18/05/2013

Sobre Lar Doce Lar - Carta aberta ao apresentador Luciano Huck

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Prezado Luciano,

                  Um dos prazeres da TV é o zapping. Ser levado de uma palavra a outra, operar por montagem, colagens de fragmentos sem nenhuma continuidade no tempo ou no espaço, à exceção dos fragmentos estarem sendo exibidos no mesmo momento. Em um desses cortes entre canais, sou levado ao seu programa Lar doce Lar. A existência do programa não me era estranha, os programas de massa nos chegam mesmo que não os busquemos, o que não é de todo mau.
                  Se hoje reservo uma parte de meu tempo para te escrever é porque o que vi me fez pensar intensamente em meu trabalho e, também, me motivou a te convidar para que venhas conhecer um pouco do que fazemos na universidade.
                  Quando uso a primeira pessoa do plural, não é apenas por modéstia, mas por entender que há hoje uma importante reflexão no Brasil sobre o cinema e o audiovisual e a relação com o outro, sobretudo com o outro de classe, com os pobres. É sobre essa relação que gostaria de fazer alguns comentários. Na verdade, essa é uma forte tradição da reflexão e da prática audiovisual. Podemos dizer que uma considerável parte do cinema de não-ficção feito depois dos anos 50 foi atravessado pelo questionamento que os realizadores se colocavam sobre as possibilidades, sentidos e éticas produzidos na relação com o outro, com o povo – como chamou Bernardet no livro de 86, Cineastas e Imagens do Povo.
                  Podemos dizer que essa é então uma carta-convite para que te aproximes de um certo universo da prática e da reflexão a cerca da produção de imagens sobre homens e mulheres comuns. Pessoas que não fazem parte do universo do espetáculo, que não compartilham o tom da linguagem dos grandes meios ou que, simplesmente, não tem tempo para outra coisa que não a reprodução de suas condições de vida.
                  Mas, deves te perguntar, o que no programa Lar Doce Lar motivaria esse convite? Como disse, o que vi me mobilizou em relação ao meu próprio trabalho.
                  A universidade é constantemente criticada pelo seu isolamento, pela forma como os doutores falam apenas para eles mesmos, como se a “a-vida-real” não existisse. Tal crítica não é infundada, porém, por vezes esse isolamento é necessário, uma vez que para se fazer algum progresso nas ciências, a dedicação à questões microscópicas, de pouco interesse midiático ou instantâneo, é necessário. Felizmente alguns estudam as “negativas nos textos de Platão” ou as oxitocinas. Entretanto, tal isolamento por vezes é apenas uma forma de defesa, de não colocar a prova o próprio pensamento. No caso dos pesquisadores de cinema e das mídias contemporâneas, me parece que esse risco é menor, uma vez que os trabalhos se dão imediatamente sobre objetos que marcam nossas formas de ser e pensar hoje.
                  Quando assisti o teu programa gravado em Parapuã, o isolamento da universidade me tocou. Me perguntava com sincera curiosidade: o que aconteceu com o que se escreve há 50 anos sobre o audiovisual que se relaciona com pessoas comuns, com o povo? Será que tantos pesquisadores brilhantes escreveram só para si e para os colegas? Essas perguntas se fizeram urgentes na medida que minha impressão era de uma absoluta distância entre o que se pratica no campo do cinema, sobretudo aquele ligado ao documentário, e o programa que eu assisti. Claro que você também poderia se perguntar, o que acontece com a universidade que ainda não incorporou a nossa estética e a nossa bem sucedida forma de fazer um audiovisual popular e rico?
                  Se me permites, vou pensar o Lar Doce Lar a partir do registro do documentário, uma vez que ali estamos diante de pessoas reais que têm vidas antes do programa e continuarão a pagar as contas do final do mês e a ir ao dentista depois que os caminhões e geradores a diesel da Globo deixarem a cidade. Estamos no registro documental, uma vez que as pessoas vibram e sofrem de verdade, ou seja, estão implicadas no programa como sujeitos.
                  Há um momento em Lar Doce Lar que me parece emblemático do isolamento do nosso trabalho em relação ao que se faz no teu programa. Antes porém uma sinopse para os que não conhecem o programa e lerão essa carta aberta.
                  Corrija-me se estiver errado, mas o programa funciona da seguinte maneira: qualquer pessoa do Brasil pode escrever uma carta para a Globo contando a sua história pessoal e fazendo a conexão dessa história com a sua própria casa. No programa que assisti, uma dona de casa chamada Marlene, ex-boia fria e ex-maratonista, tendo estado inclusive nas Olimpíadas de Atenas, não conseguia concluir sua casa, em obra há 10 anos. Selecionada pela produção, a casa de Marlene é reformada pela emissora. O programa de mais de 20 minutos que assisti no sábado acompanhava a entrega da casa, nova em folha, à família de Marlene.

