25/04/2014

DG

DG
A mãe do DG, o rapaz morto no Rio de Janeiro pela polícia militar, faz política ao se recusar falar com o governador Pezão.
Abrir o palácio para essa mãe, nesse momento, é produzir uma igualdade que permite a estabilidade da desigualdade.
Me explico. O gesto do governador de convidar a mãe em luto para uma conversa aponta para o desejo de marcar um lugar comum aos dois.
Pertencemos ao mesmo mundo, diria o governador, compartilhamos o mesmo luto, podemos conversar.
Mas, que igualdade é essa? A igualdade que interessa apenas o poder. A igualdade necessária para fazer a mãe ouvir, entender as palavras do governador e voltar para casa, para o mundo em que seu filho faz parte dos matáveis.
Pois a mãe diz: Não há igualdade entre nós. Não compartilhamos a mesma possibilidade de fala, não vou te ouvir nem vou fazer do diálogo um produtor de um consenso que mantém o absurdo dessa morte.
Negar um diálogo com o governador é a forma mais efetiva de produzir uma igualdade. É nesse gesto que a mãe expressa o poder que ainda tem sobre seu luto, sobre seus sentimentos, sobre o que a devasta.
Com o chefe dos que mataram, não há espaço de troca que não seja uma forma de apaziguar a desigualdade, de negar a política – o contrário da igualdade. Aceitar o convite seria uma forma de recolocar o governador em seu lugar de poder e a mãe no de vítima, mesmo que haja indignação, seria uma forma de reafirmar esses lugares.
O que a mãe faz é outra coisa. Ela afirma o seu poder e explicita a incapacidade do governador de exercer qualquer poder onde realmente importa – na polícia.
Quando ela decide não ir ao palácio, isso impede o governador de falar, de controlar a desigualdade. O governador experimenta a impossibilidade da fala, do controle, do poder. Mimetiza os matáveis. Não ir ao palácio é colocar o governador no lugar do matável. O pior não é ter o governador nesse lugar, o pior é esse ser um lugar existente no Rio.

19/04/2014

Rio de Janeiro, é hora de se dar bem.


Cada sujeito é essa bagunça; um mafuá. Atravessados somos por mil forças, desejos, tarefas, opressões. Nossos processos subjetivos, individuais e em grupo, são inseparáveis desse ir e vir entre nós e o mundo, entre o que conhecemos e vivemos e as condições que nosso mundo nos dá para efetivar nossas potências.

A cidade é parte fundamental dessas relações. Como escreveu uma vez Guattari, o destino da humanidade está diretamente ligado ao destino das cidades.
O destino da cidade que toca nossas vidas não é apenas material -  o transporte, a moradia, o uso do tempo – mas, também, os modos como somos constantemente modulados. Somos estimulados à certos processos em detrimento de outros, certas práticas em detrimento de outras.

No Rio de Janeiro, e provavelmente em outras cidades também, as intensas modificações produzidas pelos grandes eventos fazem com que cada faceta da vida comum seja atravessada por um estímulo bem claro: é preciso e possível a “se dar bem”.
A formulação corrente é:
Os preços na cidade estão surreais. Vou alugar meu apartamento durante a Copa por muitos e muitos mil reais! Ou “comprei um barraco na favela pra alugar pros gringos”.
Esse espírito à que somos estimulados não diz respeito somente ao mercado imobiliário, onde cada pessoa que possui um apartamento e não o aluga durante a Copa se sente um pouco otário, mas aos usos da cidade como um todo.

Os grandes eventos parecem ter levado ao limite uma prática predatória e de ganhos enormes e urgentes, típicas de lugares turísticos em alta estação. É preciso ganhar muito e rápido.
A hipercentralidade dos eventos tem data para acabar e até lá é preciso aproveitar. Isso serve para comerciantes, sindicatos, empresários, mas também para os sujeitos quaisquer. Olhar a cidade se torna uma busca de oportunidades, anunciadas sem qualquer constrangimento, muitas vezes por dia, em muitos programas de rádio ou TV.

Na bagunça que nos constitui estamos constantemente a receber esse estímulo e uma parte importante de nossas energias é tensionando essas palavras de ordem.

A comunidade parece viver uma mudança de perspectiva. Qualquer construção a longo prazo perdeu o sentido e pouco parece haver para além dos próximos dois anos. 
A velocidade do capital e de seus fluxos financeiros, que a cada quatro anos elegem uma nova sede Copas e Olimpíadas, parece ser hoje a velocidade que se impõe às nossas vidas. Essas devem se adaptar econômica e eticamente à cidade que nos é proposta.

