29 de jul de 2016

Olimpíada-selfie

29 julho 2016

Olimpíada-selfie
Nessa semana uma imagem ordinária e impressionante circulou amplamente.
Durante a corrida da tocha olímpica uma moto atropela uma bicicleta. Quase imediatamente, um homem que acompanhava o desfile pega o seu celular e, enquanto os acidentados ainda caiam, ele se fotograva com o acidente ao fundo. Uma selfie quente. Feita no instante do acontecimento.
Cada época possui seus gestos emblemáticos. São os movimentos repetitivos da era industrial, eternizados em sua dimensão crítica com Chaplin; os punhos cerrados dos Panteras negras, marcando as lutas dos anos 60*, etc.
Essa selfie, feita no calor da hora, parece ser dos gestos mais emblemáticos do mundo contemporâneo.
O homem se registra como parte de um evento. Faz uma imagem que comprova sua presença durante algo extraordinário. O gesto é feito com extrema velocidade, como uma reação motora. Assim como afastamos rapidamente a mão de algo quente, sem termos que pensar, o homem saca a câmera e faz a foto sem pensar.
Produzir uma imagem tornou-se uma reação sensório-motora.
Diante do acidente, a reação instintiva não é socorrer, mas se registrar. Faz-se assim uma dupla relação com o acontecido. Por um lado o homem deseja o evento – registrado na selfie – por outro se distancia dele, não participa. No limite está completamente apartado do que acontece.
Um gesto tão emblemático não está separado do mundo que o torna possível.
No Rio de Janeiro hoje podemos dizer que temos uma olimpíada-selfie. O grande evento acontece e serve de cenário para todos, desde que estejamos apartados do evento. A lógica da separação entre a minha foto e a cidade é levada ao extremo. Uma lógica de separação entre as vidas e o que acontece no entorno. Somos constantemente avisados pelas barreiras e pela polícia: pode fotografar, mostrar como cenário, mas não se envolva.
Faça como o rapaz do vídeo: faça sua selfie, mas deixe os desastres em paz.
* Tommie Smith e John Carlos, fizeram a saudação durante a cerimônia de premiação nos jogos de 68 e foram banidos dos Jogos.

SOCINE - em defesa da Cinema Brasileira

28 julho 2016

SOCINE - em defesa da Cinema Brasileira
Prezado Secretário do Audiovisual - interino, Sr. Alfredo Bertini
Prezado Ministro da Cultura - interino, Sr. Marcelo Caleiro
Prezado Presidente da República - interino, Sr. Michel Temer
Foi com estarrecimento que a Socine – Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual - recebeu a notícia da demissão de vários funcionários da Cinemateca Brasileira, incluindo sua Coordenadora-geral, Olga Futemma.
A medida intempestiva, sem explicações ou aviso prévio, coloca em risco o trabalho de uma das maiores instituições de preservação audiovisual do mundo e que angariou o respeito de instituições congêneres de vários países e em especial da FIAF — International Federation of Film Archives.
O delicado acervo da Cinemateca requer manutenção contínua e altamente especializada. Funcionários com a mesma especialização e experiência não serão encontrados em curto prazo. Nesse sentido, temos a impressão de que nem a atual Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, nem o próprio ministro têm clareza sobre os danos que essa medida trará para um dos mais importantes patrimônios culturais do Brasil. Por isso, nós, pesquisadores de cinema, nos vemos no fundamental papel de alertar os senhores sobre os riscos que este acervo corre neste momento.
A Socine solicita ao Ministério da Cultura que reverta esse quadro gravíssimo.
Rio de Janeiro, 28 de Julho de 2016.

terrorismo no Brasil

22 julho 2016

Não há ingenuidade, mico ou tosqueira no caso dos presos por “terrorismo” no Brasil.
Neste momento em que é preciso evitar qualquer manifestação ou qualquer dissenso em relação ao rumos do país e do capital, quanto mais sem sentido forem as prisões, mais eficientes elas serão. 
Quanto mais ilegítimas forem as acusações, mais didáticas elas serão.
Quando usar mochila, barba ou aprender árabe configura o inimigo do Estado, nos tornamos todos potenciais inimigos, potenciais presos.
O Estado age assim como terrorista, ou seja, não escolhe mais as vítimas, transforma todos e qualquer um em alvo. Para ser vitimado pelo estado policial, basta estar vivo. É essa a norma que se reforça com a lei antiterrorismo e com as ações nas vésperas dos Jogos Olímpicos.
O medo como forma de gerenciar a cidade, de controlar a linguagem, a circulação os processos subjetivos e claro, destruir a política.
Não nos basta apenas dizer, serei destemido, mas nos perguntarmos como, coletivamente, a justiça e a democracia são o norte e não o temor pessoal, o meu pequeno mundo privado, meu pequeno salário, meu pequeno conforto – tudo protegido pelo legalismo.

jogos Olímpicos

21 julho 2016

A Zona Sul do Rio de Janeiro, como todos sabem, é um espaço hiper-protegido. Entre o Leblon e o centro se anda a pé mesmo de madrugada. Não é super seguro, mas há movimentos nas ruas, alguns lugares abertos, etc.
As Olimpíadas chegaram com as suas logos coloridas, suas publicidades de megacorporações internacionais e muitos estrangeiros. 
Os Jogos, vendidos como uma festa que reúne países e pessoas de todas as partes do mundo, entretanto, ocupa a cidade de maneira bastante específica.
Quem hoje vê o Rio imagina a cidade mais violenta do mundo. Há militares com armas pesadas por toda parte. Na frente do Maracanã, alguns levavam bazucas. Deve haver um motivo para isso, mas é difícil imaginar uma bazuca sendo usada na Tijuca.
As cores e consagração entre povos é ofuscada pelo verde oliva.
A presença das pessoas nas ruas é ofuscada por constantes avisos de autoridades: “Provavelmente as forças de segurança vão demandar da gente mais bloqueios, mais transtornos.” (prefeito).
Por todo lado há uma forte mistura entre shopping centers, como o instalado nas areias da praia de Copacabana e uma ordem policial que desconsidera o próprio funcionamento da cidade.
Os jogos transformam assim o Rio de Janeiro em uma cidade-aeroporto, lugar de passagem onde as singularidades do local são eliminadas, ao mesmo tempo em que os aparatos extremados de segurança e o consumo internacional convivem lado a lado, na harmonia mais reveladora das formas de organização do mundo.
Extremo consumo e polícia. Que venham os maratonistas.

