23 de fev de 2017

"Eu não sou daqui”, de Luiz Felipe Fernandes e Alexandre Baxter.

 Notas sobre "Eu não sou daqui”, de Luiz Felipe Fernandes e Alexandre Baxter.
Apresentado no Festival de Tiradentes.



1
Derrubar um muro. Assim começa o filme. Derrubar um muro que no início é só parede, só tijolo, marreta, força física.
Muro derrubado, é preciso um encontro para voltar ao mesmo lugar. Agora, não mais parede, mas um túmulo. Não mais um lugar qualquer, mas um cemitério revelado nos planos abertos da última sequência. Não apenas a força corporal, mas um corpo afetado, sensibilizado pelo encontro, por um afeto, pela amizade, pela morte.

2
Nesse trajeto – da força física que derruba a parede ao corpo afetado - o filme segue duas linhas. Uma que nos dá elementos para o gesto final do personagem; outra que não deixa que nenhuma dessas linhas tenha pregnância suficiente para justificar o gesto final: a entrada do personagem no túmulo.

A morte do amigo é a gota d’água, mas o filme opera como se o copo cheio fosse o mundo todo.
Não sabemos a história desse homem que chega de um lugar desconhecido, que pouco fala, que mantém os braços cruzados e que com o olhar se esquiva de ameaças que desconhecemos. Mas, desde o princípio, sabemos que é pobre – o que é uma ameaça suficiente para o temor. Ele cata latas e tenta trocá-las por um café. Café que, aliás, atravessa todo o filme. É o café que ele busca, é o café que é primeiramente compartilhado com o amigo Zé Grande, é com um café na mão que ele descobre a morte do amigo.
Andarilho, aquele que faz do caminho o fim, acaba por ser acolhido com um amigo, com café e uma casa de tijolos com o buraco no lugar da porta. Ele encontra uma mulher sem que saibamos até onde vai o envolvimento, vaga em bares ou se revolta contra a expropriação do campo de futebol, sem que esses elementos realmente efetivem a gota d’água.

Algo se passa com esse homem, com o encontro e com sua vida, mas nada no filme parece querer fazer passagem entre o que se passa com ele e o que poderia ter causado esse “novo lugar”, material e simbólico, da última sequência. O encontro com o treinador de futebol de várzea é afetivo, protetor – de ambos os lados – mas para esse homem sem história – pelo menos sem uma história que conheçamos – para esse homem sem território, sem pertencimento e sem lugar, algo desmorona.
A gota d’água, o limite, o transbordamento parece estar em qualquer lugar.

O mundo narrado no filme passa a ser o mundo do desabamento iminente. Para construir isso, a opção do filme é silenciosa, corporal e não histórica. A família de Zé Grande - encarnada no filho - o engravatado ou a mulher que ele conhece no bar, nenhum desses polos narrativos  não chegam a produzir um conflito que mobilize o espectador.
No quadro e no extraquadro, algo está por estourar, como o filme não nos diz exatamente o que, tudo parece compor esse mundo no limite.

A presença do filho merece um parênteses pelas opções fílmicas.
Na primeira sequencia em que escutamos a conversa entre Zé Grande e o filho, a câmera é frontal a Edson, que está sentado. Vemos seu rosto mas não vemos o rosto dos dois outros, o que enfatiza a escuta mais que o conflito. Na segunda sequência com o filho, trata-se de um belo e duro plano, narrativamente. Zé Grande está no hospital, com uma elipse dentro do quarto descobrimos que Edson passou a noite com ele. Corte para o corredor, o filho vem do fundo, entra no foco e logo entra no quarto; sem corte Edson sai; sem corte ele espera do lado de fora até que o filho de Zé grande saia. O plano-sequência nos dá a dureza da brevidade do encontro entre pai e filho, depois da noite de Edson cuidando do amigo.

