28 de mar de 2016

A rua não está pronta

A rua não está pronta
Dos mais interessantes debates das últimas semanas diz respeito à forma como aqueles que se associam à uma tradição de esquerda se relacionam com os recentes eventos políticos.
Por um lado há os que estão nas ruas e mídias sociais contra o impeachment e em explícita defesa de Lula e Dilma. A cineasta Ana Muylaert chegou a chama-los de pai e mãe dos jovens pobres que hoje estão na universidade; uma construção no mínimo infantilizante das lutas políticas, dentro e fora das universidades. Exemplo do lugar apolítico que se quer dar a Lula.
Por outro lado, a esquerda crítica ao governo encontra uma boa oportunidade para enfatizar suas discordâncias. No limite, fazendo como parte da direita e contemporizando as ilegalidades do judiciário, a falta de legitimidade de Cunha e companheiros e os descalabros da grande mídia.
De certa maneira, os dois grupos têm tratado as ruas e as manifestações como se estas estivessem prontas, ou um exemplo da defesa “do pai”, ou como se dominadas pelos governistas.
Uma pena!
Quem esteve na manifestação do dia 18, na recente reunião do pessoal do teatro no Rio, etc, percebeu que o espaço está aberto, que as críticas ao governo são intensas e que há, sobretudo, um clima de reconquista do campo da esquerda. Seja contra a direita, seja contra o PT.
A inquietação das ruas é a própria inquietação necessária para que a política esteja presente.
O imobilismo hoje é achar que a rua está pronta. Não está.


28 DE MARÇO

Não vai ter golpe - naturezas políticas

Há uma diferença de natureza nas pautas e questões colocadas à direita e à esquerda.
Por um lado, uma parte da esquerda se une em torno de radicas críticas ao governo Dilma e diz: É isso mesmo, tem que cair. 
À direita, seja por preconceito de classe, gênero ou simplesmente por não ver diferença entre Dilma e Cunha, a conclusão é a mesma: o governo rouba, tem que cair. 
Há ainda os que estão contra o golpe jurídico-midiático, mas que se esforçam em embutir diversas outras pautas no debate.
Nos três casos há uma mistura de naturezas políticas.
O “não vai ter golpe” não pode depender de qualquer julgamento do governo, ele transcende qualquer avaliação. É esse o princípio democrático.
As cartas que dizem “não vai ter golpe” e defendem os ganhos dos últimos anos com o PT são infundadas, misturam essas duas naturezas. Os que dizem que o Dilma merece cair por conta da economia ou da educação, também misturam.
Hoje, o “não vai ter golpe” não deveria ter qualquer relação com o governo Dilma, apenas com a democracia.

Brasil / política

A política contra os gigantes – do capital, do estado, do poder centralizador – só pode ser feita juntando dois níveis de atuação. 
Por um lado há a luta pela informação, pela verdade, pelos lugares de fala, pelo enfrentamento com os inimigos que exploram e destroem. 
Mas esse não basta. É preciso a surpresa, a loucura, a falta de limites, o pé na porta, o desvio, a poesia, o estranho, o perturbador. Ou seja, tudo que não tem como ser negociado, tudo que não aceita a ordem do poder. 
Sem essa duas forças, o mais forte vencerá sempre.

24 de março

“revolução democrática”

“revolução democrática”
A mobilização contra o impeachment dos últimos dias trouxe uma atmosfera de urgência política para o campo democrático, o que não há muito não se via. 
A mobilização contra os abusos do judiciário, da mídia e dos atores políticos que desejam a queda de Dilma como forma de assumir o poder parece estar se tornado um movimento pela democracia. 
Se a mobilização é pela democracia ela não pode ser apenas pela continuidade do que já conhecemos, do governo Dilma como ele se apresenta, mas também por uma “revolução democrática”, como falava o Florestan.
Educação, política, mídia ... – um choque democrático nessas esferas.
Diria então que ser contra o golpe é inseparável de uma radicalização nas críticas a esse governo.
O pacto à direita está quebrado, o Lula da paz, que dá entrevista no JN no dia que ganha as eleições acabou. Se o impeachment não passar os enfrentamentos são ainda mais urgentes.
Não estamos entre o golpe e o que já existe, mas entre o golpe e a possibilidade de uma democracia radical.
Há uma vibração política nas ruas e o atual momento é o que de melhor poderia acontecer para esse governo.


23 de março

Moro destrói a Lava Jato

É só especulação, mas, por algum motivo, o Moro foi para o tudo ou nada na Lava Jato. 
Depois condução coercitiva de Lula e da ilegalidade das gravações, o juiz começou um processo deliberado para destruir a operação.
A primeira hipótese, claro, é entrar na velocidade do jogo político e não do processo jurídico. Uma velocidade bastante adequada à mídia que para derrubar Dilma não pode parar a narrativa da crise crescente. Todo dia é necessário algo que explicite que o abismo está mais próximo.
A segunda hipótese – que não exclui a primeira - é que a Lava Jato ficou grande demais. Convenhamos, os caras foram fundo. Condenar o Odebrecht a 19 anos... são raríssimos os países que conseguem tal feito.
A Lava Jato ficou maior que o Moro e os próximos a serem ouvidos e se tornarem réus não contribuem para a desestabilização do governo – Aécio e cia.
Em resumo. Ou Dilma cai rápido ou as investigações atingem os amigos.
Com essas duas opções, Moro acelera. Se Dilma cai e Lula é preso, resolvido. Se Dilma não cai, a operação – com suas investidas na ilegalidade - perde toda legitimidade e se dissolve, poupando os amigos.
O rapaz não é louco, se perdesse o controle seria bem melhor.


22 de março

Teatro em BH - Claudio Botelho

Teatro
O que aconteceu em Belo Horizonte na peça sobre o Chico Buarque é interessante.
Em um dado momento o ator introduz um tema do cotidiano na peça – impeachment, Dilma, etc. O público, no lugar de entender sua fala como parte da cena, aceita que a quarta parede está rompida e se manifesta; se opondo às considerações do ator. Aparentemente, a quebra dessa quarta parede não era algo esperado pelo ator, assim, a primeira aferição é de que, independente do que o ator dizia, havia ali uma explicita incompetência em manter a fala no campo da ficção.
Depois da peça, o ator disse: mas era ficção! Ora, a ficção não é algo que se avisa, mas algo que se cria. No momento em que o público reage, o ator perdeu a cena.
A outra opção é de que o espectador contemporâneo, por princípio, está presente. Ou seja, a quarta parede é fluida e porosa. A passagem do espectador à cena não encontra grande barreira. Assim, no momento que o público reage e surpreende o ator, é uma incompreensão do estatuto do espectador contemporâneo que faltou ao ator em questão. Ele se achava completamente protegido diante de espectadores passivos. Não foi o que aconteceu.
Nos dois casos, antes de concordar ou não com as opiniões de Claudio Botelho, o problema parece ser sua fundamental inadequação para o teatro.


