10 de set de 2016

O que é uma ocupação?

O que é uma ocupação?
Por Cezar Migliorin

Carta lida no dia 7 de setembro de 2016 aos estudantes da UFF que ocuparam o novo Instituto de Artes e Comunicação.

            Só posso começar agradecendo o convite para estar aqui nesse prédio e poder dar uma aula no espaço que nos é prometido desde 2008, ano em que entrei na UFF. Estar aqui hoje, com a ocupação de vocês, dá sentido ao esforço de muitos em fazer esse prédio, da sentido às verbas destinadas para a expansão da universidade. Ao mesmo tempo, quando vejo esse prédio sem janelas ou portas com aparelhos de ar condicionado nas paredes, me dou conta como o absurdo está na nossa porta.
            Nesse momento pavoroso do país, a invenção de um espaço político é das ações mais importantes que podem ser feitas. Chegar aqui, ler o que vocês escrevem, é perceber que há uma imaginação política inconteste. Uma energia e uma estética que expressam a inquietação macropolítica – e ai estão os embates com a instituição, com o estado, com o golpe – e expressam também as dissidências com os modos de vida majoritários.
            Nos dias que antecederam minha vinda para cá, me lembrava das ocupações que conheci, lia sobre vocês, pensava na universidade e me perguntava. O que é uma ocupação? É claro que não darei uma resposta, mas o texto que segue é um esforço nesse sentido.
            Subitamente, pessoas que não têm – ou não desejam - a necessária legalidade institucional ou econômica para estar em um lugar, se organizam e dizem: este lugar nos pertence. Não no sentido que gostaria capital -  com seus títulos de propriedade – mas apontando para o fato de que os títulos que garantem o pertencimento deste espaço à este ou àquele, na verdade, nada mais fazem que usurpar um teatro, uma universidade, um prédio, do bem comum.
            A ocupação é assim, antes de tudo um duplo questionamento: 1) questionamento das formas de legitimar a circulação e as divisões dos espaços em uma sociedade, 2) questionamento dos títulos de pertencimento e, no limite, da própria noção de propriedade.
            Em um movimento de ocupação o que parece estar em questão nunca é exclusivamente o espaço ocupado. Não se trata de tornar-se proprietário do espaço ocupado, mas de permitir uma circulação e um uso que os espaços proprietários não permitem. No limite, trata-se de fazer do espaço um agente na imaginação política. Espaço em que se imagina e se age fora de uma ordem que não para de definir os possíveis para os indivíduos, cada vez mais separados de destinos coletivos.
            A ocupação tem o espaço ocupado como um epicentro necessariamente conectado com o lado de fora. Uma ocupação é uma invenção de traços de conexão com pessoas, instituições, poderes. Uma ocupação é o epicentro conectivo. Como força disjuntiva, o espaço ocupado possui muros que estão ali para abrigar e não separar.
            Quando um espaço é desocupado por pedido, violência ou cansaço, dois outros podem ser ocupados mantendo a ocupação como uma perturbação do esquadrinhamento espacial feito pelos poderes. Ocupar e fazer como as abelhas que distribuem os pólens entre as flores quase sem querer. A insubordinação da ocupação não pode se tornar uma subordinação ao território. Quem ocupa vive a ocupação para além dos muros ou territórios. Ocupar é muito maior que o espaço ocupado.
            Não são paredes, tetos e portas que definem os espaços, mas as possibilidades subjetivas que ele enseja.
            Mas não abandonemos os territórios. Eles são porosos ao que está fora, se fazem na comunicação e vitalização de corpos e cérebros em contato. Território-corpo que se inventa em espaços fugidios.
            No interior da ocupação – interior atravessado por tudo o que não é aquele espaço – uma ordem está em constante transformação. O espaço demanda uma organização, mas não é uma associação direta entre indivíduos e ações. A limpeza, a comida, a comunicação não é feita por indivíduos especializados – ou terceirizados como vemos nas universidades e escritórios – mas por sujeitos que não param de ser uma coisa em dia, outra em outro.  Uma ocupação aponta para sujeitos que escorregam entre identidades, desorganizam a ordem do especialista ou a verticalidade dos que mandam e dos mandados. Uma invenção política passa pela intensidade que se esparrama com os novos arranjos colaborativos.
            O espaço ocupado desorganiza a associação entre corpos e afazeres e cria laços de cooperação em que festa, trabalho e amor não param de se entrelaçar e produzir novas associações produtivas e políticas.
            Quem ocupa não é ocupante, ou se é, ser ocupante significa não ter identidade, mas pertencer a um coletivo que antes de dizer o que é, se coloca sob o risco da invenção/Ocupação.
            Toda ocupação inventam um espaço ao mesmo tempo em que inventa formas de vida. Uma forma de vida que não pede autorização para agir, e mais que isso, diz que a ação é possível. Um agir que configura novas formas de interação entre sujeitos, instituições, imaginação e colaboração.
            A ocupação perturba: ela não tem uma finalidade limitada. Não se resolve uma ocupação na negociação. Ela é o ponto fora do acordo. O ponto fora do consenso. Por ser epicentro conectivo e ponto fora do acordo, uma ocupação não é jamais uma luta por território. Antes de se lutar por um espaço específico, se luta pela forma de ver, viver e dizer sobre o território. Se a luta fosse pelo território, tal como se apresenta, uma ocupação se confundiria com a prática proprietária e abriria mão do gesto intrínseco à resistência: a criação.
            Não seu ocupa para manter o mesmo, o já existente, o que o espaço é e os sujeitos são, mas para fazer da ocupação um processo de criação. Processo em que a invenção acontece quando sujeitos e espaços estão colocados juntos, no desafio de viver e desfazer as coordenadas e funcionalidades do espaço quando ele preexistia  à ocupação. Sem criação não há ocupação, sem desapego ao território a  ocupação é engolida pela lógica proprietária.
            Tudo o que os poderes desejam é que a ocupação diga: qual sua reivindicação? Claro, esta é a forma ideal de controlar o desejo e a circulação de modos de vida e potências que se criam com a própria ocupação. A ação política da ocupação é de outra natureza -  para ela ainda não há lei, ordem, poderes que a representem. Levar a ocupação para a ordem da representação é retirar dela seu acontecimento, é colocar a ocupação como apenas mais um ator nas lógicas de poder em curso. É preciso se alimentar sem perder a loucura.
            Ocupar é desregrar o visível e o experimentável em um espaço dado. Ocupar é estabelecer com o nosso tempo uma relação menos constrangedora do que aquilo ao qual fomos preparados. Não se ocupa com promessas de futuro, mas porque o presente é ele mesmo intolerável.
            Quando tudo parece dominado, quando a ação parece impossível, é chegada a hora de ocupar, uma vez que a ocupação é uma ação sem fim definido. Ocupa-se para respirar, ocupa-se quando a ação está a beira do desmoronamento, quando o individualismo que organiza o mundo perde o sentido e a ocupação vem retraçar possibilidades coletivas com “eus” cindidos, rachados. Ocupantes não tem nome ou papéis. São antes corpos coletivos, variáveis e intercambiáveis. A cada dia um líder, a cada liderança um novo gesto.
            Ao mesmo tempo em que a ocupação institui um fora das ordens vigentes e dos consensos reguladores, ela institui um dentro, uma força comum e coletiva. Todo o risco de uma ocupação está na possibilidade de ela acreditar nesse dentro da ocupação como dicotomia com o fora. Isso é o que desejam os grandes operadores do poder: a dicotomia dentro/fora, lei ou desordem. A ocupação precisa estar além dessa dicotomia, fazer da fronteira entre dentro e fora a sua casa. Fazer escorregar a lei na justiça.
            Ocupar é imitar os que ocupam e transbordar nossa ocupação ao que é ocupável. É apostar na dispersão de uma ação sem posse e multiplicação do que é comum.  Ocupa-se por contagio e para contagiar.
            Ocupa-se porque os valores em curso estandartizam as potências individuais e de grupo. Ocupar é desfazer a ordem dos valores. Um desfazer que antes de dizer quais são os novos valores, introduz uma incomensurabilidade no que se produz – ajudas aparecem de todos os lados, forças descentralizadas maiores que qualquer ordem. Toda ocupação é um sem medida do que podem sujeitos e espaços no cotidiano de suas invenções. É com o sem medida que se concretiza a transformação do presente.