Assisti ontem o delicado curta-metragem de Takumã Kuikuro, “KARIOKA”,  sobre a vida de sua família no Rio de Janeiro. Os olhares curiosos das filhas de Takumã, o prazer com o mar salgado, a descoberta de Beyoncé e da cidade grande trazem uma delicadeza para o Rio, uma cidade que construída por esses fluxos de poderes guarda possibilidades individuais e de grupo para escapar da lógica do “é preciso se dar bem”. As lutas estão em toda parte, felizmente. 

colóquio e manicure

Em Fortaleza,
Longas e intensas discussões sobre os limites da visão, sobre os modos como a centralidade do sujeito perceptivo é enganosa.
Saímos para almoçar e abordamos uma manicure na porta do salão para saber onde ficava o restaurante.
- Tá vendo aquela placa branca?
- Sim.
- Pronto. É lá. Olhando parece longe mas é perto!

A vida às vezes é bem simples.

13/04/2014

O prédio da Oi

O cinismo e a dureza do estado, associados ao capital e à grande mídia, se expressam com agudeza nos ocorridos na desocupação feita pela PM do prédio da OI.
O argumento desses poderes é simples: são invasores, estão na ilegalidade.
Basta um rosto, uma palavra ou um carrinho de supermercado transportando restos de uma tentativa de casa para vermos que essa legalidade é o oposto da justiça.
O espaço era de extrema precariedade e mesmo assim foi ocupado por mais de 5 mil pessoas.
O destino da cidade não suporta o pobre que proibido de entrar pela porta, arromba a janela.
Não é por outro motivo que as vidraças da prefeitura são blindadas.

01/04/2014

Ditadura e gestão

É muito impressionante que tenhamos chegado nesse momento da história do país vendo grandes meios como a Folha fazendo uma revisão tão positiva da ditadura.
Todos os fracassos sociais, éticos, culturais são esquecidos em nome de um discurso liberal que serve para justificar, se eles assim quiserem, novas ditaduras, novas violências.
Impressiona que a ditadura hoje não seja lida como uma tragédia em nossa história e que muitos venham a público armados de mentiras para justifica-la.
O que a Folha faz é dar à economia uma centralidade que coloca os números como uma medida para o que não tem medida.
O que aconteceu no país não pode ser lido por números, estatísticas e dados, mesmo que esses fossem verdadeiros. O que aconteceu no país durante os 21 anos demanda uma outra natureza de avaliação.
Quando o estado opta por matar física e subjetivamente sua população, essa opção não pode coabitar com argumentos lógicos racionais. Apesar de sabermos das opções desses grupos, o que lemos nesses dias não deixa de estarrecer.
O aniversário de 50 anos do golpe assustadoramente serve para justificar aquilo que parecia eliminado como possibilidade.
Em muitos lugares, como nesse editorial da Folha, a ditadura aparece como uma possibilidade de gestão. Eis a tragédia que se repete.

27/03/2014

Porto Velho 4


Há menos de uma semana estava em Porto Velho, capital de Rondônia, na margem do rio Madeira, onde recentemente foram construídas duas usinas “fundamentais” para nosso projeto de país. Mais energia, mais consumo.
Uma parte importante de Porto Velho está literalmente debaixo d’água. O debate sobre a influência das usinas nesses alagamentos é controverso, mas o fato é que esse é o primeiro ano de funcionamento das usinas e as cheias são as maiores já vistas.
O debate sobre o que se passa no norte praticamente não existe por aqui.
De alguma maneira, é como se a Amazônia, fosse um outro mundo – uma natureza. Como se o que acontece em Porto Velho ou Rio Branco fosse apenas uma problema local, isolado e fruto das forças selvagens da natureza.
Mesmo que as usinas não tenham participação nas enchentes devastadoras, a natureza ali definitivamente está amplamente atravessada por muitas escolhas de mundo. Do 4X4 que transita na cidade e contribuem para o aquecimento global que aumenta o degelo dos Andes, aos novos prédios do Porto do Rio, em que o ar condicionado não é uma opção, mas uma imposição.
A cheia recorde era de 1997, quase 20 anos atrás. Hoje o rio está mais de 2 metros acima do nível de 97. Imagine isso dentro de casa. É essa a situação.
A gravidade do que acontece ali não é um problema local.

23/03/2014

Porto Velho - uma breve passagem.

