29 de jul de 2016

13 abril 16


Das mais duras realidades que a atual situação política nos coloca é que a democracia parece não ser um valor universal no país.
Basta dez minutos de Globo News, algumas conversas – eventualmente familiares – ou uma escuta atenta por transportes públicos, para percebermos o desprezo pela política e pela democracia.
A grande mídia manipula, engana e é responsável pelo consenso que se forma contra o estado de direito; essa é nossa percepção mais imediata, intensamente repetida. Quando dizemos que manipulam e enganam, pressupomos o enganável e o manipulável – que são sempre os outros. Nós sabemos que a grande mídia mente, os outros não. Essa distinção não me parece tão óbvia. Preciso no mínimo desconfiar dessa separação tão rígida entre os esclarecidos e os ignorantes.
Levemos a sério a transformação e o acesso à universidade; o acesso ao consumo e aos bens que possibilitam conforto e informação; levemos a sério as importantes lutas que se intensificaram nos últimos anos, levemos a sério que depois de quatro governos do PT há um país com importantes diferenças.
Nos cabe então a pergunta, como pode essa população ser enganada? Como pode ser manipulada pela mídia?
A grande mídia é reflexo e produção de mundo.
Na atual conjuntura a grande mídia é golpista sim, mas talvez sem enganar ninguém.
A urgência dos ganhos, da competição de todos contra todos, do hedonismo quantitativo, dos sujeitos que devem se administrar como empresas e das defesas de territórios de fala das identidades proprietárias, é a lógica que domina os modos de ser contemporâneos. Não estamos livres dela.
Dentro dessa lógica, a espera e a escuta necessárias para a política, a construção de um espaço comum não pautado pela competição, o respeito às regras que garantem igualdades e processos conflituosos sem eliminação dos “inimigos”, tudo isso parece algo absolutamente obsoleto.
Novamente. Sim, a mídia é golpista, mas talvez não esteja separada das formas golpista que temos construído no cotidiano.
O golpismo cotidiano é aceitar a competição generalizada em que a não eliminação do outro é coisa para os derrotados.
Breve, toda simples acusação que dissocia a mídia dos modos de ser contemporâneos em que a democracia e o estado de direito são questões secundárias, encobre o lugar onde as disputas estão efetivamente se dando: nos modos de vida. Modos esses que a mídia participa mas não produz sem intensa colaboração.
Ser contra o impeachment hoje é dar algum limite à lógica golpista que transcende o impeachment.

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