2 de nov de 2016

Eleições Rio 2016




26 setembro

Alguns dizem:
O Freixo não dialoga com a zona oeste, o Freixo não fala com os pobres.
Essas afirmações apenas corroboram o preconceito com a juventude das periferias. 
As afirmações querem na verdade dizer que esses cidadãos são apenas manipulados, não pensam politicamente e que se preocupam apenas com as necessidades imediatas.
Quanto engano! 
Os que dominam a Tv, se apóiam nas milícias e promovem a exclusão com o transporte e a educação não entenderam nada.
A crença na política presente na campanha do Freixo não tem exclusividade de classe. O desejo de democracia não tem fronteira.
Freixo estará no segundo turno, com todos.


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28 setembro

Faltam 4 dias para tirarmos o PMDB do Rio de Janeiro.
Nos próximos dias, estaremos nas ruas.
Olho no olho do eleitor. Há um entusiasmo com a política que atravessa a cidade.

A direita acusa a campanha do Freixo de não falar com os pobres.
- Candidatos do Psol barrados por milícias.
- No final de semana, Candidatos do Psol barrados no Cantagalo.
O PMDB reparte o território da mesma forma que repartiu a cidade pelas empreiteiras. Opressão concreta.
Acham que pobre tem que ter língua só para eles. Partem da desigualdade. Opressão simbólica.
O que é perturbador para eles é que partimos da igualdade.
Esse é o norte.

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30 setembro


O dia hoje, na rua, deixou para mim uma certeza: o debate na Globo tem um efeito enorme.
Com muitos que conversei, a impressão é que pela primeira vez estavam efetivamente decidindo o voto.
Em uma semana de rua, nunca a proposta de votar no Freixo havia sido tão bem recebida.
Estou na bolha Centro/Zona Sul, mas, nessa bolha, Freixo virou a principal referência.
Sábado é na rua.
que venha domingo!

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1 outubro

Há três dias era fácil identificar um eleitor do freixo. Hoje foi impossível. Eram pessoas de todo tipo, todas classes e idades. Segundo turno.
50!

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3 Outubro

- Não vou votar no Freixo. Ele é colado com o pessoal do PT.
Esse argumento foi corrente nas ruas.
Não há dúvida que uma história da esquerda atravessa os dois partidos e essa proximidade ainda encontra recorrentes ecos. A campanha do Rio e de São Paulo é prova disso.
Entretanto, o Psol surge deixado o poder há 12 anos, justamente quando Lula nadava em altíssima popularidade. Naquele momento foi necessário não compactuar com certos caminhos do PT, foi necessário ter liberdade para se opor a projetos petistas, o que não significou romper a proximidade ideológica em alguns casos, como na defesa da democracia. O Psol surge assim de um projeto político e não de poder.
Já Crivella foi a favor do golpe – e é assim que tentará mobilizar uma parte do eleitorado - mas foi ministro até o final, usufrui das benesses do poder, até se ligar a Garotinho.
Se há proximidade com o que é criticável no PT, essa proximidade é de Crivella.

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3 Outubro

Temos um desafio gigante pela frente neste segundo turno no Rio.
Por um lado, uma energia cheia de desejo está irradiada na cidade. Ontem, na Lapa, de todos os lugares chegavam grupos empolgados com a política. Muita gente!
Nas ruas, a companha foi a certeza de que há uma cidade a ser feita, pensada, democratizada.
Ao mesmo tempo, precisamos ganhar a eleição. Sabemos que o discurso do Freixo não basta. É lindo ele dizer: Escola sem partido é o cacete!, não pode dizer menos. Mas não é com os votos de Jandira e Molon que venceremos. Que possibilidade de diálogo com os outros derrotados, Índio e Osório? Será suficiente apenas apostar no voto contra o Crivella? Não sei, não entendo nada de estratégia política. - e acho que poucos entendem – O Paes e Marta Suplicy para comprovarem.
Uma coisa é certa. Não precisamos da máquina ou de grandes doadores - um grande passo!
Como juntar a loucura e a emoção de ontem com a vitória que o Rio tanto precisa?
Quero o possível e o impossível ao mesmo tempo.

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6 Outubro

Para nós que estamos apoiando o Freixo, a campanha pode ser um grande exercício de modéstia.
Nada mais didático do que passar algumas horas na saída de uma estação de metrô, conversando com os trabalhadores que depois de duas horas chegam na Zona Sul do Rio para atender os ricos.
É o óbvio, mas ali estão pessoas que pensam, que desejam mundos melhores, que lidam de maneira pouco harmônica com tradições familiares e religiosas e que eventualmente não votarão em nosso candidato.
Se o fundamentalismo religioso precisa ser combatido de frente no nível macro, nas leis, na oposição ao escola sem partido, na políticas de gênero etc, nesse corpo a corpo a modéstia é necessária.
Não temos na vida as necessidades e urgências que mobilizam as pessoas a aderirem a uma igreja, a um candidato, a uma rede assistencial em um bairro periférico.
Se nosso apoio ao Freixo está fortemente ligado ao nosso desejo de democracia – na cidade, no transporte, na educação – como fazer dessa democracia o norte para nossa relação com o outro, com as mulheres que chegam em Botafogo para nos atender nos supermercados, balcões e bilheterias?
Antes de tudo, dar nosso tempo. Saber de nossas diferenças e reafirmar nossa opção pela democracia.
Não se ganha um voto só com uma conversa ou com um post, mas certamente se perde para sempre.
Temos certezas, claro. Mas sem essa modéstia e esse tempo, ficaremos tristes com nossa derrota, mas felizes com nossas certezas. É pouco.
(obs. Hoje, na saída do metrô de Botafogo, o pessoal da campanha estará lá com material)

