27 de mar de 2014

Porto Velho 4


Há menos de uma semana estava em Porto Velho, capital de Rondônia, na margem do rio Madeira, onde recentemente foram construídas duas usinas “fundamentais” para nosso projeto de país. Mais energia, mais consumo.
Uma parte importante de Porto Velho está literalmente debaixo d’água. O debate sobre a influência das usinas nesses alagamentos é controverso, mas o fato é que esse é o primeiro ano de funcionamento das usinas e as cheias são as maiores já vistas.
O debate sobre o que se passa no norte praticamente não existe por aqui.
De alguma maneira, é como se a Amazônia, fosse um outro mundo – uma natureza. Como se o que acontece em Porto Velho ou Rio Branco fosse apenas uma problema local, isolado e fruto das forças selvagens da natureza.
Mesmo que as usinas não tenham participação nas enchentes devastadoras, a natureza ali definitivamente está amplamente atravessada por muitas escolhas de mundo. Do 4X4 que transita na cidade e contribuem para o aquecimento global que aumenta o degelo dos Andes, aos novos prédios do Porto do Rio, em que o ar condicionado não é uma opção, mas uma imposição.
A cheia recorde era de 1997, quase 20 anos atrás. Hoje o rio está mais de 2 metros acima do nível de 97. Imagine isso dentro de casa. É essa a situação.
A gravidade do que acontece ali não é um problema local.

23 de mar de 2014

Porto Velho - uma breve passagem.

1
O Seu Rabelo é pescador, tem 63 anos e essa é a maior cheia que já viu.
Ele diz que as usinas de São Antonio e Jirau formaram um grande lago em torno de Porto Velho. Como o rio Madeira é muito barrento a força da água que passa pela usina empurrou o barro e represou a água. A casa dele está completamente alagada.
O Christyann, que mora aqui em Porto Velho, me conta que os estudos de impacto ambiental para a construção de Jirau apontavam para a possibilidade dessas enchentes.
Uma outra pessoa com quem conversei me contou de uma peça de Teatro que há três anos encenava o alagamento da cidade para criticar a construção da usina. Hoje a peça é feita na parte alagada.
O seu Juarez, também pescador foi enfático. Essa água não baixa mais. Vai descer um pouco, mas o alagamento da parte baixa de Porto Velho é pra sempre.
Bem, não tenho elementos para ter certeza de que as usinas são a causa direta da enchente, mas por aqui há um consenso.
Já a Dilma diz: “Não é possível olhar para essas duas usinas e achar que elas são responsáveis pela quantidade de água que entra no Madeira. […] É a gente diante da natureza e da força dela.”
Torço para a Dilma ter razão. Já o seu Rabelo, quando falei da força da natureza riu. Você acha natural milhares de caminhões de concreto no meio do rio Madeira?



2
Sérgio de Carvalho postou hoje diversas e impressionantes imagens da cheia aqui de Porto Velho.
Todos aqui nos lembram: - Você não imagina como estão as populações ribeirinhas.
Conversamos muito sobre a dificuldade das nossas imagens trazerem a gravidade do que acontece. Isso foi assunto com os ótimos professores do Inventar com a Diferença.
A água do rio está contaminada, o principal jornal da cidade diz que há risco de contaminação dos peixes, o cheiro é forte em muitas partes da cidade, 11 mil alunos estão sem aula enquanto todos esperam a hora de começar a limpar o barro.
Entretanto, o jornalismo parece ter nos anestesiado para as imagens de tragédia. As casas debaixo d’água parecem substituíveis; Camboja, Baixada Fluminense ou Porto Velho.
Mas, ao mesmo tempo, essas imagens são necessárias. São elas, também, que não permitem que nos contentemos com explicações constrangedoras como a de Dilma: “Forças da Natureza”.
Além de Jirau e Santo Antônio há o degelo dos Andes. No concreto que cruza o Madeira e no aquecimento global, estamos nós mesmos: engenheiros, cientistas, carros 4X4 andando pela cidade e uma lógica desenvolvimentista que apenas repete: consuma mais energia.
Amanhã volto a pé para o Rio de Janeiro. Até lá, mais uma imagem, de longe.