Corte

Aqui entro com outra perspectiva
Mais contextual, mais próximo das questões política contemporâneas e também dos debates que vivemos.
Diria que essa cena do desmoronamento iminente – pessoal e coletivo – se confronta com o contexto do país.
Das mais interessantes discussões que essa mostra e o contexto tem nos trazido é a pergunta: quanto podemos confiar no espectador no atual contexto? Como podemos suspender a ação e o discurso se temos uma questão política? Quanto devemos organizar as imagens de modo que elas enunciem o que desejamos? Quanto podemos manter o inimigo – ou tudo que faz uma vida desmoronar – no fora de quadro?
Essa perguntas rondam, nos assombram e talvez minha resposta – provisória e instável – é que à uma poética não se pode exigir nada. Talvez apenas uma coisa, que parta da capacidade do espectador, capacidade intelectual e sensível. Sem isso, partimos de uma desigualdade que não sabemos quando a recuperaremos. (ver o Espectador Emancipado) A fala autoritária, seja ela de esquerda, direita, feminista ou libertária é, antes de tudo, autoritária, ela se une aos piores poderes, aqueles negam o outro para impor vontades, ordens, morais.
Mas os inimigos existem. Estão ai devorando nosso pensamento. Estão ai matando.
Esses dias – com o filme - foram então ocupados por essas perguntas, no limite uma dúvida sobre o filme e sobre minhas próprias apostas.
Até que ponto o inimigo pode estar no fora de quadro, ou ser apenas levemente evocado? Até que ponto a não-historicização nos mobiliza em relação à esse universo frágil, de pessoas pobres, entre opressões? Até que ponto o silêncio e uma dimensão simbólica podem manter a força de termos na imagem essas fragilidades existências que estão no limite? Até que ponto podemos manter essa aposta radical no espectador? Minha resposta, ainda que provisória é: que sem essa aposta na sensibilidade e na inteligência do outro, é o cinema que não vale a pena
Diria, para encerrar, que o filme acaba por harmonizar o que narra com sua forma. A amizade dos personagens é mais que uma amizade entre pessoas, mas um princípio de confiança e atenção ao outro. É isso que os personagens vivem. E é com esse princípio de confiança e atenção que o filme se dirige ao espectador.








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2 de nov de 2016

Eleições Rio 2016




26 setembro

Alguns dizem:
O Freixo não dialoga com a zona oeste, o Freixo não fala com os pobres.
Essas afirmações apenas corroboram o preconceito com a juventude das periferias. 
As afirmações querem na verdade dizer que esses cidadãos são apenas manipulados, não pensam politicamente e que se preocupam apenas com as necessidades imediatas.
Quanto engano! 
Os que dominam a Tv, se apóiam nas milícias e promovem a exclusão com o transporte e a educação não entenderam nada.
A crença na política presente na campanha do Freixo não tem exclusividade de classe. O desejo de democracia não tem fronteira.
Freixo estará no segundo turno, com todos.


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28 setembro

Faltam 4 dias para tirarmos o PMDB do Rio de Janeiro.
Nos próximos dias, estaremos nas ruas.
Olho no olho do eleitor. Há um entusiasmo com a política que atravessa a cidade.

A direita acusa a campanha do Freixo de não falar com os pobres.
- Candidatos do Psol barrados por milícias.
- No final de semana, Candidatos do Psol barrados no Cantagalo.
O PMDB reparte o território da mesma forma que repartiu a cidade pelas empreiteiras. Opressão concreta.
Acham que pobre tem que ter língua só para eles. Partem da desigualdade. Opressão simbólica.
O que é perturbador para eles é que partimos da igualdade.
Esse é o norte.

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30 setembro


O dia hoje, na rua, deixou para mim uma certeza: o debate na Globo tem um efeito enorme.
Com muitos que conversei, a impressão é que pela primeira vez estavam efetivamente decidindo o voto.
Em uma semana de rua, nunca a proposta de votar no Freixo havia sido tão bem recebida.
Estou na bolha Centro/Zona Sul, mas, nessa bolha, Freixo virou a principal referência.
Sábado é na rua.
que venha domingo!

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1 outubro

Há três dias era fácil identificar um eleitor do freixo. Hoje foi impossível. Eram pessoas de todo tipo, todas classes e idades. Segundo turno.
50!