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7 Outubro

Freixo é um radical.
Essa acusação chega à militância com muita frequência. É com ela que teremos que conviver.
A questão parece ser: que radicalismo é esse?
O filósofo francês Jacques Rancière faz uma sintética e precisa formulação sobre a democracia: a democracia é um escândalo.
Esse escândalo está diretamente ligado à possibilidade de qualquer um – sujeito sem nome ou CEP especial - ter direito de participar dos caminhos da sociedade. Direito também a tudo que nossa comunidade – país, mundo - decidiu como sendo o básico para a vida: saúde, justiça, educação, tempo e direito a exercer em plenitude o que podemos – nos afetos e sensibilidade.
Eis o escândalo e a radicalidade de um projeto político.
- Você que acusa meu candidato de radical, você não deixa de ter alguma razão. Acreditamos e lutamos pelo por direito de todos, sem distinção. Por isso elegemos professores, mulheres negras, homossexuais e jornalistas. Sim, até jornalistas!
O radicalismo é esse. Quando o Marcelo Odebrecht ou um deputado é preso, sabemos que não será torturado, que não sofrerá abusos. Radical é trabalharmos para que isso seja um direito de todos.
No fundo, o radicalismo é a democracia mesmo.

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7 Outubro
Ontem depois de um post em que falava das pessoas que vem para a Zona Sul trabalhar, vivi uma breve situação que transformo em uma carta:
Rio de Janeiro, 6 de outubro de 2016.
Cara (não sei o nome dela ainda)
Ontem a noite, enquanto sua colega me perguntava se eu pagaria minhas compras no crédito ou débito, não pude deixar de escutar você dizendo a outro colega que votaria no Crivella. Minha reação foi um pouco rápida e acabei te dizendo: “Puxa, não faça isso, é muito ruim para a cidade.” É Claro que isso não é um argumento e nem eu tinha o direito de ali continuar expondo minhas razões para votar no Freixo, sobretudo porque você estava no trabalho e eu não, ou seja, eu podia ir embora e você não. Não podíamos começar essa conversa com tal desigualdade.
Você foi generosa e aceitou minha proposta de te levar algum material sobre o Freixo. Decidi, entretanto, te escrever.
Uma breve apresentação: o Marcelo Freixo é um deputado que há mais de 20 anos vem tendo uma atuação constante no Rio de Janeiro pela melhoria da cidade e pela atenção aos mais necessitados. Alguém que conhece profundamente a cidade. Como você talvez saiba, ele enfrentou a violência das milícias que impedem a livre circulação, que ameaçam e matam, sobretudo os mais pobres. Fez isso com uma coragem impressionante. É com essa atenção que o Freixo acabou sendo o deputado mais votado do país em 2014 e é com essa preocupação com o Rio de Janeiro que ele agora é candidato a prefeito com objetivos voltados para os que mais necessitam.
Creche, escola integral, transporte de qualidade e, sobretudo, uma aposta de que é possível fazer política com a participação das pessoas, dos bairros e não apenas com grandes empreiteiras – os ricos – ou entregando cargos para aliados para conseguir tempo de televisão, o que infelizmente o Crivella tem feito, com o ex-governador Garotinho inclusive.
Gostaria assim de te dizer que hoje a minha opção pelo Freixo vem dessa história dedicada ao Rio de janeiro e aos mais necessitados e de um presente, muito inventivo e democrático na política. O Psol, partido do Freixo, elegeu esse ano, por exemplo, uma mulher negra moradora da Maré. Acreditamos que esse tipo de representação é fundamental. Conseguimos ir para o segundo turno com apenas 11 segundos de TV, graças à participação de pessoas como nós.
Queria te dizer ainda que o Freixo tem sido radical nessas escolhas. Essa é uma campanha indignada com as desigualdades de nossa cidade e a radicalidade está em respeitar o direito de todos, mesmo que para os poderosos isso seja um insulto. Mesmo que isso o faça perder os votos dos que fomentam preconceitos.
Minha cara, sei que mudar o voto de alguém é algo muito difícil. Acho, por exemplo, muito difícil que eu mude o meu, sobretudo porque apoiei Freixo no primeiro turno. Mas, essa breve carta é também a crença na política mesmo, crença de que podemos conversar, saber das opções dos outros, respeitar as diferenças e escolhas pessoais.
Se te convenço ou não, importa menos agora. Sobretudo agradeço tua atenção e a possibilidade de uma conversa mais duradoura entre o “no crédito ou no débito”.
Te mando também exemplar do meu livro, “Cartas sem resposta”. Espero que goste. Caso não queiras responder, não há problema. Estou acostumado :).
Abraços
Cezar

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8 Outubro

O debate da Bandeirantes foi importante para deixar clara a distância entre os candidatos Freixo e Crivella em relação à democracia.
Enquanto Crivella dizia insistentemente que vai cuidar das pessoas, Freixo apontava para as propostas de participação popular presentes em seu programa: vou governar com as pessoas.
Ora, estamos diante de dois mundos.
Um que diz que somos incapazes, frágeis e que precisamos de um cuidador. Outro diz que podemos, que temos força e que todos devem participar dos destinos da cidade.
Há um abismo entre as posições.