3
O encontro com professores, com o Christyann Ritse e diversas outras pessoas em Porto Velho, mas, sobretudo com o Sérgio de Carvalho, que vive há 10 anos no Acre, me fez perceber a intensidade das tensões e disputas que se dão na região.
Nas omnipresentes televisões de Porto Velho, o que víamos eram notícias do Rio e de São Paulo. Um assalto seguido de morte no Rio de Janeiro ocupava muitos minutos do telejornal. – isso no dia em que uma pesquisa aponta para o fato de o Brasil ter 16 cidades entre as mais violentas do mundo e o Rio de Janeiro não estar entre elas.
Quando estou aqui no sudeste, essa centralidade parece normal, esqueço que estou vendo notícias “nacionais”, em Porto Velho era só uma triste distorção.
No pouco tempo que estive em Porto Velho conheci médicos cubanos chegando para trabalhar em Rondônia, imigrantes haitianos que entraram pela tensa Brasiléia, no Acre, e encontram pequenos trabalhos também em Rondônia. Vi de perto as enchentes e as tentativas do governo federal em dizer que se trata apenas de um fenômeno climática – forças da natureza - , como se nem mesmo a pergunta sobre o “funcionamento” da enchente pudesse ser colocado. No mapa de Rondônia, por satélite, podemos ver ainda a intensidade dos desmatamentos - 140 mil hectares de soja. Sérgio me falava ainda de um embate que se aproxima, por conta da presença de petróleo em terras indígenas no Acre.
Energia, fronteiras, água, agronegócio, direitos indígenas; a sensação é que há um país em disputa no Norte, embates por mundos específicos em lugares frequentemente frágeis diante de macro-poderes.
Quando o Sérgio há dez anos atrás decidiu ficar por lá, entendi perfeitamente.



16 de mar de 2014

Diploma para jornalistas

A PEC que pretende trazer de volta a obrigatoriedade do diploma de jornalista explicita o temor em relação a esse novo regime de informação que se forja no mundo.
Da mesma forma que a Internet está em disputa, com as resistência a um Marco Civil que garanta uma internet livre, esse projeto de lei por um lado atende aos interesses de quem controla as comunicações e não quer perder a centralidade. – Sobre esse outros assuntos escrevi com o Ednei um artigo Nostalgia das centralidade - (revistaalceu.com.puc-rio.br/media/Artigo%2012_24.pdf)
Entretanto, não são apenas esses que defendem o diploma.
Em todos grandes processos de transformação político-subjetiva – pois é disso que se trata quando a produção de informação é transversal à toda sociedade – há um desejo de repressão que retorna com força.
Pedir a volta do diploma é como se nos colocássemos a gritar – reprima-nos, não suportamos tanta liberdade e responsabilidade.
Por um lado um processo de auto-repressão que internaliza um estado centralizador e pede limites de liberdade.
Por outro, são os macro poderes tentando garantir a exclusividade – impossível – de organizar as potências das tecnologias, discursos e afetos.

Greves do Garis 2



Em um outro post comentei a perturbação na partilha do sensível, como diria o Rancière, provocada pela greve nos garis.
Outro fato curioso foi a passagem do exótico ao político.
Em todo carnaval havia sempre um representante dos garis que tomava a cena. Um alegre e sedutor gari fechava algum desfile das escolas de samba e, no dia seguinte, ocupava a primeira página dos jornais.
O subtexto era óbvio: apesar de tudo, a alegria.
Pois esse ano o exotismo perdeu espaço. O exemplo de alegria, que não deixava de apaziguar a separação de classe durante o ano, nesse carnaval perdeu lugar para garis nada apaziguados ou exoticos, lutando por salários, explicitando que a cidade lhes pertence e que as capas dos jornais pouco suportam esse outro lugar, essa outra alegria.

8 de mar de 2014

A greve dos garis

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Tudo é racional no capitalismo, menos o capital” G & D

Na greve dos garis e na greve dos professores no ano passado, parece haver duas continuidades em relação aos rumos da cidade e o ambiente que se formou posterior às manifestações.
A primeira diz respeito à desregularização generalizada da cidade para que os grandes eventos aconteçam. Desregulariza-se para fazer valer as regras do mercado, as forças do dinheiro, as normas dos anunciantes. Com isso, pagamos 6 reais uma latinha de Coca-Cola em uma padaria de Copacabana, 3 mil o aluguel de um quitinete, as leis mudam, populações são removidas, etc, etc.
Pois, a cidade vale para todos. Garis inclusive.
Nesse momento o prefeito vem a público dizer: “a prefeitura não tem dinheiro para o aumento dos garis”. Talvez ele tenha razão, mas, diante da cidade que se organiza sem que o mercado tenha limites na exploração do comércio, do solo ou do tempo dos passageiros do transporte público, por que seriam os garis que deveriam aceitar um limite? Se a lei e as normas são mutáveis para o capital, por que para eles vale a racionalidade administrativa?
O prefeito argumento dizendo que não há dinheiro, ou seja, dentro da ordem estabelecida entre quem recebe e quem paga, os garis não podem receber mais. Em outras palavras: há uma ordem de exploração e essa ordem não será alterada, apenas administrada.
E ai entra o espírito pós-manifestações.
Se as manifestações fazem parte de uma profunda crise entre as produções subjetivas desejantes e as formas de produção e administração da comunidade, o que os garis estão a dizer é que o que está em jogo não é uma administração da exploração, mas que essa exploração tem limites.
Mais uma vez temos um preciso exemplo de porque à certos poderes interessa tanto falar em gestão no lugar de política.
Enquanto a gestão administra a exploração a política a torna insuportável.

