23/09/2014

O livro e a comunidade ou “fica quieto e vai ler um livro!”



Nas reflexões de Charles Fourier sobre educação, no início do século XIX, uma atenção secundária era dada aos livros e à cultura letrada na infância e na adolescência. Atento às vocações e energias de crianças e jovens, a educação não poderia esvazias as intensidades vitais dos jovens nem se tornar excessivamente desconectada do que não era escola. A crítica então de Fourier era a uma educação que se fazia na autonomia da vida cotidiana e, para isso, os livros eram essências. Os livros ajudaria a educação a se tornar abstrata e a demarcar o que era escola e o que não era: o trabalho em coletivo, a sociabilidade, a brincadeira e o jogo, produzindo um verdadeiro divorcio entre escola e vida. Fourier temia que uma educação excessivamente marcada pelo livro dificultasse a forma mais intensa de aprendizado que acontece quando a criança “solicita ensinamento”. Para que ela pudesse solicitar, a educação precisaria estar em contexto; Fourier fala de uma “realidade do encontro”. Uma bela expressão para manter junto a vida, as energias vitais e o desejo de conhecimento.
Obviamente, não seria o caso fazermos hoje uma crítica à cultura do livro, mas, ao mesmo tempo é evidente como uma enorme centralidade dessa cultura na educação traz grandes desafios para pais e educadores. Com frequência escutamos a reclamação dos pais: ele não estuda! Ele não lê nada. Ler e estudar fazem parte dessa associação natural que no início do século XIX desagradava Fourrier. Nos perguntamos então, como o livro é parte de uma leque de possibilidades para o estudo? Claro, está tudo na Internet, mas é como se fossemos desafiados a encontrar e inventar o ritmo para a entrado do livro nos estudos, sem esperar que ele tenha a centralidade, também porque a centralidade do livro gerou um segundo problema sério na educação. Em nosso projeto de cinema nas escolas, uma das mais frequentes narrativas que recebemos, vinda sobretudo de professores, era sobre a forma como alunos que precisavam de uma atenção particular para trabalhos que demandavam escritas mais elaboradas – o menino ruim em português -, frequentemente tinham grande destaque na execução dos trabalhos com imagens. Esse foi um dos motivos que quando pensamos a metodologia nos concentramos em uma experiência com a imagem. Não falamos em roteiro, por exemplo, justamente porque queríamos focar em uma relação com o mundo que não precisasse da mediação da palavra escrita em primeiro lugar. O que não excluía a escrita, obviamente, mas apenas não a deixava em primeiro plano.
De alguma maneira, nossa metodologia espelhava a 1) tentativa de colocar o livro e a escrita como como eventuais instrumentos para o trabalho, e não como aquilo que deve ser conhecido antes e 2) trabalha na atenção de desfazer hierarquias internas à sala de aula, centradas na escrita.
    Mas, a expressão de Fourrier - “a realidade do encontro” - nos dava mais um elemento do que estávamos construindo com nossa metodologia. Fournier na sua busca por uma educação harmônica, palavra que ele utilizava com frequência em seus textos, dava especial atenção às capacidades naturais das crianças, mas, para isso, ele chama atenção dos gostos dominantes da infância e um deles é o gosto por vasculhar. Vasculhar é algo extremamente forte em crianças de dois anos de idade e com o tempo tende a ganhar focos de atenção. A criança, “não para quieta”, felizmente, de outra forma não aprenderia. O risco da escola está em trabalhar com métodos em que esse princípio associativo e curioso da criança é desprestigiado em favor de uma centralidade do livro. Quantas vezes, como país ou educadores não falamos ou tivemos vontade de falar:  - para quieto e vai ler um livro!
Whitehead muito tempo depois de Fourier expressava essa preocupação no início do século XX, numa época de intensa especialização da escola, dizendo que havíamos deixado uma época de interesse na educação para a sabedoria em direção ao conhecimento livresco – text-book knowledge -  de disciplinas. O problema disso era o abandono de ideais de sociedade para que a educação de adaptasse à uma praticidade, no limite da estagnação intelectual. O texto de quase 100 anos é bem atual. Nos tornamos uma sociedade que felicita alunos brilhantes que com notas altas passam para as melhores universidades e ficam ricos trabalhando na especulação com o capital. O que é um desastre de uma educação em que a comunidade está em jogo é visto como um sucesso pelas escolas e universidades.
A cultura do livro não pode ser uma cultura a parte, separada de uma demanda do estudante e das conexões sociais em que ele se forma. Grande desafio para pais, professores, arquitetos de escolas, etc; colocar o livro e a cultura letrada dentro de uma educação que transcenda o livro como fim.
Como diziam os antigo: “você não pode ser um sábio sem alguns conhecimentos básicos, mas você pode facilmente adquirir conhecimento e permanecer vazio de sabedoria” (Whitehead - Aims p 46)

22/09/2014

Nativos Digitais?


Com muita frequência, quando chegamos na escola com o cinema, ouvimos de professores e pais a mesma marca temporal que os separa das crianças.
- Eles nasceram no mundo digital, na era da internet!
- Desde pequenos estão com seus computadores e celulares.
A tecnologia é entendida como um elemento de ruptura entre duas gerações. Mais do que isso, entende-se o fato de hoje os jovens e crianças terem tido que lidar com dispositivos de comunicação móveis, desde pequenos, como uma marca constituinte de seus processos subjetivos que os diferenciariam da geração dos professores – pelo menos os mais velhos – que entraram no mundo da comunicação 24/7, com o bonde andando.
Pois, nossa experiência pede que matizemos essas afirmações, dando, sobretudo, um lugar para a tecnologia que não é tão central nem tão constituinte dos processos subjetivos. Pelo menos não como divisor geracional.
Na escola nos deparamos com relações absolutamente heterogêneas com os mesmo dispositivos. Antes de organizar uma ruptura com a geração anterior, os nativos digitais continuam, assim como os não-nativos, encontrando os mais variados espaços e ritmos na relação com o mundo digital.
Na escola, nos deparamos com alunos que no recreio usavam aparelhos móveis com internet para jogar, namorar ou consultar assuntos discutidos em aula. Nos deparamos com professores que no meio da aula, buscavam o celular incessantemente enquanto reclamavam de alunos que faziam o mesmo. Ou, por conta de uma questão de classe, o mais corrente nas escolas em que trabalhamos, são crianças que simplesmente não tinham acesso à internet em seus telefones.
Mais do que uma linha de ruptura, o mundo digital parece entrar como mais um dos elementos constituintes dos modos de o conhecimento se fazer e não como um definidor em que os nativos digitais teriam vantagens, desvantagens ou especificidades em relação aos imigrantes digitais.
Essa separação essencializa a relação de idade com a tecnologia, o que me parece enganoso. A relação da tecnologia com os processos subjetivos são mediados de maneiras distintas entre diferentes indivíduos, comunidades, culturas. O que não quer dizer, é claro, que não haja uma forte modificação em muitos aspectos da vida urbana uma vez que essas vidas se encontram mediadas por tecnologias de comunicação digital.
Johnatan Crary aponta, por exemplo, para a forma como as tecnologias de informação estão fortemente associadas à novos estados de atenção e repouso na vida contemporânea. Quando tudo é acessível 24 horas durante 7 dias por semana, deixamos cada vez mais de lado nossas horas de sono para nos colocarmos em estado de vigília, mesmo no sono.
Stand by state, como se tivéssemos uma luzinha vermelha na testa, pronta a ficar verde. Segundo o autor, cresce exponencialmente o número de pessoas que acordam no meio da noite para checar a entrada de mensagens em suas redes sociais. Esse processo que afeta o corpo é inseparável das demandas capitalistas que estimulam uma atividade constante de mercados e regimes de troca de dados constantes. Qualquer leitor reconhece esse fenômeno narrado por Crary em pessoas nascidas antes e depois dos anos 80. Nativos digitais ou não.
Com essa crença em mãos, nosso problema não é nem a exclusão dos dispositivos digitais das escola, nem a essencialização dos jovens como capazes ou incapazes de utilizar os dispositivos desta ou daquela maneira por serem nativos digitais. A rede em que esses dispositivos nos permitem navegar e da qual eles mesmos fazem parte, nos demanda antes que nos perguntemos quais são as conexões e ritmos que eles permitem. Voltando ao Whitehead: Quais são as conexões frescas que eles permitem? A cada momento que o dispositivo se tornar um homogeneizador de ritmos de atenção e um estabilizador de conexões, são os processos subjetivos que perdem em invenção e diferença.

