos e afazeres e cria laços de cooperação em que festa, trabalho e amor não param de se entrelaçar e produzir novas associações produtivas e políticas.
            Quem ocupa não é ocupante, ou se é, ser ocupante significa não ter identidade, mas pertencer a um coletivo que antes de dizer o que é, se coloca sob o risco da invenção/Ocupação.
            Toda ocupação inventam um espaço ao mesmo tempo em que inventa formas de vida. Uma forma de vida que não pede autorização para agir, e mais que isso, diz que a ação é possível. Um agir que configura novas formas de interação entre sujeitos, instituições, imaginação e colaboração.
            A ocupação perturba: ela não tem uma finalidade limitada. Não se resolve uma ocupação na negociação. Ela é o ponto fora do acordo. O ponto fora do consenso. Por ser epicentro conectivo e ponto fora do acordo, uma ocupação não é jamais uma luta por território. Antes de se lutar por um espaço específico, se luta pela forma de ver, viver e dizer sobre o território. Se a luta fosse pelo território, tal como se apresenta, uma ocupação se confundiria com a prática proprietária e abriria mão do gesto intrínseco à resistência: a criação.
            Não seu ocupa para manter o mesmo, o já existente, o que o espaço é e os sujeitos são, mas para fazer da ocupação um processo de criação. Processo em que a invenção acontece quando sujeitos e espaços estão colocados juntos, no desafio de viver e desfazer as coordenadas e funcionalidades do espaço quando ele preexistia  à ocupação. Sem criação não há ocupação, sem desapego ao território a  ocupação é engolida pela lógica proprietária.
            Tudo o que os poderes desejam é que a ocupação diga: qual sua reivindicação? Claro, esta é a forma ideal de controlar o desejo e a circulação de modos de vida e potências que se criam com a própria ocupação. A ação política da ocupação é de outra natureza -  para ela ainda não há lei, ordem, poderes que a representem. Levar a ocupação para a ordem da representação é retirar dela seu acontecimento, é colocar a ocupação como apenas mais um ator nas lógicas de poder em curso. É preciso se alimentar sem perder a loucura.
            Ocupar é desregrar o visível e o experimentável em um espaço dado. Ocupar é estabelecer com o nosso tempo uma relação menos constrangedora do que aquilo ao qual fomos preparados. Não se ocupa com promessas de futuro, mas porque o presente é ele mesmo intolerável.
            Quando tudo parece dominado, quando a ação parece impossível, é chegada a hora de ocupar, uma vez que a ocupação é uma ação sem fim definido. Ocupa-se para respirar, ocupa-se quando a ação está a beira do desmoronamento, quando o individualismo que organiza o mundo perde o sentido e a ocupação vem retraçar possibilidades coletivas com “eus” cindidos, rachados. Ocupantes não tem nome ou papéis. São antes corpos coletivos, variáveis e intercambiáveis. A cada dia um líder, a cada liderança um novo gesto.
            Ao mesmo tempo em que a ocupação institui um fora das ordens vigentes e dos consensos reguladores, ela institui um dentro, uma força comum e coletiva. Todo o risco de uma ocupação está na possibilidade de ela acreditar nesse dentro da ocupação como dicotomia com o fora. Isso é o que desejam os grandes operadores do poder: a dicotomia dentro/fora, lei ou desordem. A ocupação precisa estar além dessa dicotomia, fazer da fronteira entre dentro e fora a sua casa. Fazer escorregar a lei na justiça.
            Ocupar é imitar os que ocupam e transbordar nossa ocupação ao que é ocupável. É apostar na dispersão de uma ação sem posse e multiplicação do que é comum.  Ocupa-se por contagio e para contagiar.
            Ocupa-se porque os valores em curso estandartizam as potências individuais e de grupo. Ocupar é desfazer a ordem dos valores. Um desfazer que antes de dizer quais são os novos valores, introduz uma incomensurabilidade no que se produz – ajudas aparecem de todos os lados, forças descentralizadas maiores que qualquer ordem. Toda ocupação é um sem medida do que podem sujeitos e espaços no cotidiano de suas invenções. É com o sem medida que se concretiza a transformação do presente.

            Vida longa a todos que ousam.