19 de jan de 2010

Excluir para reinventar

Esse desfile é daqueles exemplos prontos demais para serem eficazes, mas vamos a ele.

Um estilista percebe que na estética dos mendigos há uma produção singular.


O que ele faz?
Mais do que simplesmente incorporar texturas, cores, recortes, vazios e ritmos das roupas, ele mimetiza o mendigo.

Mais do que a captura da potência inventiva daquele que está na rua e resolve o problema da vestimenta com o que tem e com o que sobra, é a própria experiência do mendigo que precisa ser capturada.

O desfile se torna assim o momento exato em que se interrompe a criação. O desfile que seria o lugar em que se exibe a criação é na verdade o encerramento de uma criacão estética que está no mundo.

Em troca de mensagens no Twitter a Fernanda Bruno lembrou:
"No Rio temos aquele designer-decorador (G Cardia) que decora as festas VIPs c/ móveis "estilo favela"
Num Rio Cena o mesmo decorador fez um mural com rostos de pobres. P/ o seu azar, um deles era louco e em sua radical lucidez... reivindicou aos gritos entrada e tratamento VIP nos espetáculos, p/ desespero da organização que, claro, barrou o sujeito."

Esta história exemplifica, justamente, a impossibilidade de a criação continuar. A organização do evento poderia ter dito ao louco ao mendigo: "Você já criou o bastante, agora fora!"

Que o capitalismo é inventor de modos de vida, mais do que produtos, isso já é claro, mas não deixa de surpreender quando ele se reinventa nos mais marginalizados por ele mesmo.

7 comentários:

Fernanda Bruno disse...

querido,
que boa surpresa ver/ler o seu blog de volta!
Quanto ao post, assino embaixo ;-)
beijos.

paoleb disse...

queridos, a estilista em questão é vivien westwood, que para mim é uma referência pra pensar atitude e contra-cultura, liberdade no vestir e no pensar, eu gosto de moda e gosto dela, que começou vestindo os sex pistols, é uma senhora louca e interessantíssima. além disso eu e minha amiga luiza marcier, estilista carioca, sempre gostamos de observar as roupas dos mendigos, a maneira como usam o plástico, as amarrações que fazem, os abotoados errados, a roupa amarrotada e uma elegância - porque não - bastante particular no vestir e no agir de alguns. ao ver as imagens do desfile de v.w. sou levada de encontro a reflexoes sobre moda que eu mesma já exercitei, e não a uma perplexidade diante do capitalismo se apropriando de seus próprios excluídos... mas, como já dizia joaozinho 30, quem gosta de pobreza é intelectual!

Luiza Marcier disse...

quando vivienne westwood coloca mendigos na passarela ela nos aproxima deles:
não somos todos passantes mesmo? só que alguns levam suas casas nas costas e inventam sua própria moda;ao sobreviver, lançam moda. Há também aqueles que sobrevivem apenas mimetizando. A moda é a pnta de lança de um comentário maior; e se vivienne westwood está falando de mendigos é que a crise deve estar mesmo barra pesada lá pelos lados da grã bretanha.

Natália Maia Coutinho disse...

Oi Cezar, acho que a Paola tem razão: a critica seria perfeita se não se tratasse da V.W. Aproveito para dizer que também fiquei feliz com a volta do Blog. Bjs

Migliorin disse...

Parece que a minha ignorância bateu forte né? Eu nunca tinha ouvido falar da Vivien Westwood.
Fiquei impressionado com a valorização da autoria que vocês deram. A assinatura dela parece ser garantia de alguma coisa.
Paola, acho que nesse caso é o contrário do Joãozinho 30, quem gosta de pobreza, nesse caso, é o mercado de moda - tá bom, não falo em capitalismo!

Luiza, talvez a estilista nos aproxime dos mendigos, eu só não sei que aproximação é essa. Não sei se ela aproxima os mendigos da moda, das passarelas, etc. Nos aproximar dessa dimensão estética do excluido ou mesmo do excentrico, é a prática comum do capitalismo. Escrevi algum tempo atrás um artigo sobre a PUMA e usei uma entrevista com o dono que dizia que o funcionário dele tinha que estar na balada, na noite, no underground. Era desses lugares não dominados que poderia sair algo. O trabalho da estilista pode ser ótimo, mas apenas me reconecta com essa dimensão do capitalismo ávido por transformar em produto o que é modo de vida. Eu, na verdade, não consigo ver essas imagens do desfile sem achar que elas estão impregnadas de um certo cinismo. Um cinismo que permite que o estético seja esvaziado de toda dor, sofrimento, miséria, exploração, etc. A descontextualização pode tornar uma bomba atômica um espetáculo sublime!
beijos e obrigado pela vitalidade.
Estou ligado na Westwood!

Migliorin disse...

http://www.viviennewestwoodonline.co.uk/acatalog/Vivienne_Westwood_Fashion_School_T-Shirt.html

Anônimo disse...

Em pesquisa e...Nem tão tarde para "declarar"....Quem sabe, ao invés de um desfile fosse uma instalação no MAM SP, e assim a v.w aproximaria mais grupos e alguns, inclusive aos mendigos. Vamos capitalizar a arte e vestir a exclusão da moda ??!!