22 de fev de 2011

Ana Paula Santana, entrevista no O Globo




Tentando entender a entrevista da Ana Paula Santana, nova secretária do audiovisual (SAV/MINC).
            Na verdade, meu esforço é para não entender rápido demais a entrevista, uma vez que ela é repleta de elementos que indicam que a Secretaria do Audiovisual está abrindo mão de ser um contrapeso ao mercado e à retórica da indústria para se adequar à lógica que domina o audiovisual comercial no cinema e na TV. O discurso da secretária está distante do que tem aparecido de forte e potente no cinema e no audiovisual contemporâneo, uma força que passa pelas periferias, coletivos, festivais, cineclubes, distribuição digital, pontos de cultura, etc. Ou seja, uma produção e um acesso pautados por uma relação pós-industrial de trabalho, criação e também estética. Uma relação que não é um projeto utópico de cinema, mas uma contingência, um estado de coisas no qual estamos inseridos. (escrevi sobre isso em: Por um cinema Pós-Industrial na revista Cinética).
            Vamos a alguns pontos da entrevista:
            A ideia de coletivos criativos pode ser ótima. Como sabemos, grande parte da produção mais inventiva que tem circulado em festivais e mostras no Brasil e no mundo foi gerada em coletivos que em suas equipes e formas de trabalho questionam a tradicional hierarquização que o cinema herdou da indústria. O que Ana Paula parece desconsiderar na entrevista é que muitos coletivos criativos já existem no Rio e em São Paulo, como sempre, mas também em Belo Horizonte, em Fortaleza, Recife ou em Porto Alegre, apenas para citar os grupos mais ativos e bem sucedidos. Explicita-se nesses grupos uma ruptura tipicamente pós-industrial entre centro e periferia. Entretanto, o que a secretária espera desses grupos é que eles façam planos estratégicos, inventem marcas, sejam empreendedores. Espera que eles se adequem ao mercado e à lógica industrial. O que a secretária talvez não tenha tido ainda a possibilidade de ver é que esta produção já passa pelo mercado – ser exibido em Roterdã, por exemplo, é uma forma de estar no mercado -,  mas que ela se faz longe dos moldes da indústria, longe da lógica que faz com que o processo seja uma passagem ideal da ideia ao produto. Temos hoje a felicidade de ver uma produção que está em Berlin e Cannes, ganhado Brasília e Tiradentes, mas que não é feita dentro da lógica da indústria. No meu entender, apostar em processos é perceber o que existe e potencializa-los, o que é completamente diferente de uma modelização para as demandas do mercado ou para os buracos da cadeia produtiva. Na verdade, o próprio mercado não espera uma modelização, ele é feito com uma intensa demanda de invenção. Pensar com o mercado é pensar em formas de incorporar e potencializar o descontrole da criação existente.
            Assim, temo que o que a secretária chama de processo criativo é, na verdade, uma engenharia de produção em que o filme é um produto que deve fazer parte uma cadeia produtiva. Ou seja, os “processos” que não fomentarem a cadeia, não gerarem produtos competitivos, não devem existir. Dentro da lógica interna de sua reflexão, não há problema em pedir que os coletivos façam planos de negócio, criem marcas, e tudo que acompanha tal lógica – publicidade, público alvo etc - mas dentro da lógica do cinema pós-industrial, o mercado não os antecede. Ou seja, o mercado é o que pode se aproveitar dessas invenções, mas domesticá-la é uma forma de matar a criação.
            No momento em que a cultura se torna o paradigma do capitalismo, não podemos, nós da cultura, nos tornarmos nostálgicos da disciplina das indústrias. O exemplo de processo criativo dado na entrevista é paradigmático desse equivoco. O processo que Ana Paula Santana descreve do FICTV é, em certa medida, parecido com o bem sucedido DocTV, com uma diferença fundamental. O Processo do DocTV potencializava a criação descentralizada em que o mercado era um possibilidade, não o fim. Assim, não se estabelecia público alvo ou adequação a essa ou aquela classe. Quando o próprio estado decide fazer a separação entre arte para rico e arte para pobre – classe C, D e E, como falou Ana Paula – ele se torna um legitimador da falta de democracia em que alguns tem direito a certas experiências sensíveis outros não. Não é papel do estado decidir o que pode a sensibilidade do pobre.
            Se a arte ainda tem alguma potência é justamente a de dar a qualquer a possibilidade de uma relação estética com o mundo. Quando a escolha do que cada um deve ver é entregue para o mercado, como insinua Ana Paula, estamos, por um lado mimetizando o que a Globo, o SBT e a Record já fazem, por outro esvaziando toda possibilidade criativa tanto do público como dos produtores. O que a secretária coloca na entrevista é que para ela o gosto do espectador já existe, só precisa ser mapeado e atendido. Entretanto, se o cinema guarda alguma potência é justamente a possibilidade inventar formas de estar e se relacionar com o mundo, para criadores e espectadores,  formas que não são antecipáveis por planilhas, público alvo, marca, ou mercado.
            Se o cinema é uma indústria, minha argumentação não tem sentido algum. Entretanto não só o cinema não é uma indústria, como estamos em uma era pós-industrial e é no mundo atual, com suas possibilidades e limites, que somos demandados a pensar.
            Há ainda um outro ponto. Ana Paula Santana diz na entrevista algo que ouvimos também o cineasta Cacá Diegues dizer em recente palestra em Tiradentes: “que a produção se desenvolva no sentido de achar o público para sua obra”  Tal colocação parte do princípio que toda obra tem as mesmas possibilidades mercadológicas, o mesmo acesso às salas, a mesma publicidade, etc. Assim, privatizamos o fracasso e culpabilizamos os artistas e produtores. Não ser um sucesso torna-se um desacordo entre filme e público e não parte de condições dadas: falta de salas, salas ocupadas de maneira nada democrática, falta de filmes nacionais nas TVs, etc. Dizer que o filme nacional não atinge o público porque os realizadores o desprezam é o que mais interessa aos donos do mercado atualmente. Além, é claro, de colocar de lado o valor histórico e simbólico que uma obra pode ter, para além da imediata aprovação do mercado. Uma semana em Tiradentes com centenas e centenas de pessoas que raramente vão ao cinema assistindo a filmes que circulam na Europa, bastaria para vermos que o problema é menos das obras do que da organização do audiovisual contemporâneo.
            Finalmente, ao comentar a Carta de Tiradentes, ela diz que o circuito alternativo gera público mas não gera renda. Pois essa feliz constatação vai no âmago do problema contemporâneo. Os filmes existem e podem existir em número muito maior, o público os deseja, mas as salas não são feitas nem para esses filmes nem para esse público, pelo menos por enquanto. O que fazemos? Enquadramos a criação e inventamos produto para as roletas ou potencializamos a criação e o acesso? É o papel do estado que está em jogo.