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3 Outubro

- Não vou votar no Freixo. Ele é colado com o pessoal do PT.
Esse argumento foi corrente nas ruas.
Não há dúvida que uma história da esquerda atravessa os dois partidos e essa proximidade ainda encontra recorrentes ecos. A campanha do Rio e de São Paulo é prova disso.
Entretanto, o Psol surge deixado o poder há 12 anos, justamente quando Lula nadava em altíssima popularidade. Naquele momento foi necessário não compactuar com certos caminhos do PT, foi necessário ter liberdade para se opor a projetos petistas, o que não significou romper a proximidade ideológica em alguns casos, como na defesa da democracia. O Psol surge assim de um projeto político e não de poder.
Já Crivella foi a favor do golpe – e é assim que tentará mobilizar uma parte do eleitorado - mas foi ministro até o final, usufrui das benesses do poder, até se ligar a Garotinho.
Se há proximidade com o que é criticável no PT, essa proximidade é de Crivella.

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3 Outubro

Temos um desafio gigante pela frente neste segundo turno no Rio.
Por um lado, uma energia cheia de desejo está irradiada na cidade. Ontem, na Lapa, de todos os lugares chegavam grupos empolgados com a política. Muita gente!
Nas ruas, a companha foi a certeza de que há uma cidade a ser feita, pensada, democratizada.
Ao mesmo tempo, precisamos ganhar a eleição. Sabemos que o discurso do Freixo não basta. É lindo ele dizer: Escola sem partido é o cacete!, não pode dizer menos. Mas não é com os votos de Jandira e Molon que venceremos. Que possibilidade de diálogo com os outros derrotados, Índio e Osório? Será suficiente apenas apostar no voto contra o Crivella? Não sei, não entendo nada de estratégia política. - e acho que poucos entendem – O Paes e Marta Suplicy para comprovarem.
Uma coisa é certa. Não precisamos da máquina ou de grandes doadores - um grande passo!
Como juntar a loucura e a emoção de ontem com a vitória que o Rio tanto precisa?
Quero o possível e o impossível ao mesmo tempo.

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6 Outubro

Para nós que estamos apoiando o Freixo, a campanha pode ser um grande exercício de modéstia.
Nada mais didático do que passar algumas horas na saída de uma estação de metrô, conversando com os trabalhadores que depois de duas horas chegam na Zona Sul do Rio para atender os ricos.
É o óbvio, mas ali estão pessoas que pensam, que desejam mundos melhores, que lidam de maneira pouco harmônica com tradições familiares e religiosas e que eventualmente não votarão em nosso candidato.
Se o fundamentalismo religioso precisa ser combatido de frente no nível macro, nas leis, na oposição ao escola sem partido, na políticas de gênero etc, nesse corpo a corpo a modéstia é necessária.
Não temos na vida as necessidades e urgências que mobilizam as pessoas a aderirem a uma igreja, a um candidato, a uma rede assistencial em um bairro periférico.
Se nosso apoio ao Freixo está fortemente ligado ao nosso desejo de democracia – na cidade, no transporte, na educação – como fazer dessa democracia o norte para nossa relação com o outro, com as mulheres que chegam em Botafogo para nos atender nos supermercados, balcões e bilheterias?
Antes de tudo, dar nosso tempo. Saber de nossas diferenças e reafirmar nossa opção pela democracia.
Não se ganha um voto só com uma conversa ou com um post, mas certamente se perde para sempre.
Temos certezas, claro. Mas sem essa modéstia e esse tempo, ficaremos tristes com nossa derrota, mas felizes com nossas certezas. É pouco.
(obs. Hoje, na saída do metrô de Botafogo, o pessoal da campanha estará lá com material)

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7 Outubro

Freixo é um radical.
Essa acusação chega à militância com muita frequência. É com ela que teremos que conviver.
A questão parece ser: que radicalismo é esse?
O filósofo francês Jacques Rancière faz uma sintética e precisa formulação sobre a democracia: a democracia é um escândalo.
Esse escândalo está diretamente ligado à possibilidade de qualquer um – sujeito sem nome ou CEP especial - ter direito de participar dos caminhos da sociedade. Direito também a tudo que nossa comunidade – país, mundo - decidiu como sendo o básico para a vida: saúde, justiça, educação, tempo e direito a exercer em plenitude o que podemos – nos afetos e sensibilidade.
Eis o escândalo e a radicalidade de um projeto político.
- Você que acusa meu candidato de radical, você não deixa de ter alguma razão. Acreditamos e lutamos pelo por direito de todos, sem distinção. Por isso elegemos professores, mulheres negras, homossexuais e jornalistas. Sim, até jornalistas!
O radicalismo é esse. Quando o Marcelo Odebrecht ou um deputado é preso, sabemos que não será torturado, que não sofrerá abusos. Radical é trabalharmos para que isso seja um direito de todos.
No fundo, o radicalismo é a democracia mesmo.

