24 de out de 2007

Notas sobre o documentário como espaço democrático

Post recentes sobre a questão da democracia, basicamente escritos a partir de Rancière, me levaram a pensar algumas coisas sobre o documentário, ou, mais especificamente; até que ponto é possível pensar o documentário como um espaço democrático?

O problema não é novo; toda discussão em torno da possibilidade do documentário dar voz ao outro passa por esse problema da palavra, do poder e do compartilhamento de uma espaço físico e simbólico.

Duas semanas atrás assisti na Mostra de Curtas de Goiânia o filme Jardim Nova Bahia, de Aluysio Raulino, (dentro de uma excelente mostra de documentários históricos organizada por Tetê Mattos) discutido por Bernardet (Entrevista) em Cineastas e Imagens do Povo. No filme, como sabemos, Raulino entrega a câmera para seu personagem. Segundo Bernardet, " é provavelmente o ponto de tensão máxima a que chega a problemática relação cineasta/outro de classe".

No filme de Raulino esta tensão chegava ao ponto de o realizador entregar a câmera, entretanto, o problema estava longe de ser resolvido. Nem a palavra estava dada ao personagem do filme, nem a prática se tornaria uma forma de compartilhar a linguagem entre realizadores e as pessoas presentes no filme.

Antes, acredito que o documentário se torna democrático quando ele inventa formas para que um gesto ou um som intempestivo possa surgir, mas, mais do que isso, que essas palavras se tornem enunciados. Ainda em Goiânia, assisti o bom documentário de Eric Laurance "No rastro do camaleão" . No curta-metragem, por três vezes, o grupo de artistas/agricultores, já filmados em diversas oportunidades, como nos mostra o filme, interpela os realizadores sobre o fato de eles serem "objetos" de um produto comercial, que dá dinheiro para o cineasta e não traz nada para eles. Os personagens expõem com clareza a sensação de estarem sendo explorados no momento mesmo que o filme se faz. O que faz o documentário diante dessa insistência? Se cala.

Poderiamos então dizer que se por um lado o filme constrói um espaço em que a fala reivindicatória desses indivíduos pode aparecer, por outro é o próprio filme que não se vê concernido. A reinvidicação é transformada em anedota, não passa assim a habitar o mesmo dizível dos realizadores; "eu te deixo falar mas não te escuto".

Algo muito diferente do que acontece no filme Mato Eles?, de Sérgio Bianchi. Em um certo momento do filme, um índio já de mais idade pergunta ao realizador: "E o senhor, quanto está ganhando para fazer esse filme?" O realizador no momento não responde, mas logo depois, nos créditos, aparece em off dizendo algo como: "Você quer se dar bem em cima deles? Monta uma loja de produtos indígenas, fotografa ou faz um filme". A fala irônica de Bianchi reinsere a fala do índio em um mesmo espaço de tensão. Não se trata de dar razão ao índio, mas de fazer aquelas palavras ecoarem.

Seguindo com Rancière, a palavra se torna política quando ela é capaz de enunciar um litígio, quando ela aparece como o que perturba a distribuição dos corpos no espaço, quando ela refaz linhas de visibilidade, retraçando e desestabilizando a partilha do sensível. A palavra habita assim a cena política como produtora de um dissenso, trazendo para esta cena a possibilidade de irrupção de atores intempestivos, não roteirizados, que adentram a política sem serem chamados, em um esforço de linguagem que rompe a estabilidade dos conflitos pré-existentes. A cena política não é assim um lugar de acordos que organizam relações e poderes, mas de irrupção de seres falantes, de línguas e gestos em um universo que perde suas estruturas e seu caráter "policial", de distribuição de lugares já dados, para se haver com uma suspensão mesmo dos lugares que garantiam a desigualdade. A política não está dada à priori, como parte da natureza humana. As partilhas que se vêem estáveis, onde não há mais o lugar de um sujeito excessivo que perturbe a partilha, são justamente os lugares em que a política tende a desaparecer.

Trazer essas noções de democracia para o universo dos documentários é um gesto arriscado. Entretanto, os problemas que a presença ou ausência da democracia colocam estão diretamente ligados à uma construção de uma cena em que uma relação entre indivíduos, instituições e tecnologias se dá, e a construção de um documentário depende, intensamente, desta cena, depende da presença desses sujeitos e das formas como cada um dos pontos e atores desta cena se relaciona com os outros pontos e atores.

Rancière me estimula a fazer uma outra passagem entre sua reflexão sobre a democracia presente no livro "O ódio à democracia" e o universo do documentário. Como o escândalo da democracia é justamente ausência de título para justificar que x governe y ou vice-versa, Rancière pode afirmar que democracia quer dizer antes de tudo um "governo" anárquico, fundado sobre nada mais que a ausência de título para governar" (La haine de la démocratie, p. 48)

Diante desta realidade, Rancière nos lembra que Platão não elimina a possibilidade da escolha dos governantes ser feita por sorteio por dois motivos; o primeiro é que o bom governo é feito por aqueles que não desejam governar - "Se há uma categoria a excluir da lista dos que estão aptos a governar, é em todo caso aqueles que lutam pelo poder" (La haine de la démocratie, p. 50) . O segundo motivo é que o título para governar pelo sorteio - que não é verdadeiramente um título - , produz um efeito de deslegitimação sobre todos os outros títulos - riqueza, idade, poder econômico, poder religioso. O sorteio rompe assim com a oligoï - riqueza de poucos - e com a arete - excelencia que dá o título governar aos aristoï - os melhores - deixando ao demos - povo - o governo, uma vez que seu poder se exerce sem nenhuma propriedade pré-determinada.

Pois estamos no cerne do problema, todas as formas de legitimar um poder se opõe à democracia e consequentemente à política. Sigamos com Rancière; é necessário um título suplementar para que o rico possa governar o sábio ou que a maioria possa governar o rico ou que o sábio possa governar a maioria e este título é, segundo o filósofo, um título anárquico, próprio àqueles que não tem título para governar. Um título que se impõe pela ausência de título a governar. Para Rancière, em última análise, a política é o poder daqueles que sem razão natural para governar, governam aqueles sem razão para obedecer. (p.55)

O acaso, presente no sorteio dos governantes, é o que me interessa. Escolher os governantes por sorteio pode parecer apenas risível e não se trata aqui de fazer a defesa deste sistema. A ligação entre o sorteio e a legitimidade é o que me parece importante para olharmos para o que acontece no documentário. Se uma importante parte do documentário moderno tem justamente o desafio de lidar com uma falta de legitimidade para enunciar, é para o acaso presente em formas de "sorteio" que ele se volta. Filmes de busca e com dispositivos, por exemplo, são formas de não escolher as pessoas com quem o realizador irá se relacionar. Nesta não-escolha, não se trata de dar voz, fazer ver ou revelar o que está escondido, mas de encontrar meios para que todos os atores envolvidos no filme - realizador e personagens - possam habitar um universo propriamente político, em que a palavra possa ser dita e ouvida, em que o dissenso possa existir.

Nesse sentido, volto a me lembrar do novo filme de Eduardo Coutinho, Jogo de Cena em que cada fala é transformada em texto para as atrizes, redobrando-se assim a escuta daquelas falas que compõe um cena propriamente política.

Um comentário:

Jec 04 disse...

Excelentes comentários.
www.egrandeelenco.com.br/grimpe