20 de out de 2007

Fontana de Trevi vermelha

Algum tempo atrás comentei o livro São Paulo:Pixação.
Lembro-me agora desse livro ao ver as imagens da Fontana de Trevi, em Roma.

A Ação em Roma se une à pixação de SP, ou de qualquer lugar do mundo, uma vez que é considerada um ato de vandalismo ao mesmo tempo em que ocupa uma parte da cidade com um forte gesto estético. Nos dois casos, desprezar o gesto estético talvez seja importante para não reforçar esse tipo de manifestação como ação legítima, mas ao abandonarmos o gesto estético estamos também deixando de lado um debate propriamente político sobre a cidade e as repartições que nela se fazem.
A Fontana de Trevi vermelha não é menos impressionante que a Pont Neuf embalada por Christo, estes limites entre arte e não arte, obviamente não tem nenhuma estabilidade. Quem já esteve na Fontana de Trevi sabe como ali se materializa a museificação que o turismo opera em determinados lugares das cidades e por vezes em cidades inteiras. O maravilhoso projeto Velolibre, em Paris, que tenta transformar a cidade em uma cidade para ciclistas, distribuindo bicicletas públicas em mais de 1300 pontos da cidade, por exemplo, não escapa dessa dimensão.
A Fontana de Trevi é um fonte onde não se pode tocar na água, ela é tratada como uma pintura, como se estivesse no Museu do Vaticano. Seu entorno é absolutamente degradado pelos turistas. Curiosamente foram imagens feitas por turistas que ajudaram a polícia a identificar a pessoa que jogou a tinta na água.
A tinta jogada na água pelos ativistas pode manchar o mármore poroso da fonte de maneira definitiva, é triste. E agora? Desprezamos o gesto e o tornamos apenas um crime, que de fato é? Ou fotografamos a Fontana e a alegria dos turistas, que sem o marasmo clichê de sempre, tiveram a sorte de ver a Fontana pintada de vermelho?
Me parece que em casos como esse o vandalismo não está dissociado de um desejo de reaver a cidade, torná-la viva e habitada novamente, fazendo a Fontana existir novamente como objeto passível de uma experiência estética e não apenas de uma experiência a ser transformada em algumas informações digitais na mais nova câmera Sony de 7.1 megapixel.

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