18 de jul de 2015

A democracia e o hino da Suécia


Em 2007 o Lars von Trier lançou o filme “O diretor”, nele um ator é colocado no lugar de um diretor de uma empresa. Sem ter noção do que faz ali, dizendo e fazendo absurdos, a empresa e as relações de poder continuam a existir à revelia de sua loucura. O filme fala de uma empresa autonomizada, em que os sujeitos são irrelevantes.
Como no filme de Trier, o ex-ministro das finanças grego, Yanis Varoufakis, narra o funcionamento do Eurogroup como um corpo antônimo em que os sujeitos, ideias e argumentos não fazem papel algum.
Em um momento da entrevista ele diz:
“Você coloca um argumento que realmente trabalhou e você é apenas confrontados com olhares vazios. É como se você não tivesse dito nada.... Você pode muito bem ter cantado o hino nacional sueco - você tem a mesma resposta.”
No Eurogroup descrito por ele, tanto faz ser o ator do filme de Trier ou um brilhante intelectual da economia atuando como ministro. O funcionamento do sistema se organizou de tal maneira que a entrada de outra voz ou sujeito, mesmo com as credenciais para se fazer ouvir, não existe.
O que Varoufakis narra é propriamente a desconexão entre o poder econômico que organiza a política e a democracia. A democracia é essencialmente um sistema instável em que o poder do momento é permeável ao povo, uma vez que é representante – parte – do próprio povo. Eliminar a democracia é antes de tudo transformar em ruído o que é fala - nos termos de Rancière - ou, transformar em hino da Suécia o que é argumento econômico.
O ministro das finanças alemão, o cérebro dessa máquina acéfala, é muito claro. As eleições dos países membros não podem alterar o funcionamento do sistema.
"Bem, talvez não devamos realizar eleições mais para os países endividados", diz Varoufakis. A ironia do grego é a realidade que estamos vendo na Grécia.
O que aconteceu não foi que as negociações não deram certo, o que aconteceu foi que não havia lugar para negociações, simplesmente porque entre a democracia e a ausência dela existe um abismo. São duas formas de entender o lugar dos sujeitos no poder e no mundo.
“As negociações demoraram enormemente, porque o lado deles se recusava a negociar”. “Quando eles nos perguntavam o que pretendíamos fazer com o VAT, eles rejeitavam a nossa proposta, mas não vinham com uma contra-proposta. E então, antes de chegarmos a um acordo, eles mudavam para outra questão, como a privatização. Nós apresentávamos propostas, eles rejeitavam. Então eles passavam para outro tópico, como pensões, de lá para mercados de produtos, relações de trabalho e a partir de relações de trabalho para todos os tipos de coisas. Era como um gato correndo atrás do próprio rabo.”
O que o caso grego parece estar explicitando de maneira pouco usual é que a democracia no ocidente não só é operada pelos grandes poderes econômicos, como conseguiu institucionalizar o golpe e a derrubada de governos democraticamente eleitos. Tsipras pode até ficar no poder, mas terá que abrir mão do papel que o levou a ser primeiro ministro. O hino da Suécia vai sendo entoado em coro.
Por que isso nos interessa? Primeiramente por que toda política precisa necessariamente passar por uma dimensão internacional para poder se fazer política novamente. Os piores inimigos da Grécia nas não-negociações com o Eurogrup eram Portugal e Espanha. Os países em que a situação não é tão distante da Grécia antes dos bancos fecharem. Segundo, a política de austeridade não precisa de mais exemplos de fracasso. O que ela vem fazendo em Portugal, na Grécia ou Brasil é eliminar os sujeitos, seja do debate político – como o próprio ex-ministro grego, seja pela pobreza que aparece da Europa como havia deixado de existir. Como diz Pablo Iglesias, do Podemos, “austeridade significa que nós nos tornamos uma colônia da Alemanha, austeridade significa o fim da democracia.” Talvez o que nos caiba hoje não é perguntarmos se os cortes na educação, na cultura ou nos direitos trabalhistas são necessários ou suficientes, mas se temos interesse na democracia ou se simplesmente queremos pessoas cantando o hino da Suécia.

14 de jul de 2015

Direitos trabalhistas

Em 2011, durante a crise europeia, as empresas automotivas instaladas no Brasil fizeram uma remessa de lucro de US$ 5,58 bilhões.
Sucesso total. O Brasil vendia bem carros e caminhões e segurava os empregos na Europa.
Em 2015 as montadoras vendem muito menos. Mas não é possível pensar em uma empresa dessas estará no país sem lucro efetivos.
Não há problema. O Brasil subsidia e muda as regras trabalhistas.
Se cada um dos 240 mil empregos que, segundo o governo, serão poupados com o subsídio estatal recebesse 5 mil reais por mês, apenas a remessa de 2011 seria suficiente para cobrir com folga 12 meses de salário para todos os 240 mil empregados.
Mas, é claro que a regra que vale para a Grécia vale também para o Brasil.


Imagem: Vênus grega atualmente no British Museum

burocracia e simulacro

A burocracia quando é boa mesmo se transforma em uma espécie de simulacro, perdendo qualquer relação com o real. No seu limite, a burocracia é um processo autônomo em que circulam carimbos, selos, dinheiro, humilhações e poderes que se auto-justificam.
O caso.
A educação brasileira, como não é pautada por idade, exige que uma escola, para matricular uma criança tenha as informações da escola anterior.
Assim, depois de passar um ano na Inglaterra, meus filhos precisam de um histórico da escola daqui que será apresentado na escola brasileira.
Este histórico deve ser legalizado pelo consulado brasileiro.
Para legalizar, o consulado exige que o documento seja oficializado pelo FCO (Foreign & Commonwealth Office), um órgão do Estado inglês.
Para legalizar esse documento o FCO exige que o documento seja reconhecido por um Notary Public, uma espécie de cartório.
O Notório o que faz? Com meu comprovante de residência e meu passaporte em mãos escreve em um papel que eu dei a minha palavra de que aquele documento emitido pela escola é verdadeiro.
Bem, o documento da escola não foi, em nenhum momento olhado nem pelo Notory, que apenas assinou dizendo que eu existo e que alego estar dizendo a verdade, nem pelo FCO, que reconheceu a assinatura e o selo do Notório, nem pelo consulado, que apenas reconheceu o selo e a assinatura do FCO.
Fechado o círculo, 100 libras e dezenas de horas mais tarde, o documento está reconhecido por três órgãos sem que ninguém tenha olhado para ele.
Se o Baudrillard tivesse olhado para a burocracia talvez fosse mais generoso com as imagens.