19 de jun de 2007

Humanismo sem política

No Globo de hoje uma foto mostra mulheres e crianças que fogem de um tiroteio. Essa foto, que já não tem mais poder de comunicar coisa alguma diante da reincidência expõe a incapacidade e/ou o conservadorismo do jornalismo.
A imagem aparece como uma indignação - crianças não podem ir à escola, "lição de violência" "morador agredido por policiais" - mas o mesmo gesto de indignação se torna uma reclamação enfadonha corroborando uma ordem em que a explicitação do puro sofrimento dos moraodres desta área da cidade são saturados e nada mais falam. A indignação do jornal é também o gesto que cala as vítimas e as separam do mundo em que vivem os jornalistas e os leitores do jornal. Crianças e mulheres nessa situação são vítimas absolutas, já tem seu papel definido na narrativa, logo não aparecem como atores de uma política possível. São indivíduos calados pelas balas e pelos jornalistas da matéria.
A matéria contrói ainda uma simplificação dicotômica entre traficantes e policiais de uma lado e moradores - mulheres e crianças - de outro.
"Traficantes e policiais travam batalha... enquanto crianças da Vila Cruzeiro, na Penha, comemoravam a volta às aulas"
Essa série de simplicações ocupa o jornal que percebe apenas dois campos possíveis: as vítimas - mudas, fora do jogo político onde tudo que lhes resta é o direito puro de ir à escola, como se não fizessem parte dos acontecimentos - e os carrascos, representados pelo tráfico e o estado; como se esses dois lados explicassem a totalidade das partes envolvidas, como se dessem conta do conflito como um todo.
O desafio do jornalismo me parece ser a tentativa de se aproximar dos que estão diretamente envolvidos no conflito e que não se reconhecem como vítimas, policiais ou traficantes apenas, mas isso imporia uma complexidade para o que se passa, imporia a política mesmo em que os sujeitos não se reduzem ao papel que fazem na foto e isso é complicado e desestabilizador, ai voltamos ao conservadorismo da matéria.
Em caso como esses podemos dizer como Rancière "o pensamento se inclina diante do impensável" É isso que faz esse jornalismo, tornar a violência, o tráfico, a corrupção, parte de um grande impensável onde a única reação possível é a indignação inócua.
"Nós somos todos traficantes e policiais, mães e filhos, jornalistas e fotógrafos" a política se fará quando esses papéis perderem suas objetividades.

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