Destruir e modelar

                  Voltemos então a um momento que me parece dos mais relevantes. Depois da casa ser entregue e acompanharmos a emoção da família e as opções estéticas do programa para organizar e decorar a casa, chegamos ao fundo do terreno onde, antes da reforma, havia apenas um quartinho.
                  O diálogo que acontece nesse momento é especialmente revelador. O que surpreende é que ele possa acontecer de maneira tão explicita e ser mantido na edição. Depois de Marlene e o seu marido narrarem que foram eles que construíram uma parte da casa e que Marlene, grávida de sua filha “batia massa” para o marido, você se desculpa por ter destruído tudo: - Eu peço desculpas por ter derrubado o trabalho de vocês. Na continuação da sequencia, o diálogo explicita o que há mais duro na ação do programa. Transcrevo na íntegra o diálogo que acontece depois que tu mostras para o casal o banheiro nos fundos da casa:
Luciano - Gostou dessa parte Marlene?
Marlene - Adorei
Marido de Marlene - Você acha que é simples né? Simples mas melhor do que o nosso.
Luciano - Não, mas é diferente. O de vocês, vocês construíram os dois, com o dinheiro que vocês tinham, vocês subiram os tijolos, não tem explicação, ali tinha uma vida inteira, tinha uma poesia. A gente é um programa de televisão, a gente é a TV Globo, a gente vem e faz. A gente tenta realizar o sonho da família, mas aquela casa que tinha aqui tinha a história de vocês.
                  Talvez tua equipe tenha optado em deixar esse diálogo na edição para explicitar, de maneira reflexiva, a violência da presença da Globo naquele lugar. A tua consciência sobre o que a Globo faz é certamente tão pertinente quanto o que diria qualquer critico do programa. Tuas palavras tem a precisão de constatar a violência e tornar obsoleta qualquer critica. Mas, mesmo assim, esse teu texto, me desculpe a agudeza da crítica – que insiste, apesar de tudo - , não pode ser dito e editado sem uma alta carga de cinismo. É como se a crítica que o programa poderia receber já tivesse sido incorporada por ti e pela Globo, para que possas dizer: é isso mesmo; destruímos a história, destruímos o trabalho dos outros, destruímos a poesia porque somos a Globo e a gente faz.
                  Mas a nova casa é muito melhor que a anterior, poderias dizer. É verdade, mas para que a nova ordem na vida dessas pessoas possa se impor, o programa depende da enorme carência de seus personagens. Só na grande carência os moradores da nova casa perdem o direito de manter uma cadeira velha ou um almofada que destoe na decoração pensada pela Globo.  Em cada lugar que teu programa encontrou marcas pessoais e subjetivas, a produção conseguiu eliminá-las. Não se trata de levar mais conforto para os mesmos sujeitos, poderíamos dizer, mas criar sujeitos novos, com novas circulações, novos hábitos, como se explicita na horta criada pelo programa, na churrasqueira e na hidromassagem, elementos que além de trazerem conforto, colocam aqueles sujeitos em outro lugar nas práticas de consumo.
                  Sabemos, com pensadores como Gilles Deleuze e Lyotard, que é próprio ao capitalismo um fragilização dos códigos que organizam as formas de vida, permitindo um movimento libidinal que impulsiona novas formas de consumo. Nada menos interessante ao capital que identidades fixas e imutáveis. Lar doce Lar parece levar  ao limite essas desterritorializaçoes subjetivas na adequação ao consumo.
                  O que insisto, Luciano, é que para reformar a casa, a Globo destrói um lar, modela espaço e destrói o território. No lugar do lar se cria um espaço espetacularizado à imagem da emissora. Se esse movimento é bom para a família, pelo menos inicialmente, ele não deixa de ser um gesto violento, uma vez que desconsidera que um lar é uma construção de quem nele mora e não uma imposição de quem vem de fora. Seria melhor nada fazer? Não, mas é apenas a partir da carência do outro que a emissora pode ser violenta.
                 
Excluir e isolar

                  Uma outra forma de filmar a entrega da casa me chamou atenção. O programa utiliza pontos de vista da casa em que jamais podemos ver o entorno. As outras casas do bairro não foram reformadas e, além disso, foram obliteradas.
                  Não há contexto, não há comunidade, apenas hiperconcentração no indivíduo.
                  O contexto que vemos é uma massa em forma de auditório, impossibilitada por grades de entrar na cena e compartilhar a alegria da Marlene, ou estabelecer alguma relação crítica. Para o programa só existem dois sujeitos: aqueles que pertence à família que conseguiu entrar no espetáculo e “se salvou” e os outros que, infelizmente, não tem uma boa história para contar e garantir um acessão social.
                  No primeiro programa sobre a Marlene, que assisti no site da Globo, há uma edição com a fala de vários conhecidos em que se enfatiza que Marlene merece o que está acontecendo com ela, que ela faz jus à casa nova com seu esforço e trabalho. Mas, o que isso quer dizer? Que as outras pessoas da comunidade não merecem? Não, o programa não diz isso. Entretanto, a pergunta que deveríamos fazer é quem não merece? Qual o ser humano que não merece? Nesse sentido, a singularização de uma personagem como aquela que deve ser contemplada e marcada com uma diferença faz o contrário da política. Se a política pode ser pensada como esforços e tensões para o bem comum, aqui o bem é privado, exclusivo. Nesse sentido, saem os cidadãos e entram os consumidores. Elimina-se a comunidade e privilegia-se a diferença pela privatização dos bens. Se politicamente houvesse alguma relevância no seu programa, a ação não seria  individualizada, mas coletiva.
                  Talvez eu exija demais de uma emissão de TV, mas uma vez que o programa se propõe a uma intervenção direta no real, esses aspectos não podem ser deixados de lado. Quanto mais o programa faz por uma pessoa, mais atrelado à lógica do consumo e da eliminação da política ele se torna.
                  Se, por um lado, a concentração em um problema individual desfaz a política e enfatiza o consumo, por outro, essa concentração na história pessoal é feita de modo a pegar a história pessoal e eliminar os sujeitos. Essa supressão do sujeito está presente na maneira como a reforma é toda feita sem nenhuma ingerência das pessoas que vão morar na casa. A Marlene e a sua família irão receber uma casa infinitamente melhor que a casa inacabada que deixaram para trás, mas, o gesto do teu programa é baseado na eliminação das necessidades, gostos e expectativas dos moradores da casa em relação ao seus lares.
                  Impressiona que a reforma não seja apenas de ordem estrutural, mas estética, subjetiva. Trata-se de melhorar, de acordo com a lógica do programa, o lugar em que se mora, mas também as escolhas de como se mora. Para isso, o programa pinta paredes, coloca desenhos, escolhe brinquedos para as crianças, entrega um Ipad para um menino que ainda não deve saber escrever.  A nova casa não é propriamente uma intervenção no lugar de moradia, mas a imposição de um mundo sensível e simbólico.           
                  Novamente, trata-se apenas de uma emissão televisiva, mas que é atravessada por um discurso de justiça.  - “Todo atleta merece respeito”, ou “Temos que tratar bem os atletas no Brasil”, tu disseste na abertura do programa. Deveríamos insistir na pergunta. Quem não merece respeito? Quem não merece ser bem tratado no Brasil? Percebe meu ponto, meu caro Luciano? O programa, por um lado se coloca como uma emissão que faz o bem e, ao mesmo tempo que reclama por justiça, na sua prática e estética elimina aquilo mesmo que pode gerar alguma transformação, seja para os atletas, seja para qualquer sujeito, a política, substituída pelo consumo individual.