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10 Outubro

Crivella diz constantemente: vou cuidar de vocês.
Ao mesmo tempo, todas as suas propostas passam por um esvaziamento do estado e de sua capacidade de intervenção para garantir o mínimo para todos.
Por um lado o discurso paternalista, por outro o cada um por si.
Essas duas esferas não são incompatíveis.
No mundo liberal do Crivella, os direitos comuns são esvaziados, não deve haver nenhum solo mínimo para a vida. 
Como esse sistema não para de gerar exclusão e pobreza, Crivella e os sistemas assistencialistas – da igreja ao tráfico – voltam à cena.
– Você que não tem na sociedade um direito mínimo, venha para nós!
A complementariedade entre o neoliberalismo e o paternalismo encontra ali sua bem acabada expressão.

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12 Outubro

A estratégia de Crivella nesse segundo turno é bem clara.
Se aproximar de Freixo na micropolítica – respeito pelas minorias e direitos humanos.
Se distanciar na macropolítica – privatizações, OSs e relegar o papel do Estado a ser um promotor da competição generalizada, dos empresários aos professores.
O que é preciso explicitar é que essas duas feições da política podem funcionar na campanha, mas não na prática.
Ou o Estado tem poder de intervenção em beneficio dos mais necessitados ou são justamente as minorias e os direitos humanos que são comprometidos.

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12 Outubro

Hoje, em Copacabana, uma multidão chegava para um show gospel.
Nossa campanha estava subitamente no meio de um comício do Crivella.
No meio disso, alguns nos abordavam pedindo adesivos e manifestando apoio ao Freixo.
- Sou da Contemporânea. Defendemos os valores da família — casamento gay e adoção gay.
Outros evangélicos pediam adesivos do Freixo imbuídos de uma rebeldia com aquele universo sem deixarem de lado a religião.
Algumas moças, com faixa 100% jesus, também pediam adesivos:
- O Psol elege mulheres negras.
Um mundo complexo, uma eleição que podemos ganhar.

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15 Outubro

Hoje na Cardeal Arcoverde – Copacabana - , a vendedora do quiosque de cachorro quente me chamou e perguntou:
- Por que você acha que eu devo votar no Freixo?
Ah se todos fossem como você, pensei...
Tentei falar rápido, afinal ela estava trabalhando e as pessoas parecem ter pouco tempo para as conversas sobre eleição. Elenquei dois ou três argumentos e ela me disse: Pois eu vou votar no Crivella.
Nesse momento, o Julio Ludemir nos encontra por acaso e é direto: 
- Você está satisfeita com a cidade?
- Não, disse ela.
- Então podemos conversar, pois se você estivesse, eu acho que você deveria votar no Crivella mesmo.
- Não estou, quem é o Freixo? Ela perguntou.
Julio conhece muito, muito a história do Freixo e com tempo contou sua história. Do primeiro estágio como professor em um presídio até o cotidiano, ainda hoje, durante a campanha, indo à câmara todos os dias.
Uma segunda vendedora se aproximou para ouvir.
A narrativa foi diversas vezes interrompida pelas moças com perguntas e colocações de quem acompanha a política nacional intensamente. Uma conversa com a complexidade da cidade. Ao mesmo tempo em que acusavam o funk de perverter a juventude e votavam no Crivella, se disseram contra o impeachment e contra a PEC 241.
Gentilmente nos despedimos e gentilmente elas disseram que estavam pensando em quem votar.
Comprei uma água ao ir embora. Me arrependi por ter reestabelecido os lugares entre os dois lados do balcão.

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16 Outubro

Uma eleição em dois turnos se ganha com uma virada sensível.
É uma bobagem dizer que Freixo errou ao falar de golpe em algum momento. Uma bobagem. Quem é contra a esquerda achará sempre algum elemento para se apegar para poder dizer: esse não me serve, esse é radical.
É uma bobagem querer que subitamente o Psol apague sua história de respeito às diferenças, inclusive religiosas, para destruir o Bispo. Uma bobagem também, hoje, assumir o tom família do outro candidato, como se não representássemos outro ritmo, outra forma de habitar a cidade.
Ganhar essa eleição depende uma virada sensível. Ou seja, não é mais na pequena argumentação que ganharemos - mesmo que ela continue sendo necessária -, mas da possibilidade de criarmos, nesse tempão que ainda falta para as eleições, uma onda com alegria e certeza de que o Freixo é uma novidade.
A insatisfação com a cidade é geral e só essa onda Freixo pode transformar isso em voto. Essa onda passa pela vontade de participar dessa invenção de uma outra cidade, de uma outra política.
Quem está satisfeito está em casa bem tranquilo que o Crivella não vá aos debates.
Os outros estão por ai esperando que um clique aconteça, uma chocalho de Xamã, uma experiência de grupo ou um simples vamos nessa. 