1
O Seu Rabelo é pescador, tem 63 anos e essa é a maior cheia que já viu.
Ele diz que as usinas de São Antonio e Jirau formaram um grande lago em torno de Porto Velho. Como o rio Madeira é muito barrento a força da água que passa pela usina empurrou o barro e represou a água. A casa dele está completamente alagada.
O Christyann, que mora aqui em Porto Velho, me conta que os estudos de impacto ambiental para a construção de Jirau apontavam para a possibilidade dessas enchentes.
Uma outra pessoa com quem conversei me contou de uma peça de Teatro que há três anos encenava o alagamento da cidade para criticar a construção da usina. Hoje a peça é feita na parte alagada.
O seu Juarez, também pescador foi enfático. Essa água não baixa mais. Vai descer um pouco, mas o alagamento da parte baixa de Porto Velho é pra sempre.
Bem, não tenho elementos para ter certeza de que as usinas são a causa direta da enchente, mas por aqui há um consenso.
Já a Dilma diz: “Não é possível olhar para essas duas usinas e achar que elas são responsáveis pela quantidade de água que entra no Madeira. […] É a gente diante da natureza e da força dela.”
Torço para a Dilma ter razão. Já o seu Rabelo, quando falei da força da natureza riu. Você acha natural milhares de caminhões de concreto no meio do rio Madeira?



2
Sérgio de Carvalho postou hoje diversas e impressionantes imagens da cheia aqui de Porto Velho.
Todos aqui nos lembram: - Você não imagina como estão as populações ribeirinhas.
Conversamos muito sobre a dificuldade das nossas imagens trazerem a gravidade do que acontece. Isso foi assunto com os ótimos professores do Inventar com a Diferença.
A água do rio está contaminada, o principal jornal da cidade diz que há risco de contaminação dos peixes, o cheiro é forte em muitas partes da cidade, 11 mil alunos estão sem aula enquanto todos esperam a hora de começar a limpar o barro.
Entretanto, o jornalismo parece ter nos anestesiado para as imagens de tragédia. As casas debaixo d’água parecem substituíveis; Camboja, Baixada Fluminense ou Porto Velho.
Mas, ao mesmo tempo, essas imagens são necessárias. São elas, também, que não permitem que nos contentemos com explicações constrangedoras como a de Dilma: “Forças da Natureza”.
Além de Jirau e Santo Antônio há o degelo dos Andes. No concreto que cruza o Madeira e no aquecimento global, estamos nós mesmos: engenheiros, cientistas, carros 4X4 andando pela cidade e uma lógica desenvolvimentista que apenas repete: consuma mais energia.
Amanhã volto a pé para o Rio de Janeiro. Até lá, mais uma imagem, de longe.


3
O encontro com professores, com o Christyann Ritse e diversas outras pessoas em Porto Velho, mas, sobretudo com o Sérgio de Carvalho, que vive há 10 anos no Acre, me fez perceber a intensidade das tensões e disputas que se dão na região.
Nas omnipresentes televisões de Porto Velho, o que víamos eram notícias do Rio e de São Paulo. Um assalto seguido de morte no Rio de Janeiro ocupava muitos minutos do telejornal. – isso no dia em que uma pesquisa aponta para o fato de o Brasil ter 16 cidades entre as mais violentas do mundo e o Rio de Janeiro não estar entre elas.
Quando estou aqui no sudeste, essa centralidade parece normal, esqueço que estou vendo notícias “nacionais”, em Porto Velho era só uma triste distorção.
No pouco tempo que estive em Porto Velho conheci médicos cubanos chegando para trabalhar em Rondônia, imigrantes haitianos que entraram pela tensa Brasiléia, no Acre, e encontram pequenos trabalhos também em Rondônia. Vi de perto as enchentes e as tentativas do governo federal em dizer que se trata apenas de um fenômeno climática – forças da natureza - , como se nem mesmo a pergunta sobre o “funcionamento” da enchente pudesse ser colocado. No mapa de Rondônia, por satélite, podemos ver ainda a intensidade dos desmatamentos - 140 mil hectares de soja. Sérgio me falava ainda de um embate que se aproxima, por conta da presença de petróleo em terras indígenas no Acre.
Energia, fronteiras, água, agronegócio, direitos indígenas; a sensação é que há um país em disputa no Norte, embates por mundos específicos em lugares frequentemente frágeis diante de macro-poderes.
Quando o Sérgio há dez anos atrás decidiu ficar por lá, entendi perfeitamente.