Escola sem partido 2

20 julho 2016

O projeto Escola sem Partido, alguns pontos.
1 – O projeto é partidário, trata-se de um projeto incialmente encomendado pela família Bolsonaro, conforme nos lembra o professor Fernando de Araujo Penna.
No Rio de Janeiro, 0 vereador Carlos Bolsonaro apresentou projeto de lei nº 867/2014 ementa: "cria, no âmbito do sistema de ensino do município, o “programa escola sem partido”.
2 – O projeto confunde partido e política.
A sala de aula não pode ser um palanque partidário, mas a política é necessária. Nesse sentido, o Escola sem Partido naturaliza a realidade como ela se apresenta; como se não fosse, ela mesma, ideológica, como se nada mais tivéssemos para fazer no mundo. O projeto naturaliza assim a injustiça e a severa desigualdade do país. O projeto avisa que os professores não devem estimular os estudantes a participar da democracia.
Exemplo: o professor “não fará propaganda político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas”
4 – O projeto trata professores como manipuladores e antiéticos. O projeto tem por princípio um insulto aos professores.
Exemplo: o professor “não favorecerá nem prejudicará ou constrangerá os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, morais ou religiosas, ou da falta delas”
5 – O projeto trata estudantes com mossa modelável. Elimina a possibilidade do senso crítico, no limite, elimina os estudantes como sujeitos. Trata a política como mera competição e não como reflexão sobre o mundo que queremos.
Exemplo – Justificativa do projeto: “ A prática da doutrinação política e ideológica nas escolas configura, ademais, uma clara violação ao próprio regime democrático, na medida em que ela instrumentaliza o sistema público de ensino com o objetivo de desequilibrar o jogo político em favor de determinados competidores”
6 - O projeto nega a educação como parte de uma rede curiosidades e possibilidades do estudante. Nega a escola como abertura de mundo. O projeto privatizando a educação, desejando a eliminação da escola como produção de conhecimento e espaço de pensamento.
Exemplo: o professor “respeitará o direito dos pais dos alunos a que seus filhos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com as suas próprias convicções;”
7 – O projeto elimina o debate e a circulação do pensamento. Trata as opções e orientações sexuais como identidade biológica.
Exemplo O Poder Público não se imiscuirá na opção sexual dos alunos nem permitirá qualquer prática capaz de comprometer, precipitar ou direcionar o natural amadurecimento e desenvolvimento de sua personalidade, em harmonia com a respectiva identidade biológica de sexo, sendo vedada, especialmente, a aplicação dos postulados da teoria ou ideologia de gênero.

Escola sem partido

Tão ou mais grave que as palavras de ordem do Escola sem Partido é o lugar que o projeto coloca professores e alunos.
Os primeiros são tratados como manipuladores, irresponsáveis e por princípio desconhecedores de seus próprios papéis como professores.
Veja uma das frases que o projeto pretende colocar em salas de aula:
“O Professor não favorecerá nem prejudicará os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, morais ou religiosas, ou da falta delas.”
Ora, isso é ser professor. Colocar essa regra para um professor é com escrever em todas as marcenarias que o marceneiro trabalhará com madeira ou nos hospitais que os médicos terão que lidar com corpos humanos.
Além de insultar os professores, o projeto parte do princípio que os estudantes são imbecis e manipuláveis, sem nenhuma independência em relação ao que um professor diz.
Pensar e se constituir como pessoa é uma montagem. A escola é mais um pedaço do mundo em que o estudante transita. Mas, para esse pessoal, tudo retorna ao privado.
Há um ódio do mundo, por isso eles dizem: “O Professor respeitará o direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções.” Claro que respeitará, mas não se absterá em apresentar um mundo maior que a família.
O nome é enganoso. Não se trata de Escola sem Partido, mas de escola sem alteridade e, no limite, sem sujeitos.

Minha geração vive um profundo choque político

18 junho 2016

Minha geração vive um profundo choque político, mas também subjetivo.
Saímos da ditadura, vimos erros e acertos de governos civis, fomos críticos a certos caminhos do petismo, mas, de alguma maneira, entre tensões, avanços e retrocessos, havia a impressão que o pensamento importava. Havia a impressão que a relação entre sociedade e política havia alcançado patamares mínimos de respeito.
Hoje, o choque. 
O caso da Escola sem Partido nos coloca de volta aos debates do século XIX. Nos faz lembrar que pela escola democrática e inventiva, crítica à funcionalização do saber, crítica à instrumentalização pelos poderes da igreja e do capital, homens e mulheres literalmente morreram.
O choque hoje nos atravessa. Tínhamos a impressão que certas batalhas havia sido definitivamente ganhas pela gerações anteriores e que hoje, em novo patamar, nossa disputa era outra.
Hoje a luta parecia ser pela qualidade, pela igualdade e por mais liberdade. Até muito pouco tempo seria inimaginável que teríamos que nos mobilizar para que uma lei não venha a organizar o que pode e o que não pode ser dito ou pensado na escola. Mas é isso que acontece.
A escola – especializada no Brasil em manter as nossas diferenças de classe – agora deve ser calada totalmente. Deve ser reprodutora de uma sociedade em que o capital é aquilo que se diz existir como natureza e não como ideologia. Com esse projeto, que prega que seja “vedada, especialmente, a aplicação dos postulados da teoria ou ideologia de gênero” não se deseja agora apenas a manutenção das estruturas de classe, mas a destruição da escola e a criação de uma legislação que proíba o país de ser outro ou de se pensar.
Para os idealistas desse projeto. O país já está como deve ser e não cabe a ninguém que passe por uma escola pensar o contrário.
Trata-se de tornar lei o moralismo e a indiferença ao outro.
Trata-se de tornar lei a irrelevância do pensamento coletivo.
Fora do indivíduo, não há interesse: como diz o projeto: o professor “não fará propaganda político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas;”
Quando defendermos o estado de direito, precisamos pensar duas vezes. Como é evidente, estamos cada vez mais cercados de leis que existem para manter a injustiça.
A luta é dupla. Leis como essa não podem passar. Leis como essa não podem ser respeitadas.
Nesse momento, quando depois de muito esforço parecíamos estar construindo algo, alguém ri de nossa cara e diz: começa novamente.
Recomeçar sem nenhuma batalha ganha é o que o momento nos exige. Uma reinvenção subjetiva, inseparável da urgência do momento.