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19 Outubro

A liberdade nas propostas do freixo aparecem em toda parte: participação popular no orçamento, autonomia curricular, nas questões de gênero e mesmo a relação de Freixo com os direitos humanos pode ser lida - erroneamente - como uma falta de limite entre o certo e o errado.
A liberdade das proposta por vezes parece ser o contrário da segurança demanda pelos eleitores.
- eu vou cuidar de você, diz crivella, apostando no lugar de "incapaz"dos eleitores.
Me oprima - com deus, polícia ou algum poder paralelo - e serei feliz.
Seriamos partidários dessa síndrome autopunitiva?
Talvez, ar dos tempos, só encontremos paz quando temos todas as nossas forças exauridas e nada sobre para a liberdade, ela mesma sem função.
Como não temermos essa liberdade? Esse parece ser o trabalho na política hoje.

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27 Outubro

Estamos na campanha. Esses dias são decisivos.
Por um lado, já ganhamos. Colocar para toda a cidade as pautas democráticas de uma proposta de esquerda não é simples, mas extremamente necessário. Por outro, é impressionante como a recusa pelo voto no Freixo é pautada por um desinteresse, justamente, dessas práticas democráticas.
No final dessa campanha a diferença entre os candidatos ficou mais explícita do que nunca. De um lado um candidato que pauta sua política pelo respeito ao outro, pela atenção às diferenças, por um desejo de igualdade e aberto aos complexos diálogos que o cargo exige. Do outro, o bispo que não para, a cada vídeo, a cada nova declaração – ou ausência em debates – de expressar um extremo descaso por uma cidade em que vidas muito diversas estão juntas. Um desprezo agressivo pelo outro – de classe, de gênero, de crença, etc.
O preocupante é que para muitos que irão votar em Crivella ou nulo, esse desprezo pela democracia não é importante.
Essas eleições no Rio explicitam que a democracia como norte não é algo amplamente compartilhado em nossa sociedade.
Entre Freixo e Crivella, não se trata mais de duas ideologias, ou esquerda e direita, mas de duas naturezas distintas no trato com sujeitos e com a cidade.
Votar nulo hoje é admitir que os princípios republicanos não interessam tanto, que a democracia pode ser colocada em segundo lugar.
É Isso que está em jogo.

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30 Outubro
- moço, o crivella é número 20?
Demorei um pouco. o que fazer?: - não é 10.
- Ah....apertei 20, deu nulo. voltei e apertei 50 pra não perder meu voto.
Agora vai!

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31 Outubro

Nessas semanas de campanha, o que mais preocupa não é termos perdido a eleição. Sim, perdemos. 
O que preocupa é não termos a possibilidade de debate com uma enorme parcela da população. Quando falamos cidade, não falamos da mesma coisa, quando falamos democracia, não falamos da mesma coisa, quando eles falam humanos, não falamos da mesma coisa.
A aproximação é dificilmente discursiva, pois nos faltam os mesmos referentes. 
Se acharmos que iremos convencer os eleitores do crivella de que nosso projeto é melhor, perderemos de saída.
Precisamos inventar junto com eles.
Conheci muitos eleitores do crivella articulados, inteligentes, mas na política e na experiência cotidiana, nos faltavam os mesmos objetos. Diria que nosso projeto político hoje passa por intensos deslocamentos sensíveis - nossos também. Trata-se de se autorizar uma insegurança, uma modéstia. Com os eleitores do crivella precisamos esquecer as eleições que virão, a igreja, etc. Vamos  levantar uma parede, vamos fazer um filme.

10 de set de 2016

O que é uma ocupação?

O que é uma ocupação?
Por Cezar Migliorin

Carta lida no dia 7 de setembro de 2016 aos estudantes da UFF que ocuparam o novo Instituto de Artes e Comunicação.

