10 de jan de 2010

O desejo asfixiado, Bernard Stiegler (Alguns Comentários)


Em O desejo asfixiado, artigo publicado no Le Monde Diplomatique, o filósofo francês Bernard Stiegler recorre a Deleuze, esvaziando a complexidade de seu pensamento sobre o capitalismo, para poder criticar a indústria cultural contemporânea. Para Stiegler a Sociedade de Controle é formado com um poder central e hierarquizado, só dessa maneira é possível pensar os mídias como um poder que pode se sobrepor à toda forma humana.
Stiegler desconsidera as múltiplas formas de interagir com os meios de comunicação, com a TV ou com os games. Provavelmente ainda não teve a chance de jogar Rock Band com o neto ou ouvir a discussão sobre a novela na fila do banco.
A demonização ingênua da indústria cultural, chamada por ele de “ máquina de aniquilamento do eu”, só pode ser entendida se o filósofo produz, antes dos meios, o aniquilamento desses “eus”. Para Stiegler, um programa de televisão que humilha a inteligência do espectador, o que sabemos é corrente, é recebido sem crítica, sem interferência por essa mesmo vida. Eis o equívoco central. O filósofo aceita o lugar que a TV coloca o público como se o público nada pudesse diante da TV.
Stiegler faz ainda uma leitura torta de Simondon. Voltando à noção de individuação, que como sabemos é parte da formação dos indivíduos à partir de um fundo coletivo e pré-individual, Stiegler ignora justamente que Simondon ajudou Deleuze, e nos ajuda ainda, a pensar a uma potência humana inapreensível pela mídia e pelo capitalismo.
A vida é o que está em jogo nesse capitalismo, Foucault deixou-nos isso muito claro, , ela é, ambiguamente, apropriada e resistência. Dizer, como faz Stiegler, que o que o marketing faz é “transformar o cotidiano e padronizar as existências” é fácil, o difícil é ver onde isso fracassa, onde as vidas se impõem. Eis o desafio intelectual, bastante mais complexo e árduo, para além de um simplório discurso que vê o “eclipse da política” como se diante das TVs houvesse apenas objetos manipuláveis.

Nenhum comentário: