27 de set de 2007

Estômago, de Marcos Jorge

Estômago é um filme saboroso. Péssimo trocadilho para um filme em que o personagem central é um cozinheiro.
Atuação excelente de João Miguel.
Quando Estação Carandirú, de Drauzio Varela, que certamente foi uma referência para Marcos Jorge, um dos personagens que mais me impressionaram foi o do preso que refaz a comida na prisão. Ele recebe uma gororoba e transforma aquilo em algo saboroso. Talvez por identificação - se um dia eu for preso vou fazer isso - esse personagem me impressionava. Naquele ambiente infernal ele trabalha com odores, perfumes, sabores, cores e combinações. Uma tensão óbvia, mas poética.
Pois é o que faz Raimundo Nonato no filme. Por conta de seu talento na cozinha ele consegue subir na vida, tanto quando está em liberdade quanto preso.
O filme é especialmente divertido por conta da forma como o talento de Nonato é meio que apartada do lugar em que ele está. Na prisão suborna o policial para comprar Gorgonzola e Angustura e serve Carpaccio para o chefe dos criminosos. Uma delícia!
O filme me fez pensar em um momento de Barry Lyndon do Kubrick (1975). O filme é dividido em capitulos e um dos deles se chama algo como : De como Barry Lyndon perdeu seu filho em um acidente de cavalo. A cartela sai e o filme narra o que prometera que iria acontecer.
Seria demasiadamente cruel com os espectadores não avisá-los que o personagem principal, com quem certamente já estabelecemos uma relação de identificação, perderá o filho.
Pois esse é uma forte incômodo em Estômago.
O personagem de João Miguel é excelente, e passamos o filme muito colados a ele, torcendo pelo seu sucesso e encantados com seu talento espontâneo e natural. Mas, o tempo todo sabemos que ele irá preso, já que o filme narra as duas situações em paralelo - a chegada em SP e a chegada na Prisão.
Essa apreensão nos distancia do que é divertido e delicado no filme. Frequentemente me vi envolvido com o filme e me dizendo: "Ai não, agora ele vai fazer uma besteira e vai ser preso."
O filme cria um tipo de tensão absolutamente desnecessária, que mais nos distância do que o filme tem de rico do que nos mantém junto à ele.
Um filme popular que espera uma boa distribuição. DVDs a 5 reais, por exemplo!

Um comentário:

Pedro Ivo disse...

Vi o filme no último sábado, na Mostra de Cinema de Tiradentes (MG). João Miguel estava presente e disse que se inspirou muito em Grande Otelo e Oscarito para fazer o Nonato. Não acha engraçado?

Eu não conhecia o trabalho de Marcos Jorge e gostei muito do filme. Até acho que tem potencial para entrar no circuito. Por que essa idéia da distribuição em DVD por 5 reais?