22 de mai de 2011

2011, a praça é a praça.


                                No mundo árabe e agora na Espanha esse movimento acentrado, multidões nas ruas, poderes sem resposta possível ou reação.
E nós nos perguntando, sem esconder um certo entusiasmo, que mundo é esse?
Que política é essa?
Veja, não quero me perguntar no que isso vai dar.
Se há algo muito forte nesses movimentos é justamente a impossibilidade de ele ser atendido com algum gesto de algum poder que se flexibilize.
Não há respostas prontas, não se trata da busca de um consenso qualquer, como normalmente entendemos a política.
O que há de perturbador nessa semana na Espanha é justamente a abrangência da demanda. Queremos democracia, nos dizem os milhares de manifestantes.
Mas, dizem os poderes, já há democracia. Todos votam, há liberdade de imprensa.
Mas democracia é muito mais.
Ai aparece o curto circuito entre a multidão de manifestantes e os múltiplos poderes que tentam por todo lado transformar o desejo de democracia em demandas objetivas.
A falta de emprego, a crise, a ausência de perspectivas de futuro, etc.
Ou seja, tenta-se organizar respostas possíveis dentro de uma mesma lógica, sem perceber que o que se passa traz um problema para a lógica de onde saem essas perguntas. Assim, não devemos perguntar o que querem os manifestantes, mas apenas perceber a evidência do desejo e o que eles estão efetivamente fazendo.

As praças ocupadas talvez precisem ser vistas como o fim e não como o meio para outra coisa. Se assim entendermos, talvez possamos arriscar algumas leituras.
Primeiramente, trata-se de fazer do espaço público um espaço comum. Isso me parece uma das coisas mais flagrantes. A Espanha talvez seja o lugar onde a mercantilização do espaço público tenha chegado aos maiores níveis.
Barcelona é uma cidade inacessível. Tudo parece organizado para turistas e compradores – ou seja, consumidores.
A praça ocupada faz do espaço público um lugar em que a cidade se inventa, se disputa.
Assim, não se ocupa as praças para se chegar a algum lugar, se ocupa para se retomar o que foi expropriado.
Trata-se de investir o espaço público de uma outra movimentação e de uma outra estética. Dominada pelos grandes outdoors, pelas pessoas com sacolas e por vitrines que inventam modos de vida; dormir na praça é fazer dela um lugar em que os amores, as festas e a luta se encontram; um  gesto essencialmente político. É para essa evidência que os poderes do estado, da grande mídia e do mercado parecem cegos.
Mas seria ingênuo dizer, trata-se da multidão contra o capitalismo, isso está na praça, mas, antes disso, há o desejo de inventar outra forma de estar junto. Pouca coisa?
Para entender o que se passa, não é preciso sair da praça.

Como diria o Rancière, a democracia é um escândalo. Ela não designa uma forma de governo, mas a possibilidade de um qualquer, vindo de qualquer lugar fazer diferença na cidade.
O que a praça faz hoje parece ser essa diferença. Uma diferença que escandaliza porque não há lideres com quem negociar, não há estado a combater, apenas a multidão fazendo da vida pública o seu gesto mais político; essencialmente nômade. A revolta vai se desfazer em algum momento e os poderes estabelecidos dirão: viram, não deu em nada! Claro, eles só sabem pensar na lógica do estado, na tomado ou não do poder. O que se passa na praça é irredutível  a essa lógica, o inimigo não será apontado como se houvesse uma solução do outro lado.
A democracia na praça é uma prática escandalosa e utópica ligada às relações e não à lógica do estado. O estado não acabará, mas é com o nomadismo da multidão que ele será tensionado. Isso não é pouca coisa. Essa política não é uma forma, não se estabelece nessa ou naquela medida, nesse ou naquele governo, mas estabelece para a cidade uma potência de variação contínua. Assim é a praça; um corte no espaço e no tempo da cidade que tudo perturba.
Na véspera das eleições, a Justiça Eleitoral espanhola proibiu as manifestações. O que aconteceu? Nada, na verdade, mais pessoas foram para as ruas. E o que a polícia pôde fazer diante disso? Nada. Claro, a multidão na praça não é um poder instituído que possa ser confrontado, mas um poder da   com limites invisíveis, reações descontroladas, sem medida possível, sem hierarquia e acentrado. De uma postagem em uma rede social qualquer às milhões de pessoas em milhares de praças no mundo há um corpo que se constitui, que não busca representação mas que é em si a política que atravessa os modos de vida e de fazer política.
Uma praça, a alegria e o trabalho de inventar o mundo.
buena suerte



2 comentários:

Marina Franco disse...

Obrigada pelo texto!!

Diario de Pilar disse...

Muito bom, César. Reinventar o mundo dá trabalho. Reinventar a política mais ainda. Acho que além das praças, surgiu a internet, que mobiliza, aproxima. Acho que novas necessidades políticas e representativas se fazem necessárias. Encontrar, discuctir, repensar... só é possível em grupo, com tempo. besitos, Flavia