30 de mai de 2011

Montagem 3 e 4

Montar o tempo é fazer alguns instantes estarem mais próximos do que a inércia da cronologia nos faz sentir ou mais distantes do que a linha reta nos faz viver.

Montar é estender “uma linha sobre o caos” (Deleuze, Guattari) 

Montagem 1 –


fazer da informação uma força entre outras. Fazer da floresta um verdejar, um alongar em madeiras e um farfalhar sonoro.

A principal função da montagem é impossibilitar o isolamento.
Uma imagem se liga a outra, certo. Assim um tempo único atravessa duas ou mil imagens – planos em linha reta.
Mas, como já sabemos, o cinema é torto. A montagem não é construção da linha reta ou da base que permite a estrutura crescer.
Todo plano tende à informação, ou seja, tende a eliminar tudo que o compõe, limitando-se a apagar de si a multiplicidade, o resto, as sobras, os vazios e excessos. Diante da complexidade da floresta, vemos uma floresta. Diante de uma igreja gótica vemos uma igreja. Nada mais triste.

Montar, no interior do plano para que o plano resgate o que está li submerso, submetido a forças excessivamente presentes. Autoritarismo da percepção.

Juntar imagens para garantir que novas linhas não cessem de inventar relações.
 

Montagem 2 -

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Garantir a heterogeneidade das relações. Sair de casa e pisar no asfalto feito de petróleo. Atravessar a rua e ouvir um vendedor com sotaque coreano. 300 mil coreanos no Brasil. Carros coreanos atravessam as ruas. Navios atravessam o mar com carros coreanos e são vendidos em concessionárias espalhadas pelas novas avenidas da Barra da Tijuca, construídas sobre favelas  para que carros coreanos e brasileiros possam circular durante as Olimpíadas em que vários países orientais estarão representados.

A montagem pode ser esquizofrênica e nos impossibilitar de por o pé no asfalto. Mas que carros coreanos atravessam o oceano gastando petróleo no motor dos navios, é fato.

24 de mai de 2011

Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu e UFF


Inauguramos ontem o Laboratório Kumã, na UFF. Associação entre o departamento de Cinema e Vídeo e a Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu: http://escolalivredecinema.blogspot.com/2011/05/kuma-um-espaco-de-experimentacoes.html
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Viveiros de Castro sobre o pensamento yawalapíti: “Quando eu perguntava simplesmente a alguém o que significava o termo “(nome do animal)- kumã”, a resposta mais comum era: “bicho bravo, valente, grande, que ninguém vê”. Esse modificador (kumã) articula, assim, vários atributos: ferocidade, tamanho, invisibilidade... A sufixação kumã a um conceito – tipo marca uma alteridade. Essa alteridade é exterioridade, mas também excesso.

22 de mai de 2011

2011, a praça é a praça.


                                No mundo árabe e agora na Espanha esse movimento acentrado, multidões nas ruas, poderes sem resposta possível ou reação.
E nós nos perguntando, sem esconder um certo entusiasmo, que mundo é esse?
Que política é essa?
Veja, não quero me perguntar no que isso vai dar.
Se há algo muito forte nesses movimentos é justamente a impossibilidade de ele ser atendido com algum gesto de algum poder que se flexibilize.
Não há respostas prontas, não se trata da busca de um consenso qualquer, como normalmente entendemos a política.
O que há de perturbador nessa semana na Espanha é justamente a abrangência da demanda. Queremos democracia, nos dizem os milhares de manifestantes.
Mas, dizem os poderes, já há democracia. Todos votam, há liberdade de imprensa.
Mas democracia é muito mais.
Ai aparece o curto circuito entre a multidão de manifestantes e os múltiplos poderes que tentam por todo lado transformar o desejo de democracia em demandas objetivas.
A falta de emprego, a crise, a ausência de perspectivas de futuro, etc.
Ou seja, tenta-se organizar respostas possíveis dentro de uma mesma lógica, sem perceber que o que se passa traz um problema para a lógica de onde saem essas perguntas. Assim, não devemos perguntar o que querem os manifestantes, mas apenas perceber a evidência do desejo e o que eles estão efetivamente fazendo.