            Vida longa a todos que ousam.

29 de jul de 2016

Olimpíada-selfie

29 julho 2016

Olimpíada-selfie
Nessa semana uma imagem ordinária e impressionante circulou amplamente.
Durante a corrida da tocha olímpica uma moto atropela uma bicicleta. Quase imediatamente, um homem que acompanhava o desfile pega o seu celular e, enquanto os acidentados ainda caiam, ele se fotograva com o acidente ao fundo. Uma selfie quente. Feita no instante do acontecimento.
Cada época possui seus gestos emblemáticos. São os movimentos repetitivos da era industrial, eternizados em sua dimensão crítica com Chaplin; os punhos cerrados dos Panteras negras, marcando as lutas dos anos 60*, etc.
Essa selfie, feita no calor da hora, parece ser dos gestos mais emblemáticos do mundo contemporâneo.
O homem se registra como parte de um evento. Faz uma imagem que comprova sua presença durante algo extraordinário. O gesto é feito com extrema velocidade, como uma reação motora. Assim como afastamos rapidamente a mão de algo quente, sem termos que pensar, o homem saca a câmera e faz a foto sem pensar.
Produzir uma imagem tornou-se uma reação sensório-motora.
Diante do acidente, a reação instintiva não é socorrer, mas se registrar. Faz-se assim uma dupla relação com o acontecido. Por um lado o homem deseja o evento – registrado na selfie – por outro se distancia dele, não participa. No limite está completamente apartado do que acontece.
Um gesto tão emblemático não está separado do mundo que o torna possível.
No Rio de Janeiro hoje podemos dizer que temos uma olimpíada-selfie. O grande evento acontece e serve de cenário para todos, desde que estejamos apartados do evento. A lógica da separação entre a minha foto e a cidade é levada ao extremo. Uma lógica de separação entre as vidas e o que acontece no entorno. Somos constantemente avisados pelas barreiras e pela polícia: pode fotografar, mostrar como cenário, mas não se envolva.
Faça como o rapaz do vídeo: faça sua selfie, mas deixe os desastres em paz.
* Tommie Smith e John Carlos, fizeram a saudação durante a cerimônia de premiação nos jogos de 68 e foram banidos dos Jogos.