19/09/2014

É importante aprender isso porque lá na frente....

É importante aprender isso porque lá na frente....
E quantas vezes nos deparamos com professores, livros e nós mesmos fazendo essa formulação para convencer filhos e alunos a aprender uma reação química, uma problema de álgebra ou objeto indireto?
Preocupado em pensar um ritmo para o aprendizado que não seja pautado por um simples esquadrinhamento do tempo, como se o aprendizado estive associado à idade ou à passagem normatizada de séries, Whitehead define três estágios para o aprendizado; romance, precisão e generalização.
1 - Romance – momento do entusiasmo, das descobertas randômicas, conexões pouco precisas.
2 -Precisão – a extensão das relações são subordinadas à precisão das formulações.
É o momento da gramática – da língua, da ciência - mas não é possível um momento de precisão sem o romance.
Se a precisão antecede a conexão, o aprendizado vira um acúmulo artificial e inútil, diz Whitehead.
Não há objeto direto sem o entusiasmo pelo lugar onde ele pode nos levar.
3 - Generalização - Hegelianamente, o terceiro estágio de Whitehead tem um caráter sintético. Retorna-se ao romance com técnica, gramáticas e ideias organizadas e classificadas.
A educação, para se manter viva, diz Whitehead, não pode interromper esse círculo: romance, precisão, generalização. Esse ritmo, pautado por uma certa dialética entre ordem e desordem, não pode ser ordenado fora do processo do conhecimento.
No artigo, chamado The Rythm of Education, Whitehead coloca que
não é verdade que as matérias mais fáceis devem anteceder as mais difíceis.
Algumas mais difíceis devem vir antes porque elas são essências para a vida, claro.
O inglês tem uma escrita divertida e nessa palestra ele dá como exemplo o aprendizado infantil que precisa, na primeira infância, aprender a associar sentidos com sons, para a prender a falar. Uma operação altamente complexa. Logo depois, para aprender a escrever, trata-se de associar sons com formas...
O que é a dificuldade de um texto de Guimarães Rosa perto disso?
Ordenar a educação do mais fácil ao mais difícil, como um princípio, faz sentido se ela é artificialmente separada dos dois elementos centrais para Whitehead, a aplicabilidade e a lógica das combinações fresca.
Uma criança é capaz de falar por conta da aplicabilidade evidente que seu esforço e conhecimento recebe, por outro lado, uma tarefa muito mais simples, uma equação de álgebra ou a conjugação de um verbo pode parecer uma tarefa absurdamente complexa se isolada de outros processos de aprendizado do estudante.
Na etapa do romance, abre-se uma disponibilidade para tarefas muito complexas, como aprender a falar, por exemplo.
Me parece que a essa é uma das grandes dificuldades para os professores. Nossos alunos nunca estão no mesmo ritmo e os três estágios fazem parte de uma mesma turma, quiçá de uma de uma mesma pessoa.
Em aulas criativas, oficinas de cinema, é evidente como esses estágios precisam coabitar. Certos alunos tem extrema dificuldade de sair do romance e outros, como um aluno que tive, na primeira aula de direção me perguntava sobre o codec que ele deveria usar nos exercícios. Para ele talvez o romance estivesse nessas descobertas, o que me colocava uma dificuldade, mas, difícil também seria começar o curso pelo codec e explicar aos estudantes que “lá na frente....”

Educador cineasta


Descobri recentemente um artigo do Whitehead, um filósofo inglês por quem o Deleuze tinha grande admiração e que o influenciou bastante, em que ele discute de maneira muito aberta algumas questões sobre educação.
Nessas questões há dois pontos que me ajudam a pensar o lugar do professor.
A primeira é uma citação cinematográfica que Whitehead traz logo no início do artigo: “Educar é fazer com que as ideias sejam utilizáveis ou entre em “combinações frescas”” Gosto muito dessa ideia de um educar que exige um processo de montagem – combinações frescas, novas. Como se educar nunca tivesse um fim em si, mas no que pode ser conectado, na abertura que é feita em que as ideias possam se conectar com outras coisas.
Me parece que essas conexões podem atuar em dois sentidos. Um primeiro que nos remete a Paulo Freire: quando falamos dos dispositivos móveis em sala de aula; de onde vem o chip? Quem fabrica? Como chega a energia? Quem ganha dinheiro?
Trata-se de uma conexão que forma um contexto, uma rede que constitui as condições de possibilidade para que aquele celular esteja ali.
Uma segunda que é mais esquiza, que não forma contexto, mas que entra em montagem criadora do que não existe. Conhecimento como ato de montagem entre elementos heterogêneos. Os dispositivos móveis passam a fazer arte, conectar manifestantes, estabelecer relações randômicas, etc.
Me parece que o Whitehead abre para essas duas dimensões das combinações em seu texto de 1932. Um conhecimento por montagem que produz contexto e potência.
Para que isso seja mais efetivo a aposta dele é curiosa; poucas ideias, muitas combinações.
O princípio é fortemente democrático. Enquanto o que ele chama de ideia é algo que se passa à criança, a combinação é a ação da criança, é o momento em que ela efetiva o conhecimento. Tal princípio em que a criança é criadora do conhecimento está longe de uma funcionalidade para o conhecimento, uma vez que pertence ao estudante os modos de mobilizar desejos, esperanças e sentimentos nas combinações que ele executa.
O problema da educação é manter o conhecimento vivo e uma das formas fundamentais de Whitehead para isso é o não isolamento dos saberes e a intensa atividade combinatória. Montagem.

"Educar não é entreter"

"Educar não é entreter", escreveu Jacotot no início do século XIX.
Ele ficaria bem impressionado em ver como se difundiu a ideia de que a escola deve ser um lugar legal, divertido e animado para poder interessar os alunos.
- Ainda mais com a concorrência dos dispositivos de comunicação móvel, dizem alguns.
Triste fim para a escola. Precisa concorrer com o espetáculo para fazer o seu papel. Se assim for, o jogo está perdido. Até nesse ponto a lógica do espetáculo consegue organizar o debate, como se a escola devesse ser pautada pelas suas regras. O professor se torna assim um animador, divertido e ágil, com vários truques na manga caso o ibope caia.
O prazer da escola precisa achar um outro tempo, menos imediato que o espetáculo, que mobilize outros afetos. Que possibilite às crianças e jovens atuarem em múltiplas velocidades, em múltiplos ritmos. Isso não significa, obviamente, um isolamento do mundo e das velocidades contemporâneas. Mas também não significa entregar para o professor o papel de animador.
Os ritmos do espetáculo e das telas não têm nada de natural, nos mobilizam 24/7 porque queremos mudar o mundo ou comprar um pouco mais. Nos tiram o sono e nos mantém no lugar quando viajamos, mas não é com essa velocidade que a escola deve concorrer. Se a comunicação contemporânea e o espetáculo são pautados por velocidades excessivas e instantâneas, talvez o que a escola possa é oferecer outras velocidades, enquanto tenta desvenda um pouco do mundo que diz que ela é um tédio.