Big jato, de Claudio Assis

10 junho 2016

Big Jato (para quem já viu o filme)
Big Jato é a história de um garoto de que se arma com as forças do mundo – um amor, um perfume, as perguntas incessantes, as conexões com as resistências trágicas – para derrubar o pai com um sopro.
Biga Jato é cheio de ideias e esse é o prazer do filme. Sua beleza.
As perguntas de um adolescente que se transformam em poesia.
Um plano que depois de longos minutos com atores soberbos atravessa uma janela.
Um Feneme que vira fogo em uma paisagem exuberante.
Um poeta – o doidinho da cidade que, errante, abre o mundo pré-moderno para forças sem tempo.
Uma mesa de café da manhã que abandona o realismo e materializa a possibilidade de algo acontecer.
Uma grua que parece sempre querer ir para outro lugar.
Big Jato está entre o ruído típico de Claudio Assis e o silencio de quem inteligentemente não opta por centralizar excessivamente a narrativa em um personagem ou no melodrama.
A dor do desacordo com esse mundo – como em Febre do rato. A resistência e a poesia como necessidade, mesmo que isso seja patético.

Inventar com a Diferença

9 julho 2016

Inventar 2
No ano de 2014 realizamos um projeto de cinema, educação e direitos humanos em mais de 200 escolas do Brasil.
Em cada estado tínhamos um mediador do projeto. Pessoas altamente engajadas com questões éticas e estéticas.
Esse projeto, o Inventar com a Diferença, foi para nós um divisor de águas em nossa relação com a educação. Tivemos grandes sucessos e muitos fracassos.
Nesse segundo ano radicalizamos um princípio fundamental para nosso processo. Há inteligência em toda parte.
Nesse sentido, radicalizamos a independência e autonomia dos locais onde o projeto chega. No lugar de propormos um trabalho com a metodologia que criamos, estamos propondo diálogos com o que fizemos no primeiro ano. Assim, há uma grande abertura para as propostas no Inventar 2.
Se um grupo quiser fazer exatamente como em 2014, não há problema. A formação continuada de professores, dentro da escola, trouxe resultados fortes. Vimos filmes que nos emocionaram, tivemos narrativas de melhora no aproveitamento escolar, filmes e possibilidades de pensar escola, o bairro e a diferença estiveram presentes.
Entretanto, muito do que nos chegou, não era algo previsto por nós, como o trabalho em Belo Horizonte e Recife em Centros Socioeducativos.
Com a proposta desse ano, nossos parceiros podem propor diferentes formas do cinema se relacionar com a educação e os direitos humanos. Escolas de cinema dentro de escolas, formação intensiva de professores, trabalho direto com crianças e jovens, cineclubes em diversas escolas, etc, etc.
Para quem tiver interesse, o Inventar foi objeto de diversos trabalhos:
Cine, igualdad y escuela: la experiencia de Inventar con la diferencia. Toma Uno, v. 1, p. 199-207, 2014. Cezar Migliorin e Isaac Pipano
Inevitavelmente cinema: educação, política e mafuá. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Azougue, 2015. De Cezar Migliorin
Análise dos filmes-cartas produzidos pelo projeto "Inventar com a diferença" : cinema e direitos humanos. De Juliana Cristina Silva (TCC - Unicamp)http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/…
O projeto inventar com a diferença á luz da política pública do Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH) – UFPR - dissertação de Mestrado 2016. Letícia De Bambrilla de Avila,
http://acervodigital.ufpr.br/handle/1884/42011
Imagem-aprendizagem: experiências da narrativa imagética na educação. 2015. 203 f., il. Tese (Doutorado em Educação)—Universidade de Brasília, Brasília, 2015. De Patrícia Barcelos -http://repositorio.unb.br/handle/10482/19515?mode=full
Para inscrição desse ano: http://goo.gl/yg6zM2

kiarostami

4 julho 2016

Comecei a ser professor com o Kiarostami ao lado.
Um belo livro do Bernardet e os filmes.
Acho que já estive com ele muitas vezes, mas talvez nenhuma.
E o Irã nunca mais foi o mesmo.
Existem dois tipos de livros.
Os que se tem vontade de avançar e ir para a próxima página.
Os que não prometem nada ali adiante.
Só me interesso por esses últimos.

os cupins

Para construir casas para centenas milhares de indivíduos, com acesso direto aos lençóis d’água 50 metros abaixo do solo, os cupins não precisaram nem mesmo de um engenheiro chefe. Certas sociedades souberam como se livrar de Cavendiches, Odebrechts e Cabrais.

Vladimir Safatle comenta "O Circuito dos Afetos"


Conversa realizada na UFF no 13/06.
https://www.youtube.com/watch?v=QTFstXnlz0g
Claro, propositivo e rigoroso.

jogos olímpicos

19 junho 2016

Que grandes eventos funcionam para instaurar crises radicais, permitindo que poderes pouco democráticos possam operar na cidade, nas finanças, no país, já sabíamos. 
Mas o que governo do Rio vem fazendo, com a justificativa das Olimpíadas, é pior do que podíamos esperar. 
A crise permite o choque – como tão bem explica Naomi Klein. Não é na democracia que o liberalismo pode atuar com facilidade. 
Foi preciso um Pinochet para que os rapazes de Chicago pudessem dar um choque na economia chilena revogando direitos, aprofundando as diferenças de classe, fazendo do país um tubo de ensaio para o neoliberalismo.
Um ditador é longo demais, um evento-ditadura é o hedonismo do capital.
Na Grécia, o ensaio dos eventos-choque estava feito.
Crise-evento - hipérbole de ganhos - crise aguda - fim da democracia. E assim o Syriza se esfacela.
No Brasil os eventos-crise vêm dobrados: dois eventos, duas crises.
Com o impedimento da Dilma, não era mais necessário um novo evento-crise para que as regras minimamente conseguidas para segurar a selvageria do capital fossem desmontadas.
Mas ai está o evento.
Duas crises sobrepostas = tratamento de choque intensificado.
Crise financeira – verbas - imagem do país = queremos devorar sua democracia.
Espero que não seja muito tranquilo para eles.
18 junho 2016