SOCINE - em defesa da Cinema Brasileira

28 julho 2016

SOCINE - em defesa da Cinema Brasileira
Prezado Secretário do Audiovisual - interino, Sr. Alfredo Bertini
Prezado Ministro da Cultura - interino, Sr. Marcelo Caleiro
Prezado Presidente da República - interino, Sr. Michel Temer
Foi com estarrecimento que a Socine – Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual - recebeu a notícia da demissão de vários funcionários da Cinemateca Brasileira, incluindo sua Coordenadora-geral, Olga Futemma.
A medida intempestiva, sem explicações ou aviso prévio, coloca em risco o trabalho de uma das maiores instituições de preservação audiovisual do mundo e que angariou o respeito de instituições congêneres de vários países e em especial da FIAF — International Federation of Film Archives.
O delicado acervo da Cinemateca requer manutenção contínua e altamente especializada. Funcionários com a mesma especialização e experiência não serão encontrados em curto prazo. Nesse sentido, temos a impressão de que nem a atual Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, nem o próprio ministro têm clareza sobre os danos que essa medida trará para um dos mais importantes patrimônios culturais do Brasil. Por isso, nós, pesquisadores de cinema, nos vemos no fundamental papel de alertar os senhores sobre os riscos que este acervo corre neste momento.
A Socine solicita ao Ministério da Cultura que reverta esse quadro gravíssimo.
Rio de Janeiro, 28 de Julho de 2016.

terrorismo no Brasil

22 julho 2016

Não há ingenuidade, mico ou tosqueira no caso dos presos por “terrorismo” no Brasil.
Neste momento em que é preciso evitar qualquer manifestação ou qualquer dissenso em relação ao rumos do país e do capital, quanto mais sem sentido forem as prisões, mais eficientes elas serão. 
Quanto mais ilegítimas forem as acusações, mais didáticas elas serão.
Quando usar mochila, barba ou aprender árabe configura o inimigo do Estado, nos tornamos todos potenciais inimigos, potenciais presos.
O Estado age assim como terrorista, ou seja, não escolhe mais as vítimas, transforma todos e qualquer um em alvo. Para ser vitimado pelo estado policial, basta estar vivo. É essa a norma que se reforça com a lei antiterrorismo e com as ações nas vésperas dos Jogos Olímpicos.
O medo como forma de gerenciar a cidade, de controlar a linguagem, a circulação os processos subjetivos e claro, destruir a política.
Não nos basta apenas dizer, serei destemido, mas nos perguntarmos como, coletivamente, a justiça e a democracia são o norte e não o temor pessoal, o meu pequeno mundo privado, meu pequeno salário, meu pequeno conforto – tudo protegido pelo legalismo.

jogos Olímpicos

21 julho 2016

A Zona Sul do Rio de Janeiro, como todos sabem, é um espaço hiper-protegido. Entre o Leblon e o centro se anda a pé mesmo de madrugada. Não é super seguro, mas há movimentos nas ruas, alguns lugares abertos, etc.
As Olimpíadas chegaram com as suas logos coloridas, suas publicidades de megacorporações internacionais e muitos estrangeiros. 
Os Jogos, vendidos como uma festa que reúne países e pessoas de todas as partes do mundo, entretanto, ocupa a cidade de maneira bastante específica.
Quem hoje vê o Rio imagina a cidade mais violenta do mundo. Há militares com armas pesadas por toda parte. Na frente do Maracanã, alguns levavam bazucas. Deve haver um motivo para isso, mas é difícil imaginar uma bazuca sendo usada na Tijuca.
As cores e consagração entre povos é ofuscada pelo verde oliva.
A presença das pessoas nas ruas é ofuscada por constantes avisos de autoridades: “Provavelmente as forças de segurança vão demandar da gente mais bloqueios, mais transtornos.” (prefeito).
Por todo lado há uma forte mistura entre shopping centers, como o instalado nas areias da praia de Copacabana e uma ordem policial que desconsidera o próprio funcionamento da cidade.
Os jogos transformam assim o Rio de Janeiro em uma cidade-aeroporto, lugar de passagem onde as singularidades do local são eliminadas, ao mesmo tempo em que os aparatos extremados de segurança e o consumo internacional convivem lado a lado, na harmonia mais reveladora das formas de organização do mundo.
Extremo consumo e polícia. Que venham os maratonistas.