19 de fev de 2011

Zizec e Globo News - "O Afeganistão se tornou fundamentalista porque ficou enredado na política mundial."

O Zizec falando é sempre divertido e com bons exemplos.
A Globo News consegue fazer um corte no momento que ele vai falar de Lula.
Minuto 14:38. Chega a ser patético.
http://www.youtube.com/watch?v=qdkrKeRPpYg

16 de fev de 2011

O MinC e a economia criativa



            Se era o embate que a nova equipe do MinC desejava com os interessados na instauração de novas regras para o uso da internet, o que passa por uma revisão dos direitos autorias, esse embate foi amplamente instaurado.
            Depois de um mês de governo há um profundo mal-estar em muitos atores da cena cultural brasileira, principalmente entre aqueles que mais apoiaram a eleição da presidenta Dilma. O mal-estar e a frustração talvez nos cegue para a discussão em torno da entrada das economias criativas no ministério. Me pergunto então: o protagonismo dado à chamada economia criativa no MinC é parte de uma mesma concepção privatista e liberal, como a que pretende abandonar os anos de debates feitos em torno do Direito Autoral?
            No momento em que o Minc vem sendo bombardeado por todos os lados é importante tentarmos encontrar as linhas de continuidade ou descontinuidade entre, por exemplo, a retirada do Creative Commons do site e a instauração de uma Secretaria da Economia Criativa.
Vamos ver...