Decorar

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É uma pena que a ideia de decorar traga algo de negativo quando pensamos em educação; mas é também compreensível, claro! Nossa palavra para memorizar se distanciou demais do afeto que o “by heart” ou o “par coeur” trazem.
Nos últimos anos, o método de Jacotot, educador do século XVIII, trabalhado por Jacques Rancière, tem sido muito comentado e utilizado para se pensar uma educação emancipadora.
A conclusão mais radical do método de Jacotot, doutor em línguas, direito e ciências, é que é possível ensinar o que não sabemos. Para tal método, decorar é fundamental; é a partir de onde o conhecimento se produz. Nas nossas leituras recentes - e se bem me lembro inclusive em Rancière esse decorar parece ter perdido importância. Como se fosse possível guardar apenas a parte mais “nobre” e democrática do pensamento de Jacotot. Talvez seja, mas decorar com coração fica mais fácil.

Filmes-carta no Inventar com a Diferença

No Inventar com a Diferença,
Uma de nossas propostas de exercício era a realização de filmes-carta.
Filmes que pudessem colocar escolas em diálogo e que ao mesmo tempo tivessem a simplicidade de uma carta repleta de afetos.
Muitos dos filmes podem ser vistos aqui:
http://www.inventarcomadiferenca.org/filmes-carta
É um tocante documento em que vemos centenas de crianças e jovens, de todo o país, pensando e inventado seus territórios; desejosos de expressão.

Ainda sobre educação...

Ainda sobre educação...
Recentemente fiz um post sobre educação em que eu falava da importância de o estado participar de inciativas privadas de educação básica. Essa afirmação enseja críticas duras porque ela é entendida como uma privatização do dinheiro público, pois, gostaria de pensar de outra maneira, lembrando os educadores anarquistas como Francisco Ferrer.
Para eles, no início do século XX, o embate era com o estado e com a igreja – Ferrer foi morto pelo estado espanhol em 1909. E, nesse embate, a escola era uma das principais formas de se resistir a esses poderes. O que esses anarquistas combatiam era a forma como a escola funcionava como uma ferramenta de manutenção do poder vigente - de alguma maneira é o que ainda temos em curso no país.
A saída seria uma escola que não tivesse atrelada ao estado mas que fosse pública, ou seja, com dinheiro público, mas livre. Capaz de atender o currículo mínimo, mas podendo atuar na comunidade sem a gestão do estado.
Curiosamente, no Brasil, parece que estamos apenas entre duas opções.
Ou a escola é privada – visando o lucro.
Ou é do estado – centralizada.
Hoje, se um grupo de professores decidir inventar uma escola, criar metodologias, experimentar na educação, ele terá que atender apenas os ricos que podem pagar.
Talvez seja excesso de crença na sociedade civil, mas acho que além de uma escola pública que seja de altíssima qualidade, seria importante criarmos formas de regular a gestão autônoma de escolas comunitárias não estatais. Importante também que pais de crianças pobres possam optar por escolas não estatais e que educadores possam atender comunidades pobres sem serem funcionários do estado.

20/08/2014

Pensando a educação

Pensando a educação
Começam os primeiros debates para governador, entrevistas com candidatos a presidente e novamente a educação é uma promessa de todos.
Não há candidato que não coloque a educação como uma questão central.
Entretanto, apensar das promessas, parece não haver a indignação necessária com o que é hoje o maior motivo no país para a manutenção das radicais diferenças sociais que temos.
Alguns pontos nesse debate deveriam ser colocados como uma agenda para debate.
Antes de tudo, é preciso destruir o muro que separa as escolas privadas das escolas públicas.
O que um pai quer para o seu filho deveria ser o que o estado deveria prover em termos de educação. Um candidato deveria se comprometer com o mínimo e dedicar um enorme tempo e esforço político para que qualquer escola da baixada fluminense seja tão boa quanto uma escola privada de Botafogo. Não podemos esperar menos.
Vivemos hoje um quadro de segregação em que ser pobre significa estar em escolas que formam para no máximo os futuros adultos serem um pouco menos pobres.
Habituamo-nos a achar que a escola não rompe um destino de pobreza, mas isso não é verdade.
Uma escola de altíssimo nível para todos é ação radical necessária.
1 - Para isso, escolas precisam ter mais autonomia. É preciso que os gestores sejam bem formados e estimulados a serem escolhidos pelos alunos do bairro. Um bom professor gestor precisa ter seus conhecimentos valorizados na comunidade e no sistema de educação.
2 - É preciso um programa que estimule jovens formados nas melhores universidades a se conectarem com as escolas. Vivemos hoje uma separação enorme entre as melhores formações universitárias e o ensino básico. Essa separação desestimula professores, gestores e alunos.
3 - O professores precisam de tempo para desenvolverem projetos que transcendam a sala de aula, que os conecte com outros universos, pessoas e propostas.O professor precisa de tempo para pensar o que faz e se instrumentalizar para garantir bons resultados para seus alunos.
4 - Precisamos de escolas que arquiteturalmente seja fantásticas, que cada funcionário e aluno tenha orgulho de estar ali, que acústica seja apropriada e a temperatura condizente com o necessário conforto para as aulas.
5 - Precisamos de uma radical laicizacão das escolas. Não é aceitável que professores reservem momentos para pais nossos e que a escola possua crucifixos em suas entradas, como vemos frequentemente.
6 - Precisamos abrir as escolas privadas, criar formas de estimular que as boas gestões privadas incorporem muitos alunos pobres. No caso do Rio de Janeiro, quantos alunos da Rocinha estão na Escola Parque? Quanto alunos do Pereirão no Lycée Molière, quantos do Santa Marta estão no São Bento, isso apenas para falar de algumas proximidades. Com uma ação financeira do estado, certamente o espírito democrático dessas instituições incorporará a vizinhança.
7 - Me parece ainda que apesar do Ideb ser importante, precisamos de métodos muito mais precisos de avaliação das escolas, garantindo que gestores sejam avaliados também.
A questão da educação básica hoje em muitos estados e cidades, para não falar no país todo, não passa por mais verbas e reformas, mas por um choque de democracia acompanhado por reformas de base com mais poder e responsabilidades para as escolas e forte acompanhamento e supervisão do estado.
De outra maneira aceitamos que às famílias pobres é destinado um caminho de pobre. Me parece que podemos, como sociedade, romper esse destino pela escola.

18/08/2014

Marina e Dilma

A confirmação de Marina como candidata trará algo muito sério para o campo da esquerda.
Teremos a responsabilidade e a possibilidade de um real debate político.
Se a dicotomia simplista e redutora entre PT e PSDB atuava como um verdadeiro bloqueador do pensamento, uma disputa entre Dilma e Marina nos coloca a necessidade de um aprofundamento sobre a democracia que queremos.
Será absurdo e triste se o debate ficar nas caricaturas: os eleitores de Dilma acusando Marina de evangélica, como se Dilma estivesse há anos defendo a legalização da interrupção voluntária de gravidez, a legalização da maconha. E, por outro lado, os eleitores de Marina restringindo suas críticas as opções do desenvolvimentismo de Dilma, como se Marina, não tivesse participado de um governo com essa característica ou se estivesse chegando para romper com a lógica em curso.
O que me entusiasma é a possibilidade de um verdadeiro debate à esquerda que em muito pode ultrapassar questões morais ou econômicas e se centrar no que pode ser a democracia mesmo. Mas esse debate é difícil, parece bem mais fácil colocar um rótulo no outro e bater sem trégua.
A dificuldade da militância hoje parece ser a aposta na política mesmo, para além das estratégias publicitárias e das pesquisas de opinião. Dilma e Marina podem ser bem maiores que o espetáculo eleitoral-midiático armado, é minha torcida.