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7 Outubro
Ontem depois de um post em que falava das pessoas que vem para a Zona Sul trabalhar, vivi uma breve situação que transformo em uma carta:
Rio de Janeiro, 6 de outubro de 2016.
Cara (não sei o nome dela ainda)
Ontem a noite, enquanto sua colega me perguntava se eu pagaria minhas compras no crédito ou débito, não pude deixar de escutar você dizendo a outro colega que votaria no Crivella. Minha reação foi um pouco rápida e acabei te dizendo: “Puxa, não faça isso, é muito ruim para a cidade.” É Claro que isso não é um argumento e nem eu tinha o direito de ali continuar expondo minhas razões para votar no Freixo, sobretudo porque você estava no trabalho e eu não, ou seja, eu podia ir embora e você não. Não podíamos começar essa conversa com tal desigualdade.
Você foi generosa e aceitou minha proposta de te levar algum material sobre o Freixo. Decidi, entretanto, te escrever.
Uma breve apresentação: o Marcelo Freixo é um deputado que há mais de 20 anos vem tendo uma atuação constante no Rio de Janeiro pela melhoria da cidade e pela atenção aos mais necessitados. Alguém que conhece profundamente a cidade. Como você talvez saiba, ele enfrentou a violência das milícias que impedem a livre circulação, que ameaçam e matam, sobretudo os mais pobres. Fez isso com uma coragem impressionante. É com essa atenção que o Freixo acabou sendo o deputado mais votado do país em 2014 e é com essa preocupação com o Rio de Janeiro que ele agora é candidato a prefeito com objetivos voltados para os que mais necessitam.
Creche, escola integral, transporte de qualidade e, sobretudo, uma aposta de que é possível fazer política com a participação das pessoas, dos bairros e não apenas com grandes empreiteiras – os ricos – ou entregando cargos para aliados para conseguir tempo de televisão, o que infelizmente o Crivella tem feito, com o ex-governador Garotinho inclusive.
Gostaria assim de te dizer que hoje a minha opção pelo Freixo vem dessa história dedicada ao Rio de janeiro e aos mais necessitados e de um presente, muito inventivo e democrático na política. O Psol, partido do Freixo, elegeu esse ano, por exemplo, uma mulher negra moradora da Maré. Acreditamos que esse tipo de representação é fundamental. Conseguimos ir para o segundo turno com apenas 11 segundos de TV, graças à participação de pessoas como nós.
Queria te dizer ainda que o Freixo tem sido radical nessas escolhas. Essa é uma campanha indignada com as desigualdades de nossa cidade e a radicalidade está em respeitar o direito de todos, mesmo que para os poderosos isso seja um insulto. Mesmo que isso o faça perder os votos dos que fomentam preconceitos.
Minha cara, sei que mudar o voto de alguém é algo muito difícil. Acho, por exemplo, muito difícil que eu mude o meu, sobretudo porque apoiei Freixo no primeiro turno. Mas, essa breve carta é também a crença na política mesmo, crença de que podemos conversar, saber das opções dos outros, respeitar as diferenças e escolhas pessoais.
Se te convenço ou não, importa menos agora. Sobretudo agradeço tua atenção e a possibilidade de uma conversa mais duradoura entre o “no crédito ou no débito”.
Te mando também exemplar do meu livro, “Cartas sem resposta”. Espero que goste. Caso não queiras responder, não há problema. Estou acostumado :).
Abraços
Cezar

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8 Outubro

O debate da Bandeirantes foi importante para deixar clara a distância entre os candidatos Freixo e Crivella em relação à democracia.
Enquanto Crivella dizia insistentemente que vai cuidar das pessoas, Freixo apontava para as propostas de participação popular presentes em seu programa: vou governar com as pessoas.
Ora, estamos diante de dois mundos.
Um que diz que somos incapazes, frágeis e que precisamos de um cuidador. Outro diz que podemos, que temos força e que todos devem participar dos destinos da cidade.
Há um abismo entre as posições.

