27 de set de 2007

André Gorz

André Gorz morreu esta semana.
Eu o citei diversas vezes nos últimos tempos por conta de seu livro "l'immateriel" que muito me ensinou sobre a possibilidade de uma Renda Mínima Universal (ver post) e sobre o que Gorz entende ser uma crise do capitalismo que é uma economia imaterial onde os bens tendem para a gratuidade - menciono isso no artigo sobre pirataria e o Tropa de Elite.
Mas hoje passei por uma citação de Gorz muito interessante e que me obriga a repensar os frequentes usos que faço da noção de um "capitalismo cognitivo".
Diz ele: "Eu tento mostrar que o capitalismo cognitivo não é o capitalismo, é a crise do capitalismo. Não há produção de valor no cognitivo. É absurdo dizer que a produção de valor é a produção de informação. A informação não pode ter valor, posto que ela não é mercadoria, e dizer que ela é um valor e que existe capitalismo cognitivo, é negar o potencial de subversão, de gratuidade que existe na economia do imaterial".
Essa afirmação traz toda uma essencial preocupação com a linguagem. Porque dar o nome de capitalismo a algo tão subversivo se é o capitalismo é o inimigo?

Gorz se suicidou na última segunda-feira, aos 84 anos, junto com sua mulher, muito doente há 4 anos.
Morreram lado a lado em casa.
Traduzo abaixo o primeiro parágrafo do romance Lettre à D. - Histoire d'un amour - que Gorz escreveu em 2006, sua última publicação:
"Você vai fazer oitenta e dois anos. Você encolheu seis centímetros, você não pesa mais que quarenta e cinco quilos e você continua bela, graciosa e desejável. Fazem cinquenta e oito anos que nós vivemos juntos e eu te amo mais que nunca. Eu tenho novamente um buraco no meu peito, um vazio devorando que somente preenche o calor do seu corpo contra o meu."

O último do mesmo livro:
"Nós gostaríamos de não ter que sobreviver à morte do outro. Nós nos dissemos frequentemente que se, pelo impossível, nós tivéssemos uma segunda vida, nós gostaríamos de passá-la juntos."
«J'essaye de montrer que le prétendu capitalisme cognitif n'est pas du capitalisme, c'est la crise du capitalisme. Qu'il n'y a pas de production de valeur dans le cognitif. Il est absurde de dire que la production de valeur, c'est la production d'information. L'information ne peut pas avoir de valeur, puisqu'elle n'est pas une marchandise, et dire qu'elle est une valeur et qu'il y a un capitalisme du cognitif, c'est nier tout le potentiel de subversion, de gratuité qu'il y a dans l'économie de l'immatériel.»

"Tu vas avoir quatre-vingt-deux ans. Tu as rapetissé de six centimètres, tu ne pèses que quarante-cinq kilos et tu es toujours belle, gracieuse et désirable. Cela fait cinquante-huit ans que nous vivons ensemble et je t'aime plus que jamais. Je porte de nouveau au creux de ma poitrine un vide dévorant que seule comble la chaleur de ton corps contre le mien.»

«Nous nous sommes dit que si, par impossible, nous avions une seconde vie, nous voudrions la passer ensemble.»

2 comentários:

Vinícius Reis disse...

Cezar,
Que texto mais bonito!
Que história desse casal!
Com certeza estão mais do que juntos, para sempre.
Abraços.
Vinícius.

Migliorin disse...

Lindo né?
releio essas passagens do livro e é difícil de acreditar que tenha levado esse desejo até o fim.
Emocionante!
O suicídio aqui é de uma brutal vitalidade.
meu abraço
Cezar