29 de dez. de 2013

Rolezinhos e cinema




Os “rolezinhos” que vem acontecendo em alguns shoppings me fizeram lembrar de uma cena de De pernas pro ar 2.
No filme,  o casal carioca vai de férias para Nova York com o filho de 11/12 anos e leva a empregada doméstica -  uma espécie de baba para a criança bem crescida. Tudo tratado com naturalidade.
Em uma das tentativas de comicidade com a ignorância da empregada, já em Nova
York, uma montagem paralela mostra a patroa, sua família e sócia entrando em lojas de grife e na loja da Mac e saindo com muitas sacolas, enquanto isso a doméstica se esbalda em uma espécie de megaloja de conveniência e sai com produtos de higiene e até uma vassoura.
A doméstica não só não tem dinheiro como também não sabe o que é bom em termos de consumo. Se satisfaz com nada.
Pois, os rolezinhos tornam sequencias como essas ainda mais constrangedoras. Explicitam o preconceito e a distância que essas comédias Jardim Botânico têm com o país.
Se alguns foram expulsos dos centros de consumo na certidão de nascimento, quando ali aparecem,  perturbam todo esquadrinhamento organizado pelas elites que se esforçam na separação, seja com as paredes sem janela dos shoppings, seja pela montagem paralela.
Invadir o shopping, zoar, se fazer presente, explicitar a exclusão, mostrar que se o consumo é parte dos processos subjetivos, a galera também sabe consumir; tudo isso é parte do rolezinho no shopping.
Já no cinema... que falta faz um rolezinho.

4 de dez. de 2013

Mostra Cinema e Direitos Humanos - Homenagem a Vladimir Carvalho


Prezado Vladimir, amigos e colegas de engajamentos

Muito me toca estar aqui hoje, como Coordenador da Mostra e Chefe do Departamento de Cinema da UFF.

Poder apresentar uma mostra em homenagem a ti, Vladimir, é antes de tudo um agradecimento.

Os que se interessaram pelo Brasil, pela democracia e pelos direitos humanos aprenderam nesses teus tantos anos de carreira a acompanhar a tua trajetória de cineasta interessado em documentar o país e seu povo.

Sabemos, meu caro, que documentar para ti não é fazer um cinema apenas explicitando o que o mundo já nos apresenta, mas uma forma de invenção e criação de uma sociedade mais justa em que cada um tenha o direito de fazer diferença na comunidade em que vive.

Não é esse o nosso ideal de democracia, ou a democracia do documentário? Uma democracia que sabe das potencias de vida, das capacidades políticas e inventivas dos homens e mulheres comuns?

Teu cinema trouxe o sertão para o grão da película e, especialmente aqui, em Brasília, se dedicou a contar as histórias dessa cidade, a questionar seus espaços de exclusão, fazendo do cinema um projeto rigoroso e urgente.

Como professor na UNB, segues como uma inspiração para nós que cotidianamente estamos na universidade.
Nas artes e no engajamento político, as hierarquias entre professores e alunos se dissolvem, e nos vemos todos no mesmo barco, escutando atentos aos homens e mulheres que o cinema insiste em fazer presente, respeitando suas formas de vida, seu direito às riquezas da comunidade e à diferença que os singulariza.
Pois foi com esses alunos também que essa Mostra foi produzida; aqui também vens como inspiração.

 Nesse espírito, assistiremos um breve vídeo feito para o dia de hoje.

Caro professor, cineasta, colega.
Em nome da Mostra, da UFF e de todos os parceiros,
Muito obrigado!



25 de nov. de 2013

Habitar a prática

Com as manifestações, o debate sobre a crise da representação parte de uma premissa que me parece equivocada.
Essa premissa diz o seguinte: escolhemos que mundo queremos e depois escolhemos os representantes do executivo e do legislativo para realizar a tarefa.
Tal premissa pressupõe que uma vez feita a escolha a execução daquele mundo está entregue ao representante. 
Pois talvez seja esse o equívoco central.
O desafio da democracia é não isolar a representantes e representados.
Quando um deputado age, quem age? Quem fala? As manifestações tem, antes de tudo esse papel, habitar a prática, provocar idas e vindas entre a representação e as ruas.
Pode parecer utópico, mas nos últimos meses é isso que estamos vendo acontecer.
Diria que essas práticas tornam bastante problemáticas uma separação confortável entre representação – que seria a prática – e manifestação – que seria o desejo, a teoria, a reflexão.
O que as manifestações – com todas as formas de vida que ela traz e mobiliza - tem feito não é propor uma democracia direta, mas inventado formas inéditas de permear o poder com as ruas.
Tais gestos não podem acontecer sem graves tensões. Nenhum poder deseja ter sua porta aberta, sua escada ocupada.
O que me parece um desafio hoje é pensarmos em como esses processos podem ser constituintes – ou seja, serem parte da manutenção e incremento de instituições e, ao mesmo tempo, políticos, ou seja, perturbadores profundos dessas instituições e dos poderes que se esforçam, justamente, em eliminar a política.