31/07/2014

que trabalho para os jovens?

O Marcus Faustini publicou uma boa coluna hoje no Globo.
O tema dos 500 mil jovens que não trabalham nem estudam no Rio de Janeiro é dos mais graves do estado.
Grave no sentido de que ele expressa uma falta de emprego e escola? Sim e não.
O Marcus colocou bem: há desejo nos jovens. Quem tem alguma proximidade com eles sabe bem disso.
A resposta mais simplista para o problema é: mais escola e mais emprego.
Entretanto, o desejo atrapalha esses planos que acreditam que basta qualquer escola ou qualquer emprego.
O que queremos então para esses 500 mil, que entrem no roteiro – emprego medíocre e educação para o emprego medíocre? Ou queremos que sejam sujeitos de palavra, logo inconformados?
Nesse sentido, não somos nós que temos que responder.
Não há resposta para esses jovens sem corpo a corpo com eles.
Que eles tem o direito de participar da cidade não há dúvida, mas como?
A primeira coisa a fazer por esses 500 jovens e tirá-los das estatísticas para ouvir seus desejos de participação. Para isso teremos que estar preparados para ouvir que o emprego e a educação que temos a oferecer é muito, muito inferior às suas potências.
Inventar conformistas com o que temos para oferecer é o que não devemos fazer por eles.

http://oglobo.globo.com/cultura/o-nem-nem-tem-tem-13410898

28/07/2014

"Da Sorbonne para a rua"

A história da Professora Camila Jourdan que a Folha conta hoje com a chamada "Da Sorbonne para a rua" é mais uma dessas histórias que dificultam as estratégias retóricas de tantos que acham que a universidade e os pesquisadores são encastelados, distantes das tensões e paixões do cotidiano.
Não é bem assim.
A Universidade está incessantemente produzindo aberturas e canais com os engajamentos de todo dia - com a política, com a educação, com a mídia, com os movimentos sociais, etc.
A própria dicotomia entre Sorbonne e rua é preconceituosa. Universidade e Rua fazem parte de um só mundo; com dificuldades, esforços, embates.

25/07/2014

A violência do jurídico e da mídia que vimos nos últimos dias é grave na medida em que ela é pautada por uma negação da democracia. Negação da possibilidade de qualquer um fazer parte da cidade e das decisões que forjam a comunidade em que estamos.
A democracia pressupõe o dissenso, o desacordo em relação às formas do poder se organizar.
Aceitar que nenhum projeto político-midiático é total e que toda adesão é limitada é o princípio para que a democracia se fortaleça.
A democracia não é uma harmonia ou um consenso, mas a possibilidade da tensão do dissenso.
O que vimos recentemente foi a negação dessa possibilidade.
Lembremos que na grande imprensa os manifestantes foram acusados de anarquistas, de organizadores de manifestações e, por incrível que pareça, de torcerem contra o time do Brasil na Copa do Mundo. O patético se torna trágico uma vez que é a democracia que está em jogo.
Já o judiciário manteve presos advogados que, entre outras coisas, estavam perto de manifestantes e se de dispuseram a defendê-los.
Os argumentos usados, tanto na mídia como no judiciário, são atravessados por um preocupante ódio à democracia.
Para esses poderes, parece insuportável que alguns se manifestem dizendo: não autorizamos tudo! Não autorizamos pré-julgamentos, não autorizamos um estado que me cala.
No momento em que a ordem social impossibilita o dissenso e nega a presença do outro, desobedecer é o que nos resta.
Ou como escreveu Thoreau, no fim do século XIX: “a desobediência civil é inerente à democracia”
Nesse sentido, foi fundamental a não apresentação à polícia dos 18 manifestantes e a ajuda da deputada Janira Rocha à Eloísa Samy, mas, sobretudo são esses fatos também que materializam a necessária processualidade da democracia.
A democracia não está pronta e sua construção depende de sujeitos e comunidades que não aceitam as formas da representação se fazer hoje.
Resistir às formas do poder se organizar hoje é uma forma de lutar pela democracia e a o ataque que mídia e o jurídico fizeram nos últimos dias não é à Sininho ou à outro manifestante, mas à democracia mesmo.
Mas o país está vivo e esse ataque encontra limites.

21/07/2014

Há pelo menos 30 anos me manifesto politicamente; sem que isso tenha muita relevância, é verdade.
Comecei a me interessar por política no final da ditadura, com o surgimento do PT, com a possibilidade de eleições livres.
Na Universidade, antes das eleições diretas que elegeram o Collor, os debates eram intenso e cotidianos. Escrevíamos em pequenos jornais, íamos de sala em sala além de muitas passeatas e comícios.
De lá para cá, mesmo sem ter a política institucional como uma ocupação central, nunca deixei de me colocar, escrever, manifestar, etc.
Hoje, pela primeira vez, temo represálias.
Há algo acontecendo nas práticas agressivas e irresponsáveis das policiais, do jurídico e das midiáticas que é de grande gravidade. Não se trata mais de fatos isolados, mas de uma política que procura instituir uma cultura de controle de toda resistência ao que se opõe à ordem estabelecida por esses poderes.
Se na grande mídia não há mais voz ou estética dissonante, é preciso matar esses dissensos venham eles de onde for.
Pagaremos caro por esse estado de medo e arbitrariedades que se institui.
Há algo novo no ar. Um medo que não conhecia.

25/04/2014

DG

DG
A mãe do DG, o rapaz morto no Rio de Janeiro pela polícia militar, faz política ao se recusar falar com o governador Pezão.
Abrir o palácio para essa mãe, nesse momento, é produzir uma igualdade que permite a estabilidade da desigualdade.
Me explico. O gesto do governador de convidar a mãe em luto para uma conversa aponta para o desejo de marcar um lugar comum aos dois.
Pertencemos ao mesmo mundo, diria o governador, compartilhamos o mesmo luto, podemos conversar.
Mas, que igualdade é essa? A igualdade que interessa apenas o poder. A igualdade necessária para fazer a mãe ouvir, entender as palavras do governador e voltar para casa, para o mundo em que seu filho faz parte dos matáveis.
Pois a mãe diz: Não há igualdade entre nós. Não compartilhamos a mesma possibilidade de fala, não vou te ouvir nem vou fazer do diálogo um produtor de um consenso que mantém o absurdo dessa morte.
Negar um diálogo com o governador é a forma mais efetiva de produzir uma igualdade. É nesse gesto que a mãe expressa o poder que ainda tem sobre seu luto, sobre seus sentimentos, sobre o que a devasta.
Com o chefe dos que mataram, não há espaço de troca que não seja uma forma de apaziguar a desigualdade, de negar a política – o contrário da igualdade. Aceitar o convite seria uma forma de recolocar o governador em seu lugar de poder e a mãe no de vítima, mesmo que haja indignação, seria uma forma de reafirmar esses lugares.
O que a mãe faz é outra coisa. Ela afirma o seu poder e explicita a incapacidade do governador de exercer qualquer poder onde realmente importa – na polícia.
Quando ela decide não ir ao palácio, isso impede o governador de falar, de controlar a desigualdade. O governador experimenta a impossibilidade da fala, do controle, do poder. Mimetiza os matáveis. Não ir ao palácio é colocar o governador no lugar do matável. O pior não é ter o governador nesse lugar, o pior é esse ser um lugar existente no Rio.