Prefeitura do Rio 
- Agora que tiramos os pobres já podemos colocar transporte público.
O novo VLT tá lindo.
17 junho 2016

"Mulheres de Buço" é demais!
música, teatro, humor, festa e politicamente incisivo.
Feminismo forte e alegre. As letras e o som são reveladores da complexidade do Rio de Janeiro. O Funk que atravessa a cidade, a inquietação com aspectos macropolíticos e atenção aos detalhes de quem vive a cidade. Garotada!
Poucas crônicas do presente são tão reveladoras e mobilizadoras.
13 junho 2016

A ação política é inseparável de uma ocupação dos espaços, frequentemente de espaços onde o povo não foi chamado chamado.
No atual momento esta máxima tem feito toda a diferença nas forma de resistência ao autoritarismo.
As mulheres e estudantes, por exemplo, desorganizam os espaços em que os poderes mais autoritários e conservadores gostariam de lhes reservar. 
Nesta semana, uma manifestação na Paulista pelo Fora Temer trazia uma imagem que era o contrário disso.
O vão do Masp, tradicional espaço de encontro e mobilização foi dominado pela polícia.
O espaço que pertencia às invenções do povo, arquitetura brilhante de Lina, aberta ao imponderável, estava lá, dominada por homens de preto.
De um lado uma manifestação que começava com a organizada distribuição de camisetas e bonés vermelhos que não surpreende ninguém, de outro, o espaço que já era nosso, dominado.
A ação política que aceita esse esquadrinhamento espacial está fadada ao fracasso.

7 junho 2016

Aqueles críticos às manifestações de junho de 13, dizendo que ali se fomentava o golpe, agem como o ministro interino da cultura. 
Não suportam o dissenso, não suportam que vozes dissonantes apareçam onde menos se espera. Querem a ordem centralizada, querem a unidade encarnada onde quer que ela esteja, no pai político ou na imagem da pátria sem tensões. Acreditam na centralidade do Estado ou do partido como representantes da totalidade da sociedade. 
Felizmente a democracia não é um samba de uma nota só, mas uma complexidade de desejos que não pode ou deve ser estancada. 
A ação política hoje é inseparável de palavras fora do lugar que não cessam de se esquivar do ordenamento do poder e da burocracia. 
Se o dissenso e a reunião de desejos não organizáveis em um projeto único não é suportável é a própria democracia que está em jogo.
7 junho 2016

Quando tudo se transforma em espetáculo, quando o pensamento e a cultura são irrelevantes, quando todas as ações são norteadas pelos seus efeitos midiáticos e pela manutenção do poder, ai, finalmente, um ministro da cultura pode dizer que um gesto político é ruim por "causar prejuízos à reputação e à imagem do Brasil".
Com essa frase podemos ter noção das prioridades desse governo.
Certamente não sentiremos falta.
6 junho 2016

Que momento impressionante vivemos.
A saída de Dilma no lugar de expor a fragilidade do governo desta acabou colocando no poder um tigre de papel que depende cada vez mais da violência da mídia e da estratégia de choque na suspensão de direitos. 
Se pouco tempo atrás muitos ainda se apoiavam nas trapalhadas da presidente e no triste fim desse PT como alternativa real, o momento expõe, por um lado, a evidência de que a dita oposição não passa de frangalhos políticos e intelectuais. Por outro lado, nas escolas, ocupações, universidades e nos modos de vida, algo se tornou insuportável: não há espaço para a simplificação do país nos termos moralistas e religiosos, não há espaço para o enquadramento e ordenamento dos pobres.
O retorno de Dilma será bem vindo, mas algo se passa fora de Brasília que não pode ser apaziguado com o eventual retorno da presidente.
A força dos debates, a busca por uma ação de esquerda efetiva, a crítica ao lulismo, a exposição da fragilidade dos congressistas, a urgência de outro modelo de representação, o aprofundamento das investigações de corrupção, tudo isso nos chegou com o pé na porta.
Além da luta institucional, gostaria de ficar à altura do que nos acontece.
31 maio 16

Talvez das coisas mais chocantes nessas recentes semanas de governo interino seja o isolamento do grupo que chegou à presidência.
Fernando Henrique, Lula e Dilma, com todas as suas enormes diferenças, eram governos com conexões com a vida fora de Brasília, com vivências e práticas que extrapolavam o mero jogo político. 
Nos últimos 20 anos nos acostumamos com governos que tinham alguma permeabilidade intelectual e sensível ao que acontecia fora dos palácios. O que não quer dizer que agiam da mesma forma com o que aparecia nas ruas, claro.
O que impressiona em Temer é que no momento que assume o cargo, ele parece não ter meios - mesmo quando deseja - para se deixar afetar pelo mundo mesmo.
Trata-se de uma cegueira trágica. Um isolamento chocante.
A cada dia, além do cinismo, o que aparece é um certo desespero com a própria incapacidade em perceber que na presidência há um mundo de práticas, reivindicações, formas de vida, disputas, etc que acontece fora das disputas palacianas e que a posição dele não pode apenas ignorar.
Ontem Temer chegou em casa e desabafou: “Não estou entendendo nada!”

Estado e Cultura 3

29 maio 16

A cultura é o que impossibilita uma divisão exata das partes, como mostra Alexandre Barbalho em seu livro Política Cultural e Desentendimento.
O ódio da direita - e dos novos fascismos - à cultura é menos moral do que político.
Práticas sexuais não normatizadas pelo Estado, arranjos familiares singulares, transformações corporais não-binárias, etc, mais do que ofender os costumes expressam as potências de vida incontroláveis pelos poderes em curso. 
Eles não odeia apenas o diferente, os fascistas de plantão odeiam a impossibilidade de ordenar, encaixar, dar nomes adequados.
Toda resistência que passa pela cultura e pelas formas de vida tem o desafio de garantir um lugar – de fala, de vida, de prática – e ao mesmo tempo fazer desse lugar uma instabilidade, uma porosidade, um desequilíbrio.
O que os fundamentalistas não suportam é que algo possa se inventar com o desejo.