            Só posso começar agradecendo o convite para estar aqui nesse prédio e poder dar uma aula no espaço que nos é prometido desde 2008, ano em que entrei na UFF. Estar aqui hoje, com a ocupação de vocês, dá sentido ao esforço de muitos em fazer esse prédio, da sentido às verbas destinadas para a expansão da universidade. Ao mesmo tempo, quando vejo esse prédio sem janelas ou portas com aparelhos de ar condicionado nas paredes, me dou conta como o absurdo está na nossa porta.
            Nesse momento pavoroso do país, a invenção de um espaço político é das ações mais importantes que podem ser feitas. Chegar aqui, ler o que vocês escrevem, é perceber que há uma imaginação política inconteste. Uma energia e uma estética que expressam a inquietação macropolítica – e ai estão os embates com a instituição, com o estado, com o golpe – e expressam também as dissidências com os modos de vida majoritários.
            Nos dias que antecederam minha vinda para cá, me lembrava das ocupações que conheci, lia sobre vocês, pensava na universidade e me perguntava. O que é uma ocupação? É claro que não darei uma resposta, mas o texto que segue é um esforço nesse sentido.
            Subitamente, pessoas que não têm – ou não desejam - a necessária legalidade institucional ou econômica para estar em um lugar, se organizam e dizem: este lugar nos pertence. Não no sentido que gostaria capital -  com seus títulos de propriedade – mas apontando para o fato de que os títulos que garantem o pertencimento deste espaço à este ou àquele, na verdade, nada mais fazem que usurpar um teatro, uma universidade, um prédio, do bem comum.
            A ocupação é assim, antes de tudo um duplo questionamento: 1) questionamento das formas de legitimar a circulação e as divisões dos espaços em uma sociedade, 2) questionamento dos títulos de pertencimento e, no limite, da própria noção de propriedade.
            Em um movimento de ocupação o que parece estar em questão nunca é exclusivamente o espaço ocupado. Não se trata de tornar-se proprietário do espaço ocupado, mas de permitir uma circulação e um uso que os espaços proprietários não permitem. No limite, trata-se de fazer do espaço um agente na imaginação política. Espaço em que se imagina e se age fora de uma ordem que não para de definir os possíveis para os indivíduos, cada vez mais separados de destinos coletivos.
            A ocupação tem o espaço ocupado como um epicentro necessariamente conectado com o lado de fora. Uma ocupação é uma invenção de traços de conexão com pessoas, instituições, poderes. Uma ocupação é o epicentro conectivo. Como força disjuntiva, o espaço ocupado possui muros que estão ali para abrigar e não separar.
            Quando um espaço é desocupado por pedido, violência ou cansaço, dois outros podem ser ocupados mantendo a ocupação como uma perturbação do esquadrinhamento espacial feito pelos poderes. Ocupar e fazer como as abelhas que distribuem os pólens entre as flores quase sem querer. A insubordinação da ocupação não pode se tornar uma subordinação ao território. Quem ocupa vive a ocupação para além dos muros ou territórios. Ocupar é muito maior que o espaço ocupado.
            Não são paredes, tetos e portas que definem os espaços, mas as possibilidades subjetivas que ele enseja.
            Mas não abandonemos os territórios. Eles são porosos ao que está fora, se fazem na comunicação e vitalização de corpos e cérebros em contato. Território-corpo que se inventa em espaços fugidios.
            No interior da ocupação – interior atravessado por tudo o que não é aquele espaço – uma ordem está em constante transformação. O espaço demanda uma organização, mas não é uma associação direta entre indivíduos e ações. A limpeza, a comida, a comunicação não é feita por indivíduos especializados – ou terceirizados como vemos nas universidades e escritórios – mas por sujeitos que não param de ser uma coisa em dia, outra em outro.  Uma ocupação aponta para sujeitos que escorregam entre identidades, desorganizam a ordem do especialista ou a verticalidade dos que mandam e dos mandados. Uma invenção política passa pela intensidade que se esparrama com os novos arranjos colaborativos.
            O espaço ocupado desorganiza a associação entre corpos e afazeres e cria laços de cooperação em que festa, trabalho e amor não param de se entrelaçar e produzir novas associações produtivas e políticas.
            Quem ocupa não é ocupante, ou se é, ser ocupante significa não ter identidade, mas pertencer a um coletivo que antes de dizer o que é, se coloca sob o risco da invenção/Ocupação.
            Toda ocupação inventam um espaço ao mesmo tempo em que inventa formas de vida. Uma forma de vida que não pede autorização para agir, e mais que isso, diz que a ação é possível. Um agir que configura novas formas de interação entre sujeitos, instituições, imaginação e colaboração.
            A ocupação perturba: ela não tem uma finalidade limitada. Não se resolve uma ocupação na negociação. Ela é o ponto fora do acordo. O ponto fora do consenso. Por ser epicentro conectivo e ponto fora do acordo, uma ocupação não é jamais uma luta por território. Antes de se lutar por um espaço específico, se luta pela forma de ver, viver e dizer sobre o território. Se a luta fosse pelo território, tal como se apresenta, uma ocupação se confundiria com a prática proprietária e abriria mão do gesto intrínseco à resistência: a criação.
            Não seu ocupa para manter o mesmo, o já existente, o que o espaço é e os sujeitos são, mas para fazer da ocupação um processo de criação. Processo em que a invenção acontece quando sujeitos e espaços estão colocados juntos, no desafio de viver e desfazer as coordenadas e funcionalidades do espaço quando ele preexistia  à ocupação. Sem criação não há ocupação, sem desapego ao território a  ocupação é engolida pela lógica proprietária.
            Tudo o que os poderes desejam é que a ocupação diga: qual sua reivindicação? Claro, esta é a forma ideal de controlar o desejo e a circulação de modos de vida e potências que se criam com a própria ocupação. A ação política da ocupação é de outra natureza -  para ela ainda não há lei, ordem, poderes que a representem. Levar a ocupação para a ordem da representação é retirar dela seu acontecimento, é colocar a ocupação como apenas mais um ator nas lógicas de poder em curso. É preciso se alimentar sem perder a loucura.
            Ocupar é desregrar o visível e o experimentável em um espaço dado. Ocupar é estabelecer com o nosso tempo uma relação menos constrangedora do que aquilo ao qual fomos preparados. Não se ocupa com promessas de futuro, mas porque o presente é ele mesmo intolerável.
            Quando tudo parece dominado, quando a ação parece impossível, é chegada a hora de ocupar, uma vez que a ocupação é uma ação sem fim definido. Ocupa-se para respirar, ocupa-se quando a ação está a beira do desmoronamento, quando o individualismo que organiza o mundo perde o sentido e a ocupação vem retraçar possibilidades coletivas com “eus” cindidos, rachados. Ocupantes não tem nome ou papéis. São antes corpos coletivos, variáveis e intercambiáveis. A cada dia um líder, a cada liderança um novo gesto.
            Ao mesmo tempo em que a ocupação institui um fora das ordens vigentes e dos consensos reguladores, ela institui um dentro, uma força comum e coletiva. Todo o risco de uma ocupação está na possibilidade de ela acreditar nesse dentro da ocupação como dicotomia com o fora. Isso é o que desejam os grandes operadores do poder: a dicotomia dentro/fora, lei ou desordem. A ocupação precisa estar além dessa dicotomia, fazer da fronteira entre dentro e fora a sua casa. Fazer escorregar a lei na justiça.
            Ocupar é imitar os que ocupam e transbordar nossa ocupação ao que é ocupável. É apostar na dispersão de uma ação sem posse e multiplicação do que é comum.  Ocupa-se por contagio e para contagiar.
            Ocupa-se porque os valores em curso estandartizam as potências individuais e de grupo. Ocupar é desfazer a ordem dos valores. Um desfazer que antes de dizer quais são os novos valores, introduz uma incomensurabilidade no que se produz – ajudas aparecem de todos os lados, forças descentralizadas maiores que qualquer ordem. Toda ocupação é um sem medida do que podem sujeitos e espaços no cotidiano de suas invenções. É com o sem medida que se concretiza a transformação do presente.

