19 de jul de 2010

Paulo Renato e a meritocracia.

A entrevista de Paulo Renato para a Veja

Se faltam motivos para não se votar no Serra, vale ler a entrevista.

Todo o discurso do ex-ministro (governo Henrique Cardoso) é pautado pela meritocracia, sem nenhuma reflexividade em relação à essa adesão absoluta.

Nesse sentido, lembro um leitura recente de Luc Boltanski no livro, De la Critique em que o sociólogo coloca alguns pontos sobre a meritocracia.

Destaco dois:

Em uma sociedade pautada pela meritocrática, deve-se enraizar as competências dos atores sociais, mas, para isso, há um problema, as provas de competência não podem ser feitas o tempo todo, assim como as competências não são estáveis e apropriadas às variações que o próprio contexto demanda. Ou seja, nem os sujeitos são sempre competentes, nem essa competência tem sempre como ser avaliada, nem o lugar em que essa competência irá ser usado é imóvel. Para estabilizar essas competências, Boltanski diz que essa sociedade pautada exclusivamente pela meritocracia "é facilmente ameaçada por uma forma ou outra de racismo ou, ao menos, de naturalismo biologisante"(p.60)

O desdobramento do argumento é divertido, se não trágico:
Para que uma prova meritocrática seja realmente justa cada prova deve considerar as necessidades das capacidades da pessoa, deve considerar a pessoa em particular em situações particulares. Tal prova meritocrática impossibilitará qualquer comparação entre sujeitos o que torna essas provas inúteis.

A não ser que, claro, optemos (segundo ponto) por deixar de lado a noção de justiça e as provas meritocráticas tenham como fim a maximização das diferenças entre indivíduos concorrentes. Individualização e uniformização das diferenças - subjetivas, sociais, etc, - eis a forma da meritocracia funcionar.

Quem conhece um pouquinho a universidade sabe o que isso significou na época do Henrique Cardoso.

2 comentários:

rgzzz disse...

mãe de deus, cezar, essa entrevista do PRS me embrulhou o estômago!...
- @renatagames

Migliorin disse...

Pois é,

Ontem assisti o Barra 68, do Vladimir Carvalho, e em uma homenagem ao Darcy Ribeiro, feita pela UNB, lá estava o Paulo Renato ao lado dele, como ministro do Henrique Cardoso. A luta de 68 da UNB estava ganha, mas uma outra batia a porta, tão séria quanto.
bjs