19/04/2014

Rio de Janeiro, é hora de se dar bem.


Cada sujeito é essa bagunça; um mafuá. Atravessados somos por mil forças, desejos, tarefas, opressões. Nossos processos subjetivos, individuais e em grupo, são inseparáveis desse ir e vir entre nós e o mundo, entre o que conhecemos e vivemos e as condições que nosso mundo nos dá para efetivar nossas potências.

A cidade é parte fundamental dessas relações. Como escreveu uma vez Guattari, o destino da humanidade está diretamente ligado ao destino das cidades.
O destino da cidade que toca nossas vidas não é apenas material -  o transporte, a moradia, o uso do tempo – mas, também, os modos como somos constantemente modulados. Somos estimulados à certos processos em detrimento de outros, certas práticas em detrimento de outras.

No Rio de Janeiro, e provavelmente em outras cidades também, as intensas modificações produzidas pelos grandes eventos fazem com que cada faceta da vida comum seja atravessada por um estímulo bem claro: é preciso e possível a “se dar bem”.
A formulação corrente é:
Os preços na cidade estão surreais. Vou alugar meu apartamento durante a Copa por muitos e muitos mil reais! Ou “comprei um barraco na favela pra alugar pros gringos”.
Esse espírito à que somos estimulados não diz respeito somente ao mercado imobiliário, onde cada pessoa que possui um apartamento e não o aluga durante a Copa se sente um pouco otário, mas aos usos da cidade como um todo.

Os grandes eventos parecem ter levado ao limite uma prática predatória e de ganhos enormes e urgentes, típicas de lugares turísticos em alta estação. É preciso ganhar muito e rápido.
A hipercentralidade dos eventos tem data para acabar e até lá é preciso aproveitar. Isso serve para comerciantes, sindicatos, empresários, mas também para os sujeitos quaisquer. Olhar a cidade se torna uma busca de oportunidades, anunciadas sem qualquer constrangimento, muitas vezes por dia, em muitos programas de rádio ou TV.

Na bagunça que nos constitui estamos constantemente a receber esse estímulo e uma parte importante de nossas energias é tensionando essas palavras de ordem.

A comunidade parece viver uma mudança de perspectiva. Qualquer construção a longo prazo perdeu o sentido e pouco parece haver para além dos próximos dois anos. 
A velocidade do capital e de seus fluxos financeiros, que a cada quatro anos elegem uma nova sede Copas e Olimpíadas, parece ser hoje a velocidade que se impõe às nossas vidas. Essas devem se adaptar econômica e eticamente à cidade que nos é proposta.

Assisti ontem o delicado curta-metragem de Takumã Kuikuro, “KARIOKA”,  sobre a vida de sua família no Rio de Janeiro. Os olhares curiosos das filhas de Takumã, o prazer com o mar salgado, a descoberta de Beyoncé e da cidade grande trazem uma delicadeza para o Rio, uma cidade que construída por esses fluxos de poderes guarda possibilidades individuais e de grupo para escapar da lógica do “é preciso se dar bem”. As lutas estão em toda parte, felizmente. 

colóquio e manicure

Em Fortaleza,
Longas e intensas discussões sobre os limites da visão, sobre os modos como a centralidade do sujeito perceptivo é enganosa.
Saímos para almoçar e abordamos uma manicure na porta do salão para saber onde ficava o restaurante.
- Tá vendo aquela placa branca?
- Sim.
- Pronto. É lá. Olhando parece longe mas é perto!

A vida às vezes é bem simples.

13/04/2014

O prédio da Oi

O cinismo e a dureza do estado, associados ao capital e à grande mídia, se expressam com agudeza nos ocorridos na desocupação feita pela PM do prédio da OI.
O argumento desses poderes é simples: são invasores, estão na ilegalidade.
Basta um rosto, uma palavra ou um carrinho de supermercado transportando restos de uma tentativa de casa para vermos que essa legalidade é o oposto da justiça.
O espaço era de extrema precariedade e mesmo assim foi ocupado por mais de 5 mil pessoas.
O destino da cidade não suporta o pobre que proibido de entrar pela porta, arromba a janela.
Não é por outro motivo que as vidraças da prefeitura são blindadas.

01/04/2014

Ditadura e gestão

É muito impressionante que tenhamos chegado nesse momento da história do país vendo grandes meios como a Folha fazendo uma revisão tão positiva da ditadura.
Todos os fracassos sociais, éticos, culturais são esquecidos em nome de um discurso liberal que serve para justificar, se eles assim quiserem, novas ditaduras, novas violências.
Impressiona que a ditadura hoje não seja lida como uma tragédia em nossa história e que muitos venham a público armados de mentiras para justifica-la.
O que a Folha faz é dar à economia uma centralidade que coloca os números como uma medida para o que não tem medida.
O que aconteceu no país não pode ser lido por números, estatísticas e dados, mesmo que esses fossem verdadeiros. O que aconteceu no país durante os 21 anos demanda uma outra natureza de avaliação.
Quando o estado opta por matar física e subjetivamente sua população, essa opção não pode coabitar com argumentos lógicos racionais. Apesar de sabermos das opções desses grupos, o que lemos nesses dias não deixa de estarrecer.
O aniversário de 50 anos do golpe assustadoramente serve para justificar aquilo que parecia eliminado como possibilidade.
Em muitos lugares, como nesse editorial da Folha, a ditadura aparece como uma possibilidade de gestão. Eis a tragédia que se repete.

27/03/2014

Porto Velho 4


Há menos de uma semana estava em Porto Velho, capital de Rondônia, na margem do rio Madeira, onde recentemente foram construídas duas usinas “fundamentais” para nosso projeto de país. Mais energia, mais consumo.
Uma parte importante de Porto Velho está literalmente debaixo d’água. O debate sobre a influência das usinas nesses alagamentos é controverso, mas o fato é que esse é o primeiro ano de funcionamento das usinas e as cheias são as maiores já vistas.
O debate sobre o que se passa no norte praticamente não existe por aqui.
De alguma maneira, é como se a Amazônia, fosse um outro mundo – uma natureza. Como se o que acontece em Porto Velho ou Rio Branco fosse apenas uma problema local, isolado e fruto das forças selvagens da natureza.
Mesmo que as usinas não tenham participação nas enchentes devastadoras, a natureza ali definitivamente está amplamente atravessada por muitas escolhas de mundo. Do 4X4 que transita na cidade e contribuem para o aquecimento global que aumenta o degelo dos Andes, aos novos prédios do Porto do Rio, em que o ar condicionado não é uma opção, mas uma imposição.
A cheia recorde era de 1997, quase 20 anos atrás. Hoje o rio está mais de 2 metros acima do nível de 97. Imagine isso dentro de casa. É essa a situação.
A gravidade do que acontece ali não é um problema local.

23/03/2014

Porto Velho - uma breve passagem.