Entrar na casa

                  Se historicamente o documentário traz como uma de suas marcas a audácia de entrar na casa das pessoas, de Nanook a Edifício Master, passando por clássicos fundadores do cinema moderno como Salesman, de Robert Drew e Crônica de um Verão, de Rouch e Morin, -  caso não conheças esses filmes, fica aqui um novo convite, todos eles disponíveis no Departamento de Cinema da UFF. No teu programa são os moradores que deixam as casas para depois serem recebidos pela produção que já está na casa quando os moradores chegam. Para poder filmar o rosto dos personagens há uma câmera que aguarda a entrada da família dentro de cada cômodo, explicitando a quem, efetivamente, pertence o lar.
                  Caro, esses breves pontos são apenas algumas observações de quem, por um lado, admira a possibilidade de uma emissão televisiva falar para milhões e milhões de pessoas, é preciso talento e competência para isso, mas que por outro, percebe múltiplos níveis de agressão com as possibilidades de vida e com as possibilidades sensíveis das pessoas retratadas. Uma agressão que é menos individual do que coletiva, uma vez que faz de todo e qualquer mundo estético e sensível, uma reprodução de algo pronto e pensado no Rio de Janeiro.  A Globo faz, é verdade, mas que pena que para isso os sujeitos precisem desaparecer, transformados em narrativas espetaculares ou simplesmente deixados atrás das grades que os separam da cena.
                  Podemos mais.
                  Vamos aos convites: no momento temos um grupo de estudos todas as quintas, no Laboratório Kumã de pesquisa e experimentação da imagem e do som, no IACS (Instituto de Artes e Comunicação) em Niterói em que, justamente, estudamos os gestos do documentarista na abordagem e na relação com a diferença; com o outro de classe, por exemplo. Nesse grupo vemos e debatemos filmes e trabalhamos com textos sobre arte, cinema, antropologia e filosofia. Próximo encontro:
Dia 23 de Maio – conversa sobre  o livro de George Didi Huberman – A sobrevivência dos vagalumes.
Seja bem vindo.