Cultura e Estado 2

29 maio 16

Na relação da cultura com o Estado vemos o cerne das tensões entre o capitalismo mais avançado e as formas mais resistentes a ele. 
O que mais interessa o capitalismo hoje é a forma como consegue inventar formas de vida capitalizáveis.
Mais do que inventar produtos, modula-se formas de estar no mundo, da competição generalizada - das empresas às universidades – às maneiras de ocupar o tempo e as emoções – dos dispositivos móveis de comunicação e seus aplicativos de afeto, passando pela arquitetura das “grandes reformas” urbanas à subordinação de todos ao transporte humilhante.
Vampirizar – como escreveu Suely Rolnik - e modular as formas de vida, são as práticas essências do capitalismo contemporâneo. Trata-se de operar na sensibilidade, nos afetos e na cultura. Hoje, todas as esferas do Estado operam nesses níveis: agricultura, transgênicos, mobilidade, saúde, moradia, etc. Mas, como sabemos, há um ministério separado só para pensar cultura: ou seja, por um lado isso é fundamental, por outro isola a cultura: Todos os ministérios deveriam ser: Ministério da economia e da Cultura, Ministério da Cultura e da Agricultura, etc etc.
São esses mesmos modos de vida moduláveis pela capitalismo - como tanto trabalhou Negri – que são excêntricos ao ideário do capital. É das formas de vida que as resistência e invenções aparecem.
Curioso paradoxo: enquanto todas as esferas da vida pública operam hoje diretamente na cultura, é a cultura mesma que deve ser excluída da reflexão sobre essas esferas. Trata-se de agir sobre as formas de vida segundo interesses ditos pragmáticos, como se a ação sobre as formas de ser fosse uma consequência e não o foco. Ora, sabemos que não é.
É assim que um Ministério da Cultura, por exemplo, traz as mais fortes tensões para o capitalismo. Ali, as formas de vida podem ser exploradas sem dó: carnaval, turismo e as próprias expressões sensíveis de um povo. Mas, ao mesmo tempo, é ali que o Estado é mais tensionado para que as formas de vida excêntricas e inventivas – descompassadas com a modulação do capital – tenham, elas também, uma presença no país, que façam diferença com o que podem trazer de não planificável pelo Estado ou pelo capital.
Em um Ministério da Cultura, cada vez que as verbas diminuem e a centralidade das decisões aumenta, sabemos que é a administração dos nossos modos de ser que está sendo privilegiada.

Estado e cultura 1

28 maio 16

Um ministério da cultura que leve a séria a noção de cultura é algo insuportável para um governo que em que o capitalismo não é um problema.
Levar a sério a cultura não é estimular o que existe – apenas – mas ter em mente que a cultura é incontrolável, dispersiva, múltipla – um acontecimento.
Mais que o dado a cultura é o que podemos. 
Que governo está preparado para o que podemos, para uma transversalidade do desejo que atravessa economias, organizações sociais e urbanas, afeta planejamentos, informações e mobilidade?
Que governo está preparado para a cultura que transforma os agenciamentos familiares? Em nosso país, a cultura é um caldo entre heranças e transformações que não cabem em um plano centrado no mercado ou na economia.
Levar a sério a cultura é traçar uma linha entre a sala de ópera e o descontrole das vidas em invenção. Onde não há a possibilidade da plena expressão do que podemos, das formas de vida excêntricas, ali deveria intervir um Ministério Cultura. Mais do que garantir o que se produz, o estado deveria intervir culturalmente onde a invenção se vê impossibilitada de acontecer. O trabalho é excessivo, o transporte humilha, as condições de sobrevivência não estão garantidas. Tudo isso é problema da cultura. Que governo está preparado para isso, para essa centralidade do que realmente importa? As nossas possibilidades de ser, intensamente.
26 maio 16

Se tornou corrente entre certo pensamento crítico de esquerda apontar continuidades entre o governo Dilma e o governo Temer. “Eles não são tão diferentes assim”, parecem dizer.
Creio que antes de qualquer comparação, é preciso encarar uma diferença de natureza entre os dois governos. Essa diferença de natureza se deve à forma como Dilma e Temer chegaram à presidência. 
Golpe ou não golpe, o que marca uma diferença de natureza entre os governos é a traição. 
Enquanto Dilma - entre incompetências, possíveis diálogos com a sociedade e opções questionáveis pelo campo da esquerda - é eleita para estar ali, Temer é fruto de uma esperteza e de uma malandragem com a lei. Tanto adeptos de Dilma como aqueles que defendem o impedimento, estão de acordo em perceber que as múltiplas inabilidades de Dilma abriram as portas para que bote dos traidores pudesse acontecer.
Pois esta diferença de caminhos para a presidência institui duas naturezas de governo (mais do que a discussão de se houve ou não golpe).
A primeira e radical consequência dessa diferença de natureza é simples: Para os traidores, não há nada a esconder, não há máscara democrática para esconder a realidade. Está tudo às claras.
Sem ter o que esconder, sem ter que dissimular a artimanha que leva Temer ao poder, é no campo das práticas que as consequências aparecem. Quem se legitima explicitamente na esperteza e na traição não precisa negociar com nenhum ator social fundado na legitimidade da representação democrática.
Assim, quando comparamos as primeiras ações do novo governo com que Dilma fazia, precisamos ter em mente que por mais que às vezes possamos ver alguma proximidade, o que perdemos foi qualquer possibilidade diálogo, tensão e dissenso com o novo governo.
A esperteza é um princípio impermeável à sociedade.
Traição e esperteza não apenas marcam uma forma de chegar ao poder, elas são necessárias para os desmontes das construções sociais que os novos mandatários começam a fazer. Elas são necessárias porque instituem um governo em que a sociedade e a democracia são irrelevantes.
A traição é um norte, mais do que uma arma pontual.
É Com essa dupla, Esperteza/Traição, que se torna possível ser autoritário, rápido, cínico e brutal e não ter que prestar contas alguma.
Em suma, 1) falar em diálogo com esse governo é esquecer com quem se fala. 2) Apontar continuidades do governo Dilma e Temer pode ser importante para um projeto de esquerda, mais irrelevante para pensar esse governo.
Se tínhamos muitas insatisfações com Dilma, uma coisa é certa, as armas agora são outras.

