25 de abr de 2014

DG

DG
A mãe do DG, o rapaz morto no Rio de Janeiro pela polícia militar, faz política ao se recusar falar com o governador Pezão.
Abrir o palácio para essa mãe, nesse momento, é produzir uma igualdade que permite a estabilidade da desigualdade.
Me explico. O gesto do governador de convidar a mãe em luto para uma conversa aponta para o desejo de marcar um lugar comum aos dois.
Pertencemos ao mesmo mundo, diria o governador, compartilhamos o mesmo luto, podemos conversar.
Mas, que igualdade é essa? A igualdade que interessa apenas o poder. A igualdade necessária para fazer a mãe ouvir, entender as palavras do governador e voltar para casa, para o mundo em que seu filho faz parte dos matáveis.
Pois a mãe diz: Não há igualdade entre nós. Não compartilhamos a mesma possibilidade de fala, não vou te ouvir nem vou fazer do diálogo um produtor de um consenso que mantém o absurdo dessa morte.
Negar um diálogo com o governador é a forma mais efetiva de produzir uma igualdade. É nesse gesto que a mãe expressa o poder que ainda tem sobre seu luto, sobre seus sentimentos, sobre o que a devasta.
Com o chefe dos que mataram, não há espaço de troca que não seja uma forma de apaziguar a desigualdade, de negar a política – o contrário da igualdade. Aceitar o convite seria uma forma de recolocar o governador em seu lugar de poder e a mãe no de vítima, mesmo que haja indignação, seria uma forma de reafirmar esses lugares.
O que a mãe faz é outra coisa. Ela afirma o seu poder e explicita a incapacidade do governador de exercer qualquer poder onde realmente importa – na polícia.
Quando ela decide não ir ao palácio, isso impede o governador de falar, de controlar a desigualdade. O governador experimenta a impossibilidade da fala, do controle, do poder. Mimetiza os matáveis. Não ir ao palácio é colocar o governador no lugar do matável. O pior não é ter o governador nesse lugar, o pior é esse ser um lugar existente no Rio.

19 de abr de 2014

Rio de Janeiro, é hora de se dar bem.


Cada sujeito é essa bagunça; um mafuá. Atravessados somos por mil forças, desejos, tarefas, opressões. Nossos processos subjetivos, individuais e em grupo, são inseparáveis desse ir e vir entre nós e o mundo, entre o que conhecemos e vivemos e as condições que nosso mundo nos dá para efetivar nossas potências.

A cidade é parte fundamental dessas relações. Como escreveu uma vez Guattari, o destino da humanidade está diretamente ligado ao destino das cidades.
O destino da cidade que toca nossas vidas não é apenas material -  o transporte, a moradia, o uso do tempo – mas, também, os modos como somos constantemente modulados. Somos estimulados à certos processos em detrimento de outros, certas práticas em detrimento de outras.

No Rio de Janeiro, e provavelmente em outras cidades também, as intensas modificações produzidas pelos grandes eventos fazem com que cada faceta da vida comum seja atravessada por um estímulo bem claro: é preciso e possível a “se dar bem”.
A formulação corrente é:
Os preços na cidade estão surreais. Vou alugar meu apartamento durante a Copa por muitos e muitos mil reais! Ou “comprei um barraco na favela pra alugar pros gringos”.
Esse espírito à que somos estimulados não diz respeito somente ao mercado imobiliário, onde cada pessoa que possui um apartamento e não o aluga durante a Copa se sente um pouco otário, mas aos usos da cidade como um todo.

Os grandes eventos parecem ter levado ao limite uma prática predatória e de ganhos enormes e urgentes, típicas de lugares turísticos em alta estação. É preciso ganhar muito e rápido.
A hipercentralidade dos eventos tem data para acabar e até lá é preciso aproveitar. Isso serve para comerciantes, sindicatos, empresários, mas também para os sujeitos quaisquer. Olhar a cidade se torna uma busca de oportunidades, anunciadas sem qualquer constrangimento, muitas vezes por dia, em muitos programas de rádio ou TV.

Na bagunça que nos constitui estamos constantemente a receber esse estímulo e uma parte importante de nossas energias é tensionando essas palavras de ordem.

A comunidade parece viver uma mudança de perspectiva. Qualquer construção a longo prazo perdeu o sentido e pouco parece haver para além dos próximos dois anos. 
A velocidade do capital e de seus fluxos financeiros, que a cada quatro anos elegem uma nova sede Copas e Olimpíadas, parece ser hoje a velocidade que se impõe às nossas vidas. Essas devem se adaptar econômica e eticamente à cidade que nos é proposta.

Assisti ontem o delicado curta-metragem de Takumã Kuikuro, “KARIOKA”,  sobre a vida de sua família no Rio de Janeiro. Os olhares curiosos das filhas de Takumã, o prazer com o mar salgado, a descoberta de Beyoncé e da cidade grande trazem uma delicadeza para o Rio, uma cidade que construída por esses fluxos de poderes guarda possibilidades individuais e de grupo para escapar da lógica do “é preciso se dar bem”. As lutas estão em toda parte, felizmente. 

colóquio e manicure

Em Fortaleza,
Longas e intensas discussões sobre os limites da visão, sobre os modos como a centralidade do sujeito perceptivo é enganosa.
Saímos para almoçar e abordamos uma manicure na porta do salão para saber onde ficava o restaurante.
- Tá vendo aquela placa branca?
- Sim.
- Pronto. É lá. Olhando parece longe mas é perto!

A vida às vezes é bem simples.

13 de abr de 2014

O prédio da Oi

O cinismo e a dureza do estado, associados ao capital e à grande mídia, se expressam com agudeza nos ocorridos na desocupação feita pela PM do prédio da OI.
O argumento desses poderes é simples: são invasores, estão na ilegalidade.
Basta um rosto, uma palavra ou um carrinho de supermercado transportando restos de uma tentativa de casa para vermos que essa legalidade é o oposto da justiça.
O espaço era de extrema precariedade e mesmo assim foi ocupado por mais de 5 mil pessoas.
O destino da cidade não suporta o pobre que proibido de entrar pela porta, arromba a janela.
Não é por outro motivo que as vidraças da prefeitura são blindadas.

1 de abr de 2014

Ditadura e gestão

É muito impressionante que tenhamos chegado nesse momento da história do país vendo grandes meios como a Folha fazendo uma revisão tão positiva da ditadura.
Todos os fracassos sociais, éticos, culturais são esquecidos em nome de um discurso liberal que serve para justificar, se eles assim quiserem, novas ditaduras, novas violências.
Impressiona que a ditadura hoje não seja lida como uma tragédia em nossa história e que muitos venham a público armados de mentiras para justifica-la.
O que a Folha faz é dar à economia uma centralidade que coloca os números como uma medida para o que não tem medida.
O que aconteceu no país não pode ser lido por números, estatísticas e dados, mesmo que esses fossem verdadeiros. O que aconteceu no país durante os 21 anos demanda uma outra natureza de avaliação.
Quando o estado opta por matar física e subjetivamente sua população, essa opção não pode coabitar com argumentos lógicos racionais. Apesar de sabermos das opções desses grupos, o que lemos nesses dias não deixa de estarrecer.
O aniversário de 50 anos do golpe assustadoramente serve para justificar aquilo que parecia eliminado como possibilidade.
Em muitos lugares, como nesse editorial da Folha, a ditadura aparece como uma possibilidade de gestão. Eis a tragédia que se repete.