19 de jul de 2007

Miceli, Mourão e Marepe (Jogos Visuais)

Exposições temáticas como a que está na Caixa Cultural (RJ) são sempre difíceis, as obras ficam nesse tenso diálogo com o tema proposto e frequentemente submetidos à ele.

A exposição com curadoria de Manoel Fernades gira em torno do esporte, obviamente na carona do Pan e leva o nome de Jogos Visuais.

Três trabalhos me interessam especialmente.

A pequena área e o círculo central é um trabalho de 2002 de Raul Mourão, um tipo de maquete para grande esculturas que reproduzem as linhas de um campo de futebol. Mas o trabalho, conceitualmente forte, acaba funcionando também como maquete. As linhas soltas no gramado explicitam um diálogo do esporte entre a ordem, presente na geometria, e a leveza mais aleatória das linhas que não encontram um lugar estável. A flutuação daquelas linhas no campo de futebol desfuncionalizam o espaço de esporte abrindo-0 para a poesia.

A poesia está presente no vídeo Aquecimento Corporal da Seleção Santoantoniense, de Marepe. Trata-se de um vídeo de 5 minutos em que vemos o aquecimento de um time de futebol. O campo, a imagem e os uniformes dos jogadores distanciam esse aquecimento dos que as vezes vemos na Tv, dos jogadores profissionais. Aqui tudo é cercado de uma certa fragilidade, de um certo amadorismo. Mas é no movimentos e nos sons que os jogadores fazem que dimensão lúdica e estética venha à tona. O prazer do jogo é captado nesse vídeo com grande frescor, antes mesmo do jogo começar.

O terceiro trabalho é o vídeo de Alice Miceli, 99,9. Variando a velocidade de um corredor de 100m, da velocidade normal até a fixidez da imagem, o vídeo traz a dimensão da impossibilidade de sucesso dessas competições. O corredor nunca chega, a imagem congela antes de ele completar os 100m. Seu adversário é o tempo, como em tantos esportes, e esse não tem como ser vencido. Toda vitória é sempre frágil e risível; 0,001 segundo na frente do segundo lugar. Quem vence é a fábrica do relógio, não o atleta.

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