5

24 maio 16

4
Os dois homens usavam terno preto e gravata. Apoiavam os braços no balcão de vidro transparente às empadas e joelhos. Satisfeitos, pagaram o Antônio e reassumiram seus postos. Um homem de terno preto recolheu ingressos e mandou a menina tirar o pé do banco. O outro homem de terno preto vendeu e muitos perderam.

4

23 maio 16

4
Apesar de todos os cuidados, ressaca. 
Andréa colocou a roupa que a esperava no armário. Nas 17 horas seguintes cinco homens estiveram muito próximos de seu corpo. Vodka e Red Bull a mantiveram entre a euforia e a exaustão. Julio não pode estar com Andréa – muito trabalho....
Andréa encostou a cabeça na janela do ônibus e pediu para o cobrador a acordar depois do túnel.
Apesar dos cuidados, café, café.

3

3
Marina: cafezinhos, reuniões pouco importantes, aplicativos, trânsito nos dois sentidos, alguns barulhos mais intensos.
Ao ganhar a rua, subitamente muita gente. 
Na rua, Jorgina tinha dificuldade no caminhar. O rosto inchado com marcas de golpes no rosto - novos e antigos, os dentes eram poucos, o olhar distante ausente. Marina a viu, Marina entendeu tudo.

2

21 maio 16

2
No quiosque de flores no Catete um jovem pede rosas rosas. A vendedora lhe mostra um buquê em que cada flor é envolvida por uma rede, mantendo as rosas rosas em botão. 
O que é isso na flor? É a camisinha, explica a vendedora - para a rosa não ficar toda aberta. 
O rapaz olha também um cactos que está a venda. 
- Quero doze rosas rosas. 
Caminhou pela cidade e presenteou seu primeiro buquê: rosas rosas com camisinhas brancas.

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19 maio 16
1
Na saída da barca, que leva os passageiros de Niterói para o Rio de Janeiro, um homem de mais de 60 anos se coloca ao lado da massa que cruza a estação a cada dez minutos. Enquanto as pessoas estiverem passando ele grita: “Taxi no estacionamento”, “Taxi no estacionamento”, “Taxi no estacionamento.” Seu trabalho é avisar que os táxis não visíveis estão disponíveis. Por determinação legal ele não pode usar uma gravação ou um cartaz. Assim ele grita aproximadamente três vezes a mesma frase a cada dez segundos, 18 vezes por minuto, 54 vezes por desembarque, 324 vezes por hora, 2268 “Taxi no estacionamento” por dia.

Carta aberta da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (Socine) sobre a extinção do Ministério da Cultura

17 maio 16

Carta aberta da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (Socine) sobre a extinção do Ministério da Cultura
É com indignação que descobrimos pelos jornais que os novos mandatários do Poder Executivo Federal decidiram extinguir o Ministério da Cultura.
Nossa indignação se deve, primeiramente, à forma autoritária e sem diálogo com a sociedade com que essa medida foi tomada. Nos estarrece que a cultura seja relegada a um segundo plano justamente no momento em que o país passa por tamanha crise política.
O que nos constitui como povo, como pessoas que possuem laços comuns e um sentido de comunidade, não é nosso comércio exterior, nosso sistema financeiro ou nossos projetos para a indústria - todos importantes - mas sim, nossa cultura.
É nossa cultura, que inventamos cotidianamente juntos, que nos une e que nos diferencia. Tornar a cultura secundária na organização do Estado é abdicar do povo como um todo, é dizer da irrelevância de nossa capacidade de inventar um lugar comum para vivermos.
Por esses e muitos outros motivos, nós da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual rejeitamos enfaticamente a extinção do Ministério da Cultura.
Socine

desafios

17 maio 16

Desafios
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Como pensar a institucionalidade da política sem o PT e as pessoas e políticos próximas ao partido? Por mais que tenhamos sido críticos ao governo Dilma, por mais que a agenda do PT tenha se distanciado da agenda da esquerda – basta ver o que dizem hoje Sanders ou Corbyn,– não parece possível refazer um projeto democrático hoje que não passe pelas pessoas ou políticos ligados ao PT. Pode ser uma dura realidade, mas a votação do impeachment deixou isso claro. Qualquer discurso de esquerda que apenas negue o PT é enfadonho e beira o ridículo.
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Os críticos de Dilma que fazem questão de dizer que Temer é um governo de continuidade operam cinicamente, sem perceber que perdemos justamente toda margem de ação. No governo Dilma, estávamos perdendo muitas batalhas, mas não havia jogo jogado. O que dizer desse início de Temer? As primeiras ações foram para marcar a impossibilidade do diálogo, a irrelevância dos movimentos sociais.
Enumerar os equívocos de Dilma não é tarefa difícil, fico curioso para saber as aberturas desse novo governo.
O primeiro desafio é: reinventar uma batalha. Reinventar um capo de ação. Arrancar do autoritarismo- que extingue ministérios como o da cultura - a máscara do consenso. Não há harmonia, não há tranquilidade. Nosso desafio é refazer um campo de disputa onde o diálogo e o enfrentamento se façam possíveis.
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O triste ainda é que Dilma cai sem grandes enfrentamentos. As pautas que poderia ser bombásticas nunca efetivamente chegaram a ser pautas: reforma política, reforma tributária, aborto, imposto sobre herança, taxação do mercado financeiro, legalização das drogas, substituição de matriz energética, etc, nada disso chegou a estar na agenda de Dilma. Uma queda tímida.
Se as pautas mobilizadoras estivessem na mesa, a revolta seria muito maior. Assim, o segundo desafio é o mesmo: reinventar uma batalha. Reinventar um capo de ação. Refazer um laço que marque o dissenso com os novos poderes do executivo. Alguns retrocessos se tornaram insuportáveis e é daí que sairão as novas batalhas.
12 maio 16

Acordar com um silêncio mais intenso que o comum. Com olhares que duram menos entre as pessoas, com bons dias constrangidos. Uma atmosfera, que tanto destoa da cínica alegria dos apresentadores de televisão, é a primeira marca da gravidade do que acontece agora.
Até pouco tempo atrás parecia haver espaço para o pensamento, para a crítica, para as falas dissonantes. E agora? 
Durante meses o que vimos foi a irrelevância dos argumentos, a retirada da reflexão sobre o que nos acontecia. Um processo que hoje parece nos tomar de forma aguda. O que significa pensar, criticar e agir politicamente nas nossas pequenas esferas de ação, diante do abismo que se construiu entre o que é o nosso cotidiano e pensamento e o que é o Estado, a mídia, os poderes financeiros.
Talvez a sensação de golpe apareça antes de tudo pela irrelevância de nós mesmos.
O silêncio pesado do dia se dissolverá, mas essa sensação de irrelevância precisa deixar marcas, é dela que talvez consigamos tirar algo.
Escrevo no dia que tudo aponta para a irrelevância de qualquer escrita, de qualquer pensamento. Mas como fazer diferente? Sairemos de casa, para o partido, para a universidade, para rua, no dia em que tudo isso perde um pouco o sentido, mas como fazer diferente?
Bom dia

‘My name is Sadiq Khan and I’m the mayor of London!’