16/03/2014

Diploma para jornalistas

A PEC que pretende trazer de volta a obrigatoriedade do diploma de jornalista explicita o temor em relação a esse novo regime de informação que se forja no mundo.
Da mesma forma que a Internet está em disputa, com as resistência a um Marco Civil que garanta uma internet livre, esse projeto de lei por um lado atende aos interesses de quem controla as comunicações e não quer perder a centralidade. – Sobre esse outros assuntos escrevi com o Ednei um artigo Nostalgia das centralidade - (revistaalceu.com.puc-rio.br/media/Artigo%2012_24.pdf)
Entretanto, não são apenas esses que defendem o diploma.
Em todos grandes processos de transformação político-subjetiva – pois é disso que se trata quando a produção de informação é transversal à toda sociedade – há um desejo de repressão que retorna com força.
Pedir a volta do diploma é como se nos colocássemos a gritar – reprima-nos, não suportamos tanta liberdade e responsabilidade.
Por um lado um processo de auto-repressão que internaliza um estado centralizador e pede limites de liberdade.
Por outro, são os macro poderes tentando garantir a exclusividade – impossível – de organizar as potências das tecnologias, discursos e afetos.

Greves do Garis 2



Em um outro post comentei a perturbação na partilha do sensível, como diria o Rancière, provocada pela greve nos garis.
Outro fato curioso foi a passagem do exótico ao político.
Em todo carnaval havia sempre um representante dos garis que tomava a cena. Um alegre e sedutor gari fechava algum desfile das escolas de samba e, no dia seguinte, ocupava a primeira página dos jornais.
O subtexto era óbvio: apesar de tudo, a alegria.
Pois esse ano o exotismo perdeu espaço. O exemplo de alegria, que não deixava de apaziguar a separação de classe durante o ano, nesse carnaval perdeu lugar para garis nada apaziguados ou exoticos, lutando por salários, explicitando que a cidade lhes pertence e que as capas dos jornais pouco suportam esse outro lugar, essa outra alegria.

08/03/2014

A greve dos garis

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Tudo é racional no capitalismo, menos o capital” G & D

Na greve dos garis e na greve dos professores no ano passado, parece haver duas continuidades em relação aos rumos da cidade e o ambiente que se formou posterior às manifestações.
A primeira diz respeito à desregularização generalizada da cidade para que os grandes eventos aconteçam. Desregulariza-se para fazer valer as regras do mercado, as forças do dinheiro, as normas dos anunciantes. Com isso, pagamos 6 reais uma latinha de Coca-Cola em uma padaria de Copacabana, 3 mil o aluguel de um quitinete, as leis mudam, populações são removidas, etc, etc.
Pois, a cidade vale para todos. Garis inclusive.
Nesse momento o prefeito vem a público dizer: “a prefeitura não tem dinheiro para o aumento dos garis”. Talvez ele tenha razão, mas, diante da cidade que se organiza sem que o mercado tenha limites na exploração do comércio, do solo ou do tempo dos passageiros do transporte público, por que seriam os garis que deveriam aceitar um limite? Se a lei e as normas são mutáveis para o capital, por que para eles vale a racionalidade administrativa?
O prefeito argumento dizendo que não há dinheiro, ou seja, dentro da ordem estabelecida entre quem recebe e quem paga, os garis não podem receber mais. Em outras palavras: há uma ordem de exploração e essa ordem não será alterada, apenas administrada.
E ai entra o espírito pós-manifestações.
Se as manifestações fazem parte de uma profunda crise entre as produções subjetivas desejantes e as formas de produção e administração da comunidade, o que os garis estão a dizer é que o que está em jogo não é uma administração da exploração, mas que essa exploração tem limites.
Mais uma vez temos um preciso exemplo de porque à certos poderes interessa tanto falar em gestão no lugar de política.
Enquanto a gestão administra a exploração a política a torna insuportável.

05/03/2014

Vivemos uma crise de valores, felizmente.


Passei os olhos na entrevista da Viviane Mosé no Globo e não dei atenção, raramente seus comentários na CBN me provocam o pensamento – o que certamente pode ser um problema meu, não dela.
Como alguns amigos levaram a sério o que ela disse, resolvi voltar a entrevista e lí os dois primeiros parágrafos com mais atenção.
Logo no início há uma montagem perversa entre múltiplas violências que acontecem no mundo. Para fazer tal montagem é necessário esvaziar todas as cenas, todos os contextos, todas as relações históricas e olhar apenas para a violência, para uma parte, frequentemente mínima, do evento. Como num jogo fetichista, todo o corpo social é excluído e fica-se apenas com um elemento, no caso a violência.
Há nesse início da entrevista uma associação que vem sendo construída pelo Globo e que a entrevistada se dispõe a ligar os pontos: as manifestações são violentas e há uma violência geral nas ruas, logo a violência é dominante, precisamos agir em nome da sociedade – contra manifestantes, contra fortões que espancam bandidos. Feita a associação entre formas explicitamente fascistas de violência e estratégias de resistência à violência do estado, justifica-se assim mais violência do estado – agora contra manifestantes que saem às ruas por melhores transportes ou que arranham a imagem dos patrocinadores da Copa.
Há uma segunda colocação que merece alguns comentários
“Existe uma crise de valores, então todo mundo está violento” Sim, ela tem razão, há uma crise de valores, mas não sei se é por isso que “todo mundo está violento”.
Assim como fazem muitos psicanalistas conservadores, ela se põe a lamentar a crise de valores. Não creio que seja o caso. O que vemos no país com as manifestações é efetivamente uma crise de valores, mas estávamos satisfeitos com nossos valores anteriores à crise?
Um crise de valores é uma transformação nos modos como entendemos a sociedade, nas formas como aceitamos as divisões dos poderes, nas estratégias de regulação de quem tem direito a usufruir da cidade e do tempo; uma crise de valores é a abertura de uma infinidade de possíveis. É sobretudo no campo do desejo mesmo que essa crise atua. A crise é uma fantástica abertura para se imaginar outro mundo, outros valores.
Sim, vivemos, felizmente, uma crise de valores e é lamentável que o estado, o capital, e todos nós não estejamos à altura dessa crise e que não tenhamos a capacidade de materializar formas mais democráticas de participação política, mais justas de acesso às riquezas materiais e simbólicas que produzimos.
A crise está instaurada, agora, que resposta temos para ela?
Bem, a resposta que temos visto é frequente violenta: da grande mídia, do campo jurídico, do capital e infelizmente, do pensamento também. Quando tudo está para ser pensado, são essas falas que dizem; pare de pensar, há uma crise de valores e isso não é bom.
“Como sociedade, não se pode deixar a violência como está”, diz Mosé. É verdade. Mas talvez tenhamos que incluir essas outras violências no hall fetichista da psicanalista.
Em um segundo momento da entrevista há mais uma típica nostalgia conservadora das centralidades discursivas: Ah, como era doce o tempo em que podíamos tudo controlar e essa gente não ia para a rua com suas bandeiras retiradas da internet.
Mosé diz isso da seguinte maneira: “Ele (o manifestante) abraça qualquer uma dessas verdades prontas que aparecem na internet, defendendo aquilo de maneira rasa.” Ou, com outras palavras, o povo não sabe o que está fazendo, diz ela. Pois, a crise de valores é justamente essa, talvez o povo saiba – no próprio corpo, na vida cotidiana - , mas os valores da psicanalista não dão conta de perceber a obviedade: os valores que ela representa não são mais suportáveis; eis a crise.

22/02/2014

Freixo no O Globo

Depois do tosco e triste episódio em que O Globo conecta o Marcelo Freixo à trágica morte do jornalista, leio hoje a resposta do deputado no jornal e a acho fraca e no limite ingênua.
O que está em jogo na articulação que a Globo faz entre essa morte, os manifestantes e os políticos é menos um ataque pessoal ao deputado do que um desserviço à democracia e ao jornalismo.
Ao usar o seu espaço para dar explicações, o que o deputado faz é entrar no jogo do jornal. Tudo que parece interessar o Globo é essa disputa pelos meandros do que é fato ou ficção, enquanto a discussão de fundo é sobre o modo como rádio, jornais, sites, tvs abertas e pagas se articulam para produzir verdades fazendo uso de um excesso de poder, nada democrático.
Os absurdos dessa história merecem um reflexão sobre os meios de comunicação, sobre o modo que o jornal desrespeita os jornalistas que até hoje ali trabalham e sobre o país mesmo – com suas organizações de poder e comunicação.
Fora isso, essa tragédia do jornalista, essa vítima óbvia, tem também os próprios jovens como vítimas. Participaram acidentalmente e irresponsavelmente de uma morte, se isso for provado. Parecem ter pouquíssimos recursos argumentativos para se explicarem, foram envolvidos em uma armadilha desejada por um grande meio de comunicação e são defendidos por um advogado que ajuda a incriminá-los. A fragilidade dos jovens veio a calhar para muitos.
Já Freixo deveria antes dizer: minha história não importa diante desse fato com vítimas reais, sobretudo os que até hoje morreram nas manifestações e os que efetivamente tem suas vidas consumidas pelas narrativas jornalísticas! O deputado faz o contrário, individualiza e responde defendo a sua história. Isso é pouco, ou ele acha que até aqui a sua história dependeu da Globo e agora estaria sob ameaça. Pelo contrário. Talvez não haja mais nada a ser revelado sobre os violentos recursos narrativos utilizados pelo jornal, está tudo ali, explicito.
Não há análise de discurso necessária para entender as operações do jornal. O que importa é a máquina em que ele funciona e faz funcionar, com seus recursos publicitários, conexões com o estado e empresários, políticos, etc.
Enquanto isso, hoje, sinto o gosto da derrota ao pagar 3 reais para pegar um ônibus.

