11 de out de 2007

Inhotim 3 - Chris Burden

O isolamento de Inhotim talvez cause estranhamento pela ausência do estado no grande empreendimento . Estamos muito acostumados a ver a presença de alguma grande instituição estatal ou de verbas públicas quando se trata de arte.

Lembro- me personagem de Jack Palace em “O desprezo” de Godard. “Quando ouço falar em cultura pego meu talão de cheques.

Pois Inhotim tem a explicita ausência do estado, o que é fantástico também. Mas como pensar em uma ausência do estado e ao mesmo uma dimessão democrática e comum? Talvez o problema sejam as próprias artes plásticas… Como é possível algo tão grandioso, onde existe tanto dinheiro se não fossem as artes plásticas tão vinculadas à especulação e ao capital financeiro?

No lugar de INHOTIM poderia existir uma fazenda privada, com os mesmos cisnes e lagos, sem que ninguém pudesse visitar. Ou então uma ilha em Mônaco, destino mais tradicional de tanto dinheiro.

Nesse sentido Inhotim tem um papel público importante. As crianças da periferia de BH que vimos ali dificilmente veriam os trabalhos de Tunga, Cildo Meireles ou Oiticica em outras condições.

Na última galeria que visitamos, nos deparamos com Samson (Burden explica a obra) um trabalho que eu não conhecia do artista americano Chris Burden, (ver post com link para vídeo com performances de Burden). Pois Chris Burden é um artista paradigmático dos limites que a arte chegou nos anos 70. Em uma de suas performances – ShootBurden leva um tiro no braço, de propósito. Seu corpo sempre esteve na obra e sua obra sempre foi muito arriscada, para ele, claro, mas para a arte também. A obra que está em Inhotim não é diferente. Trata-se de um grande macaco-hidráulico colocado entre duas paredes da galeria, afastadas por uns 15 metros. Na estrada da galeria, cada pessoa, para se aproximar da obra deve passar por uma roleta que esta conectada ao mecanismo que a cada passagem pressiona um pouco mais o macaco contra a parede da galeria.

Um trabalho incrível que coloca o espectador como participante da destruição da obra e da galeria, ou se preferirmos, da transformação da obra.

Depois de passar pela roleta, ir buscar o nome do artista e ter o prazer de me deparar com o nome de Burden, a Flavia me chama atenção para o fato que a correia que deveria fazer o mecanismo girar milimétricamente a cada passagem dos espectadores estava girando em falso e que, obviamente, as paredes não estavam sendo pressionadas.
Era a útima galeria que estavamos visitando e, com ela, Inhotim vinha abaixo – de maneira diversa da imaginada por Burden

Alí se materializava todo incômodo de Inhotim. O mundo e aquele lugar estavam blindados aos efeitos da arte. Sobravam os nomes, os artistas, as obras, as estéticas, os lagos, mas tudo isso é isolado. O futuro museológico das obras é ali levado à mais alta potência.

Como disse um amigo, a partir do trabalho de Burden, tudo passou a rodar em falso em Inhotim. Novamente, por caminhos tortos, Burden é capaz de explicitar um estado do mundo.

4 comentários:

ariel disse...

Eu penso a mesma coisa. Mas acho que a obra de Burden é (seria) um pouco mais terrível. pq a iéia não é apenas, eu acho, destruir a obra e a galeria, mas jogar a baixo a galeria e matar soterrados todos que estiverem dentro. o públioco não seria apenas partícipe, mas um suicida. hoje parecemos mais uns consumidores que rodam roletas de ônibus, catracas de controle, etc, etc.

Isabel disse...

Só para constar: as paredes de Inhotim que "Samson" pressiona são falsas. Se elas racharem, nada cai. Mas por preguiça de ficar repintando as paredes, a polia foi deslocada. A obra de Burden é que morreu ali, foi assassinada....

Raniel Mendes disse...

Galeria maravilhosa, adoro este museu, e o Chris Burden é um artista sensacional.

Anônimo disse...

A obra Samson nunca pretendeu destruir a galeria de verdade. Chris Burden mesmo diz que a obra não funciona 'literalmente'...