            A noção de economia criativa foi usada pela primeira vez na Inglaterra, no governo de Blair em 1997, com o nome de Indústrias Criativas. Nesse momento, a definição de indústria criativa é: “indústrias baseadas na criatividade, nas qualidades e no talento individual” que tem “o potencial de criar prosperidade e empregos fazendo uso da propriedade intelectual” (Creative industries mapping document, 1998). Se é essa a definição que move o ministério, não há dúvida que a mesma lógica que o fez o abandonar o CC, move também a pasta da economia criativa. Mas, podemos estar enganados.
            De qualquer maneira, parece que há duas formas de entendermos essa economia. A primeira é focada no potencial econômico da criação. Ou seja, onde há criação o estado deve intervir para poder tirar dali sua função econômica. Nesse sentido, a questão dos direitos autorais tal como vem sendo recolocada pela Ministra Ana de Hollanda, é absolutamente pertinente. A restrição de acesso à criação pode ser importante para a economia, pelo menos de forma imediata e localizada. Nesse primeiro caso, trata-se de funcionalizar e fomentar aquilo que pode, de maneira rápida e palpável, gerar dividendos. A cultura se torna uma comoditie e como comoditie, pode valer a pena a monocultura. Nessa mesma linha, aquilo que não pode ser funcionalizado, que não trará dividendo ou que não pode ser transformado em capital, material ou imaterial, segundo o julgamento do ministério, não deve ser fomentado. Nos perguntamos então: o Ministério da Cultura é o ministério que irá compartimentar a cultura entre aquelas que são economicamente interessantes e aquelas que não são?
            Bem, é claro que o ministério pode ter vários papéis ao mesmo tempo, entretanto, se a cultura é o que interessa, não seria papel do capital identificar o que pode se transformar em produto ou mercadoria? Ao que me parece, no momento que o ideal econômico vem para o interior do ministério estamos invertendo os papéis. Que a cultura é capturável pelo turismo, pela moda, pelas redes sociais, etc. Não há dúvida. O desafio do capitalismo é inventar modos de vida e isso a cultura faz cotidianamente. Mas, trazer para dentro do ministério uma secretaria que cuide dos modos de captura, é excessivo.
            Entretanto, pode ser que estejamos falando de outra coisa. É preciso pensar economicamente a cultura como invenção cotidiana, na arte e fora dela. É preciso pensar na vida antes de chegar no produto; a cultura na sua imanência. Talvez o ministério da Cultura venha a nos surpreender propondo uma renda mínima universal (RMI). Ou seja, se a cultura é o que interessa como valor no capitalismo contemporâneo, se a cultura e os modos de vida desgarrados, não repetitivos e inventivos, são aptos a serem transformados em mercadoria – da cidade, à camiseta, da favela à Garota de Ipanema. Então, deveríamos pensar em uma agência de recolhimento para taxar todo produto que se inspire nas formas de viver dos sujeitos e na inteligência coletivamente, ou seja, tudo. Tudo seria taxado e cada humano receberia uma renda mínima para viver e continuar alimentando a economia criativa.
            Os indícios que temos nesse início de governo indicam que o primeiro tipo de economia criativa será privilegiado, mas, como já estamos nos acostumando a tomar sustos. Vamos ver.


Outros textos:


A genial matemática da Miriam Leitão;

Salário mínimo conseguiu recuperação histórica em 16 anos

O texto dela diz: "Em 16 anos, a partir de 1995, período que pega os governos Fernando Henrique e Lula, o aumento acumulado foi de 121,78%. Ou seja, o salário mínimo conseguiu uma recuperação histórica."

 Veja os gráfico: o primeiro referente ao mínimo em dólar e o segundo relativo à quantidade de cestas básicas que um mínimo pode comprar.




10 de fev de 2011

17:29
Talvez tenha sido esse o momento que Mubarak caiu.
Nesse exato momento a TV Estatal egípcia passou a transmitir as mesmas imagens da Al Jazeera.



duas horas depois: Errei!


20 horas depois:
A importância das redes sociais é enorme mas o golpe fatal é da grande mídia.

Mubarak cai.

Por um cinema pós-industrial

Os colegas da Cinética atualizaram hoje a revista com um artigo meu em que desdobro a fala que fiz na última Mostra de Tiradentes, já pensando o encontro que tivemos com a presidência da Ancine e os debates posteriores à Carta de Tiradentes.

Por um Cinema Pós-industrial

A questão hoje parece ser: como potencializar uma produção cinematográfica que soube se inventar em meio a condições novas, longe da lógica industrial. O papel do estado hoje é potencializar o descontrole.