12/02/2014

Porque falar em resistência ao capital?



Com frequência aproximei as manifestações contra a Copa e pela tarifa zero, como movimentos de resistência ao capital e pela democracia.
Essa afirmação pode parece óbvia, mas continua causando espanto em muitos que acham estranho virmos a público dizer que o Capital precisa de limites e que sua ação é sempre violenta contra aqueles que nas ruas ou em práticas cotidianas não se submetem às suas forças como se naturais elas fossem. Para as forças do capital, a democracia, a direito de qualquer um atuar politicamente na cidade, é irrelevante, pois seu foco é outro.
Para ser mais didático, quando critico o capitalismo, seus macro e micro-fascismos, isso não significa nenhum elogio a qualquer outro tipo de sistema político econômico que conhecemos.
É apenas triste ouvir algo do tipo: - se você não gosta do capitalismo, vai para Cuba. Ter que contra-argumentar a partir de uma afirmação desta é parte dos micro-fascismos do capitalismo. Ou seja, retirar a legitimidade da crítica apontando para macro-sistemas, obviamente falidos, como se trabalhássemos sempre dentro de uma dicotomia ou nós – o capitalismo como prática e regime econômico político – ou eles – inviáveis no mundo contemporâneo. O que parece difícil para muitos é entender que é dentro do capitalismo - ou nosso mundo - que pensamos.
Nesse sentido, o fundamental aqui é entender que o capitalismo não é um sistema de governo ou um sistema de trocas escolhido por estados-nação. Bem mais complexo, o capitalismo é hoje o centro organizador de uma infinidade de práticas subjetivas, políticas e, obviamente, econômicas. Dito isso, entendo que a luta é interna a ele.
A universidade pública, por exemplo. Por uma lado ela é evidentemente uma resistência à centralidade das trocas fundada nos ganhos de capital. Sendo estatal, ela depende de enormes esforços sociais para continuar existindo à margem da centralidade do capital. Entretanto, no seu interior as práticas tipicamente ligadas ao capital são presentes: competição, urgência de ganhos, estímulo à distinção por títulos e verbas, etc.
Ou seja, quando falo de uma crítica ao capital, mais do que uma negação genérica do capitalismo – o que seria ingênuo e inócuo – estou pensando nas possibilidade que temos em inventar o comum e a democracia e isso não se faz sem tensão com as práticas capitalistas.
Voltemos à passagem de ônibus. Em um país capitalista como a França, por exemplo, um trabalhador gasta aproximadamente 1/35 do salário mínimo para se locomover livremente e sem limites na cidade. No Rio de janeiro o trabalhador gasta 1/5 do salário mínimo para ir e voltar diariamente de sua casa ao trabalho. Ou seja, não se trata de ser contra a presença de empresários no transporte, mas de um problema de centralidade da prática capitalista e do nível de resistência que uma sociedade foi capaz de construir. É óbvio que tarifa zero é mais democrática que a restrição em ir e vir feita por princípios econômicos, mas se a tarifa zero não é possível no momento, qual o princípio que norteia o preço da passagem? O ganho de capital ou o princípio de que este é um bem comum onde não cabe a distinção pela situação econômica? Isso posto, torna-se risível qualquer argumento que oponha a tarifa-zero à qualidade do transporte. O mesmo vale para a água, para a escola, para a saúde. A riqueza produzida pelo homem deve, antes de tudo, garantir que esses mesmo humanos não sejam alijados do que lhes garante viverem as suas potências de vida, trabalho e invenção.
Necessário repetir? As lutas micropolíticas, são formas de tensionar o capital, porque no mundo contemporâneo, não estamos no tudo ou nada, mas em embates cotidianos em que se disputa no detalhe o direito das formas de vida não serem submetidas às regras totalizante do capital – uma ordenação que não vê problema algum em servir àqueles que podem participar de suas maravilhas e de suas forças de invenção e excluir totalmente os que não podem ou não compartilham de seus princípios e meios.
O que está em jogo nas críticas à Copa e nas manifestações contra o aumento de passagem é, justamente, porque vivemos um momento em que se evidência que as encantadoras forças do capital são também aquelas que nos levam para o fundo e nos sufocam. A sedução da presença do Brasil como um “player” mundial vem acompanhada de uma intensificação de práticas totalitárias e excludentes – o que não é estranho a todo e qualquer movimento do capital – mas como não estamos no tudo ou não e como nosso mundo se constitui nas formas que temos de inventar o comum e o democracia, nos resta resistir. Outra possibilidade é aceitar o mundo feito para uns e não outros – o que definitivamente não é nada natural.