Escola sem partido 2

20 julho 2016

O projeto Escola sem Partido, alguns pontos.
1 – O projeto é partidário, trata-se de um projeto incialmente encomendado pela família Bolsonaro, conforme nos lembra o professor Fernando de Araujo Penna.
No Rio de Janeiro, 0 vereador Carlos Bolsonaro apresentou projeto de lei nº 867/2014 ementa: "cria, no âmbito do sistema de ensino do município, o “programa escola sem partido”.
2 – O projeto confunde partido e política.
A sala de aula não pode ser um palanque partidário, mas a política é necessária. Nesse sentido, o Escola sem Partido naturaliza a realidade como ela se apresenta; como se não fosse, ela mesma, ideológica, como se nada mais tivéssemos para fazer no mundo. O projeto naturaliza assim a injustiça e a severa desigualdade do país. O projeto avisa que os professores não devem estimular os estudantes a participar da democracia.
Exemplo: o professor “não fará propaganda político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas”
4 – O projeto trata professores como manipuladores e antiéticos. O projeto tem por princípio um insulto aos professores.
Exemplo: o professor “não favorecerá nem prejudicará ou constrangerá os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, morais ou religiosas, ou da falta delas”
5 – O projeto trata estudantes com mossa modelável. Elimina a possibilidade do senso crítico, no limite, elimina os estudantes como sujeitos. Trata a política como mera competição e não como reflexão sobre o mundo que queremos.
Exemplo – Justificativa do projeto: “ A prática da doutrinação política e ideológica nas escolas configura, ademais, uma clara violação ao próprio regime democrático, na medida em que ela instrumentaliza o sistema público de ensino com o objetivo de desequilibrar o jogo político em favor de determinados competidores”
6 - O projeto nega a educação como parte de uma rede curiosidades e possibilidades do estudante. Nega a escola como abertura de mundo. O projeto privatizando a educação, desejando a eliminação da escola como produção de conhecimento e espaço de pensamento.
Exemplo: o professor “respeitará o direito dos pais dos alunos a que seus filhos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com as suas próprias convicções;”
7 – O projeto elimina o debate e a circulação do pensamento. Trata as opções e orientações sexuais como identidade biológica.
Exemplo O Poder Público não se imiscuirá na opção sexual dos alunos nem permitirá qualquer prática capaz de comprometer, precipitar ou direcionar o natural amadurecimento e desenvolvimento de sua personalidade, em harmonia com a respectiva identidade biológica de sexo, sendo vedada, especialmente, a aplicação dos postulados da teoria ou ideologia de gênero.

Escola sem partido

Tão ou mais grave que as palavras de ordem do Escola sem Partido é o lugar que o projeto coloca professores e alunos.
Os primeiros são tratados como manipuladores, irresponsáveis e por princípio desconhecedores de seus próprios papéis como professores.
Veja uma das frases que o projeto pretende colocar em salas de aula:
“O Professor não favorecerá nem prejudicará os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, morais ou religiosas, ou da falta delas.”
Ora, isso é ser professor. Colocar essa regra para um professor é com escrever em todas as marcenarias que o marceneiro trabalhará com madeira ou nos hospitais que os médicos terão que lidar com corpos humanos.
Além de insultar os professores, o projeto parte do princípio que os estudantes são imbecis e manipuláveis, sem nenhuma independência em relação ao que um professor diz.
Pensar e se constituir como pessoa é uma montagem. A escola é mais um pedaço do mundo em que o estudante transita. Mas, para esse pessoal, tudo retorna ao privado.
Há um ódio do mundo, por isso eles dizem: “O Professor respeitará o direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções.” Claro que respeitará, mas não se absterá em apresentar um mundo maior que a família.
O nome é enganoso. Não se trata de Escola sem Partido, mas de escola sem alteridade e, no limite, sem sujeitos.

Minha geração vive um profundo choque político

18 junho 2016

Minha geração vive um profundo choque político, mas também subjetivo.
Saímos da ditadura, vimos erros e acertos de governos civis, fomos críticos a certos caminhos do petismo, mas, de alguma maneira, entre tensões, avanços e retrocessos, havia a impressão que o pensamento importava. Havia a impressão que a relação entre sociedade e política havia alcançado patamares mínimos de respeito.
Hoje, o choque. 
O caso da Escola sem Partido nos coloca de volta aos debates do século XIX. Nos faz lembrar que pela escola democrática e inventiva, crítica à funcionalização do saber, crítica à instrumentalização pelos poderes da igreja e do capital, homens e mulheres literalmente morreram.
O choque hoje nos atravessa. Tínhamos a impressão que certas batalhas havia sido definitivamente ganhas pela gerações anteriores e que hoje, em novo patamar, nossa disputa era outra.
Hoje a luta parecia ser pela qualidade, pela igualdade e por mais liberdade. Até muito pouco tempo seria inimaginável que teríamos que nos mobilizar para que uma lei não venha a organizar o que pode e o que não pode ser dito ou pensado na escola. Mas é isso que acontece.
A escola – especializada no Brasil em manter as nossas diferenças de classe – agora deve ser calada totalmente. Deve ser reprodutora de uma sociedade em que o capital é aquilo que se diz existir como natureza e não como ideologia. Com esse projeto, que prega que seja “vedada, especialmente, a aplicação dos postulados da teoria ou ideologia de gênero” não se deseja agora apenas a manutenção das estruturas de classe, mas a destruição da escola e a criação de uma legislação que proíba o país de ser outro ou de se pensar.
Para os idealistas desse projeto. O país já está como deve ser e não cabe a ninguém que passe por uma escola pensar o contrário.
Trata-se de tornar lei o moralismo e a indiferença ao outro.
Trata-se de tornar lei a irrelevância do pensamento coletivo.
Fora do indivíduo, não há interesse: como diz o projeto: o professor “não fará propaganda político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas;”
Quando defendermos o estado de direito, precisamos pensar duas vezes. Como é evidente, estamos cada vez mais cercados de leis que existem para manter a injustiça.
A luta é dupla. Leis como essa não podem passar. Leis como essa não podem ser respeitadas.
Nesse momento, quando depois de muito esforço parecíamos estar construindo algo, alguém ri de nossa cara e diz: começa novamente.
Recomeçar sem nenhuma batalha ganha é o que o momento nos exige. Uma reinvenção subjetiva, inseparável da urgência do momento.