1
O Seu Rabelo é pescador, tem 63 anos e essa é a maior cheia que já viu.
Ele diz que as usinas de São Antonio e Jirau formaram um grande lago em torno de Porto Velho. Como o rio Madeira é muito barrento a força da água que passa pela usina empurrou o barro e represou a água. A casa dele está completamente alagada.
O Christyann, que mora aqui em Porto Velho, me conta que os estudos de impacto ambiental para a construção de Jirau apontavam para a possibilidade dessas enchentes.
Uma outra pessoa com quem conversei me contou de uma peça de Teatro que há três anos encenava o alagamento da cidade para criticar a construção da usina. Hoje a peça é feita na parte alagada.
O seu Juarez, também pescador foi enfático. Essa água não baixa mais. Vai descer um pouco, mas o alagamento da parte baixa de Porto Velho é pra sempre.
Bem, não tenho elementos para ter certeza de que as usinas são a causa direta da enchente, mas por aqui há um consenso.
Já a Dilma diz: “Não é possível olhar para essas duas usinas e achar que elas são responsáveis pela quantidade de água que entra no Madeira. […] É a gente diante da natureza e da força dela.”
Torço para a Dilma ter razão. Já o seu Rabelo, quando falei da força da natureza riu. Você acha natural milhares de caminhões de concreto no meio do rio Madeira?



2
Sérgio de Carvalho postou hoje diversas e impressionantes imagens da cheia aqui de Porto Velho.
Todos aqui nos lembram: - Você não imagina como estão as populações ribeirinhas.
Conversamos muito sobre a dificuldade das nossas imagens trazerem a gravidade do que acontece. Isso foi assunto com os ótimos professores do Inventar com a Diferença.
A água do rio está contaminada, o principal jornal da cidade diz que há risco de contaminação dos peixes, o cheiro é forte em muitas partes da cidade, 11 mil alunos estão sem aula enquanto todos esperam a hora de começar a limpar o barro.
Entretanto, o jornalismo parece ter nos anestesiado para as imagens de tragédia. As casas debaixo d’água parecem substituíveis; Camboja, Baixada Fluminense ou Porto Velho.
Mas, ao mesmo tempo, essas imagens são necessárias. São elas, também, que não permitem que nos contentemos com explicações constrangedoras como a de Dilma: “Forças da Natureza”.
Além de Jirau e Santo Antônio há o degelo dos Andes. No concreto que cruza o Madeira e no aquecimento global, estamos nós mesmos: engenheiros, cientistas, carros 4X4 andando pela cidade e uma lógica desenvolvimentista que apenas repete: consuma mais energia.
Amanhã volto a pé para o Rio de Janeiro. Até lá, mais uma imagem, de longe.


3
O encontro com professores, com o Christyann Ritse e diversas outras pessoas em Porto Velho, mas, sobretudo com o Sérgio de Carvalho, que vive há 10 anos no Acre, me fez perceber a intensidade das tensões e disputas que se dão na região.
Nas omnipresentes televisões de Porto Velho, o que víamos eram notícias do Rio e de São Paulo. Um assalto seguido de morte no Rio de Janeiro ocupava muitos minutos do telejornal. – isso no dia em que uma pesquisa aponta para o fato de o Brasil ter 16 cidades entre as mais violentas do mundo e o Rio de Janeiro não estar entre elas.
Quando estou aqui no sudeste, essa centralidade parece normal, esqueço que estou vendo notícias “nacionais”, em Porto Velho era só uma triste distorção.
No pouco tempo que estive em Porto Velho conheci médicos cubanos chegando para trabalhar em Rondônia, imigrantes haitianos que entraram pela tensa Brasiléia, no Acre, e encontram pequenos trabalhos também em Rondônia. Vi de perto as enchentes e as tentativas do governo federal em dizer que se trata apenas de um fenômeno climática – forças da natureza - , como se nem mesmo a pergunta sobre o “funcionamento” da enchente pudesse ser colocado. No mapa de Rondônia, por satélite, podemos ver ainda a intensidade dos desmatamentos - 140 mil hectares de soja. Sérgio me falava ainda de um embate que se aproxima, por conta da presença de petróleo em terras indígenas no Acre.
Energia, fronteiras, água, agronegócio, direitos indígenas; a sensação é que há um país em disputa no Norte, embates por mundos específicos em lugares frequentemente frágeis diante de macro-poderes.
Quando o Sérgio há dez anos atrás decidiu ficar por lá, entendi perfeitamente.



16/03/2014

Diploma para jornalistas

A PEC que pretende trazer de volta a obrigatoriedade do diploma de jornalista explicita o temor em relação a esse novo regime de informação que se forja no mundo.
Da mesma forma que a Internet está em disputa, com as resistência a um Marco Civil que garanta uma internet livre, esse projeto de lei por um lado atende aos interesses de quem controla as comunicações e não quer perder a centralidade. – Sobre esse outros assuntos escrevi com o Ednei um artigo Nostalgia das centralidade - (revistaalceu.com.puc-rio.br/media/Artigo%2012_24.pdf)
Entretanto, não são apenas esses que defendem o diploma.
Em todos grandes processos de transformação político-subjetiva – pois é disso que se trata quando a produção de informação é transversal à toda sociedade – há um desejo de repressão que retorna com força.
Pedir a volta do diploma é como se nos colocássemos a gritar – reprima-nos, não suportamos tanta liberdade e responsabilidade.
Por um lado um processo de auto-repressão que internaliza um estado centralizador e pede limites de liberdade.
Por outro, são os macro poderes tentando garantir a exclusividade – impossível – de organizar as potências das tecnologias, discursos e afetos.

Greves do Garis 2



Em um outro post comentei a perturbação na partilha do sensível, como diria o Rancière, provocada pela greve nos garis.
Outro fato curioso foi a passagem do exótico ao político.
Em todo carnaval havia sempre um representante dos garis que tomava a cena. Um alegre e sedutor gari fechava algum desfile das escolas de samba e, no dia seguinte, ocupava a primeira página dos jornais.
O subtexto era óbvio: apesar de tudo, a alegria.
Pois esse ano o exotismo perdeu espaço. O exemplo de alegria, que não deixava de apaziguar a separação de classe durante o ano, nesse carnaval perdeu lugar para garis nada apaziguados ou exoticos, lutando por salários, explicitando que a cidade lhes pertence e que as capas dos jornais pouco suportam esse outro lugar, essa outra alegria.

08/03/2014

A greve dos garis

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Tudo é racional no capitalismo, menos o capital” G & D

Na greve dos garis e na greve dos professores no ano passado, parece haver duas continuidades em relação aos rumos da cidade e o ambiente que se formou posterior às manifestações.
A primeira diz respeito à desregularização generalizada da cidade para que os grandes eventos aconteçam. Desregulariza-se para fazer valer as regras do mercado, as forças do dinheiro, as normas dos anunciantes. Com isso, pagamos 6 reais uma latinha de Coca-Cola em uma padaria de Copacabana, 3 mil o aluguel de um quitinete, as leis mudam, populações são removidas, etc, etc.
Pois, a cidade vale para todos. Garis inclusive.
Nesse momento o prefeito vem a público dizer: “a prefeitura não tem dinheiro para o aumento dos garis”. Talvez ele tenha razão, mas, diante da cidade que se organiza sem que o mercado tenha limites na exploração do comércio, do solo ou do tempo dos passageiros do transporte público, por que seriam os garis que deveriam aceitar um limite? Se a lei e as normas são mutáveis para o capital, por que para eles vale a racionalidade administrativa?
O prefeito argumento dizendo que não há dinheiro, ou seja, dentro da ordem estabelecida entre quem recebe e quem paga, os garis não podem receber mais. Em outras palavras: há uma ordem de exploração e essa ordem não será alterada, apenas administrada.
E ai entra o espírito pós-manifestações.
Se as manifestações fazem parte de uma profunda crise entre as produções subjetivas desejantes e as formas de produção e administração da comunidade, o que os garis estão a dizer é que o que está em jogo não é uma administração da exploração, mas que essa exploração tem limites.
Mais uma vez temos um preciso exemplo de porque à certos poderes interessa tanto falar em gestão no lugar de política.
Enquanto a gestão administra a exploração a política a torna insuportável.