Meu cordial abraço
Cezar Migliorin

Chefe do dep. de Cinema e Vídeo da Universidade Federal Fluminense

11/04/2013

Cultura e cinema: breves notas do Rio de Janeiro

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                  A circulação do pensamento em uma comunidade é um mistério; ele tem seus tempos próprios e certamente não anda em linha reta.
                  Durante os vários anos em que Gilberto Gil foi ministro, tínhamos a impressão que o debate sobre a relação entre estado e cultura havia atingido uma complexidade que parecia ser da própria sociedade. Infelizmente não é bem assim. Não se trata aqui de nenhuma nostalgia em relação a um modo de gestão, mas uma constatação de que o debate se empobreceu, o que gera ações mais frágeis também.
                  A mais significativa transformação é a naturalidade com que em várias instâncias do estado e da sociedade alinham a reflexão sobre cultura com as formas de operação do capital. Nessa lógica, pensar a cultura a partir do estado significa colocar o estado como um agente de ações que possam desenvolver mercados e indústrias.
                  Tal alinhamento produz, antes de tudo, uma constrangedora redução da cultura. Se empresários, sejam eles ligados ao cinema, TV, teatro ou artes plásticas vêm a público corroborar esse lugar da cultura em um país, podemos dizer que estão focados em seus interesses econômicos legítimos e centrais, apesar do aspecto “nobre” da cultura por eles ser sempre evocado. Entretanto, a naturalização do discurso que transforma as ações do estado na área da cultura em ações pautadas pela lógica do emprego e do PIB, traz sérias consequências para a noção básica que diz que a cultura está ligada às possibilidades sensíveis de todos, o que se expressa no consumo, o mais diversificado possível, na produção, que deveria ser democrática, mas, sobretudo, nos modos de vida, nas formas de fruir o tempo e o espaço em que vivemos.
                  O que temos visto nesse discurso uníssono que transforma a complexidade da cultura de um país, ou de uma cidade, em uma commoditie a ser operada pelo capital através das chamadas economias criativas é um aplacamento do espaço público como espaço de debate e experimentação das possibilidades de um povo. Quando tudo é pautado pela economia é a própria noção de cultura que deixa de interessar.
                  Agora, esse diagnóstico significa uma recusa da cultura como geradora de valor material e de empregos? Obviamente que não! De outra maneira: questionar a retórica da indústria não significa negar a importância de uma indústria cultural forte.
                  Nesta semana, no louvável encontro para discutir o Plano Estadual de Cultura do Estado do Rio de janeiro, promovido pela Secretaria de Cultura*, que curiosamente aconteceu na sede da Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro), a pauta da economia dominou as falas. Trata-se se um encontro focado no cinema e no audiovisual onde os problemas apresentados giravam em torno de como trazer empresas de São Paulo para o Rio, como criar empregos, como dinamizar a indústria. Novamente, se cultura tem esse potencial que ele seja reforçado, mas quando é nesses termos que toda a significação da cultura se organiza, estamos perdendo algo. Estamos deixando de lado o papel que o estado pode ter no fortalecimento das expressões e invenções que estão latentes na sociedade. Se a presença do estado é pautada pela potencialização do capital – sem pensar o que deve ser produzido, como pede Cacá Diegues ou apenas fazendo retornar para iniciativa privada o capital que já era da iniciativa privada, como defendeu Marco Aurélio Marcondes – ambos no centro da mesa - estamos antes de tudo abrindo mão do estado como uma instância decisiva na promoção da democracia e da igualdade da produção e do consumo de cultura. Em outras palavras: a presença do estado não é necessária para dizer o que deve ser produzido, Cacá Diegues tem razão, o problema é que quando o estado se abstêm, o que acontece é justamente o contrário; os monopólios se fortalecem e a homogeneidade estética é reforçada – estamos no caminho oposto da própria noção de cultura como aquilo que pertence a um povo, que se preserva e se transforma, simultaneamente.
                  Em relação aos incentivos fiscais, bem mais que devolver para o setor privado o imposto recolhido, a tarefa do estado é fazer com que o imposto corrija distorções, garanta a multiplicidade de formas da cultura existir e, claro, possibilite uma auto sustentabilidade do setor. A distorção é fazer do imposto um prêmio para aqueles que já estão inseridos em uma cadeia econômica lucrativa, como recentemente anunciou o presidente da RioFilme. Os  filmes que mais tiveram lucro tem direito a mais dinheiro do estado.
                  No ponto em que estamos, se tivéssemos um capitalismo ativo e não monopolista, as coisas estariam melhor, o mercado poderia ser efetivamente ocupado com a diversidade do que existe. Entretanto, a tendência monopolista na cultura e em especial no audiovisual é o que colabora para o seu enfraquecimento simbólico, estético e econômico. Não existe oposição entre cinema de mercado ou não, mas existe uma ordem que impossibilita que o mercado exista para grande parte dos que produzem objetos culturais.
                  Quando foram criadas as cotas de produção brasileira e independente para a  televisão a cabo, o problema central ali era o mercado e a inclusão de uma produção alijada das disputas por esse espaço. São gestos como esse que fazem com que mercado e indústria deixe de ser uma retórica apenas. Mas, como pensar em desoneração para entrar na guerra fiscal com São Paulo mas não estabelecer limites às tendências monopolistas das salas de cinema e à TV aberta?
                  Assim, em muitos discursos, a indústria não aparece como uma lógica de ação para uma determinada maneira da cultura circular, mas como uma retórica que organiza toda a relação do estado com a cultura. Lembremos que recentemente o Senador Cristovão Buarque propôs uma lei que obriga que duas horas de cinema brasileiro sejam exibidos nas escolas todas as semanas e um de seus argumentos era: “a única forma de dar liberdade à indústria cinematográfica é criar uma massa de cinéfilos que invadam nossos cinemas”. Ou seja, até a exibição de filmes em escolas tem entre seus objetivos, a retórica da indústria.
                  Outro risco dessa retórica é que nela não cabem as ações que não são imediatamente calculáveis nos CNPJs. Nesse sentido, a excelente fala de Débora Brutuce sobre preservação audiovisual foi emblemática. A preservação é questão das mais importantes e traz toda dificuldade de sua presença, uma vez que demanda investimentos com eventuais retornos econômicos apenas a longo prazo, além de não poder ser rapidamente instrumentalizada por um sistema industrial. Algo parecido acontece quando as universidades são lembradas. Rapidamente a universidade é vista apenas como produtora de mão de obra – capital humano - para a indústria. Onde estão os roteiristas, técnicos de som, câmera? - nos perguntava um palestrante. Como professor universitário, intuo que muitos desses jovens profissionais se desinteressam rapidamente pelo universo que hoje lhes é apresentado no “mercado”. Algo acontece nessa cadeia produtiva que faz com que muitos os técnicos de som e os roteiristas se distanciem rapidamente dela – recebemos, por exemplo, frequentes demandas de ótimos profissionais que depois de poucos anos de trabalho desejam voltar para a universidade para uma pós-graduação acadêmica reclamando dos poucos desafios profissionais que o mercado coloca. Quem sai da universidade hoje não está procurando apenas um emprego no audiovisual, mas bem mais do que isso, talvez ele esteja efetivamente interessado naquilo que está sendo feito com sua técnica e como sua expertise. Nesse sentido, parece essencial que o cinema seja pensado efetivamente em um processo cultural, não porque o estado deva dizer o que deve ser feito, mas porque a sociedade precisa garantir a diversidade do consumo e da produção e o estado joga papel determinante nesse esforço. De outra maneira, continuaremos com uma retórica de indústria que não consegue incorporar os mais criativos, exclui a memória e reforça monopólios econômicos e estéticos.
                  Voltando à herança do que foi o ministério de Gilberto Gil, diria que vivemos  momentos em que o Brasil exerceu um verdadeiro protagonismo nos debates, ações e propostas em torno dessa relação do estado com a cultura. No caso do Rio de Janeiro, certamente não será com a retórica da indústria nem com números de filmes produzidos que esse protagonismo na área da cultura se constituirá. Ou a cultura torna-se um problema que incorpora nosso desejo de país e democracia ou nos encontraremos para lamentar o que não construímos depois de não irmos ao cinema ver o único filme que está em cartaz – um “case” de sucesso.