Big jato, de Claudio Assis

10 junho 2016

Big Jato (para quem já viu o filme)
Big Jato é a história de um garoto de que se arma com as forças do mundo – um amor, um perfume, as perguntas incessantes, as conexões com as resistências trágicas – para derrubar o pai com um sopro.
Biga Jato é cheio de ideias e esse é o prazer do filme. Sua beleza.
As perguntas de um adolescente que se transformam em poesia.
Um plano que depois de longos minutos com atores soberbos atravessa uma janela.
Um Feneme que vira fogo em uma paisagem exuberante.
Um poeta – o doidinho da cidade que, errante, abre o mundo pré-moderno para forças sem tempo.
Uma mesa de café da manhã que abandona o realismo e materializa a possibilidade de algo acontecer.
Uma grua que parece sempre querer ir para outro lugar.
Big Jato está entre o ruído típico de Claudio Assis e o silencio de quem inteligentemente não opta por centralizar excessivamente a narrativa em um personagem ou no melodrama.
A dor do desacordo com esse mundo – como em Febre do rato. A resistência e a poesia como necessidade, mesmo que isso seja patético.

Inventar com a Diferença

9 julho 2016

Inventar 2
No ano de 2014 realizamos um projeto de cinema, educação e direitos humanos em mais de 200 escolas do Brasil.
Em cada estado tínhamos um mediador do projeto. Pessoas altamente engajadas com questões éticas e estéticas.
Esse projeto, o Inventar com a Diferença, foi para nós um divisor de águas em nossa relação com a educação. Tivemos grandes sucessos e muitos fracassos.
Nesse segundo ano radicalizamos um princípio fundamental para nosso processo. Há inteligência em toda parte.
Nesse sentido, radicalizamos a independência e autonomia dos locais onde o projeto chega. No lugar de propormos um trabalho com a metodologia que criamos, estamos propondo diálogos com o que fizemos no primeiro ano. Assim, há uma grande abertura para as propostas no Inventar 2.
Se um grupo quiser fazer exatamente como em 2014, não há problema. A formação continuada de professores, dentro da escola, trouxe resultados fortes. Vimos filmes que nos emocionaram, tivemos narrativas de melhora no aproveitamento escolar, filmes e possibilidades de pensar escola, o bairro e a diferença estiveram presentes.
Entretanto, muito do que nos chegou, não era algo previsto por nós, como o trabalho em Belo Horizonte e Recife em Centros Socioeducativos.
Com a proposta desse ano, nossos parceiros podem propor diferentes formas do cinema se relacionar com a educação e os direitos humanos. Escolas de cinema dentro de escolas, formação intensiva de professores, trabalho direto com crianças e jovens, cineclubes em diversas escolas, etc, etc.
Para quem tiver interesse, o Inventar foi objeto de diversos trabalhos:
Cine, igualdad y escuela: la experiencia de Inventar con la diferencia. Toma Uno, v. 1, p. 199-207, 2014. Cezar Migliorin e Isaac Pipano
Inevitavelmente cinema: educação, política e mafuá. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Azougue, 2015. De Cezar Migliorin
Análise dos filmes-cartas produzidos pelo projeto "Inventar com a diferença" : cinema e direitos humanos. De Juliana Cristina Silva (TCC - Unicamp)http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/…
O projeto inventar com a diferença á luz da política pública do Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH) – UFPR - dissertação de Mestrado 2016. Letícia De Bambrilla de Avila,
http://acervodigital.ufpr.br/handle/1884/42011
Imagem-aprendizagem: experiências da narrativa imagética na educação. 2015. 203 f., il. Tese (Doutorado em Educação)—Universidade de Brasília, Brasília, 2015. De Patrícia Barcelos -http://repositorio.unb.br/handle/10482/19515?mode=full
Para inscrição desse ano: http://goo.gl/yg6zM2

kiarostami

4 julho 2016

Comecei a ser professor com o Kiarostami ao lado.
Um belo livro do Bernardet e os filmes.
Acho que já estive com ele muitas vezes, mas talvez nenhuma.
E o Irã nunca mais foi o mesmo.
Existem dois tipos de livros.
Os que se tem vontade de avançar e ir para a próxima página.
Os que não prometem nada ali adiante.
Só me interesso por esses últimos.

os cupins

Para construir casas para centenas milhares de indivíduos, com acesso direto aos lençóis d’água 50 metros abaixo do solo, os cupins não precisaram nem mesmo de um engenheiro chefe. Certas sociedades souberam como se livrar de Cavendiches, Odebrechts e Cabrais.