02/02/2014

Forças repressivas

Quando as manifestação agem na direção da democracia e ameaçam o roteiro do capital, a violência dos poderes é colocado na rua.

Os poderes que operam no cotidiano de forma molecular são obrigados a se fazerem presentes, falar alto, agredir.

Se o capital que opera sobretudo nos processo subjetivos faz água, é na força que os sujeitos serão dobrados e para as isso as instituições repressivas se fazem presentes: 1) novas leis anti-manifestações e reunião de grupo, novas formas de nomear e limitar os poderes dos sujeitos quaisquer. 2) a repressão se faz pela história e somos avisados que o futuro é um peso e não uma invenção. A repressão histórica nos culpabiliza gritando: Atenção! Não se mexa – assim como fazem os ladrões – não invente, não se revolte! Isso não é bom para o país no exterior, ou a direita pode ganhar as eleições. A história é entendida como um movimento homogêneo: exigir tarifa zero é colocar a carroça na frente dos bois.3) Culpabilizando os processos: Estamos em outro momento. Isso vai dar merda.

Todas essas forças repressivas, frequentemente vindas da esquerda, operam na negação das mutações dos desejos – do jovem, da criança, do velho , do pobre – que acontecem no interior mesmo do capitalismo, mas que tem a democracia como norte. E sul.

31/01/2014

O transporte no centro do jogo democrático.

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1 - o óbvio: moradia e transporte constituem os direitos mínimos na cidade.
Em um país onde uma massa de pessoas anda a pé porque não podem pagar o transporte ou em que o bilhete de ida e volta todos dias do mês consome um quarto do salario mínimo, a luta pelo transporte é central para que a democracia possa existir.
Para que o povo, o homem comum, possa usufrui e ter direito à cidade e à política ele não pode ser isolado de sua circulação.
Tarifa zero não é uma utopia mas o exercício da democracia.
Para a tarifa zero ser um projeto de longo prazo o preço transporte urbano não pode nunca mais subir.
2 - Quando vejo as imagens dos trabalhadores pulando as catracas da central o que está em jogo é a evidência de que as regras acordadas pelos poderes atuais colocam em risco a democracia mesmo, afogando os direitos dos cidadãos.
3 - Uma democracia se fortalece quando ela garante espaço de liberdade aos contra-poderes e a desobediência civil é inerente à democracia. Não aceitar o aumento da passagem é apenas uma antecipação da cidade que está sendo construída. Podemos fazer a tarifa zero lentamente, sem aumento. Mas se houver aumento ela será feita rapidamente, pulando-se a roleta, garantindo-se a democracia.

27/01/2014

Cada um no seu quadrado

Esbarrei hoje em um texto do Daniel Bensaïd sobre a atualidade do Manifesto Comunista e ele me fez pensar em um conversa com amigos muito críticos àqueles que tem o usado o "não vai ter copa"
Logo no início ele cita aquele passagem clássica:
"Tudo o que era sólido desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar friamente sua posição social e suas relações mútuas”
Depois o Bensaïd continua para pensar a Globalização dos anos 90 (o texto é de 98).

Se há um processo de transformação dos lugares sociais - pela educação, consumo, estética, trabalho - o que a Copa traz - pelo menos em seu imaginário, fortemente sedimentado pelo estado e pelo capital - é justamente o contrário, ou seja, um esquadrinhamento duro das posições sociais e das relações de classe.
Para a Fifa pobre é pobre, rico é rico e a mulata...
Enquanto temos um país que se transforma, a Copa aparece como símbolo da negação dessa transformação.
No meu entender não há uma linha de continuidade melhorias sociais - Copa do Mundo. Pelo contrário. Simbolicamente a Copa é muito mais conservadora do que os processos de transformação social em curso.
Nesse sentido, não acho justo colocar aqueles que se manifestam criticamente em relação à Copa como opositores do país ou como opositores dos pobres.
Também me parece injusto cobrar dos críticos uma adesão ao governo, mesmo que seja o governo que apoiamos. Tal exigência reduz excessivamente a ideia mesmo de democracia.
Ao que tudo indica; vai ter Copa.