20 de março

Manifestações pela democracia

Diria que as manifestações de sexta significaram uma certa retomada da política. Sutil, tênue, mas bem mais interessante que a polarização Dilma/Impeachment.
Curiosamente, à direita e à esquerda, muitos só quiseram ver a manutenção da polarização, como se sexta fosse apenas mais uma dobra do petismo. 
No meu entender houve, na sexta, um importante corte na atual conjuntura. Estavam mobilizados indivíduos e atores políticos que há muito se distanciaram do PT, que não se confundem com apoiadores de Dilma, mas que se colocavam novamente juntos na indignação em relação aos recentes acontecimentos político-mediáticos, explicitamente não republicanos.
Nesse sentido, não se trata de terceira via ou de apoio crítico, mas simplesmente de dizer que a política importa e que há uma democracia que precisará se impor. A política importa porque só com ela os dissensos e os embates poderão ter lugar sem serem esmagados pelos discursos raivosas que pregam a ação sem reflexão.
O sutil retorno da política talvez seja o que temos de mais importante agora.
Um retorno que parece refutar a semente do autoritarismo que se apresentou nas últimas semanas de maneira tão intensa. Há uma atmosfera política que nos últimos dias parece ter ganho corpo: das manifestações à alguns colunistas de grandes jornais, de uma exibição de uma peça em BH às infindáveis manifestações públicas de associações científicas, coletivos e tantos atores políticos.
Sexta-feira abriu um espaço que permite uma outra circulação das indignações em relação ao governo Dilma, além da lógica da ilegalidade. É tênue, mas não há outro começo possível.


20 de março

Brazil

Dear friends,
A personal point of view on recent events in Brazil . trying to answer some friends ..
There is something serious occurring in Brazil.
Since last year an important investigation on corruption in financing political campaigns is happening. This investigation managed to put extremely powerful people, such as Marcelo Odebrecht, in jail.
But since the beginning it has being putting all its efforts on people closely related to PT, the workers party, in power since 2003. There are no saints in PT, but, in the last two weeks, this same investigation, with a great deal of help from Globo Media Corporation, has broken basic democratic and republican rules.
Their main goal is to put Lula, the ex-president, in jail and push Dilma Roussef, the current president, out of government.
In the last few days, Lula was forcefully taken to the judge in charge – Sergio Moro – to make his statements. But he has never refused to collaborate with the investigation. His testimony was taken at an airport with a plane from the police parked on it.
The worst case happened three days ago. Lula’s phone calls with Dilma Roussef were recorded and released on the same day to the media by the police. They contained no revelation at all, but the media has done all it could to produce more anger against both of them.
Huge protests in the whole country have been held in the last few days. Lots of people in the streets demanding Dilma's resignation and, yesterday, crowds in the streets saying "não vai ter golpe" – "There won’t be a coup."
Yes, there is something serious going on. The media, the opposition – mainly from the right wing - and a great part of the judiciary are breaking democratic rules to remove Dilma from government.
The matter now is not whether we like her, PT or Lula, but is one of respect for young Brazilian democracy.

20 de março

Invenção e desamparo. - pol´tica

Momento de grande desafio para a tradição de esquerda.
Por um lado a necessidade de uma intensa luta pela democracia, pelo estado de direito. Por outro a necessidade de nos autorizarmos a fragilidade do momento, a falta de referências, a ausência de um salvador. 
Elevar lula a esse papel hoje me parece um ato de desespero e revanchismo. Até lula, com seu brilhantismo, sabe que seu retorno como líder popular é um erro, uma evidência do seu próprio fracasso.
O norte dos democratas hoje me parece simples e árduo. Há um estado de direito e lutar contra os golpistas é uma necessidade - seja o sujeito de esquerda ou não. Isso e simples, mas duro. Mas, o mais difícil, é ter a democracia como norte sem um exemplo partidário. Hora de 
Invenção e desamparo.

18 de março

Velocidade Brasil

Velocidade 
A oposição ao governo utiliza uma estratégia da extrema velocidade para desarticular resistências, desmontar a ordem democrática e criar uma sensação de caos e desordem. 
Com a manipulação de informações - por vezes banais, irrelevantes ou descontextualizadas – se cria uma atmosfera de descontrole e desordem. 
A velocidade, nesse caso, é a eliminação da política e de qualquer possibilidade do debate e pensamento.
Hoje, quando me preparava para falar da tristeza em ver Lula no governo, mais um ataque da Lava-Jato, agora empenhada em destruir a própria Lava-Jato.
O que era uma ação com importantes gestos republicanos vai ganhando contornos cada vez mais autoritários e partidários. Uma lástima! Os acontecimentos de hoje deveriam chocar a qualquer um que deseja a democracia.
Sim, a volta de Lula ao governo é triste. Mais do que um líder, Lula agora chega como o pai salvador, o justiceiro injustiçado. A política não precisa mais de Lula.
Triste momento do país, entre um passado como esperança enfadonha e sem imaginação – Lula novamente. E uma oposição autoritária e ridiculamente cínica.
Se fosse possível desmontar um pouco essa velocidade em que nada se fixa, tudo já seria melhor.


16 de março

Conservadorismo e Lava Jato

Conservadorismo e Lava Jato
Os recentes acontecimentos com Lava Jato, Lula, Odebrecht etc vêm, infelizmente, aprofundando nossa crise política. Entretanto, esse não deveria ser o papel de uma importante operação contra o saque que o capital e as estruturas políticas fazem do bem público.
Primeiramente, como ser contra uma ação que expõe os principais operadores dessa íntima relação corrupta entre capital e estado? Como ser contra a investigação sobre as formas como megaoperadores – empreiteiras, bancos – centralizaram as ações de empresas estatais para que estas sirvam aos seus interesses? Como ser contra uma profunda investigação sobre a forma como essa união entre estatais e empreiteiras se tornou elemento chave na manutenção de certos poderes, destruindo possibilidades reais de democracia.
O desmonte dessa imbricada relação entre capital e poder político é mais que bem vindo.
Entretanto, dois movimentos conservadores podem jogar por terra um grande esforço.
O primeiro é óbvio: Moro e seu grupo não cessam de incorrer em injustiças e métodos de pressão bem pouco republicanos. Como é o caso das longas prisões sem julgamento, método que beira a tortura para forçar o acusado a aceitar uma delação premiada. Método esse defendido por Moro em artigo do final dos anos 90 sobre a operação “Mão Limpas” na Itália:
“Por certo, a confissão ou delação premiada torna-se uma boa alternativa para o investigado apenas quando este se encontrar em uma situação difícil.” (Moro)
O método do espetáculo ficou também mais evidente, claro, com a absurda condução coercitiva de Lula.
Em sua ação não equânime, espetaculosa e frequentemente autoritária, as investigações perdem seu caráter republicano e abrem espaço para o segundo ponto: a triste dicotomia entre Lulistas e seus opositores.
As características das ações da Lava Jato aprofundam a dicotomia entre esses grupos políticos, o que nada tem a ver com os reais problemas políticos do país.
Onde está o conservadorismo? Simples. No momento em que deveríamos efetivamente lidar com as questões ligadas à governabilidade, a corrupção como forma de governo, o fracasso de todos os governos recentes pós Collor em fazer uma reforma política e tributária no país, o que vemos? Uma nova polarização: Lula como mártir ou como exemplo de corrupção – segue-se a isso, gestos da mesma natureza: por um lado uma grande mídia constrangedora e golpista, como tradicionalmente o é, de outro um governo e seus partidários que olham para os fatos como se nada devesse ser feito e nossa única função fosse defender o pai – Nosso Lula.
Nos dois casos há um abandono da política e de qualquer perspectiva de futuro.
O conservadorismo é isso: está tudo certo no jogo, o problema é ganhar. Os últimos anos tem deixado claro que talvez o problema a ser enfrentado é o jogo e não a escolha dos vencedores e perdedores.

8 de março

A Garota Dinamarquesa

A Garota Dinamarquesa é um filme curioso. Tudo acontece em torno do personagem que começa a se travestir, assume junta à companheira sua homossexualidade e finalmente se submete à primeira cirurgia na história para a retirada do pênis e a produção de uma vagina.
Entretanto, narrativamente, é no amor incondicional de sua parceira que o filme se centra. Apensar de tudo, ela está ao seu lado. Com idas e vindas, mas sempre presente. 
O que acaba dando as feições mais conservadoras ao filme – além de tantas opções estéticas, como apontou Bernardo Carvalho em recente crítica – é o fato de a mulher, mesmo movida por seu amor incondicional, não ter seu desejo alterado ou perturbado por tudo que acontece com o marido.
O filme se apoia assim em um jogo binário – ou ele é homem, ou ele é mulher. Se ele for homem, a relação com ela pode existir, se for mulher, não há sexo. A centralidade narrativa passa assim a ser totalmente pauta pela lógica heterossexual da mulher, inalterada, mesmo quando seu marido não para de escancarar as portas para outras possibilidades eróticas.
O que poderia ser uma história libertária, acaba se tornando uma história que corrobora a impossibilidade daquele homem, com seus desejos subversivos para a época, mudar qualquer coisa no seu entorno, nem mesmo a mulher que o ama.

Zica e ciência

Os acontecimentos associados ao Zica e os casos de microcefalia são reveladores do funcionamento de toda ciência. 
Subitamente, aqueles que deveriam dar as boas respostas e organizar as ações contra a epidemia se embaralham, falam sem muita certeza ou são absolutamente ineficazes. 
No momento que a ciência falha, são convocados todos os atores sociais que de alguma forma podem influenciar as tomadas de decisão e as origens do problemas.
Talvez os casos de microcefalia sejam causados por uma vacina ou talvez por um pesticida da Monsanto - gigante que além de pesticidas produz sementes suicidas. Mas, não são apenas as eventuais erros, também científicos – vacina, pesticidas – que são convocados, também as condições de saneamento e os poderes públicos que poderiam ter evitado a proliferação dos mosquito. Além disso, a epidemia acontece na véspera de uma Olimpíada, o que transforma o problema local em algo global que
envolve grandes investimentos.
Os mesmo poderes locais, junto com a mídia, precisam, se não conter o vírus, pelo menos administrar a informação sobre ele, controlar a circulação do que se sabe e diz sobre a doença. A OMS anunciou ontem grandes investimentos para combater o Vírus. A maior parte das verbas vai para conscientização, ou seja, mídia.
O Zica e os casos de microcefalia são assim reveladores do funcionamento da ciência - fundamentalmente suja e opaca, distante de qualquer assepsia ou isolamento.
Se algum dia a ciência foi animada pela curiosidade, pelo livre pensar ou pelo simplório desejo de melhorar o mundo, nesse caso estão evidentes os fatores sociais, econômicos, interesses de estado e multinacionais, estruturas de poder midiáticas e globais.
O que perturba a ciência é que o “sujeira” venha a tona, que a solução para um problema se torne um debate em que essa mistura opaca tenha influencia. Perturba a ciência que as operações em torno de um mosquito sejam um problema sem exclusividade dos homens e mulheres de branco em seus laboratórios.
A sujeira sempre esteve lá, a confusão de opiniões que circula no momento não é o contrário da ciência, mas ela mesma.

"Manifesto Contrassexual" de Beatriz Preciado.

Com mais de 10 anos de atraso acabo de ler o "Manifesto Contrassexual" de Beatriz Preciado.
A leitura é instigante e frequentemente bem humorada, o rigor teórico e a metodologia são inspiradoras.
Mas, o melhor, é a aposta política não essencialista ou conservadora na discussão de gênero. Como se livrar das separações dicotômicas homem/mulher e, ao mesmo tempo, não abandonar a crítica à centralidade hetero? Como pensar o feminismo sem o que ela chama de "feminismo separatista", que acaba por se confundir, por oposição, aos discursos heterocentrados e falocêntricos?
A Carla Rodrigues escreveu uma ótima resenha para a CULT.
última obs. Ah como seria bom se os psicanalistas transitassem por ai!

Carnaval

O carnaval no Rio de Janeiro me dá uma certeza: qualquer melhora do espaço urbano passa por uma intensa carnavalização. 
Há quatro dias a cidade está ocupada por pessoas que transpiram uma alegria com a rua e com todos que estão em torno. A mistura é muito intensa, a circulação dos carros é bem menor, a segurança é maior, anda-se a pé enormemente, as múltiplas opções sexuais são amplamente aceitas, os desejos e criações tomam formas imponderáveis . Há uma bagunça que antes de ser transtorno é a vida da cidade sendo vivida pelas pessoas que fazem dela uma cidade. Quando o louco é apenas mais um.
Não, não se trata de um carnaval eterno, mas da evidência de que muitos dos problemas das cidades - segurança, preconceitos, circulação – são resolvidos quando as ruas são ocupadas, quando se tem tempo e festa.