*por questões de agenda, não acompanhei todo o encontro. Essas notas são assim, muito mais uma reflexão sobre o que temos visto em várias áreas da cultura do que sobre o encontro em si.

29/03/2013

Luane Dias

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Nos últimos dias esse vídeo circulou intensamente no Facebook, muitos já devem ter visto.
Para os que não são do Rio, impressiona a intensidade do sotaque, a forma como a fala marca o território. Acostumados ou não, impressiona as invenções explícitas.
Gosto muito da forma como a moça expressa sua reflexão sobre as redes sociais, sobre o público e o privado e como entra, ela mesma, em uma campo indiscernível entre ficção e a crônica social.
Melhor que qualquer comentarista da relação de jovens com internet, a moça faz uso de todo um universo ligado às redes para refletir sobre uma ética contemporânea
As marcas e opções da "arte" são precisas: o cabelo, o fundo verde, a marca do sol... etc. Elementos que afirmam um lugar de fala de quem quer pensar o cotidiano e que domina os meios.
Me impressiona ainda a inexistência desse personagem no cinema e na tv – na literatura eu não sei, na música, certamente ele está presente. Entretanto, quando a funkeira aparece no audiovisual é no clichê e não nessa força que inventa ritmos, tons e toda uma estética ao exprimir uma intensa relação reflexiva com os meios técnicos e com as redes sociais.


http://www.youtube.com/watch?v=HU0FmnOut2A

01/03/2013

Liberdade e asilo político para Joseba Vizan



Joseba Gotzon Vizan Gonzalez nasceu em 7 de maio de 1959 no País Basco. Desde muito

jovem começou a se envolver em diferentes movimentos sociais e políticos. Participou na

criação de Herri Batasuna (coalizão de forças políticas bascas a favor da independência e o

socialismo), onde trabalharia no departamento de comunicação e propaganda.

Foi detido em duas ocasiões e posto em liberdade sem nenhuma acusação contra ele.

Contudo, durante os dias de sua segunda detenção foi vítima de maus tratos e torturas. Foi

asfixiado com um saco na cabeça, golpeado sem parar nos testículos e inclusive sofreu uma

simulação de execução (simularam dar-lhe um tiro).

A Policia trata de detê-lo em 1991 e diante do risco de voltar a ser torturado Joseba decide

fugir. A acusação contra Joseba, pela qual agora foi detido, baseia-se nas declarações

realizadas sob tortura por dois amigos seus que permaneceram incomunicáveis numa

delegacia durante cinco dias. Estas duas pessoas negaram diante do juiz da Audiência

Nacional espanhola sua declaração policial e afirmaram tê-la realizado sob ameaças e torturas.

Joseba está há 22 anos longe de seus familiares e amigos e 16 morando no Brasil. É casado,

tem uma filha de 10 anos e há 12 trabalha como professor. Tem muitos e grandes amigos e

amigas neste país. Amigos e amigas que estão mostrando sua solidariedade e apoio nestes

momentos difíceis (declarações de alunos, companheiros de trabalho, professores e pais do

colégio de sua filha, vizinhos, etc.)

No dia 18 de janeiro de 2013 Joseba Gotzon Vizan foi detido na cidade brasileira do Rio de

Janeiro pela Polícia Federal do Brasil a pedido da polícia espanhola. Esta detenção tem que

ser situada dentro do contexto político que vive Euskal Herria, o País Basco.

No País Basco há um conflito político, o último na União Europeia com estas características,

que enfrenta o povo basco com os estados espanhol e francês. A raiz deste conflito está na

negação do País Basco como um povo com o direito de decidir seu futuro livremente. As

trágicas consequências disto são conhecidas por todos: mortes, tortura, exílio, detenções

políticas, ilegalidade de atividade política, repressão generalizada, etc.

Todas estas violações de direitos foram reiteradamente denunciadas por diversos organismos

internacionais como as Nações Unidas, ONGs de direitos humanos (Amnistía Internacional,

Human Right Watch etc.), Associações Internacionais de Juristas e outras instituições

internacionais.

Nos últimos tempos, abriu-se um novo cenário político no País Basco, foram dados importantes

passos para o avanço em direção à resolução definitiva e justa do conflito. Em outubro de 2011

importantes líderes internacionais como: Kofi Annan, Bertie Ahern, Gro Harlem Brundtland,

Pierre Joxe, Gerry Adams e Jonathan Powell se reuniram em San Sebastián junto a

representantes da maioria do leque político e social basco na Conferência Internacional de

Aiete. Fruto da Conferência dos líderes Internacionais publicaram a denominada Declaração de

Aiete, que define um plano de rota válida para a resolução do conflito basco. Poucos dias

depois ETA, a organização armada basca, respondeu de maneira positiva e declarou o cessar

definitivo de sua atividade armada.

A pesar destes passos de esperança não podemos falar ainda de um verdadeiro cenário de

paz. Os estados espanhol e francês, com sua atitude estão tratando de paralisar, boicotar e

sabotar a oportunidade criada.