Vladimir Safatle comenta "O Circuito dos Afetos"


Conversa realizada na UFF no 13/06.
https://www.youtube.com/watch?v=QTFstXnlz0g
Claro, propositivo e rigoroso.

jogos olímpicos

19 junho 2016

Que grandes eventos funcionam para instaurar crises radicais, permitindo que poderes pouco democráticos possam operar na cidade, nas finanças, no país, já sabíamos. 
Mas o que governo do Rio vem fazendo, com a justificativa das Olimpíadas, é pior do que podíamos esperar. 
A crise permite o choque – como tão bem explica Naomi Klein. Não é na democracia que o liberalismo pode atuar com facilidade. 
Foi preciso um Pinochet para que os rapazes de Chicago pudessem dar um choque na economia chilena revogando direitos, aprofundando as diferenças de classe, fazendo do país um tubo de ensaio para o neoliberalismo.
Um ditador é longo demais, um evento-ditadura é o hedonismo do capital.
Na Grécia, o ensaio dos eventos-choque estava feito.
Crise-evento - hipérbole de ganhos - crise aguda - fim da democracia. E assim o Syriza se esfacela.
No Brasil os eventos-crise vêm dobrados: dois eventos, duas crises.
Com o impedimento da Dilma, não era mais necessário um novo evento-crise para que as regras minimamente conseguidas para segurar a selvageria do capital fossem desmontadas.
Mas ai está o evento.
Duas crises sobrepostas = tratamento de choque intensificado.
Crise financeira – verbas - imagem do país = queremos devorar sua democracia.
Espero que não seja muito tranquilo para eles.
18 junho 2016

Prefeitura do Rio 
- Agora que tiramos os pobres já podemos colocar transporte público.
O novo VLT tá lindo.
17 junho 2016

"Mulheres de Buço" é demais!
música, teatro, humor, festa e politicamente incisivo.
Feminismo forte e alegre. As letras e o som são reveladores da complexidade do Rio de Janeiro. O Funk que atravessa a cidade, a inquietação com aspectos macropolíticos e atenção aos detalhes de quem vive a cidade. Garotada!
Poucas crônicas do presente são tão reveladoras e mobilizadoras.
13 junho 2016

A ação política é inseparável de uma ocupação dos espaços, frequentemente de espaços onde o povo não foi chamado chamado.
No atual momento esta máxima tem feito toda a diferença nas forma de resistência ao autoritarismo.
As mulheres e estudantes, por exemplo, desorganizam os espaços em que os poderes mais autoritários e conservadores gostariam de lhes reservar. 
Nesta semana, uma manifestação na Paulista pelo Fora Temer trazia uma imagem que era o contrário disso.
O vão do Masp, tradicional espaço de encontro e mobilização foi dominado pela polícia.
O espaço que pertencia às invenções do povo, arquitetura brilhante de Lina, aberta ao imponderável, estava lá, dominada por homens de preto.
De um lado uma manifestação que começava com a organizada distribuição de camisetas e bonés vermelhos que não surpreende ninguém, de outro, o espaço que já era nosso, dominado.
A ação política que aceita esse esquadrinhamento espacial está fadada ao fracasso.

7 junho 2016

Aqueles críticos às manifestações de junho de 13, dizendo que ali se fomentava o golpe, agem como o ministro interino da cultura. 
Não suportam o dissenso, não suportam que vozes dissonantes apareçam onde menos se espera. Querem a ordem centralizada, querem a unidade encarnada onde quer que ela esteja, no pai político ou na imagem da pátria sem tensões. Acreditam na centralidade do Estado ou do partido como representantes da totalidade da sociedade. 
Felizmente a democracia não é um samba de uma nota só, mas uma complexidade de desejos que não pode ou deve ser estancada. 
A ação política hoje é inseparável de palavras fora do lugar que não cessam de se esquivar do ordenamento do poder e da burocracia. 
Se o dissenso e a reunião de desejos não organizáveis em um projeto único não é suportável é a própria democracia que está em jogo.
7 junho 2016

Quando tudo se transforma em espetáculo, quando o pensamento e a cultura são irrelevantes, quando todas as ações são norteadas pelos seus efeitos midiáticos e pela manutenção do poder, ai, finalmente, um ministro da cultura pode dizer que um gesto político é ruim por "causar prejuízos à reputação e à imagem do Brasil".
Com essa frase podemos ter noção das prioridades desse governo.
Certamente não sentiremos falta.
6 junho 2016

Que momento impressionante vivemos.
A saída de Dilma no lugar de expor a fragilidade do governo desta acabou colocando no poder um tigre de papel que depende cada vez mais da violência da mídia e da estratégia de choque na suspensão de direitos. 
Se pouco tempo atrás muitos ainda se apoiavam nas trapalhadas da presidente e no triste fim desse PT como alternativa real, o momento expõe, por um lado, a evidência de que a dita oposição não passa de frangalhos políticos e intelectuais. Por outro lado, nas escolas, ocupações, universidades e nos modos de vida, algo se tornou insuportável: não há espaço para a simplificação do país nos termos moralistas e religiosos, não há espaço para o enquadramento e ordenamento dos pobres.
O retorno de Dilma será bem vindo, mas algo se passa fora de Brasília que não pode ser apaziguado com o eventual retorno da presidente.
A força dos debates, a busca por uma ação de esquerda efetiva, a crítica ao lulismo, a exposição da fragilidade dos congressistas, a urgência de outro modelo de representação, o aprofundamento das investigações de corrupção, tudo isso nos chegou com o pé na porta.
Além da luta institucional, gostaria de ficar à altura do que nos acontece.
31 maio 16

