4 de jan de 2010

Lula - o Filho do Brasil, um herói por acaso.

Admiro a coragem dos Barretos em fazer esse filme. Claro, ele parte de uma grande possibilidade de sucesso, retorno financeiro, etc, mas me parece ingênuo entender o filme apenas sob esse aspecto. Trata-se de uma ação de produtor que decide jogar alto, narrar a vida do presidente em exercício. Por mais épica e heróica que seja essa vida, Lula é o presidente que está ali; político, enfrentando crises, alvo de adversários diversos, governando, fazendo acordos e, ao mesmo tempo, sendo tratado como um pop star por boa parte dos brasileiro.

















Toda essa dimensão extra-fílmica assume um papel enorme. Preciso confessar que me emocionei algumas vezes enquanto Lula é Luis Inácio, ainda criança, certamente por conta da forma como o filme me reconecta com uma história que me emociona antes do filme. Duvido que aqueles que guardam antipatia em relação à Lula sintam o mesmo - vou perguntar para os meus 2 ou 3 consultores do contra e depois aviso.

O risível do filme é o esvaziamento político. Lula vira o que é para satisfazer a mãe e por conta de uma grande dose de acaso. O problema é a superação, a insistência, a vitória. Na verdade, politicamente Lula é
tratado quase como um pelego, está sempre tentando ficar longe das confusões, como pede sua mãe. O Lula herói dos Barretos poderia ser cantor sertanejo ou presidente da Volks, tanto faz, ideológica e politicamente não há nada no filme que justifique o caminho do sindicato e da política e não outro. Lula vai para a cadeia porque é macho, entra na política porque sobe em um caminhão, avisa os companheiros que não há esquerda e direita, apenas trabalhadores e por ai vai. Como um Chaplin que sem querer se torna líder de uma manifestação operária ou assume o papel de do ditador para fazer um discurso pacifista, em Lula, filho do Brasil é assim que Lula se torna presidente. Trabalhador, confiável, inteligente e, sobretudo disponível.


Na verdade, se vemos o filme como a história de Lula contada por sua mãe ele se torna mais interessante, o problema é que a visão da mãe, apesar de ser o fio condutor, não é assumida como uma visão parcial, daquela que vê na vida do filho apenas o que quer, mas como a vida de Lula MESMO. O filme conta a vida de Lula como se nunca tivesse havido nada mais que um "Lula paz e amor". Pretende-se que a imagem que hoje interessa o marketing esteve presente em toda a história do Lula; sem embates, sem posicionamentos decisivos. Felizmente não é isso que faz de Lula o presidente que ele é hoje.







(Tempos Modernos, de Chaplin,  Posse de Lula 2003, A greve, de Eisenstein - Esse plano do russo é reproduzido em Lula, filho do Brasil, uma citação singela. O que o filme não faz, justamente, é pensar a história como um problema de montagem, de aproximação entre eventos e fatos eventualmente separados no tempo e no espaço.)

Um comentário:

qualquergordotemblog disse...

Só queria dizer que eu adorei a citação que vc fez ao Chaplin em "Tempos Modernos" e "O Grande Ditador". Realmente, pelo filme parece que o nosso Lula virou presidente por acaso.