9 de fev de 2011

MinC, Caetano e direitos autorias


O Caetano escreveu um artigo infeliz no O Globo sobre direitos e acabei deixando de lado. Não é de hoje que as opiniões políticas dele são pautadas por um privatismo retrógrado em que a democracia não é um valor de base. 
Nesse artigo ele foi fundo: dizer "A internet que se vire" é o mesmo que dizer F...-se o mundo. 
O que impressiona é a possibilidade do ser humano ser tantas coisas ao mesmo tempo, em uma vida só.
Ser um compositor genial - e aqui não vai nenhum exagero - e ao mesmo tempo ficar assinando recibo de ignorância e preguiça intelectual.

Mas, esses muitos Caetanos são divertidos apenas, papo fofoca, Zona Sul.

Entretanto, o uso que o Minc fez do texto dele em seu site não é nada divertido e retrata a gravidade do que vem acontecendo nesse ministério.

Primeiramente o Ministério publicou o artigo do Caetano na íntegra, com a defesa da atual lei dos direitos autorais:

"É porque acho que devemos respeitar os direitos autorais. Sem concessões. A internet que se vire. Ela e toda sua multidão de internautas em blogs e redes sociais que se vejam na situação de introjetar as leis da vida off-line, a nossa vida. Daqui de fora, podemos exigir."

Em outra parte do texto havia um grande elogio à presidenta e uma crítica ao Lula. 

"Lula era muito show business (eu já sou saturado do elemento)" 

Em várias redes, muitos acharam um absurdo o Minc reproduzir o texto do Caetano. Certo, era uma forma de reafirmar o que a Ministra vem dizendo e fazendo contra as iniciativas que pretendem dar um limite nos abusos da lei do direito autoral que hoje trata o autor como alguém do século XIX fazendo uso da lógica industrial do século XX em um ambiente pós-industrial. Ou seja, pela manutenção do lucro do Sorocaba e Vitor Chaves (os artistas que mais lucraram no ECAD 2010) vale compor um mix perverso com conceitos e noções que atravessam os séculos e ignoram o mundo. 

Mas, nesse primeiro momento não me pareceu um absurdo que o Minc colocasse o texto do Caetano ali. O site poderia ser um espaço de debate. Claro, seria importante acrescentar outros artigos: do Hermano Viana, do Sérgio Amadeu, do Leoni, etc. Reproduzir um texto, não significa, necessariamente, concordar com ele. 

O problema veio depois. O MinC decide editar o texto do Caetano retirando a parte crítica ao Lula.
É inacreditável a incompetência!

Ao fazer isso o Ministério assume o texto do Caetano como seu. De maneira definitiva assume uma posição em relação ao debate sobre os direitos autorais. Essa posição implica em um gigantesco desrespeito a todo o trabalho que foi feito durante os últimos anos. A proposta de revisão da lei que está no site do Minc (http://www.cultura.gov.br/consultadireitoautoral/) - espero que ali fique - recebeu milhares de propostas, foi muito debatida. Jogar esse trabalho fora seria absurdo mesmo se um governo de oposição assumisse. Nesse caso então....

O MinC está jogando fora o respeito e o trabalho reconhecido no Brasil e no Mundo. Esse é apenas mais uma caso. Mais do que fazer uma nova política, o interesse parece ser o esvaziamento intelectual do MinC retirando seu papel de propositor de políticas públicas e democráticas. Enquanto isso: Vale Cultura para serem gastos nos monopólios de sempre e praças standartizadas de Parintins (AM) a Santiago do Boqueirão (RS).


8 de fev de 2011

Biolutas, para o Célio

Caro Célio,

Acho que existia uma alegria ontem no encontro que estava concretizando o Núcleo de Biolutas por conta de uma percepção generalizada de que há uma militância com questões próximas e que hoje quer atuar com mais força no campo institucional. Pessoas que apoiaram o governo Lula, apoiaram a eleição da Dilma e que agora desejam que essa militância não seja apenas algo que se faça de fora, mas que ela se torne também ativa, no interior do PT.

