11 de out de 2007

As mãos, Bacon, Drew, Kennedy e Focillon

Foi editado recentemente em português o livro de Gilles Deleuze sobre o pintor inglês Francis Bacon, Lógica da Sensação. Trata-se de um livro breve que de maneira clara permite uma ótima entrada no universo deleuziano e uma excelente aproximação com um dos maiores pintores da segunda metade do século XX.

Na verdade me lembro agora do livro por conta de uma saudade que tenho tido do cinema-direto. Tantos documentários e tanta gente falando. Fora as diversas questões que Bernardet levanta no texto “ A entrevista” que ele inclui na última edição de Cineastas e Imagens do povo, o livro sobre Bacon me lembra que nos filmes frequentemente perdemos as mãos - não aquelas das imagens de cobertura em que as mãos ficam a reboque da fala e servem para enfatizar o que o texto já diz.

Deleuze diz que para Bacon é “como se as mãos tomassem uma independência, e passassem ao serviço de outras forças, traçando marcas que não dependem mais da nossa vontade que da nossa visão […] Não é suficiente dizer que o olho julga e a mão opera, a relação entre a mão e olho é infinitamente mais rica”

No belo texto de Focillon, Elogio à mão, ele escreve : "Ela pega, ela cria, e por vezes diríamos que ela pensa”
Pois o cinema direto tem essa possibilidade. Todos lembram das mãos de Jacqueline Kennedy em Primary, de Robert Drew, recentemente lançado pela Vídeofilmes. É fácil dizer que ali as mãos revelam o nervosismo da futura primeira dama, mas é mais do que isso. Se formos no caminho indicado por Focillon, as mãos não estão representando um estado de Jacqueline Kennedy, mas são, elas mesmas, que estão a pensar e se expressar.

comme si la main prenait une indepandance, et passait au service d’autres forces, traçant des marques qui ne dependent plus de notre volonté ni de notre vu”. […].” Il ne suffit certes pas de dire que l’oeil juge et que les mains operent, Le rapport de la main et de l’oeil est infinement plus riche” (Bacon/Deleuze p.145)

"
elle prend, elle crée, et parfois on dirait qu'elle pense" p.104
A tradução é minha, a da edição brasileira é certamente bem melhor.

2 comentários:

paoleb disse...

"Un corps humain est là quand, entre voyant et visible, entre touchant et touché, entre un oeil et l'autre, entre la main et la main se fait une sorte de recroisement, quand s'allume l'etincelle du sentant-sensible..." (l'oeil et l'esprit)

Migliorin disse...

Merci,

que tradução difícil...
muito bonito.

uma existência necessariamente coletiva.