As praças ocupadas talvez precisem ser vistas como o fim e não como o meio para outra coisa. Se assim entendermos, talvez possamos arriscar algumas leituras.
Primeiramente, trata-se de fazer do espaço público um espaço comum. Isso me parece uma das coisas mais flagrantes. A Espanha talvez seja o lugar onde a mercantilização do espaço público tenha chegado aos maiores níveis.
Barcelona é uma cidade inacessível. Tudo parece organizado para turistas e compradores – ou seja, consumidores.
A praça ocupada faz do espaço público um lugar em que a cidade se inventa, se disputa.
Assim, não se ocupa as praças para se chegar a algum lugar, se ocupa para se retomar o que foi expropriado.
Trata-se de investir o espaço público de uma outra movimentação e de uma outra estética. Dominada pelos grandes outdoors, pelas pessoas com sacolas e por vitrines que inventam modos de vida; dormir na praça é fazer dela um lugar em que os amores, as festas e a luta se encontram; um  gesto essencialmente político. É para essa evidência que os poderes do estado, da grande mídia e do mercado parecem cegos.
Mas seria ingênuo dizer, trata-se da multidão contra o capitalismo, isso está na praça, mas, antes disso, há o desejo de inventar outra forma de estar junto. Pouca coisa?
Para entender o que se passa, não é preciso sair da praça.

Como diria o Rancière, a democracia é um escândalo. Ela não designa uma forma de governo, mas a possibilidade de um qualquer, vindo de qualquer lugar fazer diferença na cidade.
O que a praça faz hoje parece ser essa diferença. Uma diferença que escandaliza porque não há lideres com quem negociar, não há estado a combater, apenas a multidão fazendo da vida pública o seu gesto mais político; essencialmente nômade. A revolta vai se desfazer em algum momento e os poderes estabelecidos dirão: viram, não deu em nada! Claro, eles só sabem pensar na lógica do estado, na tomado ou não do poder. O que se passa na praça é irredutível  a essa lógica, o inimigo não será apontado como se houvesse uma solução do outro lado.
A democracia na praça é uma prática escandalosa e utópica ligada às relações e não à lógica do estado. O estado não acabará, mas é com o nomadismo da multidão que ele será tensionado. Isso não é pouca coisa. Essa política não é uma forma, não se estabelece nessa ou naquela medida, nesse ou naquele governo, mas estabelece para a cidade uma potência de variação contínua. Assim é a praça; um corte no espaço e no tempo da cidade que tudo perturba.
Na véspera das eleições, a Justiça Eleitoral espanhola proibiu as manifestações. O que aconteceu? Nada, na verdade, mais pessoas foram para as ruas. E o que a polícia pôde fazer diante disso? Nada. Claro, a multidão na praça não é um poder instituído que possa ser confrontado, mas um poder da   com limites invisíveis, reações descontroladas, sem medida possível, sem hierarquia e acentrado. De uma postagem em uma rede social qualquer às milhões de pessoas em milhares de praças no mundo há um corpo que se constitui, que não busca representação mas que é em si a política que atravessa os modos de vida e de fazer política.
Uma praça, a alegria e o trabalho de inventar o mundo.
buena suerte



15 de mai de 2011

Reforma Política - Paulo Teixeira

Bom texto do Paulo Teixeira sobre a reforma política. Entretanto há um ponto do qual discordo, referente ao voto em lista. Para o deputado isso diminuiria o personalismo das eleições. Essa é uma preocupação pertinente, mas será que a única forma é reforçando os partidos como eles existem hoje? Teixeira diz que essa proposta teria que ser acompanhada de uma reforma: "será necessário também discutir a legislação partidária". Sim, mas a proposta do voto em lista não pode ser antecipada a isso.
Da forma como a burocracia partidária funciona hoje prefiro o personalismo e as associações de momento e não programáticas.
Há ainda uma transformação das formas de representação que passa pela própria forma de o trabalho se articular. Como pensar o que é o trabalhador contemporâneo hoje, se quisermos pensar um partido dos trabalhadores? Tudo indica que o centralismo e a hierarquização que hoje organizam os partidos é uma forma de excluir do debate aqueles interessados em política. Ou seja, antes do voto em lista é preciso pensar esses partidos. Me parece que a militância hoje se organiza e se faz de maneira muito mais acentrada e por multiplicidade de interesses, menos classista, é isso que deve ser incorporado ao congresso.