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10 Outubro

Crivella diz constantemente: vou cuidar de vocês.
Ao mesmo tempo, todas as suas propostas passam por um esvaziamento do estado e de sua capacidade de intervenção para garantir o mínimo para todos.
Por um lado o discurso paternalista, por outro o cada um por si.
Essas duas esferas não são incompatíveis.
No mundo liberal do Crivella, os direitos comuns são esvaziados, não deve haver nenhum solo mínimo para a vida. 
Como esse sistema não para de gerar exclusão e pobreza, Crivella e os sistemas assistencialistas – da igreja ao tráfico – voltam à cena.
– Você que não tem na sociedade um direito mínimo, venha para nós!
A complementariedade entre o neoliberalismo e o paternalismo encontra ali sua bem acabada expressão.

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12 Outubro

A estratégia de Crivella nesse segundo turno é bem clara.
Se aproximar de Freixo na micropolítica – respeito pelas minorias e direitos humanos.
Se distanciar na macropolítica – privatizações, OSs e relegar o papel do Estado a ser um promotor da competição generalizada, dos empresários aos professores.
O que é preciso explicitar é que essas duas feições da política podem funcionar na campanha, mas não na prática.
Ou o Estado tem poder de intervenção em beneficio dos mais necessitados ou são justamente as minorias e os direitos humanos que são comprometidos.

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12 Outubro

Hoje, em Copacabana, uma multidão chegava para um show gospel.
Nossa campanha estava subitamente no meio de um comício do Crivella.
No meio disso, alguns nos abordavam pedindo adesivos e manifestando apoio ao Freixo.
- Sou da Contemporânea. Defendemos os valores da família — casamento gay e adoção gay.
Outros evangélicos pediam adesivos do Freixo imbuídos de uma rebeldia com aquele universo sem deixarem de lado a religião.
Algumas moças, com faixa 100% jesus, também pediam adesivos:
- O Psol elege mulheres negras.
Um mundo complexo, uma eleição que podemos ganhar.

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15 Outubro

Hoje na Cardeal Arcoverde – Copacabana - , a vendedora do quiosque de cachorro quente me chamou e perguntou:
- Por que você acha que eu devo votar no Freixo?
Ah se todos fossem como você, pensei...
Tentei falar rápido, afinal ela estava trabalhando e as pessoas parecem ter pouco tempo para as conversas sobre eleição. Elenquei dois ou três argumentos e ela me disse: Pois eu vou votar no Crivella.
Nesse momento, o Julio Ludemir nos encontra por acaso e é direto: 
- Você está satisfeita com a cidade?
- Não, disse ela.
- Então podemos conversar, pois se você estivesse, eu acho que você deveria votar no Crivella mesmo.
- Não estou, quem é o Freixo? Ela perguntou.
Julio conhece muito, muito a história do Freixo e com tempo contou sua história. Do primeiro estágio como professor em um presídio até o cotidiano, ainda hoje, durante a campanha, indo à câmara todos os dias.
Uma segunda vendedora se aproximou para ouvir.
A narrativa foi diversas vezes interrompida pelas moças com perguntas e colocações de quem acompanha a política nacional intensamente. Uma conversa com a complexidade da cidade. Ao mesmo tempo em que acusavam o funk de perverter a juventude e votavam no Crivella, se disseram contra o impeachment e contra a PEC 241.
Gentilmente nos despedimos e gentilmente elas disseram que estavam pensando em quem votar.
Comprei uma água ao ir embora. Me arrependi por ter reestabelecido os lugares entre os dois lados do balcão.