7 de set de 2015

Que horas ela volta? - notas sobre a politica no filme


    A maior invenção do filme da Anna Muylaerte é o personagem da filha de Val, interpretado pela Camila Mardila.
    Lembrar dos recentes “O som ao redor”, “Casa grande” e “Doméstica”, do Mascaro, parece pertinente na medida em que esses filmes colocam no centro da narrativa os embates de classe e os sistemas de opressão das elites que passam por relações de afeto.
    Mas, a singularidade do personagem de Jéssica é comparável ao magistral personagem do “Invasor”, de Beto Brant. Esses personagens não querem o dinheiro dos ricos, mas pedaços dos modos de vida. A piscina, o quarto com cama confortável, o ar condicionado, o sorvete. O Invasor seduz a filha do rico e uma relação se dá entre eles. Jéssica também seduz – quase a revelia, é verdade. A jovem perturba a ordem da casa em diversas esferas.
    O que ela traz para a casa é um subversivo princípio de igualdade. “Não sou melhor, mas também não sou pior”. O princípio de igualdade sensível é expresso na cena da piscina e na forma como Jéssica “invade” o quarto de hóspede e pula na cama macia, rompendo a barreira que separa quem tem direito ao frescor do ar condicionado e quem não tem – sua mãe. Jéssica não espera o convite, enfia o pé na porta e usufrui de tudo que por direito não deveria ser exclusivo de uns e não de outros. Só um invasor rompe a barreira que organiza as sensibilidades em uma sociedade onde a opressão de classe pouco choca.
    A personagem de Jéssica inaugura então uma narrativa da emancipação de Val. Depois de desmontar a ordem do que é alto e baixo – as notas, a vivacidade, o preço do sorvete, a curiosidade – a personagem se revolta em perceber a mãe submissa aos esquadrinhamento da casa. Jéssica é movida pelo esforço individual, pela necessidade de sucesso pessoal, diferentemente do jovem de sua idade, Fabinho, envolto nos excessos do mundo familiar. Quando Jessica se revolta e vai embora, depois da decisão da dona de casa de isola-la no canto das domésticas, todas as rupturas que ela produziu não são suficientes para afetar a família rica que celebra o fracasso do filho com um intercâmbio na Austrália – a escolha deste país é mais uma das ótimas opções de roteiro. Mas, pior, a invasão de Jéssica e seu compartilhamento fugaz do mundo dos ricos também não é suficiente para mobilizar Val. A exuberante personagem interpretado pela Regina Casé precisa ainda do elemento melodramático para efetivar a ruptura. Ela precisa cuidar da família, fazer o papel de mãe que não pôde fazer com a própria filha.
    Enquanto Jéssica era a invasora e perturbava a distribuição dos direitos da casa grande, a política estava sendo feita. No momento em que Val deixa a casa para assumir o neto afetada pela possibilidade de reinventar a vida da filha, as coisas voltam aos eixos. Os pobres morando no lugar dos pobres, correndo contra o tempo, como pobres, e os ricos com suas vidas de viagens, motoristas e prazeres, como ricos. Os pobres fixos em seus territórios - com a esperança de um sucesso pessoal – e os ricos desterritorializados, com a vida ganha por princípio. Essa virada narrativa tende a esvaziar a força política do filme.
    A virada melodramática esvazia a invasão como gesto político e, apesar do final feliz – a família junta, o sucesso de Jéssica e a ruptura da circuito que coloca filhos separados de mães – a divisão de classe não sofre qualquer abalo. O embate é esvaziado pela forma como o melodrama se sobrepõe ao enfrentamento. Val provavelmente arrumará um novo emprego, como diarista talvez, enquanto a família de Fabinho terá o trabalho de conseguir uma nova empregada doméstica que continuará sem ar condicionado.  Assim, a luta de classe se dissolve na forma como o opressor não é afetado.
    Se não é no interior da narrativa que a transformação política se faz, sobretudo porque não podemos dizer que Val - ou a família rica - está agora tocada pelo princípio de igualdade efetivado por Jéssica, como o filme se coloca então como discurso político?
    Resposta óbvia, tendo o espectador como objeto. O que o filme pede então os espectadores? Pensado como um filme político, que forma de engajamento do espectador o filme pode esperar? Primeiramente que reconheçamos que há um mundo sensível na vida dos pobres e que esse mundo não é segundo em relação à sensibilidade dos ricos. Para construir isso o filme precisou de uma família muito rica, com uma mãe para quem as palavras de Val não existem, para contrastar com uma doméstica carinhosa, criativa e sensível, mas que não sai de seu lugar de submissão, a não ser pela virada melodramática. O filme pede ainda que o espectador não compactue com a alienação e preconceito dos ricos, uma vez que essas são as formas de fazer menor quem é igual – Jéssica. Não é pouco, é verdade, mas esses modos de engajamento do espectador são tênues diante da manutenção da tragédia da divisão de classe que o final feliz privado encobre.
      Enquanto Jéssica  invadia ela se colocava como portadora de um direito e de uma sensibilidade lá onde uma igualdade não se efetivava. No final feliz do filme a igualdade continua não se efetivando, mas o sucesso pessoal aparece como saída. Jéssica e seu filho talvez escapem, o mundo não.



   

13 de ago de 2015

A greve continua - UFF


Depois de acompanhar de longe a greve da UFF que já dura dois meses, ontem fui à assembleia que deliberou pela continuação da greve.
A assembleia acontece na semana em que o governo federal amplia em mais de 5 bilhões as verbas para o FIES. O FIES é, segundo o Ministério da Educação, “um programa destinado a financiar a graduação na educação superior de estudantes matriculados em instituições não gratuitas”.
Não gratuitas é um eufemismo para falar dos grandes grupos privados que lucram com educação.
Esta foi a terceira vez no ano que, por meio de medida provisório, o governo ampliou as verbas do FIES.
Alguns grandes grupos privados, como Estácio, Anima e Kroton tiveram, segunda matéria do Estado de São Paulo, aumento de receita em mais de 200% de 2010 até hoje, sendo o FIES grande responsável pela saúde financeira desses grupos.
O grupo Kroton – Pitágoras, Anhanguera, etc – tem quase 60% de seus alunos presenciais matriculados pelo FIES. O detalhe mais triste dessa conta é que, no mesmo período, os gastos desses grupos com professores caíram em 10% da renda líquida. Se em 2010 45% dos gastos eram com professores, hoje esse gasto está em 35%.
A assembleia que manteve a greve acontece ainda em meio à paralisação de universidades que não estão em greve. A escassez de recursos é tanta que parece ser consenso que o governo está interessado em que as universidades fiquem um bom tempo paradas para economizar com custos básicos – eletricidade, água, viagens, reformas, etc.
Diante desse quadro em que a educação pública perde verbas e as “não gratuitas” ganham, não há outra alternativa. É preciso estar em greve certo? Errado.
Na assembleia de ontem se reafirmava uma relação de causa e efeito que me parece perniciosa à luta de todos aqueles que tem interesse na educação pública.
A greve é uma forma de luta e pressão, absolutamente legítima. Entretanto, a precariedade da educação, os baixos salários, o privilégio aos grupos privados não justificam em si a greve. A greve só é justificável quando ela se apresenta como a melhor forma de luta. Nesse sentido, minha impressão é que a assembleia de ontem apenas reafirma que a paralisação das universidades hoje não é a melhor forma.
1 - Fazemos o jogo do pagador desinteressado na educação. O mesmo governo que faz gigantescos repasses para os grupos privados quer as universidades fechadas para não ter gastos por uns meses. O que fazem os professores? Fecham as universidades.
2 - A greve é tímida. Uma professora dizia: precisamos botar a boca no trombone. Sinto muito cara colega, não há trombone, nem bocas. Dos mais de 3000 professores da UFF quantos estão mobilizados? Diante da penúria, a greve colocou os campi vazios e as ações de greve em nada ameaçam a estabilidade do ministério ou as práticas do governo, como prova a nova medida provisória.
Essa é uma greve de pessoas comportadas demais para a situação, nós e os estudantes.
3 -Depois de 2 meses de greve a assembleia não fez uma reflexão crítica sobre suas estratégias; como se falar dos absurdos desse governo bastasse. Se a falta de democracia na educação fosse suficiente para a greve, passaríamos os próximos muitos anos em greve.
A dureza de uma assembleia como a de ontem é sair com a sensação de que a crise é também de criatividade e capacidade de luta para enfrentar uma situação que atinge o país e a democracia como um todo.
Para colocar a boca no trombone é preciso inventar motivos para as bocas aparecerem, é preciso inventar o trombone e tocar fora do tom.