11/01/2014

Na agência de Publicidade 2

- Tá todo mundo achando que o índio é o que tá levando a pior agora.
- Pra esse pessoal, Copa e capitalismo é a mesma coisa.
- Eles misturam tudo: índio, Coca Cola, Copa...
- China...
- Que China porra?
- Sei lá... China, tudo agora é China...
- Caralho!
- Porra, se tiver manifestação por causa de aldeia, por causa de índio, de remoção e essas porras todas durante a Copa, pra gente é uma merda!
- Uma merda.
- Uma merda.
- A gente tem é que dizer que a Copa é de todo mundo.
- A gente já disse.
- eu sei porra... No anúncio do nordestino com o sem perna.
- Já ganhamos um prêmio com aquele filme!
- E premio para manifestação, porra?
- Na China não tem manifestação.
- Porra, tu pode acabar com essa história de China?
- Mas é que...
- é isso.
Silêncio na reunião. Todos olham os iphones discretamente.
- É isso. Temos que trazer o índio para o nosso lado.
- Claro.
- Será que não vai ficar com cara de cota?
- Que?
- Porra de cota!
- É assim: o sem perna e o nordestino estão funcionando.  O pessoal tá entendendo que a Copa é de todo mundo.
- Ontem queimaram uns pneus na Mangueira.
- A Mangueira apaga essa porra de incêndio.
- hahahahaha!
- hahahaha!
- Então é nessa linha que vai.
- Agora é índio.
- Depois os crackeiros!
- Porra, ai também não.
- Manda fazer o cartaz do Indio bebendo Coca, diz que a Copa é de tododumundo e depois a gente pensa nessa história do crack.
- Valeu galera.
- Partiu!
- Fui.
- Já é!

04/01/2014

A terra

Na imprensa,
Onda de frio e calor no mundo é uma questão de records e não de capitalismo.

2014 - o povo ignorante de O Globo

Editorial do O Globo de hoje.
Não é possível um plebiscito sobre a reforma política porque o povo é ignorante.
"Como o eleitorado pode decidir com equilíbrio entre "lista fechada" ou "aberta" se a grande maioria da população não tem ideia do que se trata?"
A retórica de que o povo não sabe escolher, não sabe voltar, não consegue se informar abre o ano para a elite.
Para esses mesmo é insuportável que o "eleitorado" frequente shoppings, aeroportos, universidades ou saia nas ruas para manifestar, afinal de contas, em suas ignorâncias, eles não sabem o que querem.
O ano promete.


A lógica do Jornal é a mais simples. Existem os que sabem e existem os outros. Existem os que tem legitimidade para falar e os que não. Existem os que tem autorização para decidir sobre o país - pela grana, pelo diploma, pela fama - e os que obedecem. Para isso é importante manter uma democracia controlada pela mesma lógica - grana e fama. Qualquer coisa que possa embaralhar esses papéis ganha nomes bem específicos: caos, vândalos ou povo mesmo.


Lembrando:
ABC da Greve - Leon Hirzman 1979.
Na fábrica o industrial diz: "nos paises comunistas nós não vamos encontrar um diálogo franco entre industrial e empregado. Nós aqui não temos distinção. Então, a abertura que o governo deu, em parte ela é boa. Vamos convir uma coisa: que ainda o nosso povo não está preparado para uma abertura total. O povo brasileiro teria que amadurecer mais um pouquinho para ele entender um pouco melhor o que é democracia"

Reveillon em Copacabana

No maior reveillon do mundo as ruas ficam tomadas por publicidade com "temática de cinema."
é assim que a franquia Rio2 apresenta seu design triste para a política de boa vizinhança do momento.




Há um espaço em disputa, entre aqueles que tem o direito de usufrui a cidade, a vista e tudo que a cidade tem para nos oferecer e a forma como essas coisas se tornam comodities apropriáveis pelo capital.
É duro ver a paisagem de Copacabana ocupada por palcos, vinhetas da Globo e essa publicidade tosca.
Mas, ocupar o espaço é mais do que uma distribuição do território da praia, é uma ocupação simbólica. Aquilo que era a festa para Iemanjá, com as luzes e sons, expulsou aqueles que inventaram a festa na beira do mar, por exemplo.
As coisas mudam, é verdade, mas essa publicidade, mais do que pagar a festa, defini o festa e a cidade, e ai, como sabemos, quando a cidade está entregue ao capital, é a barbárie.


Voltando à publicidade. Ela explicita como estamos em uma cidade que produz limites muito frágeis contra a barbárie do capital.
A mesma força que ocupa o espaço público com logos gigantescas é a que faz o recolhimento compulsório de menores.