05/03/2014

Vivemos uma crise de valores, felizmente.


Passei os olhos na entrevista da Viviane Mosé no Globo e não dei atenção, raramente seus comentários na CBN me provocam o pensamento – o que certamente pode ser um problema meu, não dela.
Como alguns amigos levaram a sério o que ela disse, resolvi voltar a entrevista e lí os dois primeiros parágrafos com mais atenção.
Logo no início há uma montagem perversa entre múltiplas violências que acontecem no mundo. Para fazer tal montagem é necessário esvaziar todas as cenas, todos os contextos, todas as relações históricas e olhar apenas para a violência, para uma parte, frequentemente mínima, do evento. Como num jogo fetichista, todo o corpo social é excluído e fica-se apenas com um elemento, no caso a violência.
Há nesse início da entrevista uma associação que vem sendo construída pelo Globo e que a entrevistada se dispõe a ligar os pontos: as manifestações são violentas e há uma violência geral nas ruas, logo a violência é dominante, precisamos agir em nome da sociedade – contra manifestantes, contra fortões que espancam bandidos. Feita a associação entre formas explicitamente fascistas de violência e estratégias de resistência à violência do estado, justifica-se assim mais violência do estado – agora contra manifestantes que saem às ruas por melhores transportes ou que arranham a imagem dos patrocinadores da Copa.
Há uma segunda colocação que merece alguns comentários
“Existe uma crise de valores, então todo mundo está violento” Sim, ela tem razão, há uma crise de valores, mas não sei se é por isso que “todo mundo está violento”.
Assim como fazem muitos psicanalistas conservadores, ela se põe a lamentar a crise de valores. Não creio que seja o caso. O que vemos no país com as manifestações é efetivamente uma crise de valores, mas estávamos satisfeitos com nossos valores anteriores à crise?
Um crise de valores é uma transformação nos modos como entendemos a sociedade, nas formas como aceitamos as divisões dos poderes, nas estratégias de regulação de quem tem direito a usufruir da cidade e do tempo; uma crise de valores é a abertura de uma infinidade de possíveis. É sobretudo no campo do desejo mesmo que essa crise atua. A crise é uma fantástica abertura para se imaginar outro mundo, outros valores.
Sim, vivemos, felizmente, uma crise de valores e é lamentável que o estado, o capital, e todos nós não estejamos à altura dessa crise e que não tenhamos a capacidade de materializar formas mais democráticas de participação política, mais justas de acesso às riquezas materiais e simbólicas que produzimos.
A crise está instaurada, agora, que resposta temos para ela?
Bem, a resposta que temos visto é frequente violenta: da grande mídia, do campo jurídico, do capital e infelizmente, do pensamento também. Quando tudo está para ser pensado, são essas falas que dizem; pare de pensar, há uma crise de valores e isso não é bom.
“Como sociedade, não se pode deixar a violência como está”, diz Mosé. É verdade. Mas talvez tenhamos que incluir essas outras violências no hall fetichista da psicanalista.
Em um segundo momento da entrevista há mais uma típica nostalgia conservadora das centralidades discursivas: Ah, como era doce o tempo em que podíamos tudo controlar e essa gente não ia para a rua com suas bandeiras retiradas da internet.
Mosé diz isso da seguinte maneira: “Ele (o manifestante) abraça qualquer uma dessas verdades prontas que aparecem na internet, defendendo aquilo de maneira rasa.” Ou, com outras palavras, o povo não sabe o que está fazendo, diz ela. Pois, a crise de valores é justamente essa, talvez o povo saiba – no próprio corpo, na vida cotidiana - , mas os valores da psicanalista não dão conta de perceber a obviedade: os valores que ela representa não são mais suportáveis; eis a crise.

22/02/2014

Freixo no O Globo

Depois do tosco e triste episódio em que O Globo conecta o Marcelo Freixo à trágica morte do jornalista, leio hoje a resposta do deputado no jornal e a acho fraca e no limite ingênua.
O que está em jogo na articulação que a Globo faz entre essa morte, os manifestantes e os políticos é menos um ataque pessoal ao deputado do que um desserviço à democracia e ao jornalismo.
Ao usar o seu espaço para dar explicações, o que o deputado faz é entrar no jogo do jornal. Tudo que parece interessar o Globo é essa disputa pelos meandros do que é fato ou ficção, enquanto a discussão de fundo é sobre o modo como rádio, jornais, sites, tvs abertas e pagas se articulam para produzir verdades fazendo uso de um excesso de poder, nada democrático.
Os absurdos dessa história merecem um reflexão sobre os meios de comunicação, sobre o modo que o jornal desrespeita os jornalistas que até hoje ali trabalham e sobre o país mesmo – com suas organizações de poder e comunicação.
Fora isso, essa tragédia do jornalista, essa vítima óbvia, tem também os próprios jovens como vítimas. Participaram acidentalmente e irresponsavelmente de uma morte, se isso for provado. Parecem ter pouquíssimos recursos argumentativos para se explicarem, foram envolvidos em uma armadilha desejada por um grande meio de comunicação e são defendidos por um advogado que ajuda a incriminá-los. A fragilidade dos jovens veio a calhar para muitos.
Já Freixo deveria antes dizer: minha história não importa diante desse fato com vítimas reais, sobretudo os que até hoje morreram nas manifestações e os que efetivamente tem suas vidas consumidas pelas narrativas jornalísticas! O deputado faz o contrário, individualiza e responde defendo a sua história. Isso é pouco, ou ele acha que até aqui a sua história dependeu da Globo e agora estaria sob ameaça. Pelo contrário. Talvez não haja mais nada a ser revelado sobre os violentos recursos narrativos utilizados pelo jornal, está tudo ali, explicito.
Não há análise de discurso necessária para entender as operações do jornal. O que importa é a máquina em que ele funciona e faz funcionar, com seus recursos publicitários, conexões com o estado e empresários, políticos, etc.
Enquanto isso, hoje, sinto o gosto da derrota ao pagar 3 reais para pegar um ônibus.

12/02/2014

Porque falar em resistência ao capital?



