14 de jul de 2015

burocracia e simulacro

A burocracia quando é boa mesmo se transforma em uma espécie de simulacro, perdendo qualquer relação com o real. No seu limite, a burocracia é um processo autônomo em que circulam carimbos, selos, dinheiro, humilhações e poderes que se auto-justificam.
O caso.
A educação brasileira, como não é pautada por idade, exige que uma escola, para matricular uma criança tenha as informações da escola anterior.
Assim, depois de passar um ano na Inglaterra, meus filhos precisam de um histórico da escola daqui que será apresentado na escola brasileira.
Este histórico deve ser legalizado pelo consulado brasileiro.
Para legalizar, o consulado exige que o documento seja oficializado pelo FCO (Foreign & Commonwealth Office), um órgão do Estado inglês.
Para legalizar esse documento o FCO exige que o documento seja reconhecido por um Notary Public, uma espécie de cartório.
O Notório o que faz? Com meu comprovante de residência e meu passaporte em mãos escreve em um papel que eu dei a minha palavra de que aquele documento emitido pela escola é verdadeiro.
Bem, o documento da escola não foi, em nenhum momento olhado nem pelo Notory, que apenas assinou dizendo que eu existo e que alego estar dizendo a verdade, nem pelo FCO, que reconheceu a assinatura e o selo do Notório, nem pelo consulado, que apenas reconheceu o selo e a assinatura do FCO.
Fechado o círculo, 100 libras e dezenas de horas mais tarde, o documento está reconhecido por três órgãos sem que ninguém tenha olhado para ele.
Se o Baudrillard tivesse olhado para a burocracia talvez fosse mais generoso com as imagens.

Um comentário:

Alberto Quadros disse...

A burocracia é a arte de realçar o inútil. È um dos ramos da preguiça. É uma amostra do faz de conta, da ausência da criatividade.
www.sonhoscomsorte.blogspot.com