14 de mai de 2011

O STF e o cinema


Nada entendo de direito e confesso nunca ter lido a constituição, entretanto, semana passada, quando da votação no Supremo Tribunal Federal sobre a união estável homossexual, um fato me chamou especial atenção.
Ricardo Lewandowski, juiz do Supremo, ao ler o seu voto fez menção aos debates que ocorreram durante a Assembleia Constituinte, em 88.

Transcrevo:
“Verifico, ademais, que, nas discussões travadas na Assembléia Constituinte a questão do gênero na união estável foi amplamente debatida, quando se votou o dispositivo em tela, concluindo-se, de modo insofismável, que a união estável abrange, única e exclusivamente, pessoas de sexo distinto. Confira-se abaixo:

O SR. CONSTITUINTE GASTONE RIGHI: - Finalmente a emenda do constituinte Roberto Augusto. É o art. 225 (sic), § 3o. Este parágrafo prevê:
‘Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre homem e mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento’ Tem-se prestado a amplos comentários jocosos,
seja pela imprensa, seja pela televisão, com manifestação inclusive de grupos gays através do País, porque com a ausência do artigo poder-se-ia estar entendendo que a união poderia ser feita, inclusive, entre pessoas do mesmo sexo. Isto foi divulgado, por noticiário de televisão, no show do Fantástico, nas revistas e jornais. O bispo Roberto Augusto, autor deste parágrafo, teve a preocupação de deixar bem definido, e pede que se coloque no § 3o dois artigos: ‘Para efeito de proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento’. Claro que nunca foi outro o desiderato desta Assembléia, mas, para se evitar toda e qualquer malévola interpretação deste austero texto constitucional, recomendo a V. Exa. que me permitam aprovar pelo menos uma emenda.
O SR. CONSTITUINTE ROBERTO FREIRE: - Isso é coação moral irresistível.
O SR. PRESIDENTE (ULYSSES GUIMARÃES): - Concedo a palavra ao relator.
O SR. CONSTITUINTE GERSON PERES: - A Inglaterra já casa homem com homem há muito tempo.
O SR. RELATOR (BERNARDO CABRAL): - Sr. Presidente, estou de acordo.
O SR. PRESIDENTE (ULYSSES GUIMARÃES): - Todos os que estiverem de acordo permaneçam como estão. (Pausa). Aprovada (Palmas). 1

Os constituintes, como se vê, depois de debaterem o assunto, optaram, inequivocamente, pela impossibilidade de se abrigar a relação entre pessoas do mesmo sexo no conceito jurídico de união estável."

Não deixa de ser interessante retomar esse momento histórico.
Entretanto, me causou estranhamento que o debate das intenções dos legisladores valesse para balizar uma interpretação da lei.
Certo, trata-se de um problema hermenêutico. É preciso interpretar a constituição para sabermos se esse tipo de família composta por membros do mesmo sexo não a fere. Entretanto, a partir do momento que as intenções dos legisladores passam a fazer parte do argumento, a impressão que tenho é que se perde o próprio texto.
Explico: A constituição existe e a interpretação será de um texto, de uma materialidade, com todos os desvios que possam acontecer nessa interpretação, entretanto não é qualquer coisa. Há um limite para a interpretação.
Minha impressão foi que com esse gesto argumentativo o juiz dava margem a uma interpretação que perdia qualquer referencial, ou seja, a própria constituição.
Como os deputados são representantes – e humanos - , eles estão repercutindo outras intenções e os debates sociais que os influenciaram, também.  Ou seja, entraríamos em uma universo sem nenhuma delimitação. No lugar de nos determos no presente do texto, faríamos um retorno aos infinitos debates, da câmara e fora dela. Perderíamos o real da constituição para entrar em um relativismo que tornaria toda interpretação válida.
Ler o real sem perdê-lo de vista, eis toda dificuldade da lei, da imagem e do cinema.


8 de mai de 2011

Moradia, remoção e olimpíadas


Sequência de fotos feitas na antiga Favela do Recreio, na Avenida das Américas, (06.05.2011)
Casa do Seu Carlos.
A prefeitura ofereceu 8 mil reais pelo seu quarto e sala e ele não aceitou.
Hoje sua casa está inviabilizada pelas obras do entorno; as paredes racharam, a luz foi cortada, os mosquitos estão em todos os cantos e a água das obras da prefeitura invadiu a sala. Ele teve que sair de lá e luta na justiça.
Seus vizinhos foram transferidos para 30 km dali, para a Estrada dos Caboclos.
(clique na foto para aumentar)