23 de nov de 2007

Jornalismo castiga com voyerismo

O Globo publica hoje uma matéria sobre a prisão da esposa de Fernandinho Beira-Mar.
A foto escolhida para a matéria mostra uma mulher que o Globo chama de "Outra acusada" e que aparece na matéria entrando em um camburão de maneira que podemos ver sua calcinha.
O jornal faz uma mistura entre flagrante fotográfico, voyeristico e vontade de fazer justiça com as próprias mãos, humilhando a "acusada".

É sempre perturbador ver o lugar em que se coloca o jornalista que faz uma escolha como esta. Incorpora uma mistura de editor de site erótico com página policial e Revista Caras. Tudo feito com muito prepotência e desrespeito.

Se ela será condenada ou não é secundário. O que interessa é punir com espetáculo.
Enquanto a acusada cobre o rosto o jornal mostra sua calcinha, fazendo a punição retornar ao corpo, não como suplício mas como humilhação que passa pela imagem.

Acho que esta imagem é absolutamente reveladora de um lugar inaceitável que o jornalismo acupa e tende a naturalizar. Uma imagem para não se abandonar com a rapidez.

7 comentários:

Fernanda Bruno disse...

oi Cezar,
Não tinha visto ainda essa matéria. Muito bom o seu comentário. Sim, o jornalismo garantindo punição, voyeurismo e espetáculo. Vou citar no Dispositivos.
beijos
Fernanda

Migliorin disse...

Pensei no teu artigo para a Cinética quando escrevi esse post, claro.
Em breve estará no ar.


Raras vezes esta mistura se mostra de maneira tão explicita, né? Acho que é isso que me chocou mesmo nessa imagem, uma naturalização radical desta ética.

beijos
Cezar

Fernanda Bruno disse...

Acabei de postar dialogando contigo, mas fiz uma enorme digressão sobre o suplício para colocar uma questão que de fato não sei responder. A questão é para você ;-)

Claro, essa mistura raras vezes é eplícita em jornais como O Globo, mas nem tanto na imprensa mais "popular". Adoraria fazer uma coleta dessas imagens, mas...Fico grata a vc por colocar essa na roda.

Sobre a Cinética, vc sabe se vou ter um retorno para revisão antes de ir ao ar? seria bom...
beijos.
Fernanda

Migliorin disse...

o debate continua no blog da Fernanda Bruno:
http://dispositivodevisibilidade.blogspot.com/

paoleb disse...

o corpo... tenho pensado justamente no corpo como produtor de imagem no lugar do olhar. se pelo olhar como disse a fernanda estamos sob o risco de vigilantes ou voyeurs, pelo corpo estamos como abertura, presença, devir, numa idéia de res extensa e não de
res cogito, não geo métrico mas geo gráfico uma escrita do espaço no lugar de um cálculo; como disse barthes: scriptural no lugar de sculptural.

Vinícius Reis disse...

Esta não é apenas uma imagem justa. É uma imagem injusta.

Migliorin disse...

é Paola, lá no Blog da Fernanda ainda tentei pensar um pouco o apagamento político que a moça se auto-impõe ao tapar o rosto.

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Pois Vinícius, muito bom,
para o jornalismo trata-se de fazer justiça com uma imagem como se fosse "juste une image" a nós cabe torná-la injusta né?

abraços
c.