9 de dez de 2007

Limites e filhos

- Meus filhos podem tudo, ele disse para o psicanalista que ficou chocado, é claro.
- Mas você não exerce seu papel de pai? Eles não tem limite?
- O limite é que os outros também podem tudo, respondeu o pai.

Porque pensar neles?

Não sei bem como expressar um sensação difusa sobre o caso da moça que ficou presa com 20 homens no Pará.
Diante de tal absurdo, em nenhum momento se questionou esses 20 homens.
Existe em toda crítica sobre o ocorrido o pressuposto de que por eles serem homens, presos - provavelmente pobres - e no Pará, eles necessariamente torturariam, abusariam, etc.
É impossível que nessas condições esse homens não sejam estupradores?
Dos vinte homens todos participaram sem que houvesse um embate ético ali dentro?

Comentei isso com conhecidos e eles acharam um absurdo eu imaginar um "problema" ético ali dentro.

O mal estar talvez venha desse pressuposto que diz que a esses homens não lhes resta nada. Se ali não há humanos que se colocam questões éticas e que necessariamente vão assujeitar com tal violência uma mulher, porque pensar neles - presos, pobres, paraenses?

7 de dez de 2007

Entretenimento - 3 links


Bamsky
(arte e política)




They Rule
(quem manda e suas conexões, dica do André Brasil)

Palavras of the president
(de 1716 até o Bush)

A decepção Chavez

É curioso ver a decepção de boa parte da mídia com a reação do Chavez à derrota. Para eles é muito frustrante que ele aceite a derrota e não imponha a nova constituição. A manchete de hoje diz que ele falou um palavão. Que frustrante, nem para dizer que houve fraude...

A frustração se dá porque o inimigo não faz bem o papel de inimigo. Querem inimigos prontos.

No New York Times de hoje, em texto que a Folha reproduziu, o jornalista diz que a democracia americana precisa aprender com a Venezuela, sem ironias. Ainda hoje: Republicanos e CIA destruíram vídeos em que suspeitos de terrorismo eram "interrogados"

6 de dez de 2007

Deleuze / Amizade

Com os amigos o que compartilhamos é uma linguagem, não idéias comuns.
"há pessoas que me dizem: me passe o sal e eu tenho grande dificuldade de entender o que elas estão dizendo..."
é mais ou menos o que diz Deleuze na letra F.

5 de dez de 2007

Limites da ficção e do documentário

Vendo o vídeo em que o ator Caio Junqueira leva seu personagem de Tropa de Elite a sério demais e oprime ameaçadoramente um camelô, me lembrei do Coutinho dizendo que uma diferença entre ficção e documentário é que as pessoas que aparecem em um documentário continuarão suas vidas, logo elas devem ser "protegidas pelo filme". Depois do filme o cara não pode perder o emprego porque falou algo ou uma personagem não pode ser morta pelo marido porque disse alguma coisa no filme.
No caso desse vídeo a fronteira que o Coutinho diz existir não está tão clara assim para o ator.

E o meu direito de imagem?

Ligar uma câmera e filmar alguém instantaneamente traz o problema.
E o meu direito de imagem?
Algumas observações sobre essa noção a partir do artigo de Comolli de 1999, “Au non de personne”.

A partir desse artigo podemos pensar que o direito à imagem implica em uma percepção do valor da imagem para além da vida como valor. Essa percepção opera da seguinte forma. Só é possível reivindicar um direito de imagem se aquele que está no filme se separa da imagem mesmo. Ou seja, o direito de imagem pressupõe o desaparecimento do filme. Como se a imagem não fosse fruto de um agenciamento coletivo, de uma escritura com múltiplos atores, mas uma relação direta entre o aparato e o indivíduo filmado, o que produzirá uma imagem explorável.

Comolli parece neste artigo mobilizado por casos em que após o filme feito os personagens recorrem aos tribunais para pedir seus “direitos”; é o caso de Giscard d’Estaing no filme 50,81% de Depardon , que tenta proibir a exibição do filme– citado por Comolli – e, mais recentemente, o filme de Ser e Ter (Être et Avoir), de Nicolas Philibert .

Comolli pensa esse pedido também como uma questão propriamente temporal, dizendo que o desejo que move essas pessoas aos tribunais, indo até ao impedimento do filme, é um desejo de voltar a um estado anterior ao filme, como se ao serem filmados eles perdessem algo. Nesse sentido, no mesmo artigo Comolli nos lembra que o direito à imagem é também o direito ao som, às próprias palavras. E essas são sempre mais ou menos o que se deseja que elas sejam. A reivindicação do direito à imagem não esta assim desligado de um desejo de pureza identitária, de fechamento e concentração sobre si.

é claro que estou pensando em de casos em que a filmagem é consentida.

Verdade e singularidade

Ainda sobre o post anterior, sobre o anúncio da Dove:
Tão importante quanto o "efeito de verdade" associado à crítica ao capitalismo, está uma estética da transparência total.
Para vender, assim como no espetáculo televisivo, é preciso mostrar tudo.

Nessa outra campanha, o creme anti-rugas leva o nome de pro-age.

Desaparecem os tipos ideias para a celebração da singularidade.


2 de dez de 2007

Babel, de de Alejandro González Iñarritu

Um filme detestável.

1 - Mobilizar o espectador pela possibilidade de duas crianças morrerem no deserto é anti-ético. Perfaz um uso de todo instrumental clássico narrativo de maneira a tornar o espectador refém e excluído do filme.
Mobilizar o espectador pela possibilidade de duas crianças serem mortas pela polícia é anti-ético.

2 - O filme tem "roteiro inteligente" baseado na estupidez alheia. Em alguma momento, em cada um dos personagens, a inteligência falha para provocar os desdobramentos do "roteiro inteligente".

3 - A narrativa cool em Tókio constitui-se como uma parênteses que legitima o melodrama familiar. Para Iñarritu, só a casa salva e o mundo é um lugar a se evitar.

Crítica de Cléber Eduardo na Cinética