25 de mai de 2008

Imigrantes e migrantes; Itália.

Na semana passada, em uma mesa de bar, um conhecido dizia:
- Não gosto de Argentino!
- E de paraibano, acreano ou paranaense, você gosta?

Para mim, gaúcho de Porto Alegre, um argentino é alguém culturalmente bem mais próximo que um amazonense de Manacapurú, mas, mesmo para um gaúcho, é aceitável dizer que não gosta de Argentino, enquanto dizer que não gosta de Baiano é bastante ofensivo.

Berlusconi entende bem disso.

O Migliorin que levo no nome aparece por conta de alguns imigrantes que chegaram da Itália no início do século. Analfabetos e sem um tostão se viraram no interior do Rio Grande do Sul. Minha avô que nunca frequentou uma escola falava com palavras do espanhol. Esse português lindo que se apega ao vocabulário sem fronteiras dos gaúchos.

Para Berlusconi seriam todos criminosos.
Mas, não apenas para Berlusconi, para a maioria do povo italiano que apoia a mudança nas leis de imigração italianas.

O pacote de medidas estipula que um imigrante ilegal é criminoso.
São 500 mil imigrantes na Itália que só no ano passado pediram legalização de sua situação. Agora, ao pedirem legalização - porque já estão no país há 10 anos, com filhos, por exemplo - o pedido se torna uma confissão de um crime.

Pedir esmola é crime também.

Os homens se tornaram um entrave nos fluxos globalizados.
As mesmas leis que se aplicam ao controle de mercadorias que circulam de país a outro devem - segundo os italianos - ser aplicadas às pessoas.

Não se trata de comparar a imigração hoje com a do início do século XX.
É apenas evidente a incapacidade que tivemos nesses 100 anos de incorporar de maneira mais digna as vidas que não são nem paraibanas, nem argentinas, nem romenas ou italianas; mas apenas vidas.

A incapacidade de pensar a vida sem a lógica da mercadoria é razão suficiente para que os italianos tratem com a desfaçatez de uma mesa de bar as leis de uma país e a decisão de que vidas podem ser vividas e quais não.

Um comentário:

Gabriel Malinowski disse...

Lembrei de vc ontem vendo um filme-dispositivo: Zidane A portrait du 21eme siècle. Já viu? Um jogo de futebol, 90 minutos, 17 cameras, Zidane.
Continuo passando aqui pelo Polis de vez em quando... Muito bom o contato com seus pensamentos.
Abração