5 de mar de 2014

Vivemos uma crise de valores, felizmente.


Passei os olhos na entrevista da Viviane Mosé no Globo e não dei atenção, raramente seus comentários na CBN me provocam o pensamento – o que certamente pode ser um problema meu, não dela.
Como alguns amigos levaram a sério o que ela disse, resolvi voltar a entrevista e lí os dois primeiros parágrafos com mais atenção.
Logo no início há uma montagem perversa entre múltiplas violências que acontecem no mundo. Para fazer tal montagem é necessário esvaziar todas as cenas, todos os contextos, todas as relações históricas e olhar apenas para a violência, para uma parte, frequentemente mínima, do evento. Como num jogo fetichista, todo o corpo social é excluído e fica-se apenas com um elemento, no caso a violência.
Há nesse início da entrevista uma associação que vem sendo construída pelo Globo e que a entrevistada se dispõe a ligar os pontos: as manifestações são violentas e há uma violência geral nas ruas, logo a violência é dominante, precisamos agir em nome da sociedade – contra manifestantes, contra fortões que espancam bandidos. Feita a associação entre formas explicitamente fascistas de violência e estratégias de resistência à violência do estado, justifica-se assim mais violência do estado – agora contra manifestantes que saem às ruas por melhores transportes ou que arranham a imagem dos patrocinadores da Copa.
Há uma segunda colocação que merece alguns comentários
“Existe uma crise de valores, então todo mundo está violento” Sim, ela tem razão, há uma crise de valores, mas não sei se é por isso que “todo mundo está violento”.
Assim como fazem muitos psicanalistas conservadores, ela se põe a lamentar a crise de valores. Não creio que seja o caso. O que vemos no país com as manifestações é efetivamente uma crise de valores, mas estávamos satisfeitos com nossos valores anteriores à crise?
Um crise de valores é uma transformação nos modos como entendemos a sociedade, nas formas como aceitamos as divisões dos poderes, nas estratégias de regulação de quem tem direito a usufruir da cidade e do tempo; uma crise de valores é a abertura de uma infinidade de possíveis. É sobretudo no campo do desejo mesmo que essa crise atua. A crise é uma fantástica abertura para se imaginar outro mundo, outros valores.
Sim, vivemos, felizmente, uma crise de valores e é lamentável que o estado, o capital, e todos nós não estejamos à altura dessa crise e que não tenhamos a capacidade de materializar formas mais democráticas de participação política, mais justas de acesso às riquezas materiais e simbólicas que produzimos.
A crise está instaurada, agora, que resposta temos para ela?
Bem, a resposta que temos visto é frequente violenta: da grande mídia, do campo jurídico, do capital e infelizmente, do pensamento também. Quando tudo está para ser pensado, são essas falas que dizem; pare de pensar, há uma crise de valores e isso não é bom.
“Como sociedade, não se pode deixar a violência como está”, diz Mosé. É verdade. Mas talvez tenhamos que incluir essas outras violências no hall fetichista da psicanalista.
Em um segundo momento da entrevista há mais uma típica nostalgia conservadora das centralidades discursivas: Ah, como era doce o tempo em que podíamos tudo controlar e essa gente não ia para a rua com suas bandeiras retiradas da internet.
Mosé diz isso da seguinte maneira: “Ele (o manifestante) abraça qualquer uma dessas verdades prontas que aparecem na internet, defendendo aquilo de maneira rasa.” Ou, com outras palavras, o povo não sabe o que está fazendo, diz ela. Pois, a crise de valores é justamente essa, talvez o povo saiba – no próprio corpo, na vida cotidiana - , mas os valores da psicanalista não dão conta de perceber a obviedade: os valores que ela representa não são mais suportáveis; eis a crise.