Um interior estranho, é claro. Muitos dos que estavam lá ontem trabalham na cultura e na universidade e a liberdade de pensamento é parte fundante desses trabalhos. Nesse sentido, Ivana e Beppo lembraram a Universidade Nômade e a permeabilidade com a sociedade que move o projeto. As questões ontem foram essencialmente pautadas pela necessidade de levarmos a frente uma agenda que considere as condições contemporâneas do trabalho e que aprofunde o legado do governo Lula no que tange o potencialização da vida (biolutas) de todos e sobretudo dos pobres.

Falando por mim, diria que o rumo que o Minc está tomando sinaliza para uma evidente necessidade de lutarmos internamente. Não é possível que um governo de continuidade, apoiado pelas forças mais progressistas da cultura, seja entregue aos poderes que tanto bateram no governo Lula, sobretudo por conta das ações democratizantes que você conhece tão bem. Parabéns pelo trabalho.


Ainda não há uma agenda, mas o André Barros se encarregará de fazer uma próxima convocação, espero que possas estar presente.

abraços
Cezar Migliorin

6 de fev de 2011

O que é biopoder? Para um menino de 12 anos.

Meu filho de 12 anos me perguntou o que é Biopoder.

No Rio de Janeiro, a prefeitura decidiu, logo depois de eleita, fazer um "choque de ordem". Uma homenagem à nossa bandeira.
Um dos pontos centrais do choque é tirar os camelôs da rua. Muito bem. Em Copacabana então retirou-se todos os vendedores ambulantes de bebida, comidas, etc. Uma mês depois, o que vemos na rua? Ambulantes da Brahma vendendo chopp gelado. Bingo. Aquilo que os pobres inventaram e durante anos fizeram na rua, agora é capturado pelo capital.

É por ai....

Direitos autorais - ou como fazer a lógica industrial capturar as potências de vida





                             O debate em torno dos direitos autorias explicita a disputa em jogo em torno da criação. O direito autoral, na forma como é praticado hoje, coloca o artista na ponta da cadeia criativa, como se tudo que o antecede tivesse sido orquestrado por ele. Na lógica do direito patrimonialista, o artista se torna aquele que estanca o movimento criativo e coletivo e transforma o processo de criação, necessariamente transindividual, em produto privado. Isso significaria dizer que entre Vinicius de Morais e as moças que andam por Ipanema não há diferença de criação, que todos merecem o mesmo mérito? Talvez não. Cada vez que ouvirmos a canção de Vinícius, estaremos dando crédito ao poeta, pois ele organizou, de uma certa maneira, algo que não lhe pertence, as garotas e os acordes do violão. Assim, Vinícius merece o crédito e todo reconhecimento por essa determinada ordem, bela e poética, mas porque a criação deve parar ali? Porque este reconhecimento é necessariamente uma mercadoria? A lógica atual dos direitos autorias, sobretudo no que tange o direito de herança, estabelece que a cultura não é prioridade e sim a propriedade. Não seria a música do Vinícius mais um elemento no mundo, tão belo quanto o balançado das meninas que o compositor levou para a música?
                             O que está em jogo no debate em torno do direito autoral é a importância social de certas obras em que o artista não se torne um paralisador de um processo, como na indústria, e sim um agente em uma cultura em movimento. Haveria outro papel para o artista? Hoje, por exemplo, um filme não pode ser exibido em sala de aula sem pagar direito autoral e uma família tem o direito de privar a sociedade de um obra de um compositor durante 70 anos após sua morte. O anacronismo e a irresponsabilidade social de tais leis se tornam ainda mais graves quando os meios digitais permitem uma circulação infinita e gratuita dessas obras.
                             No campo da música, por exemplo, a possibilidade de se ganhar dinheiro fazendo cópias de discos durou um século, bem menos do que os milhares de anos de existência da música. Como vemos, a defesa dos direitos autorais atua pedindo escassez onde há abundância, barreiras onde pode haver acesso, interrupção criativa onde pode haver multiplicação, privatização no lugar de coletivização. Para refazer a lógica industrial no interior de uma era pós-industrial, sobretudo no campo da circulação de bens imateriais, a retórica de defesa do artista se tornou central. Essa centralidade é hoje frequentemente acompanhada da defesa do direito autoral, mas, mais do que isso, da defesa de um modelo hierarquizado e privatista, uma forma de administrar, e eventualmente destruir, uma potência de invenção e criação que está dada e que é comum.