18 de nov de 2014

Enem, trabalho e subjetividade


       No ano passado, tentando entender um pouco do Enem acompanhei mais de perto o processo e li com bastante atenção a prova de humanas e línguas. Me chamou a atenção a qualidade das questões e a maturidade exigida dos candidatos. Já a prova de exatas e biológicas estava absolutamente distante de minhas capacidades. Mais do que um teste, o Enem hoje é um importante modulador subjetivo dos alunos, menos pela prova em si do que pela forma como o universo da educação está refém da prova.
       O segundo grau, em muitas escolas, se organiza hoje como uma corrida para as melhores notas no Enem. Essa corrida mimetiza a própria ordem empresarial contemporânea. Primeiramente o Enem tende a retirar da escola qualquer preocupação com a educação para molda-la para o modo como os alunos serão controlados. Uma escola que dedica 4 horas semanais ao ensino de música à jovens de 15 a 17 torna-se uma aberração, um atentado ao pragmatismo.
       O Enem não é uma prova que o aluno precisa passar, é uma prova em que ele deve ser melhor que os outros. Não se trata assim de chegar a um lugar, mas de torcer também para a mediocridade generalizada. Essa corrida que se decide em dois dias, cercada de elementos dramáticos amplamente utilizados pela mídia e pelos cursinhos particulares, é pautada por uma constante pressão sobre os jovens, pela competição, pela exigência de performance e pela ideia de superação física e intelectual.
Um aluno que se prepara para o Enem deve suportar as pressões de um universo em que os objetivos são móveis, cada vez mais elevados e em que nunca há trabalho suficiente, uma vez que há sempre alguém que pode “roubar” a sua vaga. Assim, não é incomum os pais falarem em reuniões escolares – Meu filho não está dando o máximo de si! E raramente alguém diz: ainda bem!
       Se no ambiente disciplinar havia um objetivo a alcançar, horas a trabalhar, tarefas a cumprir, hoje o Enem se tornou pedra central no controle dos jovens que sempre poderiam estar performando mais. O que poderia ser um processo de conhecimento ligado à adolescência é transformado em um produtor de culpa e dívida infindável. Como não há objetivo a cumprir, mas uma performance sem medidas exatas a realizar, o jovem está sempre em débito.
       Paralelamente, são esses mesmo jovens que no ambiente escolar e familiar desfrutam de grande autonomia e liberdade. Essa saudável autonomia encontra um poderoso artifício de controle que lhes entrega a total responsabilidade pelo sucesso e organização do tempo – que deve ser maximizado. Pressão e a culpa se amplificam.
       A performance só termina nos dois dias de prova em que os jovens são testados em provas longuíssimas. A linha de corte entre os bons alunos e os excelentes é muito parecida com os jogos televisivos e com o trabalho corporativo em que a pergunta é: Ele aguenta a pressão? Para isso o jovem precisa dormir bem antes da prova, precisa ser rápido nas respostas, não pode pensar muito ou fazer conexões mentais dispersivas. Se aguentar a pressão, poderá ingressar na universidade, mas, mais do que isso, poderá entrar no mundo do trabalho que não exigirá nada muito diferente.

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