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16 Outubro

Uma eleição em dois turnos se ganha com uma virada sensível.
É uma bobagem dizer que Freixo errou ao falar de golpe em algum momento. Uma bobagem. Quem é contra a esquerda achará sempre algum elemento para se apegar para poder dizer: esse não me serve, esse é radical.
É uma bobagem querer que subitamente o Psol apague sua história de respeito às diferenças, inclusive religiosas, para destruir o Bispo. Uma bobagem também, hoje, assumir o tom família do outro candidato, como se não representássemos outro ritmo, outra forma de habitar a cidade.
Ganhar essa eleição depende uma virada sensível. Ou seja, não é mais na pequena argumentação que ganharemos - mesmo que ela continue sendo necessária -, mas da possibilidade de criarmos, nesse tempão que ainda falta para as eleições, uma onda com alegria e certeza de que o Freixo é uma novidade.
A insatisfação com a cidade é geral e só essa onda Freixo pode transformar isso em voto. Essa onda passa pela vontade de participar dessa invenção de uma outra cidade, de uma outra política.
Quem está satisfeito está em casa bem tranquilo que o Crivella não vá aos debates.
Os outros estão por ai esperando que um clique aconteça, uma chocalho de Xamã, uma experiência de grupo ou um simples vamos nessa. 

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19 Outubro

A liberdade nas propostas do freixo aparecem em toda parte: participação popular no orçamento, autonomia curricular, nas questões de gênero e mesmo a relação de Freixo com os direitos humanos pode ser lida - erroneamente - como uma falta de limite entre o certo e o errado.
A liberdade das proposta por vezes parece ser o contrário da segurança demanda pelos eleitores.
- eu vou cuidar de você, diz crivella, apostando no lugar de "incapaz"dos eleitores.
Me oprima - com deus, polícia ou algum poder paralelo - e serei feliz.
Seriamos partidários dessa síndrome autopunitiva?
Talvez, ar dos tempos, só encontremos paz quando temos todas as nossas forças exauridas e nada sobre para a liberdade, ela mesma sem função.
Como não temermos essa liberdade? Esse parece ser o trabalho na política hoje.

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27 Outubro

Estamos na campanha. Esses dias são decisivos.
Por um lado, já ganhamos. Colocar para toda a cidade as pautas democráticas de uma proposta de esquerda não é simples, mas extremamente necessário. Por outro, é impressionante como a recusa pelo voto no Freixo é pautada por um desinteresse, justamente, dessas práticas democráticas.
No final dessa campanha a diferença entre os candidatos ficou mais explícita do que nunca. De um lado um candidato que pauta sua política pelo respeito ao outro, pela atenção às diferenças, por um desejo de igualdade e aberto aos complexos diálogos que o cargo exige. Do outro, o bispo que não para, a cada vídeo, a cada nova declaração – ou ausência em debates – de expressar um extremo descaso por uma cidade em que vidas muito diversas estão juntas. Um desprezo agressivo pelo outro – de classe, de gênero, de crença, etc.
O preocupante é que para muitos que irão votar em Crivella ou nulo, esse desprezo pela democracia não é importante.
Essas eleições no Rio explicitam que a democracia como norte não é algo amplamente compartilhado em nossa sociedade.
Entre Freixo e Crivella, não se trata mais de duas ideologias, ou esquerda e direita, mas de duas naturezas distintas no trato com sujeitos e com a cidade.
Votar nulo hoje é admitir que os princípios republicanos não interessam tanto, que a democracia pode ser colocada em segundo lugar.
É Isso que está em jogo.

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30 Outubro
- moço, o crivella é número 20?
Demorei um pouco. o que fazer?: - não é 10.
- Ah....apertei 20, deu nulo. voltei e apertei 50 pra não perder meu voto.
Agora vai!

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31 Outubro

Nessas semanas de campanha, o que mais preocupa não é termos perdido a eleição. Sim, perdemos. 
O que preocupa é não termos a possibilidade de debate com uma enorme parcela da população. Quando falamos cidade, não falamos da mesma coisa, quando falamos democracia, não falamos da mesma coisa, quando eles falam humanos, não falamos da mesma coisa.
A aproximação é dificilmente discursiva, pois nos faltam os mesmos referentes. 
Se acharmos que iremos convencer os eleitores do crivella de que nosso projeto é melhor, perderemos de saída.
Precisamos inventar junto com eles.
Conheci muitos eleitores do crivella articulados, inteligentes, mas na política e na experiência cotidiana, nos faltavam os mesmos objetos. Diria que nosso projeto político hoje passa por intensos deslocamentos sensíveis - nossos também. Trata-se de se autorizar uma insegurança, uma modéstia. Com os eleitores do crivella precisamos esquecer as eleições que virão, a igreja, etc. Vamos  levantar uma parede, vamos fazer um filme.

10 de set de 2016

O que é uma ocupação?