5 maio 16

É claro que vivemos uma duríssima crise política no país.
Os poderes em tensão. O legislativo tirando um presidente eleito e sem crime, o judiciário retirando o presidente da câmara por uma decisão de uma pessoa apenas e ao mesmo tempo, esse mesmo judiciário organizando suas agendas a partir de interesses específicos. 
A evidencia da ausência de uma centralidade que organize tudo isso traz problemas, mas também deveria ser celebrada. É impressionante como boa parte da esquerda passou a pensar a política apenas como forma de atuação do e com o Estado, deixando de olhar para o próprio Estado como aquilo que precisa de limites constantes.
Na atual crise, no temor de que o vice assuma e produza um desmonte de algumas boas políticas implantadas nesses anos de PT, a briga deveria ser antes por mais democracia, menos centralidade, mais participação popular no orçamento e nas ações locais, menos presença do Estado como interventor moral.
A centralidade excessiva do Estado parece não perturbar direita e esquerda, pelo contrário. Quanto mais poderoso e centralizador for o Estado, mais ele parece interessar aos membros de todos os poderes.
Não vejo hoje uma agenda de esquerda que não passe fortemente pela defesa de um Estado que, por um lado se faça presente lá onde as forças do capital produzem desigualdades, diminuindo as potencias de ser e agir e, por outro, se faça ausente, entregando para comunidades, movimentos, cidades, as decisões sobre as formas de atuação, distribuição de gastos, etc.
A educação é um bom exemplo. O MEC propõe hoje uma Base Nacional Curricular Comum, inviabilizando toda a autonomia das escolas na decisão sobre os currículos, homogeneizando verticalmente os saberes. Autonomia, invenção e liberdade, que deveriam reger as práticas da esquerda, encontram no Estado um limite, ao mesmo tempo em que o Estado promove sua própria centralidade.
Sim, a crise é dura, e um dos aprendizados que poderíamos ter é de que enquanto as ações do Estado não tiverem como norte o singular, as diferenças, o heterogêneo, continuaremos vivendo essas crises como se fosse o fim do mundo.
Quando vejo os três poderes se engalfinhando, não deixo de ter certa alegria.
18 abril 16

Primeiro ponto da reforma política.
Incluir a família, como tanto prezam nossos representantes.
Qualquer criança que saiba ler já pode se candidatar. 
Certamente teríamos um congresso bem melhor.
17 abril 16

Pela democracia X pela família
O povo antes da casa ou a casa antes do povo?
13 abril 16


Das mais duras realidades que a atual situação política nos coloca é que a democracia parece não ser um valor universal no país.
Basta dez minutos de Globo News, algumas conversas – eventualmente familiares – ou uma escuta atenta por transportes públicos, para percebermos o desprezo pela política e pela democracia.
A grande mídia manipula, engana e é responsável pelo consenso que se forma contra o estado de direito; essa é nossa percepção mais imediata, intensamente repetida. Quando dizemos que manipulam e enganam, pressupomos o enganável e o manipulável – que são sempre os outros. Nós sabemos que a grande mídia mente, os outros não. Essa distinção não me parece tão óbvia. Preciso no mínimo desconfiar dessa separação tão rígida entre os esclarecidos e os ignorantes.
Levemos a sério a transformação e o acesso à universidade; o acesso ao consumo e aos bens que possibilitam conforto e informação; levemos a sério as importantes lutas que se intensificaram nos últimos anos, levemos a sério que depois de quatro governos do PT há um país com importantes diferenças.
Nos cabe então a pergunta, como pode essa população ser enganada? Como pode ser manipulada pela mídia?
A grande mídia é reflexo e produção de mundo.
Na atual conjuntura a grande mídia é golpista sim, mas talvez sem enganar ninguém.
A urgência dos ganhos, da competição de todos contra todos, do hedonismo quantitativo, dos sujeitos que devem se administrar como empresas e das defesas de territórios de fala das identidades proprietárias, é a lógica que domina os modos de ser contemporâneos. Não estamos livres dela.
Dentro dessa lógica, a espera e a escuta necessárias para a política, a construção de um espaço comum não pautado pela competição, o respeito às regras que garantem igualdades e processos conflituosos sem eliminação dos “inimigos”, tudo isso parece algo absolutamente obsoleto.
Novamente. Sim, a mídia é golpista, mas talvez não esteja separada das formas golpista que temos construído no cotidiano.
O golpismo cotidiano é aceitar a competição generalizada em que a não eliminação do outro é coisa para os derrotados.
Breve, toda simples acusação que dissocia a mídia dos modos de ser contemporâneos em que a democracia e o estado de direito são questões secundárias, encobre o lugar onde as disputas estão efetivamente se dando: nos modos de vida. Modos esses que a mídia participa mas não produz sem intensa colaboração.
Ser contra o impeachment hoje é dar algum limite à lógica golpista que transcende o impeachment.

derrubar o muro

11 abril 16



Derrubar o muro.
Esse muro feito em Brasilia, que inicialmente achei que era piada, é das coisas mais tristes que conseguimos produzir.
A lógica da separação, da fronteira, do condomínio, levada para a praça pública, materializada com o mais triste dos símbolos.
Se os manifestantes de esquerda aceitarem estar de um dos lados do muro, sua causa está perdida.
Todo militante de esquerda deveria, antes de qualquer coisa, antes de ser contra o impeachment, derrubar o muro.