Vivemos uma curiosa crise


Depois de ficar um ano fora do país, duas coisas me chamam a atenção na cidade.
Primeiramente uma elitização generalizada.
Em Copacabana e Botafogo, por exemplo, novas lojas abriram com dezenas de marcas de cervejas importadas, a maioria com preços entre 22 e 35 reais cada long-neck. O mesmo vale para o pão, o vinho e a hóstia.
Uma amiga que possui uma loja em um shopping me dizia que nos últimos meses o número de clientes caiu muito, mas as vendas não. Quem entra na loja está comprando os produtos mais caros.
Não tenho dados, mas tenho a forte impressão que os carros dos vizinhos cresceram junto com o Bradesco e o Itaú, que anunciaram crescimentos em torno dos 20%, mais ou menos como os carros.
O segundo dado que chama atenção é a absoluta desconexão entre o cotidiano da cidade e a imprensa. A centralidade das disputas palacianas na grande imprensa é como o monotematismo de personagens de Dostoievsky que não conseguem sair da neurose que os toma.
Não sei o que se passa na televisão. Deveria, é claro, mas, lendo os jornais, tem-se a impressão que o mundo parou, que ninguém foi ao teatro ver a peça do Rosemberg, que ninguém viu o lindo filme do Ozon, que ninguém acompanhou o ótimo seminário “A vida secreta dos objetos” ou que ninguém teve que ser humilhado no transporte público naquele dia.
O divórcio entre as disputas palacianas e a vida da cidade parece ser movida por um enorme desejo de imobilismo.
“Não se mexa, estamos discutindo se a Dilma cai ou não”
“Não se mexa, vamos pegar o Cunha e o Aécio”
Que prazer em ver no cotidiano que a cidade é muito maior.
Hoje a Folha diz: na periferia de São Paulo não houve ruídos produzidos por homens e mulheres com panelas. Claro que não. Mas não é porque são a favor de Dilma, como gostariam os governistas, mas apenas porque vão acordar cedo, porque o tempo lhes foi expropriado.
A periferia é a cidade e não uma intriga que reúne o pior do capitalismo e o infantilismo engravatado.
De São Gonçalo saiu a moça que não bateu panela e, depois de esperar longamente na fila, pegou a barca lotada para vir trabalhar no MacDonald do Rio de Janeiro. Ela só não sabia que o dono do transporte que a humilha está preso.
Tudo bem, pelo menos ela sabe que em Furnas há uma peça de graça com grandes atores: Silêncio.

O que significa a expressão “país de merda” ?


Claro que não é de hoje que este termo atribuído ao país aparece em momentos de raiva ou quando somos humilhados pelos serviços públicos ou como consumidores.
Antes de ir para a “merda”, é curioso que a expressão não seja: esse “país merda”, caracterizando um adjetivo ao país, no lugar, por exemplo, de “país maravilhoso”.
A presença da preposição “de” dá uma materialidade à merda.
Ao que parece, quando alguém diz “estou cansado desse país de merda” ou “não volto para esse país de merda”, está dizendo que o país é feito de merda, o que retira qualquer ideia metafórica da expressão e demanda do leitor, ou companheiro de conversa, que ele tente imaginar que boa parte do que constitui o país é merda.
Assim o que está em questão é aquilo faz o país ser o que o país é. Ou seja, quando se diz, “país de merda”, está se dizendo que o que sustenta e garante que o país seja um país, é merda.
Mas, o que faz um país então?
Seu território, poderíamos começar dizendo. Mesmo se em tempos de fronteiras fluidas para mercadorias, finanças e informações o território parece pouco definido, entretanto ele ainda existe, com muita força. Os haitianos, sírios e africanos que o digam!
Uma língua também. No caso brasileiro, mais de 100 línguas são faladas por grupos indígenas, essa mistura junto ao português que se desdobra em sotaques e expressões que parecem constituir uma certa noção de país. E assim vamos... A padaria da esquina, climas, artes, uma certa noção de povo que se diz pertencer a esse país, uma certa organização dos poderes e tanto mais.
Ainda no caso brasileiro, não teria dificuldade em dizer que o país existe. Me parece inegável. Nesse sentido, a expressão é possível, uma vez que o país existe e é habitado, ou seja, sua existência depende de criações e interações entre humanos e não-humanos que de alguma forma se referem ao território, à língua, à certos poderes, artes, etc.
A expressão não seria possível se fosse sobre algo que não existe ou sobre algo que não depende de nenhum processo social ou subjetivo. Esse “Carbono 12 de merda”, por exemplo. Ou ele é Carbono 12 e não é de merda, ou ele é de merda e não é carbono 12. O que não significa que merda não tenha carbono 12, é claro.
Bem, chegamos então à validade da expressão.
O país existe, merda também é algo que existe e a preposição “de” nos informa que aquilo que constitui o país – povo, língua, território, culturas, relações, padarias, etc, - é de merda.
Nesse sentido aparece uma dimensão metafórica: uma língua não pode ser feita de merda, mas ao ser uma língua merda, entende-se que a expressão “país de merda” se refere à uma conjunto de coisas merda que constituem o país.
Entretanto, um outro problema, se coloca.
Quem diz “um país de merda”? Alguém que compartilha algo desse país? Fala a mesma língua merda, habita o mesmo território merda, vai na mesma padaria merda? Ou trata-se de um ser isolado sem nenhuma relação com qualquer coisa que faça com que um país seja um país? Se esse for o caso, a expressão se torna possível, entretanto não verificável. Por exemplo, eu poderia dizer que o planeta HD 219134b é um planeta de merda, uma vez que não sei nada sobre ele, mas, se eu ler duas linhas sobre o planeta, a mínima informação já impossibilita essa afirmativa.
Ou seja, a única forma de a expressão “país de merda” ser usada é quando se compartilha algo com o país, quando se faz parte dele, quando se conhece o território ou se fala a língua.
Em outras palavras, só é possível usar a expressão “país de merda” quando há continuidade entre a merda que faz o país e a merda que me faz.
É por essas e outras que evito a expressão.