            Vida longa a todos que ousam.

29 de jul de 2016

Olimpíada-selfie

29 julho 2016

Olimpíada-selfie
Nessa semana uma imagem ordinária e impressionante circulou amplamente.
Durante a corrida da tocha olímpica uma moto atropela uma bicicleta. Quase imediatamente, um homem que acompanhava o desfile pega o seu celular e, enquanto os acidentados ainda caiam, ele se fotograva com o acidente ao fundo. Uma selfie quente. Feita no instante do acontecimento.
Cada época possui seus gestos emblemáticos. São os movimentos repetitivos da era industrial, eternizados em sua dimensão crítica com Chaplin; os punhos cerrados dos Panteras negras, marcando as lutas dos anos 60*, etc.
Essa selfie, feita no calor da hora, parece ser dos gestos mais emblemáticos do mundo contemporâneo.
O homem se registra como parte de um evento. Faz uma imagem que comprova sua presença durante algo extraordinário. O gesto é feito com extrema velocidade, como uma reação motora. Assim como afastamos rapidamente a mão de algo quente, sem termos que pensar, o homem saca a câmera e faz a foto sem pensar.
Produzir uma imagem tornou-se uma reação sensório-motora.
Diante do acidente, a reação instintiva não é socorrer, mas se registrar. Faz-se assim uma dupla relação com o acontecido. Por um lado o homem deseja o evento – registrado na selfie – por outro se distancia dele, não participa. No limite está completamente apartado do que acontece.
Um gesto tão emblemático não está separado do mundo que o torna possível.
No Rio de Janeiro hoje podemos dizer que temos uma olimpíada-selfie. O grande evento acontece e serve de cenário para todos, desde que estejamos apartados do evento. A lógica da separação entre a minha foto e a cidade é levada ao extremo. Uma lógica de separação entre as vidas e o que acontece no entorno. Somos constantemente avisados pelas barreiras e pela polícia: pode fotografar, mostrar como cenário, mas não se envolva.
Faça como o rapaz do vídeo: faça sua selfie, mas deixe os desastres em paz.
* Tommie Smith e John Carlos, fizeram a saudação durante a cerimônia de premiação nos jogos de 68 e foram banidos dos Jogos.

SOCINE - em defesa da Cinema Brasileira

28 julho 2016

SOCINE - em defesa da Cinema Brasileira
Prezado Secretário do Audiovisual - interino, Sr. Alfredo Bertini
Prezado Ministro da Cultura - interino, Sr. Marcelo Caleiro
Prezado Presidente da República - interino, Sr. Michel Temer
Foi com estarrecimento que a Socine – Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual - recebeu a notícia da demissão de vários funcionários da Cinemateca Brasileira, incluindo sua Coordenadora-geral, Olga Futemma.
A medida intempestiva, sem explicações ou aviso prévio, coloca em risco o trabalho de uma das maiores instituições de preservação audiovisual do mundo e que angariou o respeito de instituições congêneres de vários países e em especial da FIAF — International Federation of Film Archives.
O delicado acervo da Cinemateca requer manutenção contínua e altamente especializada. Funcionários com a mesma especialização e experiência não serão encontrados em curto prazo. Nesse sentido, temos a impressão de que nem a atual Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, nem o próprio ministro têm clareza sobre os danos que essa medida trará para um dos mais importantes patrimônios culturais do Brasil. Por isso, nós, pesquisadores de cinema, nos vemos no fundamental papel de alertar os senhores sobre os riscos que este acervo corre neste momento.
A Socine solicita ao Ministério da Cultura que reverta esse quadro gravíssimo.
Rio de Janeiro, 28 de Julho de 2016.