É neste contexto que se deve entender a detenção de Joseba, assim como outras detenções

de militantes bascos que estão ocorrendo nos últimos tempos. Não é tempo de detenções, é

tempo de soluções. Essa é a demanda de nosso povo.

Por isso, pedimos a libertação imediata de Joseba e que lhe seja concedido o asilo político no

Brasil. Joseba tem o direito a continuar desenvolvendo uma vida normal no Brasil junto a sua

mulher e sua filha.

Sendo extraditado ao Estado espanhol corre o risco de ser torturado.

Rio de Janeiro, 10 de fevereiro de 2013.

28/11/2012

Secretária de Cultura do Rio de Janeiro

O novo secretário de cultura do Rio de Janeiro expressa não apenas uma lógica da cultura, mas de todo o governo da atual prefeitura do Rio.

Existe a cidade e as vidas que dão lucro de um lado e os dos "marinheiros de primeira viajem" de outro. Para as primeiras, aquelas que já estão inseridas, que já fazem parte do mercado, o estado organiza e fomenta o lucro; para os amadores, incompetentes e de

sligados do mercado, vale a burocracia, a distância do estado, "os critérios subjetivos", as regras rígidas.

Não há mais nada para esconder, esse é o terror de um governo que faz do fomento à desigualdade uma política de estado.

Somos todos crackeiros.

http://oglobo.globo.com/cultura/quero-uma-cultura-lucrativa-diz-novo-secretario-municipal-6825875

08/11/2012

o território dos poderes

Crack

Garantir um território é a primeira coisa a se fazer para se exercer um poder.
É na construção de um território que os poderes se estabelecem, que traçam fronteiras, que excluem estrangeiros. Sem território não há autoridade. O estado e o capital estão sempre construindo novos e maiores territórios, cada vez mais amplos, cada vez mais totalizantes.

Mas, nesses largos braços dos territórios dominantes, à muitos sujeitos e comunidade são reservadas a mera exclusão, o encarceramento, a eliminação. No território que esses poderes tracejam, alguns não tem lugar e para eles é reservado a polícia travestida de assistência social e, para isso, o jornalismo tem papel fundamental.

Em resumo: na construção do território feita pelos poderes centrais delimita-se uma fronteira em que alguns não tem lugar e desse território é preciso eliminá-los.
No Rio de Janeiro hoje, esse "alguns", esses "sujeitos quaisquer",são os usuários de crack. Eles se tornaram o paradigma daqueles que devem ser eliminados, mas antes, se tornam essenciais para que o estado e o capital não parem de reforçar o seu direito de fazer território, de eliminar e de excluir.

Ver matéria da Globo
https://www.youtube.com/watch?v=8Yp0iAD2HYI

Impressiona a habilidade, velocidade e destreza dos sujeitos em fuga.

30/09/2012

Modulação da vida, possíveis da arte

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Modulação da vida, possíveis da arte
Por Cezar Migliorin

(artigo publicado no Catálogo da Exposição Era Uma vez. Patrocinada pela OI com curadoria de Elianne Ivo e Pascalle Pronnier)

            Costumamos nos perguntar que cidade desejamos, que cidades os homens produzem, que ordens, que organizações, que partilhas? De um lado algo móvel, modelável – a cidade - de outro os homens, a cultura, o capitalismo, o poder público, as grandes obras, a desordem, a banca de jornal e a arte urbana. A cidade aparece assim como algo a ser escrito por múltiplas forças – leis, estéticas, circulação de dinheiro e pessoas. Entretanto, poderíamos fazer um exercício e inverter a questão central. No lugar de perguntar que cidades produzimos ou que cidades desejamos, poderíamos formular assim: como somos produzimos pela cidade? Quem são os humanos que as cidades desejam?
            Tal deslocamento já reconfiguraria a reflexão sobre a relação sujeito/cidade. Entretanto, esse deslocamento não esvazia a sua base metodológica que coloca a cidade de um lado e o sujeito de outro, como se um fosse massa modelável e o outro modelador. Pois, para levarmos adiante nossas considerações sobre a cidade e a arte precisamos partir de um interesse bastante específico, ou seja, as passagens entre a cidade e os humanos. Reside ai, no ir e vir entre um e outro, a verdade da cidade.

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            Como laboratório, as cidades atravessaram um século de utopias. Desde as nossas; modernas, ordenadoras, até aquelas pautadas pela experiências de encontros e perturbações das ordens subjetivas, como na teoria da deriva, de Guy Debord, em que os pessoas e grupos são incitadas a largar seus trabalhos e lazeres para produzirem outras circulações, forjando novas experiências de território. O que mais tarde seria encapado pela arte relacional estava esboçado pelo projeto de cidade pensado pelos situacionistas. Na deriva, o acaso é importante, mas o gesto de entrada e saída de zonas psicogeográficas  - como chamava Debord - é o movimento decisivo. Para isso, a circulação efetivava um mapeamento das possíveis trajetórias entre diferentes meio ambientes em uma cidade. A utopia situacionista dos anos 50 tratava antes de uma desfuncionalização e de uma desmodelização das cidades e tal gesto só era possível à partir de uma circulação entre sujeitos e grupos. Tratava-se de um ideal de cidade que por conta de suas transformações constantes, de seus amplos e grandes espaços de convivência seria, em si, a possibilidade de intensas situações, mudanças e comunicações acentradas. Artes e técnicas teriam papel central na “na construção integral de um meio em conexão dinâmica com as experiências de comportamento” (Debord) Em grande parte, é a utopia situacionista que ainda sustenta boa parte de nosso sonho de cidade. Esse ir e vir entre formas de habitar e formas de vida mediadas por uma criação constante.
            Entretanto, esta oposição entre uma cidade disciplinada e fruto de um projeto racional com espaços funcionalizados e uma cidade aberta ao descontrole das ruas parece ter sido bastante alterada no atual estágio da relação cidade/vida/capital, trazendo outros desafios para as artes e interferências urbanas e para todos que pautam a invenção da cidade pela relação criativa com os indivíduos. Em outros termos, diria que a especificidade da disputa urbana hoje passa, em grande medida, pelo banal, pela vida ordinária, pelas invenções que aparecem no descontrole cotidiano, sem que a potência dos encontros não programados se configure como garantia de um habitar mais democrático em que todos os modos de vida participem e produzam a cidade.