18 de jul de 2015

A democracia e o hino da Suécia


Em 2007 o Lars von Trier lançou o filme “O diretor”, nele um ator é colocado no lugar de um diretor de uma empresa. Sem ter noção do que faz ali, dizendo e fazendo absurdos, a empresa e as relações de poder continuam a existir à revelia de sua loucura. O filme fala de uma empresa autonomizada, em que os sujeitos são irrelevantes.
Como no filme de Trier, o ex-ministro das finanças grego, Yanis Varoufakis, narra o funcionamento do Eurogroup como um corpo antônimo em que os sujeitos, ideias e argumentos não fazem papel algum.
Em um momento da entrevista ele diz:
“Você coloca um argumento que realmente trabalhou e você é apenas confrontados com olhares vazios. É como se você não tivesse dito nada.... Você pode muito bem ter cantado o hino nacional sueco - você tem a mesma resposta.”
No Eurogroup descrito por ele, tanto faz ser o ator do filme de Trier ou um brilhante intelectual da economia atuando como ministro. O funcionamento do sistema se organizou de tal maneira que a entrada de outra voz ou sujeito, mesmo com as credenciais para se fazer ouvir, não existe.
O que Varoufakis narra é propriamente a desconexão entre o poder econômico que organiza a política e a democracia. A democracia é essencialmente um sistema instável em que o poder do momento é permeável ao povo, uma vez que é representante – parte – do próprio povo. Eliminar a democracia é antes de tudo transformar em ruído o que é fala - nos termos de Rancière - ou, transformar em hino da Suécia o que é argumento econômico.
O ministro das finanças alemão, o cérebro dessa máquina acéfala, é muito claro. As eleições dos países membros não podem alterar o funcionamento do sistema.
"Bem, talvez não devamos realizar eleições mais para os países endividados", diz Varoufakis. A ironia do grego é a realidade que estamos vendo na Grécia.
O que aconteceu não foi que as negociações não deram certo, o que aconteceu foi que não havia lugar para negociações, simplesmente porque entre a democracia e a ausência dela existe um abismo. São duas formas de entender o lugar dos sujeitos no poder e no mundo.
“As negociações demoraram enormemente, porque o lado deles se recusava a negociar”. “Quando eles nos perguntavam o que pretendíamos fazer com o VAT, eles rejeitavam a nossa proposta, mas não vinham com uma contra-proposta. E então, antes de chegarmos a um acordo, eles mudavam para outra questão, como a privatização. Nós apresentávamos propostas, eles rejeitavam. Então eles passavam para outro tópico, como pensões, de lá para mercados de produtos, relações de trabalho e a partir de relações de trabalho para todos os tipos de coisas. Era como um gato correndo atrás do próprio rabo.”
O que o caso grego parece estar explicitando de maneira pouco usual é que a democracia no ocidente não só é operada pelos grandes poderes econômicos, como conseguiu institucionalizar o golpe e a derrubada de governos democraticamente eleitos. Tsipras pode até ficar no poder, mas terá que abrir mão do papel que o levou a ser primeiro ministro. O hino da Suécia vai sendo entoado em coro.
Por que isso nos interessa? Primeiramente por que toda política precisa necessariamente passar por uma dimensão internacional para poder se fazer política novamente. Os piores inimigos da Grécia nas não-negociações com o Eurogrup eram Portugal e Espanha. Os países em que a situação não é tão distante da Grécia antes dos bancos fecharem. Segundo, a política de austeridade não precisa de mais exemplos de fracasso. O que ela vem fazendo em Portugal, na Grécia ou Brasil é eliminar os sujeitos, seja do debate político – como o próprio ex-ministro grego, seja pela pobreza que aparece da Europa como havia deixado de existir. Como diz Pablo Iglesias, do Podemos, “austeridade significa que nós nos tornamos uma colônia da Alemanha, austeridade significa o fim da democracia.” Talvez o que nos caiba hoje não é perguntarmos se os cortes na educação, na cultura ou nos direitos trabalhistas são necessários ou suficientes, mas se temos interesse na democracia ou se simplesmente queremos pessoas cantando o hino da Suécia.

14 de jul de 2015

Direitos trabalhistas

Em 2011, durante a crise europeia, as empresas automotivas instaladas no Brasil fizeram uma remessa de lucro de US$ 5,58 bilhões.
Sucesso total. O Brasil vendia bem carros e caminhões e segurava os empregos na Europa.
Em 2015 as montadoras vendem muito menos. Mas não é possível pensar em uma empresa dessas estará no país sem lucro efetivos.
Não há problema. O Brasil subsidia e muda as regras trabalhistas.
Se cada um dos 240 mil empregos que, segundo o governo, serão poupados com o subsídio estatal recebesse 5 mil reais por mês, apenas a remessa de 2011 seria suficiente para cobrir com folga 12 meses de salário para todos os 240 mil empregados.
Mas, é claro que a regra que vale para a Grécia vale também para o Brasil.


Imagem: Vênus grega atualmente no British Museum

burocracia e simulacro

A burocracia quando é boa mesmo se transforma em uma espécie de simulacro, perdendo qualquer relação com o real. No seu limite, a burocracia é um processo autônomo em que circulam carimbos, selos, dinheiro, humilhações e poderes que se auto-justificam.
O caso.
A educação brasileira, como não é pautada por idade, exige que uma escola, para matricular uma criança tenha as informações da escola anterior.
Assim, depois de passar um ano na Inglaterra, meus filhos precisam de um histórico da escola daqui que será apresentado na escola brasileira.
Este histórico deve ser legalizado pelo consulado brasileiro.
Para legalizar, o consulado exige que o documento seja oficializado pelo FCO (Foreign & Commonwealth Office), um órgão do Estado inglês.
Para legalizar esse documento o FCO exige que o documento seja reconhecido por um Notary Public, uma espécie de cartório.
O Notório o que faz? Com meu comprovante de residência e meu passaporte em mãos escreve em um papel que eu dei a minha palavra de que aquele documento emitido pela escola é verdadeiro.
Bem, o documento da escola não foi, em nenhum momento olhado nem pelo Notory, que apenas assinou dizendo que eu existo e que alego estar dizendo a verdade, nem pelo FCO, que reconheceu a assinatura e o selo do Notório, nem pelo consulado, que apenas reconheceu o selo e a assinatura do FCO.
Fechado o círculo, 100 libras e dezenas de horas mais tarde, o documento está reconhecido por três órgãos sem que ninguém tenha olhado para ele.
Se o Baudrillard tivesse olhado para a burocracia talvez fosse mais generoso com as imagens.