terrorismo no Brasil

22 julho 2016

Não há ingenuidade, mico ou tosqueira no caso dos presos por “terrorismo” no Brasil.
Neste momento em que é preciso evitar qualquer manifestação ou qualquer dissenso em relação ao rumos do país e do capital, quanto mais sem sentido forem as prisões, mais eficientes elas serão. 
Quanto mais ilegítimas forem as acusações, mais didáticas elas serão.
Quando usar mochila, barba ou aprender árabe configura o inimigo do Estado, nos tornamos todos potenciais inimigos, potenciais presos.
O Estado age assim como terrorista, ou seja, não escolhe mais as vítimas, transforma todos e qualquer um em alvo. Para ser vitimado pelo estado policial, basta estar vivo. É essa a norma que se reforça com a lei antiterrorismo e com as ações nas vésperas dos Jogos Olímpicos.
O medo como forma de gerenciar a cidade, de controlar a linguagem, a circulação os processos subjetivos e claro, destruir a política.
Não nos basta apenas dizer, serei destemido, mas nos perguntarmos como, coletivamente, a justiça e a democracia são o norte e não o temor pessoal, o meu pequeno mundo privado, meu pequeno salário, meu pequeno conforto – tudo protegido pelo legalismo.

jogos Olímpicos

21 julho 2016

A Zona Sul do Rio de Janeiro, como todos sabem, é um espaço hiper-protegido. Entre o Leblon e o centro se anda a pé mesmo de madrugada. Não é super seguro, mas há movimentos nas ruas, alguns lugares abertos, etc.
As Olimpíadas chegaram com as suas logos coloridas, suas publicidades de megacorporações internacionais e muitos estrangeiros. 
Os Jogos, vendidos como uma festa que reúne países e pessoas de todas as partes do mundo, entretanto, ocupa a cidade de maneira bastante específica.
Quem hoje vê o Rio imagina a cidade mais violenta do mundo. Há militares com armas pesadas por toda parte. Na frente do Maracanã, alguns levavam bazucas. Deve haver um motivo para isso, mas é difícil imaginar uma bazuca sendo usada na Tijuca.
As cores e consagração entre povos é ofuscada pelo verde oliva.
A presença das pessoas nas ruas é ofuscada por constantes avisos de autoridades: “Provavelmente as forças de segurança vão demandar da gente mais bloqueios, mais transtornos.” (prefeito).
Por todo lado há uma forte mistura entre shopping centers, como o instalado nas areias da praia de Copacabana e uma ordem policial que desconsidera o próprio funcionamento da cidade.
Os jogos transformam assim o Rio de Janeiro em uma cidade-aeroporto, lugar de passagem onde as singularidades do local são eliminadas, ao mesmo tempo em que os aparatos extremados de segurança e o consumo internacional convivem lado a lado, na harmonia mais reveladora das formas de organização do mundo.
Extremo consumo e polícia. Que venham os maratonistas.

Escola sem partido 2

20 julho 2016

O projeto Escola sem Partido, alguns pontos.
1 – O projeto é partidário, trata-se de um projeto incialmente encomendado pela família Bolsonaro, conforme nos lembra o professor Fernando de Araujo Penna.
No Rio de Janeiro, 0 vereador Carlos Bolsonaro apresentou projeto de lei nº 867/2014 ementa: "cria, no âmbito do sistema de ensino do município, o “programa escola sem partido”.
2 – O projeto confunde partido e política.
A sala de aula não pode ser um palanque partidário, mas a política é necessária. Nesse sentido, o Escola sem Partido naturaliza a realidade como ela se apresenta; como se não fosse, ela mesma, ideológica, como se nada mais tivéssemos para fazer no mundo. O projeto naturaliza assim a injustiça e a severa desigualdade do país. O projeto avisa que os professores não devem estimular os estudantes a participar da democracia.
Exemplo: o professor “não fará propaganda político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas”
4 – O projeto trata professores como manipuladores e antiéticos. O projeto tem por princípio um insulto aos professores.
Exemplo: o professor “não favorecerá nem prejudicará ou constrangerá os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, morais ou religiosas, ou da falta delas”
5 – O projeto trata estudantes com mossa modelável. Elimina a possibilidade do senso crítico, no limite, elimina os estudantes como sujeitos. Trata a política como mera competição e não como reflexão sobre o mundo que queremos.
Exemplo – Justificativa do projeto: “ A prática da doutrinação política e ideológica nas escolas configura, ademais, uma clara violação ao próprio regime democrático, na medida em que ela instrumentaliza o sistema público de ensino com o objetivo de desequilibrar o jogo político em favor de determinados competidores”
6 - O projeto nega a educação como parte de uma rede curiosidades e possibilidades do estudante. Nega a escola como abertura de mundo. O projeto privatizando a educação, desejando a eliminação da escola como produção de conhecimento e espaço de pensamento.
Exemplo: o professor “respeitará o direito dos pais dos alunos a que seus filhos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com as suas próprias convicções;”
7 – O projeto elimina o debate e a circulação do pensamento. Trata as opções e orientações sexuais como identidade biológica.
Exemplo O Poder Público não se imiscuirá na opção sexual dos alunos nem permitirá qualquer prática capaz de comprometer, precipitar ou direcionar o natural amadurecimento e desenvolvimento de sua personalidade, em harmonia com a respectiva identidade biológica de sexo, sendo vedada, especialmente, a aplicação dos postulados da teoria ou ideologia de gênero.

