13 de ago de 2015

Vivemos uma curiosa crise


Depois de ficar um ano fora do país, duas coisas me chamam a atenção na cidade.
Primeiramente uma elitização generalizada.
Em Copacabana e Botafogo, por exemplo, novas lojas abriram com dezenas de marcas de cervejas importadas, a maioria com preços entre 22 e 35 reais cada long-neck. O mesmo vale para o pão, o vinho e a hóstia.
Uma amiga que possui uma loja em um shopping me dizia que nos últimos meses o número de clientes caiu muito, mas as vendas não. Quem entra na loja está comprando os produtos mais caros.
Não tenho dados, mas tenho a forte impressão que os carros dos vizinhos cresceram junto com o Bradesco e o Itaú, que anunciaram crescimentos em torno dos 20%, mais ou menos como os carros.
O segundo dado que chama atenção é a absoluta desconexão entre o cotidiano da cidade e a imprensa. A centralidade das disputas palacianas na grande imprensa é como o monotematismo de personagens de Dostoievsky que não conseguem sair da neurose que os toma.
Não sei o que se passa na televisão. Deveria, é claro, mas, lendo os jornais, tem-se a impressão que o mundo parou, que ninguém foi ao teatro ver a peça do Rosemberg, que ninguém viu o lindo filme do Ozon, que ninguém acompanhou o ótimo seminário “A vida secreta dos objetos” ou que ninguém teve que ser humilhado no transporte público naquele dia.
O divórcio entre as disputas palacianas e a vida da cidade parece ser movida por um enorme desejo de imobilismo.
“Não se mexa, estamos discutindo se a Dilma cai ou não”
“Não se mexa, vamos pegar o Cunha e o Aécio”
Que prazer em ver no cotidiano que a cidade é muito maior.
Hoje a Folha diz: na periferia de São Paulo não houve ruídos produzidos por homens e mulheres com panelas. Claro que não. Mas não é porque são a favor de Dilma, como gostariam os governistas, mas apenas porque vão acordar cedo, porque o tempo lhes foi expropriado.
A periferia é a cidade e não uma intriga que reúne o pior do capitalismo e o infantilismo engravatado.
De São Gonçalo saiu a moça que não bateu panela e, depois de esperar longamente na fila, pegou a barca lotada para vir trabalhar no MacDonald do Rio de Janeiro. Ela só não sabia que o dono do transporte que a humilha está preso.
Tudo bem, pelo menos ela sabe que em Furnas há uma peça de graça com grandes atores: Silêncio.

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