Talvez das coisas mais chocantes nessas recentes semanas de governo interino seja o isolamento do grupo que chegou à presidência.
Fernando Henrique, Lula e Dilma, com todas as suas enormes diferenças, eram governos com conexões com a vida fora de Brasília, com vivências e práticas que extrapolavam o mero jogo político. 
Nos últimos 20 anos nos acostumamos com governos que tinham alguma permeabilidade intelectual e sensível ao que acontecia fora dos palácios. O que não quer dizer que agiam da mesma forma com o que aparecia nas ruas, claro.
O que impressiona em Temer é que no momento que assume o cargo, ele parece não ter meios - mesmo quando deseja - para se deixar afetar pelo mundo mesmo.
Trata-se de uma cegueira trágica. Um isolamento chocante.
A cada dia, além do cinismo, o que aparece é um certo desespero com a própria incapacidade em perceber que na presidência há um mundo de práticas, reivindicações, formas de vida, disputas, etc que acontece fora das disputas palacianas e que a posição dele não pode apenas ignorar.
Ontem Temer chegou em casa e desabafou: “Não estou entendendo nada!”

Estado e Cultura 3

29 maio 16

A cultura é o que impossibilita uma divisão exata das partes, como mostra Alexandre Barbalho em seu livro Política Cultural e Desentendimento.
O ódio da direita - e dos novos fascismos - à cultura é menos moral do que político.
Práticas sexuais não normatizadas pelo Estado, arranjos familiares singulares, transformações corporais não-binárias, etc, mais do que ofender os costumes expressam as potências de vida incontroláveis pelos poderes em curso. 
Eles não odeia apenas o diferente, os fascistas de plantão odeiam a impossibilidade de ordenar, encaixar, dar nomes adequados.
Toda resistência que passa pela cultura e pelas formas de vida tem o desafio de garantir um lugar – de fala, de vida, de prática – e ao mesmo tempo fazer desse lugar uma instabilidade, uma porosidade, um desequilíbrio.
O que os fundamentalistas não suportam é que algo possa se inventar com o desejo.

Cultura e Estado 2

29 maio 16

Na relação da cultura com o Estado vemos o cerne das tensões entre o capitalismo mais avançado e as formas mais resistentes a ele. 
O que mais interessa o capitalismo hoje é a forma como consegue inventar formas de vida capitalizáveis.
Mais do que inventar produtos, modula-se formas de estar no mundo, da competição generalizada - das empresas às universidades – às maneiras de ocupar o tempo e as emoções – dos dispositivos móveis de comunicação e seus aplicativos de afeto, passando pela arquitetura das “grandes reformas” urbanas à subordinação de todos ao transporte humilhante.
Vampirizar – como escreveu Suely Rolnik - e modular as formas de vida, são as práticas essências do capitalismo contemporâneo. Trata-se de operar na sensibilidade, nos afetos e na cultura. Hoje, todas as esferas do Estado operam nesses níveis: agricultura, transgênicos, mobilidade, saúde, moradia, etc. Mas, como sabemos, há um ministério separado só para pensar cultura: ou seja, por um lado isso é fundamental, por outro isola a cultura: Todos os ministérios deveriam ser: Ministério da economia e da Cultura, Ministério da Cultura e da Agricultura, etc etc.
São esses mesmos modos de vida moduláveis pela capitalismo - como tanto trabalhou Negri – que são excêntricos ao ideário do capital. É das formas de vida que as resistência e invenções aparecem.
Curioso paradoxo: enquanto todas as esferas da vida pública operam hoje diretamente na cultura, é a cultura mesma que deve ser excluída da reflexão sobre essas esferas. Trata-se de agir sobre as formas de vida segundo interesses ditos pragmáticos, como se a ação sobre as formas de ser fosse uma consequência e não o foco. Ora, sabemos que não é.
É assim que um Ministério da Cultura, por exemplo, traz as mais fortes tensões para o capitalismo. Ali, as formas de vida podem ser exploradas sem dó: carnaval, turismo e as próprias expressões sensíveis de um povo. Mas, ao mesmo tempo, é ali que o Estado é mais tensionado para que as formas de vida excêntricas e inventivas – descompassadas com a modulação do capital – tenham, elas também, uma presença no país, que façam diferença com o que podem trazer de não planificável pelo Estado ou pelo capital.
Em um Ministério da Cultura, cada vez que as verbas diminuem e a centralidade das decisões aumenta, sabemos que é a administração dos nossos modos de ser que está sendo privilegiada.