Escola sem partido

Tão ou mais grave que as palavras de ordem do Escola sem Partido é o lugar que o projeto coloca professores e alunos.
Os primeiros são tratados como manipuladores, irresponsáveis e por princípio desconhecedores de seus próprios papéis como professores.
Veja uma das frases que o projeto pretende colocar em salas de aula:
“O Professor não favorecerá nem prejudicará os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, morais ou religiosas, ou da falta delas.”
Ora, isso é ser professor. Colocar essa regra para um professor é com escrever em todas as marcenarias que o marceneiro trabalhará com madeira ou nos hospitais que os médicos terão que lidar com corpos humanos.
Além de insultar os professores, o projeto parte do princípio que os estudantes são imbecis e manipuláveis, sem nenhuma independência em relação ao que um professor diz.
Pensar e se constituir como pessoa é uma montagem. A escola é mais um pedaço do mundo em que o estudante transita. Mas, para esse pessoal, tudo retorna ao privado.
Há um ódio do mundo, por isso eles dizem: “O Professor respeitará o direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções.” Claro que respeitará, mas não se absterá em apresentar um mundo maior que a família.
O nome é enganoso. Não se trata de Escola sem Partido, mas de escola sem alteridade e, no limite, sem sujeitos.

Minha geração vive um profundo choque político

18 junho 2016

Minha geração vive um profundo choque político, mas também subjetivo.
Saímos da ditadura, vimos erros e acertos de governos civis, fomos críticos a certos caminhos do petismo, mas, de alguma maneira, entre tensões, avanços e retrocessos, havia a impressão que o pensamento importava. Havia a impressão que a relação entre sociedade e política havia alcançado patamares mínimos de respeito.
Hoje, o choque. 
O caso da Escola sem Partido nos coloca de volta aos debates do século XIX. Nos faz lembrar que pela escola democrática e inventiva, crítica à funcionalização do saber, crítica à instrumentalização pelos poderes da igreja e do capital, homens e mulheres literalmente morreram.
O choque hoje nos atravessa. Tínhamos a impressão que certas batalhas havia sido definitivamente ganhas pela gerações anteriores e que hoje, em novo patamar, nossa disputa era outra.
Hoje a luta parecia ser pela qualidade, pela igualdade e por mais liberdade. Até muito pouco tempo seria inimaginável que teríamos que nos mobilizar para que uma lei não venha a organizar o que pode e o que não pode ser dito ou pensado na escola. Mas é isso que acontece.
A escola – especializada no Brasil em manter as nossas diferenças de classe – agora deve ser calada totalmente. Deve ser reprodutora de uma sociedade em que o capital é aquilo que se diz existir como natureza e não como ideologia. Com esse projeto, que prega que seja “vedada, especialmente, a aplicação dos postulados da teoria ou ideologia de gênero” não se deseja agora apenas a manutenção das estruturas de classe, mas a destruição da escola e a criação de uma legislação que proíba o país de ser outro ou de se pensar.
Para os idealistas desse projeto. O país já está como deve ser e não cabe a ninguém que passe por uma escola pensar o contrário.
Trata-se de tornar lei o moralismo e a indiferença ao outro.
Trata-se de tornar lei a irrelevância do pensamento coletivo.
Fora do indivíduo, não há interesse: como diz o projeto: o professor “não fará propaganda político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas;”
Quando defendermos o estado de direito, precisamos pensar duas vezes. Como é evidente, estamos cada vez mais cercados de leis que existem para manter a injustiça.
A luta é dupla. Leis como essa não podem passar. Leis como essa não podem ser respeitadas.
Nesse momento, quando depois de muito esforço parecíamos estar construindo algo, alguém ri de nossa cara e diz: começa novamente.
Recomeçar sem nenhuma batalha ganha é o que o momento nos exige. Uma reinvenção subjetiva, inseparável da urgência do momento.

Big jato, de Claudio Assis

10 junho 2016

Big Jato (para quem já viu o filme)
Big Jato é a história de um garoto de que se arma com as forças do mundo – um amor, um perfume, as perguntas incessantes, as conexões com as resistências trágicas – para derrubar o pai com um sopro.
Biga Jato é cheio de ideias e esse é o prazer do filme. Sua beleza.
As perguntas de um adolescente que se transformam em poesia.
Um plano que depois de longos minutos com atores soberbos atravessa uma janela.
Um Feneme que vira fogo em uma paisagem exuberante.
Um poeta – o doidinho da cidade que, errante, abre o mundo pré-moderno para forças sem tempo.
Uma mesa de café da manhã que abandona o realismo e materializa a possibilidade de algo acontecer.
Uma grua que parece sempre querer ir para outro lugar.
Big Jato está entre o ruído típico de Claudio Assis e o silencio de quem inteligentemente não opta por centralizar excessivamente a narrativa em um personagem ou no melodrama.
A dor do desacordo com esse mundo – como em Febre do rato. A resistência e a poesia como necessidade, mesmo que isso seja patético.