27 de jun de 2015

“CEZAR, notícia boa é ter vantagem sempre.”




Esse é o título do mail – spam – que o jornal O Globo envia oferecendo assinaturas.
Não só a mensagem reproduz a violência individualista em que todos tem sempre que “ter vantagem”, quanto tristemente desconhecem a história da publicidade e o desastre da campanha do cigarro Vila Rica com o Gerson, nos anos 70.
Mas há uma hipótese pior. O capitalismo mudou e nessa vertente cínica não há necessidade de disfarçar o que queremos mesmo: “ter vantagem sempre”. Se nos anos 70 assumir que temos que levar vantagem ainda causava algum incômodo, pode ser que a lógica tenha simplesmente se naturalizado.
No caso, preferi ficar sem a assinatura, certo?

24 de jun de 2015

I-Phone e trabalho


O filósofo francês Gilbert Simondon é um dos mais importantes pensadores da técnica do século XX.
Em uma entrevista de 1965 ele fala dos objetos técnicos e explica que existem dois tipos de objetos, os abertos e os fechados.
Objetos não são máquinas, eles tem uma certa relação com os corpos, podem ser achados, perdidos, abandonados, “eles tem uma certa autonomia, um destino individual”, diz ele.
Os objetos fechados, uma vez que eles saem das fábricas eles começam um processo de degradação porque eles não podem ter contato com a “realidade contemporânea”, a “realidade que o produziu”.
Já os objetos abertos possuem duas formas de relação com o mundo contemporâneo. 1) O gesto do utilizador o altera; ele deve ser um “conhecedor de suas estruturas internas”. 2) As pessoas que o consertam podem sempre mantê-lo novo; trocando peças, acrescentando elementos que podem melhorá-lo.
Bem antes dos i-phones Simondon já dizia que a perfeição de um objeto técnico está ligada à sua maleabilidade.
O que um i-phone traz de novidade, entretanto, é possuir as duas naturezas: ser aberto e fechado. Ser aberto – até certo ponto – em seu software e nos modos de uso dos usuários – e fechado em seu hardware, uma vez que as peças não podem ser trocadas, melhoradas.
Os objetos abertos, diz Simondon, não tem data, não envelhecem. Algo que certamente está distante da lógica da obsolescência programada da indústria de tecnologia.
Mas, a beleza da formulação de Simondon ganha uma dimensão política ainda mais aguda.
O que os objetos abertos – esses transformáveis e que não envelhecem - podem ensinar às crianças?, pergunta o entrevistador.
Simondon: Antes de tudo “o respeito pelo trabalho do outro”.
Genial.
O desrespeito pelo trabalhador é duplo, nas indústrias de tecnologia não apenas as condições de trabalho são frequentemente sofríveis, como a lógica descartável dos produtos os desrespeita mais uma vez quando trocamos de telefone ou computador. A descartabilidade dos objetos técnicos é o apagamento do trabalho do outro, no limite, do outro.

Como viver juntos?


Essa pergunta que acompanha qualquer reflexão sobre a democracia, os espaços urbanos e a vida em comunidade, não para de nos colocar novos desafios.
Dizer como viver junto não é algo que se possa fazer fora dos embates do presente e dos contextos locais e globais.
Os 200 mil que manifestaram ontem em Londres contra a austeridade, a tensão em torno da saída – ou não - da Grécia da União Europeia, o crescente número de refugiados sírios da Turquia, Líbano - e Grécia -, as tensões no Brasil com reduções de direitos trabalhistas, redução da maioridade penal e precarização do setor público, todos esses acontecimentos são perpassados por essa questão. Como viver juntos?
As opções que temos não são separadas de tensões e dissensos. Viver junto, não é harmônico e ou livre de diferenças radicais.
Saber do dissenso no viver junto não significa dizer que inimigos não existem. Os exemplos acima nos provam que eles estão ai. Entretanto, vivemos tempos em que mesmo aqueles preocupados em como viver juntos, preocupados com o ataque aos menores que o congresso planeja, mesmo estes fazem da militância uma forma de enfatizar as divisões, marcar os inimigos, destruir os que apresentam pequenas diferenças e discordâncias.
A fragmentação e as polarizações dos mais ligados ao campo da esquerda é impressionante. Nas universidade, quem não é a favor da greve é considerado inimigo – e vice-versa. Em alguns movimentos militantes, as pequenas discordâncias são suficientes para discursos polarizados e violentos. O apoio ou a crítica ao governo federal não é recebido pelo outro sem pedradas e construção de fronteiras. Lula faz discurso comemorando a demissão de jornalistas. Haddad chama os opositores de coxinha.
Se há uma tristeza em ver o poder conservador com tanta força, não excluiria nosso cotidiano de militância e a forma como temos aceitado a polarização. Uma polarização que pouco parece contribuir para inventarmos formas de viver juntos.
Criar pequenos inimigos é hoje é uma grande contribuição para continuarmos destruindo as possibilidades de vivermos juntos.

Militância e identidade

A história da militante negra americana Rachel Dolezal que foi acusada de ser branca pelos pais e acabou por perder seu posto como associação em que trabalhava, é das mais interessantes.
Difícil refletir sobre todos os aspectos envolvidos no caso, mas um dos elementos que me chama atenção é essa exigência de uma relação identitária para que ela seja uma militante da causa.
Uma das lutas da democracia é de que para que um sujeito possa atuar em sua comunidade - com o voto, com a palavra, com uma ação - dele não seria exigida nenhuma distinção em relação aos outros. Ou seja, a democracia estaria abalada quando a legitimidade para a ação dependesse de elementos que antecedem a ação. Ser o mais rico ou o mais popular, por exemplo.
Enfatizar a democracia, colocaria a definição de uma militante do movimento negro nas práticas e engajamentos que esta mulher tem e teve ao longo da vida e não em algo que a antecede como sujeito – o fato de ter nascido branca ou não.

Quando o militante diz: “Eu posso falar sobre isso porque sofri na pele e você não”, de certa maneira ele está reproduzindo a mesma lógica da dominação. Aquela que diz que apenas alguns tem legitimidade para dizer, sentir, agir.
Certamente que essa percepção não é simples, sobretudo quando estão envolvidos grupos que tradicionalmente são excluídos dos debates públicos ou que sofrem violências frequentes em uma sociedade dominada por homens, brancos e ricos.
A radicalização dos princípios democráticos, no caso dessa militante, seria a possibilidade de ela se afirmar negra e branca, simultaneamente. Como se a militância pudesse permitir uma certa suspensão de identidades excessivamente demarcadas, uma militância imediatamente política.

