24 de abr de 2011

Cidade-produto





Postei esse vídeo há alguns dias no Facebook e desde então não o tiro da cabeça.
            No meio desse mar de clichês, uma ideia central: a cidade é um produto. Certo, quando precisamos vender o Rio para o turistas, para os consumidores de Copa do Mundo e Olimpíadas, vendemos a produto Rio de Janeiro. Mas, essa dimensão produto não para por ai. Se a cidade é pensada como produto, o que acontece com os investimentos públicos, o que acontece com os moradores, será que o melhor produto é também a melhor cidade para os moradores, sobretudo os pobres?            
            Se esse vídeo é perturbador é porque ele aponta para o futuro do Rio de janeiro, esse laboratório do capitalismo cognitivo em que o desafio é transformar modos de vida em produtos vendáveis, em informação. 
Turismo e democracia
            Para isso esse deslocamento, das vidas ao produto, o turismo é decisivo. O turismo talvez seja hoje o elo que transforma todos os espaços em matéria maleável e desubjetivada. O turismo é o choque de ordem que funcionaliza a desordem. De Paris à Rocinha, a presença humana local precisa ter a medida correta das demandas do comprador: Favela chique em Paris, café expresso na Rocinha. O turismo torna os espaços uma abstração, regula as experiências e objetiva os moradores, todos eles prontos para se tornarem parte de um cenário gentil em que até o mau humor pode ser capitalizado.
            O risco do turismo é ser apenas o choque de ordem que estanca a criação e interrompe a invenção para capitalizar, para transformar vida em produto. Na linha de Henri Lefevre, quando ainda nos anos 70 falava de um direito à cidade, precisamos lembrar que este direito não passa pelo direito de consumir a cidade, mas de vive-la democraticamente, ou seja, direito de fazer de uma vida qualquer uma vida que faça diferença na cidade. Ou seja, o direito à cidade implica que qualquer vida que não faz pleno uso de suas possibilidades em uma cidade, se torne um dano a ser reparado.  Trata-se de uma noção radical de democracia, mas esse é um dos escândalos da democracia, como diria o Rancière. 
Vidas em disputa
            Na cidade, é o cotidiano - o banal e corriqueiro  - que está em disputa. As armas do capital são claras, trata-se de tornar os modos de vida consumíveis e os espaços públicos cenários. Da mulher brasileira aos novos museus em portos renovados, o habitante é divido em duas categorias; aqueles que são consumidos e decoram a cidade com seus modos de vida singulares – vendedores nas praias, torcedores nos estádios, capoeiristas no centro, etc -  e a massa que consome e é espectadora do povo e da urbs.
            Estranho paradoxo. Por um lado são as pessoas e suas formas de vida que alimentam o imaginário da cidade, ao mesmo tempo são elas mesmas que são consumíveis. Parece ter chegado a hora em que os mais diversos poderes decidiram que é o momento de capitalizar, transformar em produto, com os dois mega eventos, esse descontrole inventivo que atravessa a cidade e que é parte de seus moradores.

Direito à cidade
            A cidade não é o lugar onde as coisas acontecem, os comunidades e os sujeitos aparecem e se constituem, a cidade é formada por esse aparecimento. Rua de mão dupla, a cidade é condição de possibilidade para a existência social e desdobramento dessa espaço de sociabilidade em que há a possibilidade de se conjugar o interesse social e o interesse individual. Nesse sentido é possível falar de um direito à cidade que é inseparável dos direito dos cidadãos.
            Antes de ser um espaço onde os indivíduos reclamam seus direitos, é a organização espacial e estética da cidade que permitirá ou não que esses direitos possas existir para serem reclamados quando não contemplados. A partilha da cidade é anterior a um ordem entre aqueles que tem direitos e outros que não tem, a partilha é entre aqueles que tem direito de ter direitos e os que não tem direito de ter direitos. Tal partilha esvazia a cidade como condição de possibilidade para a sua própria transformação.
            Quando a cidade se torna apenas um produto é toda sua dimensão política e conflitual que deve ser deixada de lado. Ter direito à cidade hoje é uma urgência política concreta, um problema ético urgente. Os mega-eventos podem facilitar um choque de democracia. Esse parece ser o desafio.

 


Um comentário:

bambozzi disse...

gostei. vai no ponto. abzo. l.