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           As armas do capital são claras, trata-se de tornar os modos de vida consumíveis e os espaços públicos cenários. Da mulher brasileira aos novos museus em portos renovados, o habitante é divido em duas categorias; aqueles que decoram a cidade – vendedores nas praias, torcedores nos estádios, capoeiristas no centro -  e a massa que consome e é espectadora do povo e da cidade que se escreve com ele.
            Estranho paradoxo. Por um lado são as pessoas e suas formas de vida que alimentam o imaginário da cidade, ao mesmo tempo são elas mesmas que são consumíveis. Trata-se de uma tensão, entre liberdade e controle, entre criação e captura que dialetiza a própria vida tornando-a o que há de mais valioso e de mais incômodo aos poderes que vêm a cidade como espaço de realização de ganhos (monetários, simbólicos, eleitorais).
            Recentemente, com a proximidade dos megaeventos, a Prefeitura da Cidade produziu um vídeo (http://www.videolog.tv/RioFilme/videos/603112) em que a cidade é o produto a ser vendido. Nos discursos a ênfase na riqueza da cidade recai sobre “os personagens”. “As pessoas que vivem no Rio de Janeiro é que fazem o Rio de Janeiro”, em diversos depoimentos a cidade é definida pela sua criatividade “fresh”, pela riqueza “por natureza heterogênea” que possibilita “tipologias e maneiras de se comportar diferentes” e faz com que “o que para outros lugares seja absurdo, para o Rio seja normal”. Esses elementos permitem que “a imprevisibilidade da perspectiva carioca seja inspiradora sempre”.
            Em meio a esse mar de opiniões pautadas pelo lógica de que o povo brasileiro é um criador nato, o vídeo tem uma ideia muito clara: a cidade é um produto e esse produto está intimamente ligado às formas de vida, aos modos de ser. O povo é arte que inspira. O vídeo é exemplar de como transformar formas de vida em mercadoria. É curioso, por exemplo, que entre todos os depoimentos, haja um de uma moradora de uma favela, a cineasta Luciana Bezerra que em sua fala é única a dizer onde mora. “Eu moro no Vidigal” Essa é sua frase de abertura. Nenhum outro entrevista diz “Eu moro em Ipanema”, ou “Eu moro no Leblon”, mas isso é apenas um detalhe que reflete minha atenção excessiva com o que é dito.
            Se esse vídeo é perturbador é porque ele aponta para o futuro do Rio de Janeiro, esse laboratório do capitalismo cognitivo. Outro exemplo. Logo depois do Choque de Ordem, uma ação da prefeitura que ordenava e as ruas e calçadas uniformizando as práticas de camelos e guarda-sóis das praias. Enquanto os vendedores de cerveja ambulantes eram expulsos, a Brahma entrou com carrinhos de rua, também ambulantes, para vender chopp ao lado dos antigos da Nestlé que vendem picolé. Liberar e controlar, assim funciona a modulação urbana.
            Enquanto a favela tornou-se nossa obra-prima o pobre é nosso performer. Há ali a força de invenção que pode ser, quando interessar, ordenada. Ambos inventam as formas que resistem às ordens globais, uniformizantes, homogêneas.
            Resistir na forma, claro; assim vemos o povo na cidade. Resistir na forma, princípio primeiro para a arte, apresentar-se como um objeto problemático e possibilitar uma atenção qualificada em relação à cidade. Ao mesmo tempo, ter nas formas de vida a medida possível para o sem medida das relações na cidade. Como parece evidente, essas duas dimensões são inseparáveis das maneiras como o capitalismo mesmo se relaciona com o espaço urbano. Enquanto a publicidade organiza o mobiliário urbano e as grandes empreiteiras investem em transporte público, determinando os fluxos, a organização do espaço, o tempo de trabalho e lazer, outros poderes se apropriam do que há de mais banal e cotidiano das formas de vida. O nome da operadora de telefonia que patrocina esse catálogo é uma evidência: o que há de mais banal e corriqueiro que OI?

