31 de jan de 2014

O transporte no centro do jogo democrático.

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1 - o óbvio: moradia e transporte constituem os direitos mínimos na cidade.
Em um país onde uma massa de pessoas anda a pé porque não podem pagar o transporte ou em que o bilhete de ida e volta todos dias do mês consome um quarto do salario mínimo, a luta pelo transporte é central para que a democracia possa existir.
Para que o povo, o homem comum, possa usufrui e ter direito à cidade e à política ele não pode ser isolado de sua circulação.
Tarifa zero não é uma utopia mas o exercício da democracia.
Para a tarifa zero ser um projeto de longo prazo o preço transporte urbano não pode nunca mais subir.
2 - Quando vejo as imagens dos trabalhadores pulando as catracas da central o que está em jogo é a evidência de que as regras acordadas pelos poderes atuais colocam em risco a democracia mesmo, afogando os direitos dos cidadãos.
3 - Uma democracia se fortalece quando ela garante espaço de liberdade aos contra-poderes e a desobediência civil é inerente à democracia. Não aceitar o aumento da passagem é apenas uma antecipação da cidade que está sendo construída. Podemos fazer a tarifa zero lentamente, sem aumento. Mas se houver aumento ela será feita rapidamente, pulando-se a roleta, garantindo-se a democracia.

27 de jan de 2014

Cada um no seu quadrado

Esbarrei hoje em um texto do Daniel Bensaïd sobre a atualidade do Manifesto Comunista e ele me fez pensar em um conversa com amigos muito críticos àqueles que tem o usado o "não vai ter copa"
Logo no início ele cita aquele passagem clássica:
"Tudo o que era sólido desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar friamente sua posição social e suas relações mútuas”
Depois o Bensaïd continua para pensar a Globalização dos anos 90 (o texto é de 98).

Se há um processo de transformação dos lugares sociais - pela educação, consumo, estética, trabalho - o que a Copa traz - pelo menos em seu imaginário, fortemente sedimentado pelo estado e pelo capital - é justamente o contrário, ou seja, um esquadrinhamento duro das posições sociais e das relações de classe.
Para a Fifa pobre é pobre, rico é rico e a mulata...
Enquanto temos um país que se transforma, a Copa aparece como símbolo da negação dessa transformação.
No meu entender não há uma linha de continuidade melhorias sociais - Copa do Mundo. Pelo contrário. Simbolicamente a Copa é muito mais conservadora do que os processos de transformação social em curso.
Nesse sentido, não acho justo colocar aqueles que se manifestam criticamente em relação à Copa como opositores do país ou como opositores dos pobres.
Também me parece injusto cobrar dos críticos uma adesão ao governo, mesmo que seja o governo que apoiamos. Tal exigência reduz excessivamente a ideia mesmo de democracia.
Ao que tudo indica; vai ter Copa.

11 de jan de 2014

Na agência de Publicidade 2

- Tá todo mundo achando que o índio é o que tá levando a pior agora.
- Pra esse pessoal, Copa e capitalismo é a mesma coisa.
- Eles misturam tudo: índio, Coca Cola, Copa...
- China...
- Que China porra?
- Sei lá... China, tudo agora é China...
- Caralho!
- Porra, se tiver manifestação por causa de aldeia, por causa de índio, de remoção e essas porras todas durante a Copa, pra gente é uma merda!
- Uma merda.
- Uma merda.
- A gente tem é que dizer que a Copa é de todo mundo.
- A gente já disse.
- eu sei porra... No anúncio do nordestino com o sem perna.
- Já ganhamos um prêmio com aquele filme!
- E premio para manifestação, porra?
- Na China não tem manifestação.
- Porra, tu pode acabar com essa história de China?
- Mas é que...
- é isso.
Silêncio na reunião. Todos olham os iphones discretamente.
- É isso. Temos que trazer o índio para o nosso lado.
- Claro.
- Será que não vai ficar com cara de cota?
- Que?
- Porra de cota!
- É assim: o sem perna e o nordestino estão funcionando.  O pessoal tá entendendo que a Copa é de todo mundo.
- Ontem queimaram uns pneus na Mangueira.
- A Mangueira apaga essa porra de incêndio.
- hahahahaha!
- hahahaha!
- Então é nessa linha que vai.
- Agora é índio.
- Depois os crackeiros!
- Porra, ai também não.
- Manda fazer o cartaz do Indio bebendo Coca, diz que a Copa é de tododumundo e depois a gente pensa nessa história do crack.
- Valeu galera.
- Partiu!
- Fui.
- Já é!

4 de jan de 2014

A terra

Na imprensa,
Onda de frio e calor no mundo é uma questão de records e não de capitalismo.

2014 - o povo ignorante de O Globo

Editorial do O Globo de hoje.
Não é possível um plebiscito sobre a reforma política porque o povo é ignorante.
"Como o eleitorado pode decidir com equilíbrio entre "lista fechada" ou "aberta" se a grande maioria da população não tem ideia do que se trata?"
A retórica de que o povo não sabe escolher, não sabe voltar, não consegue se informar abre o ano para a elite.
Para esses mesmo é insuportável que o "eleitorado" frequente shoppings, aeroportos, universidades ou saia nas ruas para manifestar, afinal de contas, em suas ignorâncias, eles não sabem o que querem.
O ano promete.


A lógica do Jornal é a mais simples. Existem os que sabem e existem os outros. Existem os que tem legitimidade para falar e os que não. Existem os que tem autorização para decidir sobre o país - pela grana, pelo diploma, pela fama - e os que obedecem. Para isso é importante manter uma democracia controlada pela mesma lógica - grana e fama. Qualquer coisa que possa embaralhar esses papéis ganha nomes bem específicos: caos, vândalos ou povo mesmo.


Lembrando:
ABC da Greve - Leon Hirzman 1979.
Na fábrica o industrial diz: "nos paises comunistas nós não vamos encontrar um diálogo franco entre industrial e empregado. Nós aqui não temos distinção. Então, a abertura que o governo deu, em parte ela é boa. Vamos convir uma coisa: que ainda o nosso povo não está preparado para uma abertura total. O povo brasileiro teria que amadurecer mais um pouquinho para ele entender um pouco melhor o que é democracia"

Reveillon em Copacabana

No maior reveillon do mundo as ruas ficam tomadas por publicidade com "temática de cinema."
é assim que a franquia Rio2 apresenta seu design triste para a política de boa vizinhança do momento.




Há um espaço em disputa, entre aqueles que tem o direito de usufrui a cidade, a vista e tudo que a cidade tem para nos oferecer e a forma como essas coisas se tornam comodities apropriáveis pelo capital.
É duro ver a paisagem de Copacabana ocupada por palcos, vinhetas da Globo e essa publicidade tosca.
Mas, ocupar o espaço é mais do que uma distribuição do território da praia, é uma ocupação simbólica. Aquilo que era a festa para Iemanjá, com as luzes e sons, expulsou aqueles que inventaram a festa na beira do mar, por exemplo.
As coisas mudam, é verdade, mas essa publicidade, mais do que pagar a festa, defini o festa e a cidade, e ai, como sabemos, quando a cidade está entregue ao capital, é a barbárie.


Voltando à publicidade. Ela explicita como estamos em uma cidade que produz limites muito frágeis contra a barbárie do capital.
A mesma força que ocupa o espaço público com logos gigantescas é a que faz o recolhimento compulsório de menores.