O que é uma ocupação?
Por Cezar Migliorin

Carta lida no dia 7 de setembro de 2016 aos estudantes da UFF que ocuparam o novo Instituto de Artes e Comunicação.

            Só posso começar agradecendo o convite para estar aqui nesse prédio e poder dar uma aula no espaço que nos é prometido desde 2008, ano em que entrei na UFF. Estar aqui hoje, com a ocupação de vocês, dá sentido ao esforço de muitos em fazer esse prédio, da sentido às verbas destinadas para a expansão da universidade. Ao mesmo tempo, quando vejo esse prédio sem janelas ou portas com aparelhos de ar condicionado nas paredes, me dou conta como o absurdo está na nossa porta.
            Nesse momento pavoroso do país, a invenção de um espaço político é das ações mais importantes que podem ser feitas. Chegar aqui, ler o que vocês escrevem, é perceber que há uma imaginação política inconteste. Uma energia e uma estética que expressam a inquietação macropolítica – e ai estão os embates com a instituição, com o estado, com o golpe – e expressam também as dissidências com os modos de vida majoritários.
            Nos dias que antecederam minha vinda para cá, me lembrava das ocupações que conheci, lia sobre vocês, pensava na universidade e me perguntava. O que é uma ocupação? É claro que não darei uma resposta, mas o texto que segue é um esforço nesse sentido.
            Subitamente, pessoas que não têm – ou não desejam - a necessária legalidade institucional ou econômica para estar em um lugar, se organizam e dizem: este lugar nos pertence. Não no sentido que gostaria capital -  com seus títulos de propriedade – mas apontando para o fato de que os títulos que garantem o pertencimento deste espaço à este ou àquele, na verdade, nada mais fazem que usurpar um teatro, uma universidade, um prédio, do bem comum.
            A ocupação é assim, antes de tudo um duplo questionamento: 1) questionamento das formas de legitimar a circulação e as divisões dos espaços em uma sociedade, 2) questionamento dos títulos de pertencimento e, no limite, da própria noção de propriedade.
            Em um movimento de ocupação o que parece estar em questão nunca é exclusivamente o espaço ocupado. Não se trata de tornar-se proprietário do espaço ocupado, mas de permitir uma circulação e um uso que os espaços proprietários não permitem. No limite, trata-se de fazer do espaço um agente na imaginação política. Espaço em que se imagina e se age fora de uma ordem que não para de definir os possíveis para os indivíduos, cada vez mais separados de destinos coletivos.
            A ocupação tem o espaço ocupado como um epicentro necessariamente conectado com o lado de fora. Uma ocupação é uma invenção de traços de conexão com pessoas, instituições, poderes. Uma ocupação é o epicentro conectivo. Como força disjuntiva, o espaço ocupado possui muros que estão ali para abrigar e não separar.
            Quando um espaço é desocupado por pedido, violência ou cansaço, dois outros podem ser ocupados mantendo a ocupação como uma perturbação do esquadrinhamento espacial feito pelos poderes. Ocupar e fazer como as abelhas que distribuem os pólens entre as flores quase sem querer. A insubordinação da ocupação não pode se tornar uma subordinação ao território. Quem ocupa vive a ocupação para além dos muros ou territórios. Ocupar é muito maior que o espaço ocupado.
            Não são paredes, tetos e portas que definem os espaços, mas as possibilidades subjetivas que ele enseja.
            Mas não abandonemos os territórios. Eles são porosos ao que está fora, se fazem na comunicação e vitalização de corpos e cérebros em contato. Território-corpo que se inventa em espaços fugidios.
            No interior da ocupação – interior atravessado por tudo o que não é aquele espaço – uma ordem está em constante transformação. O espaço demanda uma organização, mas não é uma associação direta entre indivíduos e ações. A limpeza, a comida, a comunicação não é feita por indivíduos especializados – ou terceirizados como vemos nas universidades e escritórios – mas por sujeitos que não param de ser uma coisa em dia, outra em outro.  Uma ocupação aponta para sujeitos que escorregam entre identidades, desorganizam a ordem do especialista ou a verticalidade dos que mandam e dos mandados. Uma invenção política passa pela intensidade que se esparrama com os novos arranjos colaborativos.
