8 de nov de 2014

Olhar a escola pelo cinema e a aprovação automática


      Uma das discussões mais presentes sobre educação nas últimas campanhas eleitorais foi sobre a pertinência ou não da chamada aprovação automática. Com ela os alunos são autorizados a passar de um ano ao outro mesmo que não tenham adquirido o conhecimento necessário para tal. Essa discussão só é possível em um sistema em que a educação é entendida como uma sequencia de prêmios e punições. Se o aluno preencher o que é demandado, segue, se não fica parado. Como pensar uma escola em que o estudante deseje estar presente se está sob a constante ameaça de ficar parado? Ou seja, reclamamos do pouco engajamento dos alunos, mas o que temos a oferecer é a constante ameaça da repetição?
      Nesse sistema, o conhecimento é entendido como um grande bloco organizado por programas que se dividem em anos escolares e disciplinas. É duro ouvir de um jovem de 15 anos, dois anos “atrasado”, que não passou no último ano por conta das notas de geografia e ciências. Mais uma vez, seremos eficazes em achar vários culpados para o fracasso desse jovem, menos o ensino em si, menos a escola e os professores. Pois acho que uma parte grande do que acontece com esse jovem está ligada à forma como aceitamos essa blocagem de saberes desconectados do que importa nas vidas cotidianas desses jovens. O problema assim não seria aprovar ou não automaticamente, mas transformar a escola em um lugar onde uma atenção possa ser dada àquele que por alguma motivo não está vivendo a experiência da presença, por exemplo, da geografia em todos os lugares; na arquitetura das casas em favelas, nos deslizamentos de terra na região serrana, na forma com a água está chegando em sua casa, no calor que o inquieta no verão.
      Em muitos dos filmes-carta executados durante o Inventar com a Diferença, questões ecológicas vinha a tona, o cinema aparecia como uma forma eficaz de discutir e mostrar o que inquieta os jovens. Em um filme-carta realizado em Imperatriz, no Maranhão, endereçada aos alunos de Florianópolis, depois do aluno falar do prazer de olhar “com mais detalhes o que está em nosso redor” e mostrar os detalhes de grãos de areia escorrendo, o filme toma um posicionamento bastante político em que questiona questões ambientais associadas às diferenças de classe; para isso, mostra esgotos a céu aberto em contraste com uma orla cercada de prédios para famílias abastadas, isso tudo depois de localizar Imperatriz no Maranhão e no Brasil. Em um filme de 5 minutos, os alunos, de aproximadamente 15 anos, produziram um universo de interrogações que passam por questões sociológicas, econômicas, químicas, físicas, biológicas, históricas e geográficas; tudo isso mediado por problemas de linguagem e estéticos. Esse filma-carta, endereçado à Florianópolis, poderia também ser um filme-carta endereçado a nós, educadores. As inquietações estão explícitas e para aprofundá-las a escola se apresentaria como um espaço ideal, associando saberes.
      Em nosso atual modelo, a progressão automática ou não, depende de uma escola de conhecimento isolados, de ritmos homogêneos para todos e da blocagem do conhecimento, ou seja de uma profunda artificialidade nos modos de aprender, uma incongruência que não permitiria um filme tão interdisciplinar como o produzido pelos alunos de Imperatriz. O professor Fernando José de Almeida, faz uma distinção entre aprovação automática e progressão continuada e nos lembra “Na cidade de São Paulo, Paulo Freire (1921-1997), quando secretário de Educação, entre 1989 e 1991, propôs que os ciclos fossem de três anos no Ensino Fundamental e apenas no fim de cada um haveria exames que definiriam se o aluno seria retido ou não. Sistemas desse tipo devem vir acompanhados de um mecanismo que permita a correção dos rumos antes do fim do ano e envolva os professores em planos de orientação dos alunos com dificuldades.”
      Vários professores que argumentam contra a progressão automática dizem que é a possibilidade de reprovação que possibilita que seja mantida a disciplina e a assiduidade dos alunos, como testemunha o trabalho de Maria de Lourdes Rangel Tura e Maria Inês Marcondes, da UFPE. “A avaliação escolar segue normas institucionais, mas ela é basicamente de responsabilidade do/a professor/a e a nova proposta de avaliação abolia a possibilidade de reprovação, que tem sido entendida como uma forma de alcançar a disciplina escolar, o empenho do/a aluno/a em relação às tarefas escolares e a sua assiduidade.” Claro. Os professores têm razão; no presente modelo, se for retirado o medo dos alunos porque eles iria a escola? Esse argumento, mais do que dizer da necessidade da reprovação fala de um fracasso do ensino como um todo, que precisa ser baseado no medo, como se o aluno não tivesse outro motivo para estar na escola. Nesse mesmo trabalho, as autoras mostram que é o argumento da autonomia do professor na avaliação que é frequentemente usado para defender a reprovação. Ou seja, uma autonomia para exercer medo sobre os estudantes. O debate é mais complexo que isso e especialmente no Rio de Janeiro a aprovação automática foi usada sem nenhuma mudança na estrutura, que passa pela necessidade um horário integral, pela disponibilidade e remuneração de professores que trabalham com os alunos em dificuldade e por processos de avaliação autônomos a partir de certas idades.
      Enquanto no Brasil um jovem de 16 anos pode não completar o ensino médio por conta de suas dificuldades em matemática, na Inglaterra, depois dos 16 anos o jovem deve escolher as 4 disciplinas que irá cursar até a faculdade – esse pode não ser um bom exemplo a seguir, mas explicita a artificialidade do nosso. Lembro isso para dizer que as reprovações hoje justificam que as escolas entreguem aos alunos o seu fracasso, deixando de lado os problemas do próprio sistema, além de participarem de uma importante triagem, marcadamente de classe, entre os que estarão nas boas universidades e os que não estarão em universidade alguma.
      Esse breve exemplo do filme-carta, explicita a possibilidade de uma produção de conhecimento transversal às blocagens disciplinares em que o cinema não aparece para ensinar ciências ou geografia mas é o ponto de conexão entre processos que afetam as vidas dos estudantes e que mobilizam o desejo de conhecer e aprender. Certamente muitos outros são possíveis.

http://www.inventarcomadiferenca.org/v%C3%ADdeos/filmes-carta/ce-urbano-rocha-filme-carta-de-imperatriz-para-florian%C3%B3polis

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