Militância polícia

10 abril 16


Militância polícia
A polícia enquadra, aponta os culpados, organiza quem pode circular e quem não pode, quem pode falar e quem deve apenas escutar, define os que podem sair de casa e a que horas o toque de recolher encerra a todos.
Com a polícia pode haver revolta, mas não há argumentação, espera, humor, poesia ou diálogo.
A lógica policial impregnou a militância.
Por todos os lados os enquadramentos estão fechados e asseverados. Por vezes, mais do que isso, aquele que não milita é focado como o inimigo.
Nos últimos tempos, não tomar posições assertivas sobre a continuidade ou não do governo Dilma, por exemplo, virou um mal maior. A militância polícia aponta o dedo e diz da impossibilidade da dúvida ou do desinteresse mesmo.
Passado o século que viu as artes militantes descobrirem que não precisavam tratar seu público como receptores passivos, a militância polícia parece jogar no lixo o primeiro gesto fundamental em relação ao leitor/receptor: o outro pensa e sente e não precisa ser tutelado, organizado.
Em alguns meios, por exemplo, o uso do genérico masculino – amigos, caros – para se referir a um grupo multigênero, passou a ser visto sinal de preconceito. Em algum lugar alguém se levantará pra dizer: prezadxs vocês não vão militar não?
O mesmo vale para a radicalidade policialesca no uso linguagem em relação às questões de gênero. Caminhar entre noções e definições, em que o uso do termo opção sexual, por exemplo, - no lugar de orientação sexual - pode ser visto como um gesto fóbico faz com que poucos se arrisquem em campo tão minado.
A polícia sabe quem pode circular em certos espaço e quem não pode. A polícia esquadrinha, divide, separa.
Para andar em determinada parte da cidade é preciso ser identificado, usar as mesmas roupas, pertencer às mesmas facções. Como em uma cidade, os espaços abertos a todos se tornam também os espaços não políticos, clean, sem pichações ou marcas da presença humana. A militância polícia se adequa ao modo de ser das cidades, dividas entre os espaços impenetráveis para uns ou outros – favelas e shoppingcenters - e os vazios de política – novas praças com hiperpresença arquitetônico policial.
Com a polícia não se brinca – aprendemos isso cedo.
O que diria a militância polícia hoje de um filme como “Mato Eles?”, de Sérgio Bianchi, que com humor trata a questão indígena eventualmente se colocando no lugar do opressor para explicitar o massacre? Ou com a capa de 1978 do Charlie Hebdo que, para criticar os negacionistas da época, exacerba seus pontos de pontos de vista e coloca Hitler como o cara “super simpático”? A resposta não é difícil. Seriam massacrados primeiro por não terem direito de falar da questão indígena sem serem índios – a polícia sabe quem pode falar; segundo porque “com essas coisas não se faz humor” – a policia tem certezas e a inteligência do outro para entender o humor não pode ser considerada.
As recentes críticas ao trabalho de Rafucko, são exemplares. Quando o artista faz como Bianchi ou Charlie, exacerbando o lugar do opressor para desnaturaliza-lo, os críticos iluminados dizem: as pessoas não vão conseguir entender, eles vão ler ao pé da letra, eles vão achar que você está dizendo que é isso mesmo, que Hitler é simpático e que revistar negros indo para a praia no Rio de Janeiro são coisas legais.
O primeiro gesto da militância polícia é dizer: eu penso e você não. Eu sei e você não.
Desmontar a polícia não é simples. Ela organiza nossos mundos complexos. Desmontar a polícia é poder ir a qualquer lugar, circular sem fronteiras, partir do princípio de que todos pensam e são inteligentes, de que qualquer um pode ser um interlocutor, é poder incluir a dúvida, o humor, a poesia e a espera.
8 abril 16

Talvez o provincianismo seja nosso também, mas é impressionante o tratamento que a grande mídia vem dando aos Panamá Papers.
O primeiro ministro da Islândia renunciou.
Cameron, primeiro ministro da Inglaterra, assume ter se beneficiado do paraíso fiscal através de contas do pai - e corre sérios riscos.
Sanders, pré-candidato democrata nos Estados Unidos, é lembrado pela ênfase com que se opôs ao tratado de livre comércio com o Panamá, em 2011: "O Panamá é líder mundial quando se trata de permitir que americanos ricos e grandes corporações fujam dos impostos nos Estados Unidos, levando seu dinheiro para esse paraíso fiscal.” Isso pode manter a série de vitórias que vem tendo nas primárias.
No nosso caso, uol, O Estado de S.Paulo e a RedeTV, tem exclusividade no acesso aos documentos vazados. A impressão que se tem é que funcionam como engavetadores. As matérias são lacônicas, não obtém nenhuma destaque ou simplesmente são abandonadas. Vale lembrar que “nossa” participação nos Panamá Papers não é nada pequena: membros de sete partidos, um juíz do supremo, o presidente da câmara, etc.
O engavetamento para o qual O jornalista Fernando Rodrigues colabora de maneira enfática cita uma pessoa que aparece nos arquivos da Mossack, ele escuta a pessoa, ou simplesmente a pessoa não responde e o interesse acaba.
Vejam o caso de André Meloni Nassar número dois do Ministério da agricultura e que responde pela Kátia Abreu (PMDB) quando ela não está. Ele aparece em um dos arquivos, não respondeu ao jornalista e talvez não mais ouçamos falar sobre o rapaz.
Dentre os tantos problemas que a atual crise traz, um deles é que nos tornamos monotemáticos.
Qualquer assunto fora da novela diária parece fadado ao desaparecimento. Sorte dos envolvidos na evasão de impostos e nas contas secretas reservadas aos riquíssimos.
Se um bom juiz de primeira instância levasse a sério os vazamentos do HSBC no ano passado e os Panamá Papers, pelo menos daria para mudar de canal.
7 abril 16

Esse é o momento.
Momento que poderíamos efetivamente assumir a democracia.
1- Qualquer cidadão sem condenação grave, morador do país há mais de um ano e maior de 18 anos pode se apresentar como candidato.
2- Um sorteio sem qualquer tipo regionalização é feito para substituir os 500 deputados – agora um pouco menos.
3- Os novos representantes escolhem um entre eles para ser o líder – primeiro ministro se quiserem.
4- Em quatro anos novo sorteio.