Com frequência aproximei as manifestações contra a Copa e pela tarifa zero, como movimentos de resistência ao capital e pela democracia.
Essa afirmação pode parece óbvia, mas continua causando espanto em muitos que acham estranho virmos a público dizer que o Capital precisa de limites e que sua ação é sempre violenta contra aqueles que nas ruas ou em práticas cotidianas não se submetem às suas forças como se naturais elas fossem. Para as forças do capital, a democracia, a direito de qualquer um atuar politicamente na cidade, é irrelevante, pois seu foco é outro.
Para ser mais didático, quando critico o capitalismo, seus macro e micro-fascismos, isso não significa nenhum elogio a qualquer outro tipo de sistema político econômico que conhecemos.
É apenas triste ouvir algo do tipo: - se você não gosta do capitalismo, vai para Cuba. Ter que contra-argumentar a partir de uma afirmação desta é parte dos micro-fascismos do capitalismo. Ou seja, retirar a legitimidade da crítica apontando para macro-sistemas, obviamente falidos, como se trabalhássemos sempre dentro de uma dicotomia ou nós – o capitalismo como prática e regime econômico político – ou eles – inviáveis no mundo contemporâneo. O que parece difícil para muitos é entender que é dentro do capitalismo - ou nosso mundo - que pensamos.
Nesse sentido, o fundamental aqui é entender que o capitalismo não é um sistema de governo ou um sistema de trocas escolhido por estados-nação. Bem mais complexo, o capitalismo é hoje o centro organizador de uma infinidade de práticas subjetivas, políticas e, obviamente, econômicas. Dito isso, entendo que a luta é interna a ele.
A universidade pública, por exemplo. Por uma lado ela é evidentemente uma resistência à centralidade das trocas fundada nos ganhos de capital. Sendo estatal, ela depende de enormes esforços sociais para continuar existindo à margem da centralidade do capital. Entretanto, no seu interior as práticas tipicamente ligadas ao capital são presentes: competição, urgência de ganhos, estímulo à distinção por títulos e verbas, etc.
Ou seja, quando falo de uma crítica ao capital, mais do que uma negação genérica do capitalismo – o que seria ingênuo e inócuo – estou pensando nas possibilidade que temos em inventar o comum e a democracia e isso não se faz sem tensão com as práticas capitalistas.
Voltemos à passagem de ônibus. Em um país capitalista como a França, por exemplo, um trabalhador gasta aproximadamente 1/35 do salário mínimo para se locomover livremente e sem limites na cidade. No Rio de janeiro o trabalhador gasta 1/5 do salário mínimo para ir e voltar diariamente de sua casa ao trabalho. Ou seja, não se trata de ser contra a presença de empresários no transporte, mas de um problema de centralidade da prática capitalista e do nível de resistência que uma sociedade foi capaz de construir. É óbvio que tarifa zero é mais democrática que a restrição em ir e vir feita por princípios econômicos, mas se a tarifa zero não é possível no momento, qual o princípio que norteia o preço da passagem? O ganho de capital ou o princípio de que este é um bem comum onde não cabe a distinção pela situação econômica? Isso posto, torna-se risível qualquer argumento que oponha a tarifa-zero à qualidade do transporte. O mesmo vale para a água, para a escola, para a saúde. A riqueza produzida pelo homem deve, antes de tudo, garantir que esses mesmo humanos não sejam alijados do que lhes garante viverem as suas potências de vida, trabalho e invenção.
Necessário repetir? As lutas micropolíticas, são formas de tensionar o capital, porque no mundo contemporâneo, não estamos no tudo ou nada, mas em embates cotidianos em que se disputa no detalhe o direito das formas de vida não serem submetidas às regras totalizante do capital – uma ordenação que não vê problema algum em servir àqueles que podem participar de suas maravilhas e de suas forças de invenção e excluir totalmente os que não podem ou não compartilham de seus princípios e meios.
O que está em jogo nas críticas à Copa e nas manifestações contra o aumento de passagem é, justamente, porque vivemos um momento em que se evidência que as encantadoras forças do capital são também aquelas que nos levam para o fundo e nos sufocam. A sedução da presença do Brasil como um “player” mundial vem acompanhada de uma intensificação de práticas totalitárias e excludentes – o que não é estranho a todo e qualquer movimento do capital – mas como não estamos no tudo ou não e como nosso mundo se constitui nas formas que temos de inventar o comum e o democracia, nos resta resistir. Outra possibilidade é aceitar o mundo feito para uns e não outros – o que definitivamente não é nada natural.

02/02/2014

Forças repressivas

Quando as manifestação agem na direção da democracia e ameaçam o roteiro do capital, a violência dos poderes é colocado na rua.

Os poderes que operam no cotidiano de forma molecular são obrigados a se fazerem presentes, falar alto, agredir.

Se o capital que opera sobretudo nos processo subjetivos faz água, é na força que os sujeitos serão dobrados e para as isso as instituições repressivas se fazem presentes: 1) novas leis anti-manifestações e reunião de grupo, novas formas de nomear e limitar os poderes dos sujeitos quaisquer. 2) a repressão se faz pela história e somos avisados que o futuro é um peso e não uma invenção. A repressão histórica nos culpabiliza gritando: Atenção! Não se mexa – assim como fazem os ladrões – não invente, não se revolte! Isso não é bom para o país no exterior, ou a direita pode ganhar as eleições. A história é entendida como um movimento homogêneo: exigir tarifa zero é colocar a carroça na frente dos bois.3) Culpabilizando os processos: Estamos em outro momento. Isso vai dar merda.

Todas essas forças repressivas, frequentemente vindas da esquerda, operam na negação das mutações dos desejos – do jovem, da criança, do velho , do pobre – que acontecem no interior mesmo do capitalismo, mas que tem a democracia como norte. E sul.

31/01/2014

O transporte no centro do jogo democrático.

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1 - o óbvio: moradia e transporte constituem os direitos mínimos na cidade.
Em um país onde uma massa de pessoas anda a pé porque não podem pagar o transporte ou em que o bilhete de ida e volta todos dias do mês consome um quarto do salario mínimo, a luta pelo transporte é central para que a democracia possa existir.
Para que o povo, o homem comum, possa usufrui e ter direito à cidade e à política ele não pode ser isolado de sua circulação.
Tarifa zero não é uma utopia mas o exercício da democracia.
Para a tarifa zero ser um projeto de longo prazo o preço transporte urbano não pode nunca mais subir.
2 - Quando vejo as imagens dos trabalhadores pulando as catracas da central o que está em jogo é a evidência de que as regras acordadas pelos poderes atuais colocam em risco a democracia mesmo, afogando os direitos dos cidadãos.
3 - Uma democracia se fortalece quando ela garante espaço de liberdade aos contra-poderes e a desobediência civil é inerente à democracia. Não aceitar o aumento da passagem é apenas uma antecipação da cidade que está sendo construída. Podemos fazer a tarifa zero lentamente, sem aumento. Mas se houver aumento ela será feita rapidamente, pulando-se a roleta, garantindo-se a democracia.

27/01/2014

Cada um no seu quadrado

Esbarrei hoje em um texto do Daniel Bensaïd sobre a atualidade do Manifesto Comunista e ele me fez pensar em um conversa com amigos muito críticos àqueles que tem o usado o "não vai ter copa"
Logo no início ele cita aquele passagem clássica:
"Tudo o que era sólido desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar friamente sua posição social e suas relações mútuas”
Depois o Bensaïd continua para pensar a Globalização dos anos 90 (o texto é de 98).

Se há um processo de transformação dos lugares sociais - pela educação, consumo, estética, trabalho - o que a Copa traz - pelo menos em seu imaginário, fortemente sedimentado pelo estado e pelo capital - é justamente o contrário, ou seja, um esquadrinhamento duro das posições sociais e das relações de classe.
Para a Fifa pobre é pobre, rico é rico e a mulata...
Enquanto temos um país que se transforma, a Copa aparece como símbolo da negação dessa transformação.
No meu entender não há uma linha de continuidade melhorias sociais - Copa do Mundo. Pelo contrário. Simbolicamente a Copa é muito mais conservadora do que os processos de transformação social em curso.
Nesse sentido, não acho justo colocar aqueles que se manifestam criticamente em relação à Copa como opositores do país ou como opositores dos pobres.
Também me parece injusto cobrar dos críticos uma adesão ao governo, mesmo que seja o governo que apoiamos. Tal exigência reduz excessivamente a ideia mesmo de democracia.
Ao que tudo indica; vai ter Copa.