17 de abr de 2010

Entrevista de Sérgio Besserman para a Veja

Sérgio Besserman tornou-se um especialista em Rio de Janeiro.
Como bom especialista ele circula entre o Jornal da Dez, na Globo News, a CBN e as páginas da Veja.
Constrói-se o espaço para o explicador da cidade.

Como bem desejam esses meios, os problemas da cidade são todos colocados na ordem da administração e qualquer reflexão de fundo, que exija pensar o modelo de desenvolvimento, baseado nos carros, na especulação e esquadrinhamento da cidade, na falta de reserva do solo para moradias populares, na elitização dos espaços de consumo, etc, não é questão.

Na entrevista da Veja SB explica o problema das favelas a partir de dois pilares.
1 - Falta racionalidade
2 - O estado é incompetente.

Claro que junto de seu discurso vem a acusação a todos aqueles que podem eventualmente serem críticos. Estes estão contaminados pelos "vícios populistas" que são produtores de favelas.

Mas, mesmo correndo o risco de ser "populista", entendo que a posição de SB, merece algumas considerações.

Primeiramente não é possível falar em remoção de favelas sem falar  na organização urbana como um todo.  O privilégio que certas áreas tem em relação a outras; no funcionamento dos transportes, nas ofertas de cultura, na organização imobiliária, na coleta de lixo, na existência de escolas e hospitais, etc, será sempre parte da existência das favelas.
Nesse sentido, não existe a possibilidade, fora de um certo cinismo elitista, de se falar de remoção de favelas sem que a cidade como um todo seja colocada em questão.

Ninguém mora em área de risco porque quer, mas porque avaliou os riscos e ali significa o menor deles. O risco de ficar longe de um hospital ou longe de uma escola para os filhos é parte do que leva uma família para uma favela.

Quando se fala que há uma população que vive em uma área de risco, devemos perguntar: mas de qual risco ela está se livrando fazendo essa opção?

Certo, não desejamos favelas, nem os moradores das favelas as desejam. Mas falar que elas são fruto do populismo  deste ou daquele governante é esquecer que em TODAS as grandes cidades do Brasil e da América do Sul existe uma massa de pessoas vivendo em condições precárias e, claro, esses lugares se sustentam entre a desobediência civil e a ilegalidade. Tal ordem - ou desordem urbana - é parte de um modelo de desenvolvimento, em relação a isso, o Rio não tem nenhum privilégio. Caracas, Buenos Aires, Recife, para começar a lista com nomes bonitos.


Talvez a fala mais chocante de SB seja essa:

"as áreas favelizadas provocam uma acentuada degradação da paisagem da cidade, um ativo cujo valor é incalculável. Portanto, quando uma análise de custo-benefício revelar que a realocação de uma favela trará retorno financeiro e social elevado, por que razões não cogitar sua remoção?"

Primeiro porque tão degradante para a paisagem da cidade é um prédio como os que cercam a lagoa Rodrigo de Freitas, mas esse seria o menor dos problemas. O maior problema é pautar a ordem urbana pela valorização da paisagem e não por princípios democráticos. O que não significa que cada um pode ficar onde quiser, mas pensar qual a cidade mais inclusiva em termos de bem estar, circulação, acesso a serviços e bens? Certamente que o discurso da remoção baseada na valorização da paisagem não responde a esses princípios democráticos.

A fala do Besserman se instala em um discurso que parte de premissas corretas para tirar conclusões elitistas. Sim, as favelas são um problema, sim, existe ali um forte potencial para a ilegalidade e o estado é frequentemente conivente. Entretanto, a remoção sem uma reorganização e uma democratização urbana é de um simplismo primário.
As favelas são ruins, logo é preciso removê-las - eis a lógica que mantém as cidades como estão e se joga para longe aqueles que estão atrapalhando.

2 comentários:

cristina disse...

eu acho que você está errado quando afirma: " Ninguém mora em área de risco porque quer". Já conversou com as pessoas que moram nestes lugares, sejam em comunidades ou em áreas de riscos mesmo (ex: construção sobre o lixão)? Meu caro, você verá que mais da metade continuariam morando no mesmo lugar, mudariam talvez o estilo da casa, mas gostariam de continuar no mesmo local!!! Sabe pq?! POrque muitos não pagam luz, não pagam água, tem a gato net, gato velox e por aí vai. Vida fácil. Pessoas que não querem morar em comunidades ou em áreas de risco,não gastam um dinheiro considerável todo ano para desfilar em escola de samba. Pessoas que não querem morar em área de risco não ficam enchendo a cara, esbanjando presentes, comprando carro (mesmo que seja o caidinho). Pessoas que não querem morar em área de risco, juntam todos os esforços que tem para mudar de vida, comprar uma casa nem que seja minuscula, em um local seguro! Mas isto eles não querem. Querem que o governo asfaltem a favela, tragam esgoto, cursinhos de gratis, luz, ou que DÊEM CASASSS DE GRAÇAAA para eles! Eu não moro em área de risco, mas pago imposto, e todos os serviços publicos, porém se minha casa enchesse e eu perdesse tudo, ou pegasse fogo, O GOVERNO NÃO IRIA ME DAR UMA NOVA CASA, eu teria que comprar uma com o meu dinheiro sem ajuda alguma. Não entendo porque essas pessoas não pagam por suas casas, nem que seja R$50,00 por mês tem que se pagar! Me desculpe mas acho que o SÉRGIO fala com mais propriedade que você porque apesar de ser elitista, ele conhece a realidade,conhece a mente pequena desse povo, mente pequena esta que foi alimentada pelos politicos.

Migliorin disse...

Prezada Cristina,
Teu comentário é ainda mais duro com o Bresserman do que eu fui ou poderia ter sido.
Quando tu dizes que ele conhece a mente pequena desse povo, talvez seja exatamente isso que está na fala que eu chamei de elitista, ou seja, uma percepção de que o povo tem mente pequena. Defenderia o Bresserman do teu veneno dizendo que ele não chegaria a tanto.
Se estou errado ou não em relação ao meu comentário, isso para mim é pouco relevante. Meu interesse é o mesmo que o seu, contribuir e participar de um debate público.
Por outro lado, tenho certeza de uma coisa. O julgamento que fazes do povo, ao qual não te incluis, é parte dos desastres que acontecem aqui e no mundo.
Felizmente, esse povinho de mente pequena, do qual faço parte, está inventando o país, está na universidade, na estética, no trabalho, no consumo, na política e nas escolas de samba também.
Cara, tenho certeza que nenhum argumento te demoverá do teu lugar, entretanto, se um dia tiveres a oportunidade de ir a um ensaio de escola de samba ou a um baile funk, talvez o teu corpo contamine tuas palavras e percebas de que mundo estamos falando, do tamanho da força vital que atravessa nossa cidade.
um abraço
Cezar