Estado e cultura 1

28 maio 16

Um ministério da cultura que leve a séria a noção de cultura é algo insuportável para um governo que em que o capitalismo não é um problema.
Levar a sério a cultura não é estimular o que existe – apenas – mas ter em mente que a cultura é incontrolável, dispersiva, múltipla – um acontecimento.
Mais que o dado a cultura é o que podemos. 
Que governo está preparado para o que podemos, para uma transversalidade do desejo que atravessa economias, organizações sociais e urbanas, afeta planejamentos, informações e mobilidade?
Que governo está preparado para a cultura que transforma os agenciamentos familiares? Em nosso país, a cultura é um caldo entre heranças e transformações que não cabem em um plano centrado no mercado ou na economia.
Levar a sério a cultura é traçar uma linha entre a sala de ópera e o descontrole das vidas em invenção. Onde não há a possibilidade da plena expressão do que podemos, das formas de vida excêntricas, ali deveria intervir um Ministério Cultura. Mais do que garantir o que se produz, o estado deveria intervir culturalmente onde a invenção se vê impossibilitada de acontecer. O trabalho é excessivo, o transporte humilha, as condições de sobrevivência não estão garantidas. Tudo isso é problema da cultura. Que governo está preparado para isso, para essa centralidade do que realmente importa? As nossas possibilidades de ser, intensamente.
26 maio 16

Se tornou corrente entre certo pensamento crítico de esquerda apontar continuidades entre o governo Dilma e o governo Temer. “Eles não são tão diferentes assim”, parecem dizer.
Creio que antes de qualquer comparação, é preciso encarar uma diferença de natureza entre os dois governos. Essa diferença de natureza se deve à forma como Dilma e Temer chegaram à presidência. 
Golpe ou não golpe, o que marca uma diferença de natureza entre os governos é a traição. 
Enquanto Dilma - entre incompetências, possíveis diálogos com a sociedade e opções questionáveis pelo campo da esquerda - é eleita para estar ali, Temer é fruto de uma esperteza e de uma malandragem com a lei. Tanto adeptos de Dilma como aqueles que defendem o impedimento, estão de acordo em perceber que as múltiplas inabilidades de Dilma abriram as portas para que bote dos traidores pudesse acontecer.
Pois esta diferença de caminhos para a presidência institui duas naturezas de governo (mais do que a discussão de se houve ou não golpe).
A primeira e radical consequência dessa diferença de natureza é simples: Para os traidores, não há nada a esconder, não há máscara democrática para esconder a realidade. Está tudo às claras.
Sem ter o que esconder, sem ter que dissimular a artimanha que leva Temer ao poder, é no campo das práticas que as consequências aparecem. Quem se legitima explicitamente na esperteza e na traição não precisa negociar com nenhum ator social fundado na legitimidade da representação democrática.
Assim, quando comparamos as primeiras ações do novo governo com que Dilma fazia, precisamos ter em mente que por mais que às vezes possamos ver alguma proximidade, o que perdemos foi qualquer possibilidade diálogo, tensão e dissenso com o novo governo.
A esperteza é um princípio impermeável à sociedade.
Traição e esperteza não apenas marcam uma forma de chegar ao poder, elas são necessárias para os desmontes das construções sociais que os novos mandatários começam a fazer. Elas são necessárias porque instituem um governo em que a sociedade e a democracia são irrelevantes.
A traição é um norte, mais do que uma arma pontual.
É Com essa dupla, Esperteza/Traição, que se torna possível ser autoritário, rápido, cínico e brutal e não ter que prestar contas alguma.
Em suma, 1) falar em diálogo com esse governo é esquecer com quem se fala. 2) Apontar continuidades do governo Dilma e Temer pode ser importante para um projeto de esquerda, mais irrelevante para pensar esse governo.
Se tínhamos muitas insatisfações com Dilma, uma coisa é certa, as armas agora são outras.

5

24 maio 16

4
Os dois homens usavam terno preto e gravata. Apoiavam os braços no balcão de vidro transparente às empadas e joelhos. Satisfeitos, pagaram o Antônio e reassumiram seus postos. Um homem de terno preto recolheu ingressos e mandou a menina tirar o pé do banco. O outro homem de terno preto vendeu e muitos perderam.

4

23 maio 16

4
Apesar de todos os cuidados, ressaca. 
Andréa colocou a roupa que a esperava no armário. Nas 17 horas seguintes cinco homens estiveram muito próximos de seu corpo. Vodka e Red Bull a mantiveram entre a euforia e a exaustão. Julio não pode estar com Andréa – muito trabalho....
Andréa encostou a cabeça na janela do ônibus e pediu para o cobrador a acordar depois do túnel.
Apesar dos cuidados, café, café.

3

3
Marina: cafezinhos, reuniões pouco importantes, aplicativos, trânsito nos dois sentidos, alguns barulhos mais intensos.
Ao ganhar a rua, subitamente muita gente. 
Na rua, Jorgina tinha dificuldade no caminhar. O rosto inchado com marcas de golpes no rosto - novos e antigos, os dentes eram poucos, o olhar distante ausente. Marina a viu, Marina entendeu tudo.

2

21 maio 16

2
No quiosque de flores no Catete um jovem pede rosas rosas. A vendedora lhe mostra um buquê em que cada flor é envolvida por uma rede, mantendo as rosas rosas em botão. 
O que é isso na flor? É a camisinha, explica a vendedora - para a rosa não ficar toda aberta. 
O rapaz olha também um cactos que está a venda. 
- Quero doze rosas rosas. 
Caminhou pela cidade e presenteou seu primeiro buquê: rosas rosas com camisinhas brancas.