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          Assim, o esforço para pensar o que é cidade hoje se faz em relações com esses múltiplos poderes - entre eles a arte. Se faz com aquilo que ainda não ordenou o humano e naquilo que ainda não desenhou a cidade. A arte como intervenção pública é parte dessa escritura e da própria instabilidade da cidade que é inseparável de um duplo destino: por um lado, o aparecimento da arte deve explicitar uma separação em relação à forma da cidade, operar um dissenso em relação à ordem dos poderes que a constituem, uma distanciamento em relação às organizações que definem os lugares dos sujeitos, dos grupos e identidades (ver Rancière). Por outro, se a arte na cidade se bastasse na resistência formal ao que é a cidade – produzindo descontrole onde há controle, colocando retas onde há curvas, sons onde há silêncio - , incorreríamos facilmente na abstração ou na relação dialética com a cidade e com os poderes que a organizam temporal e espacialmente. Resta à arte então não perder o vínculo com as formas de vida, com o que podem as vidas que habitam as cidades.
            A arte na cidade resiste em sua forma mas ela não antecipa a organização da urbe. A arte explicita, talvez, os espaços híbridos, aqueles em que as formas de vida ainda não se inscrevem as formas da cidade mas que já se fazem presentes, aqueles em que as formas da cidade já produzem formas de vida não inscritas em seus planejamentos.
            Sem esse duplo destino, a arte torna-se apenas uma continuidade com o que a cidade já é – bela, horrível, violenta, doce - uma continuidade em relação à possibilidade de uma experiência estética individual que pode vir de qualquer lugar – de uma publicidade mesmo; ou uma descontinuidade absoluta, separada das formas de vida que a produzem, logo, irrelevante para aqueles que a habitam. Duplo destino da arte politica – a única que interessa quando a cidade está em jogo - , ter continuidade e descontinuidade com o que é a cidade, em um só gesto. Resistir na forma sem que as formas de vida sejam excluídas.  
            Assim, para nós, interessados na arte, parece relevante uma abordagem em que as formas dos homens e dos objetos  - nem sempre tão distinguíveis – estarem no mundo não estejam isoladas das formas de ser e das possibilidades sensíveis das obras. O esforço em fazer da arte um campo isolado da politica – da cidade – é fundado na necessidade de funcionalizá-la, seja para efetivar seus ganhos simbólicos em centros culturais, em cadernos de cultura, seja para efetivar seus ganhos financeiros, em galerias e feiras. Isso significa dizer que esses mediadores deveriam desaparecer? Não. Se a arte resiste na forma, e esse era um de meus pressupostos, tal resistência é o que garante a sua inscrição na polis, apesar de tudo. Uma inscrição que enquanto resiste na forma insiste nos possíveis das formas de vida.

Bibliografia.

BRASIL, André. Formas de vida na imagem: da indeterminação à inconstância. Revista FAMECOS: mídia, cultura e tecnologia, Vol. 17, No 3. 2010.


DEBORD, Guy. (org) Internationale Situationniste #1. juin 1958. Disponível em : http://i-situationniste.blogspot.com/2007/04/internationale-situationniste-numero-1.html
RANCIÈRE, Jacques. O desentendimento: política e filosofia. São Paulo: Editora 34, 1996.
LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994.

Viveiros de Castro, Eduardo. Uma figura de humano pode estar ocultando uma afecção-jaguar. In. Multitudes 24  print. 2006.

http://multitudes.samizdat.net/Uma-figura-de-humano-pode-estar



Abaixo coloco uma brevíssima lista de artistas e obras que me inspiraram na escrita desse artigo. Com eles pude pensar e entender o que acredito ser o possível na relação arte e cidade.

Avenida Brasília Formosa, (2010) – longa-metragem de Gabriel Mascaro - Recife
O céu sobre os ombros, (2011) – longa-metragem de Sérgio Borges – Belo Horizonte
Weng Fen – Fotógrafo Chinês
Marepe – Artista plástico nascido na Bahia
Cidadão Instigado – Banda do Ceará








[1] http://www.videolog.tv/RioFilme/videos/603112

28/09/2012

Cultura - Considerações sobre apoiadores do atual prefeito.



Nesta lista existem pelo menos três tipo de votos no Eduardo Paes.

www.eduardopaes15.com.br/manifesto/

O primeiro é louvável. São petistas que acreditam que a aliança com o Paes é necessária para um projeto maior, apesar de tudo. Acreditam em um projeto de país que passa pelo poder local e que requer sacrifícios.
Me distancio desse voto, apesar de ter estado sempre próximo ao PT, por achar que esse projeto de país é hoje pautado por uma constrangedora falta de limite ao capital.

O segundo tipo de apoio ao Paes é pautado por uma avaliação positiva da atual prefeitura, normalmente vindo de pessoas mais ligadas ao campo liberal e que entendem as remoções, a força da especulação imobiliária, as internações compulsórias, a “incompetência” para o transporte de massa e o autoritarismo do atual prefeito como gestos menores e sem real importância se considerarmos o atual clima positivo da cidade.

O terceiro tipo de apoio é cínico mesmo. É pautado pelo retorno imediato e pessoal, o que não é raro na área da cultura.

O voto do petista é respeitável, o do campo da direita é parte de nossa velha disputa em torno de modos de vida e compreensão de mundo e o voto cínico é apenas odiável.

08/08/2012

esse tempo


A menina comprou um relógio com despertador para não perder a hora da escola, hora que passou a ser dela também.
Infelizmente o vendedor entregou o relógio com a hora de algum país distante onde o relógio fora fabricado.
Nos 5 dias seguintes a menina gastou a ponta de um clips tentando apertar os minúsculos botões que davam acesso às muitas funcionalidades do relógio.
Depois de muito tentar, desistiu. Todas as vezes que chegava às 23:59 o relógio voltava para o 00:00.
- Como organizar a vida se todos os dias tem o mesmo tamanho?

11/07/2012

Jornalismo


Fotografar mensagem recebida em celular e colocar na primeira página de um jornal?
Esse é o mesmo jornalismo que fica indignado quando alguém invade o computador da Carolina Dieckmann.

http://oglobo.globo.com/pais/forca-na-peruca-diz-afilhada-de-demostenes-pelo-celular-5448160