16.6.15

Greve UFF


Mesmo distante, tenho tentando insistentemente entender porque a greve na UFF é a melhor forma de luta hoje contra os cortes na educação e contra a precarização das condições de trabalho.
Infelizmente tem sido difícil obter respostas satisfatórias.
De um modo geral a resposta é: as coisas não vão bem, então precisamos fazer alguma coisa.
Concordo. Mas porque a greve?
2012, nossa última greve, foi um exemplo de tristeza. Campus vazios, retomada das aulas com pouquíssimos alunos, pós-graduação trabalhando durante a greve, ganhos mínimos, consequências enormes.

O debate é ainda empobrecido quando aqueles que são contra a greve são acusados de não entender os ganhos que as greves trazem. Ora, ser contra uma greve não significa ser contra greves, nem desconhecer a importância histórica das greves.
Associar os professores críticos à uma determina greve à pessoas que desconhecem a importância das greves, é um argumento fraco e arrogante.
A pior é ainda acusar os críticos de serem pessoas desinteressadas pela universidade pública. Bem, é necessário um enorme desconhecimento da universidade e do que acontece lá dentro para fazer essa associação entre os críticos à greve e um eventual desengajamento. Com frequência, ser crítico à greve é entender que nesse momento o melhor que podemos fazer para a universidade pública e para os nossos alunos é inventar outras formas de luta, mais criativas, mais mobilizadoras e que não esvaziem a universidade, que não parem as aulas.
Ah, mas os estudantes também optaram pela greve! Bem, não me parece em nada desrespeitoso não concordar com eles.
Antes dos campi vazios, por que não ousar parar um dia por semana, por exemplo?
Por que não começar pela desobediência às agências de fomento?
Por que não ministrar aulas públicas em espaços não universitários?
Etc, etc.
Continuarei tentando entender porque a greve é necessária, mas, confesso que as respostas que tenho tido apenas me convencem do contrário.

6.6.15

Redução da maioridade penal 4

O presidente da Câmara, o deputado Eduardo Cunha, defendeu a redução da maioridade penal com o seguinte argumento:
“Se alguém pode eleger o presidente da República, ele está fazendo o ato mais responsável que pode fazer. Não discuto se é a idade correta ou não, discuto isonomia em relação a direitos e obrigações”
Esse mesmo deputado recebeu da Ambev, 1,25 milhão de reais para sua campanha.
A Ambev domina de forma ostensiva o mercado de cerveja no Brasil. A forma da Ambev aumentar suas vendas hoje é aumentando o público que pode consumir cerveja legalmente.
Dentro do argumento do Deputado, não faria sentido um jovem poder votar e ser preso com 16 anos e não poder beber.
A Ambev gastou em publicidade R$ 1,69 bilhão de reais em 2015. A aumento do “público alvo” pode ser muito interessante para os grandes meios de comunicação.
Aos pouco vamos entendendo porque pode haver tanto interesse na redução da maioridade penal, uma vez que comprovadamente ela não torna a sociedade mais segura.

Redução da maioridade penal 3

Importante esse debate sobre a redução da maioridade penal.
Acabamos por descobrir que a reincidência no crime de jovens que passam por unidades socioeducativos - destinada à menores - gira em torno dos 30%. Enquanto nas prisões, esse número chega à assustadores 70%.
Ou seja, uma pessoa de 16 anos que comete um crime hoje e é julgado como menor, tem fortíssima possibilidade de não voltar a cometer outro crime. Entretanto, com a redução da maioridade penal, se ele pegar 10 anos, por exemplo, a possibilidade de ele voltar a cometer crimes é enorme.
Em resumo, deveríamos aumentar a maioridade penal para termos uma sociedade mais segura e mais justa, se for esse nosso desejo, claro.

22.5.15

Território, cinismo e ressaca


Em uma das histórias que fazem parte de um livro que lancei o ano passado, a menina ficava impressionada com a mãe que “pegava muito engarrafamento”, mas nunca era, ela própria, o engarrafamento.
A breve observação da menina parece apontar para uma operação importante dos processos subjetivos contemporâneos. Trata-se de uma a-territolialização cínica.
Se sempre foi necessário encontrar formas para continuar vivendo, cuidando dos filhos, se apaixonando, etc, apesar das misérias que nos cercam, esse aprendizado forçado parece ter sido levado a limites que desconhecíamos.
Da mesma forma que o mercado se tornou global, o consumo e nossas vidas parecem ter perdido o território. Radicalizamos um separação entre o mundo que nos afeta e o mundo que produzimos.
Essa separação demanda dois gestos que remetem ao cinismo.
O primeiro é que não há nada mais a esconder sobre os mundos que escolhemos. O presidente da Nestlé pode dizer que toda água deve ser privatizada. O presidente de uma cadeia de TV (TF1) pode dizer que faz uma programação para tornar os cérebros disponíveis para a publicidade. Um banco que acaba de ter vários crimes revelados, como o HSBC, pode chantagear um governo, etc. No nosso pequeno mundo, consumimos Neslté porque é mais simples, compramos as roupas mais baratas possíveis, apesar de sabermos que em Bangladesh as pessoas morrem sem garantias trabalhistas produzindo para Zara e Primark. Nós mesmos não temos nada a esconder, pelo contrário. Quando mando uma foto do meu celular está escrito “sent from my iphone” ou facilmente nos encontramos em rodas que falam de carros 4x4 para espaços urbanos.
Esse primeiro gesto da a-territolialização cínica nega o território – não há gente, na há terra, não há planeta – através de uma antecipação de qualquer crítica. “Eu mesmo sei o que faço e faço porque é o sistema”, digo junto com o presidente da Neslté.
O segundo gesto opera na filtragem, na separação entre o efeito do consumo para mim e para o mundo. Isso me permite ficar indignado com o trânsito mesmo estando parado sozinho dentro de um carro. Isso me permite separar o sabor e facilidade do Nespresso da poluição e das políticas dessas empresa. Fazemos assim uma montagem cínica entre as formas de usufruirmos das coisas do mundo, essas nós aceitamos, e o modo que essas formas prescindem de um território, de outras pessoas e do planeta para existir.
Separamos assim as múltiplas esferas de cada evento, de cada consumo criando um abismo entre a esfera privada e a subtração absoluta de qualquer território.
Enquanto espero os três “likes”, dissociando essa rede social da sua contribuição para a vigilância e opressão, vou tomar um “café sem cafeína”, como diria o Zizec, ou, melhor ainda, uma vodka que não dá ressaca.