13 de out de 2007

Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho (2)

Depois de Jogo de Cena, penso em `Edificio Master, Santo Forte ou Babilônia 2000 tendo em mente o que mais me comoveu no novo filme, ou seja, a dimensão coletiva das falas.

O texto é dito por alguém, mas ao mesmo tempo em que é dito faz a pessoa desaparecer como indivíduo para ser uma ponte para a própria linguagem. Pois, não é isso que acontece em Jogo de Cena? Uma enunciação sem propriedade.

Nunca houve uma fala individual. Nos filmes anteriores, o que interessava era a dimensão coletiva da linguagem, é o que Jogo de Cena revela. Os filmes não são sobre as pessoas, é essa dimensão que Coutinho com esse filme trouxe para toda sua obra recente.

Coutinho manteve a mesma geografia, mesma relação espacial entre ele e o personagem mas deslocou-a para o teatro e retirou de um ou de outro, de Antonia ou Maria o direito de reivindicar para si suas próprias histórias.

A fala quando sai de um se torna infinita; do um ao múltiplo com um corte. E ai, a fala não pertence a mais ninguém e a todo mundo. É isso que acontece quando percebemos que duas mulheres contam a mesma história como o mesmo grau de envolvimento.
Maneira explicita de destruir as fronteiras entre o individual e o coletivo.

E não sei mais quem é Fernanda ou Andréa, Marília ou …

E o dispositivo não tem artimanhas, não está dado de início, é feito e refeito durante o filme e a montagem. A “prisão” de Coutinho aqui ganhou asas e se liberou, nem por isso deixou de ser um dispositivo.

O “outro” nos filmes de Coutinho traz algo enganoso em relação à atenção com esse “próximo”. Por mais que não desejássemos, a função sociológica do documentário de “dar voz ao outro” persistia. A revelia de Coutinho, é verdade, mas é só com Jogo de Cena que esse outro desaparece. Justamente porque não há mais um outro distinto do papel das atrizes. O outro ficou disperso, parte de todos.

4 comentários:

paoleb disse...

que lindo cezar. ainda não assisti ao filme, mas meus alunos adoraram. bj e feliz dia do mestre pra ti tb!

Carlos Alberto Mattos disse...

Ao mesmo tempo, Cezinha,não te parece que a história, desvinculada da "propriedade" do dono, vira história pura, texto absoluto? Nos filmes do Coutinho, sempre havia implícita essa dimensão do texto para além do seu autor. Agora ele está reinando impávido, acima de vozes e donos. Será que o Coutinho matou as pessoas para fazer viver o texto?

Migliorin disse...

Acho que é isso. O que me encantou no filme foi sobretudo essa independência que o texto ganha de um sujeito único. Acho que o Coutinho não eliminou as pessoas para viver o texto não, me parece mais que as pessoas deixaram o isolamento. Os textos se tornaram passagens de uns a outros. O que aparecia de mais pessoal nos textos ganhava imediatamente o caráter de uma fala coletiva, como se as falas ao mesmo tempo em que eram ditas fossem também escutadas. Dai talvez a dimensão propriamente democrática desse filme, essq presença, como você diz, do texto para além do autor (mas com ele).

Fernanda Bruno disse...

ei Cezar,
vi o filme essa semana e, sim, essa dimensão coletiva da fala no filme foi o que mais me arrebatou. Coloquei duas palavras sobre isso no blog e te cito. beijos,
Fernanda