25 de nov de 2017

Por vezes o universo das imagens parece bastante estagnado, no cinema ou no teatro, depois das tantas voltas no século XX, estamos aí com narrativas organizadas espacial e temporalmente, personagens bem construídos, relações de identificação, desafios realistas para atores, etc. Todas essas coisas que adoramos também. “Como nossos pais” da Laís Bodansky e “Corpo elétrico”, do Marcelo Caetano são exemplares. Dois bons filmes.
Entretanto, as investigações com imagens não andam tão paradas.
Em Campinas, o Sírius será inaugurado esse ano. Um acelerador de partículas do tamanho de um estádio de futebol que gerará luz, mais especificamente, raios síncrotron, uma radiação que permite obter imagens de moléculas e matérias. Permite fazer imagens de átomos de proteínas. Para chegar ao síncrotrons os elétrons são acelerados a uma velocidade próxima da luz – centenas de milhares de voltas no “estádio” por segundo. Uma luz que sai de um "microscópio" gigante para se ver o que ainda não foi visto. Ver é uma invenção.
Na Áustria, uma cientista brasileira - Gabriela Barreto Lemos, com mais quatro colegas, conseguiu uma imagem que não é fruto da luz refletida. O experimento é o seguinte: um feixe luz atravessa um cristal que divide os fótons. Ao ser dividido, um fóton atravessa uma imagem de um gato e se dissipa, o outro fóton não atravessa o gato e chega em uma máquina fotográfica trazendo a figura do gato. Sem nunca passar pelo gato a luz que chega à câmera traz o gato. A imagem não depende do objeto, é gerada por uma comunicação entre a matéria. Para ver algo não é preciso ter acesso ao que deve virar imagem.
No século XIX, o fotógrafo inglês Eadweard Muybridge provava, com fotos, que um cavalo ao correr tira as quatro patas do chão. Foram essas imagens que os pesquisadores da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, utilizaram para um experimento inédito. Eles colocaram as imagens no DNA de uma célula de uma bactéria. Ao se reproduzirem as bactérias levaram as imagens do cavalo. Em cada bactéria pode-se colocar o equivalente a milhares de DvDs; Hds vivos, que, segundo os pesquisadores, poderão também coletar informações, além de guardá-las.
Imagens, arquivos, memórias, gatos, cavalos.
Aqui na esquina, no CCBB, a peça Guanabara Canibal é mais um desses experimentos. O teatro como um acelerador de partículas - inventando uma visibilidade, trazendo imagens e relações sensíveis com fatos e memórias que não vimos ou tivemos.
Tudo muito claro mas bem misterioso.

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