            O espaço ocupado desorganiza a associação entre corpos e afazeres e cria laços de cooperação em que festa, trabalho e amor não param de se entrelaçar e produzir novas associações produtivas e políticas.
            Quem ocupa não é ocupante, ou se é, ser ocupante significa não ter identidade, mas pertencer a um coletivo que antes de dizer o que é, se coloca sob o risco da invenção/Ocupação.
            Toda ocupação inventam um espaço ao mesmo tempo em que inventa formas de vida. Uma forma de vida que não pede autorização para agir, e mais que isso, diz que a ação é possível. Um agir que configura novas formas de interação entre sujeitos, instituições, imaginação e colaboração.
            A ocupação perturba: ela não tem uma finalidade limitada. Não se resolve uma ocupação na negociação. Ela é o ponto fora do acordo. O ponto fora do consenso. Por ser epicentro conectivo e ponto fora do acordo, uma ocupação não é jamais uma luta por território. Antes de se lutar por um espaço específico, se luta pela forma de ver, viver e dizer sobre o território. Se a luta fosse pelo território, tal como se apresenta, uma ocupação se confundiria com a prática proprietária e abriria mão do gesto intrínseco à resistência: a criação.
            Não seu ocupa para manter o mesmo, o já existente, o que o espaço é e os sujeitos são, mas para fazer da ocupação um processo de criação. Processo em que a invenção acontece quando sujeitos e espaços estão colocados juntos, no desafio de viver e desfazer as coordenadas e funcionalidades do espaço quando ele preexistia  à ocupação. Sem criação não há ocupação, sem desapego ao território a  ocupação é engolida pela lógica proprietária.
            Tudo o que os poderes desejam é que a ocupação diga: qual sua reivindicação? Claro, esta é a forma ideal de controlar o desejo e a circulação de modos de vida e potências que se criam com a própria ocupação. A ação política da ocupação é de outra natureza -  para ela ainda não há lei, ordem, poderes que a representem. Levar a ocupação para a ordem da representação é retirar dela seu acontecimento, é colocar a ocupação como apenas mais um ator nas lógicas de poder em curso. É preciso se alimentar sem perder a loucura.
            Ocupar é desregrar o visível e o experimentável em um espaço dado. Ocupar é estabelecer com o nosso tempo uma relação menos constrangedora do que aquilo ao qual fomos preparados. Não se ocupa com promessas de futuro, mas porque o presente é ele mesmo intolerável.
            Quando tudo parece dominado, quando a ação parece impossível, é chegada a hora de ocupar, uma vez que a ocupação é uma ação sem fim definido. Ocupa-se para respirar, ocupa-se quando a ação está a beira do desmoronamento, quando o individualismo que organiza o mundo perde o sentido e a ocupação vem retraçar possibilidades coletivas com “eus” cindidos, rachados. Ocupantes não tem nome ou papéis. São antes corpos coletivos, variáveis e intercambiáveis. A cada dia um líder, a cada liderança um novo gesto.
            Ao mesmo tempo em que a ocupação institui um fora das ordens vigentes e dos consensos reguladores, ela institui um dentro, uma força comum e coletiva. Todo o risco de uma ocupação está na possibilidade de ela acreditar nesse dentro da ocupação como dicotomia com o fora. Isso é o que desejam os grandes operadores do poder: a dicotomia dentro/fora, lei ou desordem. A ocupação precisa estar além dessa dicotomia, fazer da fronteira entre dentro e fora a sua casa. Fazer escorregar a lei na justiça.
            Ocupar é imitar os que ocupam e transbordar nossa ocupação ao que é ocupável. É apostar na dispersão de uma ação sem posse e multiplicação do que é comum.  Ocupa-se por contagio e para contagiar.
            Ocupa-se porque os valores em curso estandartizam as potências individuais e de grupo. Ocupar é desfazer a ordem dos valores. Um desfazer que antes de dizer quais são os novos valores, introduz uma incomensurabilidade no que se produz – ajudas aparecem de todos os lados, forças descentralizadas maiores que qualquer ordem. Toda ocupação é um sem medida do que podem sujeitos e espaços no cotidiano de suas invenções. É com o sem medida que se concretiza a transformação do presente.

            Vida longa a todos que ousam.