Félix Guattari

Arquitetos e engenheiros

Não da para generalizar.
Quando ouço que os políticos são isso e os políticos são aquilo, olho para a cidade e tento não dizer que os arquitetos são isso e os engenheiros aquilo.

24 de nov. de 2013

Mais lidos no blog

Mais lidos nesse blog:

Sobre Lar Doce Lar - Carta aberta ao apresentador Luciano Huck

http://a8000.blogspot.com.br/2013/05/sobre-lar-doce-lar-carta-aberta-ao.html

Definições de política/Rancière

http://a8000.blogspot.com.br/2007/06/definies-de-poltica.html

Universidade e mercado no capitalismo contemporâneo

http://a8000.blogspot.com.br/2011/04/universidade-e-mercado-no-capitalismo.html

Em defesa da obra às obras: Carta/comentário sobre "Em defesa da obra" - Revista Piauí #62, por Bernardo Carvalho.

http://a8000.blogspot.com.br/2011/11/em-defesa-da-obra-as-obras.html

25 de out. de 2013

A máquina de domesticação




O que faço e gosto não pode ser feito fora da Universidade.
É daqui também que é possível pensar o lugar ao qual dedicamos parte enorme de nossas energias e é sobre esse lugar que gostaria de colocar algumas inquietações e dúvidas.

Nos meus 5 anos de universidade pública, reconheço os grandes avanços das federais nos últimos 10 anos, entretanto algo preocupante acontece nesse momento.

Para falar de maneira ampla, diria que as universidades correm o risco de se tornarem poderosas máquinas de domesticação do trabalho intelectual. E, no meu entender, nada poderia ser pior em uma universidade do que a despotencialização e o enfraquecimento das forças criativas e dissonantes que ela pode abrigar.
 Como isso acontece?
        Basicamente de três maneiras, ou, por três motivos:
        -       Precariedade de meios
        -       Produtivismo massificado
        -       Burocratização

1     

A primeira forma de domesticação aparece em uma certa naturalização da precariedade no espaço de ensino. Por uma lado o número de alunos aumenta muito, por outro não há funcionários suficientes. Essa equação obriga os pesquisadores a assumirem tarefas administrativas e técnicas para as quais não forma preparados. Simultaneamente, o tempo do pesquisador é desviado para a matrícula, a gestão de salas, equipamentos e funcionários e o resultado dessas atividades é pior do que se fosse realizado por alguém especializado e dedicado a isso.
 A naturalização da precariedade se expressa na demora de uma obra ou na falta de um reparo em um ar-condicionado. Há uma aceitação generalizada de que "as condições não são ideais". Essas precariedades retiram os pesquisadores de seus focos, domesticando o pensamento.

2

A segunda tarefa da máquina de domesticar é feita pela normatização massificada da produção intelectual. Certamente é fundamental que programas de pós-graduação sejam avaliados, mas o que acontece hoje é uma homogeneização dessa produção. Todos devem publicar da mesma forma, no mesmo ritmo e frequentemente nos mesmo lugares. A avaliação da produção passa por uma normatização em que a produção é avaliada em relação à forma como ela se relaciona com a norma e não pelos modos de circular, inventar e se efetivar com o tempo.
        O problema óbvio nos leva a tentar encontrar outras forma de avaliação. Nesse esforço, ferramentas como o Google Scholar passam a ser consideradas, trazendo para o mundo acadêmico a lógica dos “likes” do Facebook. 
      As distorções são evidentes. Na área de comunicação, por exemplo, um pesquisador que trabalha com questões contemporâneas ligadas à internet provavelmente vai ter, a curto prazo, muito mais citações do que o pesquisador que trabalha sobre o som no cinema brasileiro dos anos 30. Como as agências tendem a privilegiar os três último anos de publicações, para o máquina domesticadora, o pesquisador de internet será melhor que o pesquisador de arquivos.
        A máquina é assim eficaz em trazer todos para um formato que antecede as pesquisas, dificultando a criação e a independência.

3


O terceiro operador da máquina de domesticação é a burocracia. Na universidade hoje gasta-se muito tempo e trabalho para se ter acesso a mínimos recursos. Por vezes temos a sensação que o dinheiro gasto para pagar professores e funcionários para fazerem e analisarem projetos é maior que os recursos demandados por professores e projetos.
        Junto à burocracia, departamentos como o de Cinema da UFF, não tem acesso à nenhuma verba direta que possa ser decidida dentro do departamento. Cada centavo gasto passa pela centralidade da máquina burocrática. Uma máquina que não funciona sozinha, mas depende de um corpo a corpo para que ela ande. 
A centralização de recursos respeita regras que transcendem a universidade e que afetam todo o serviço público. Qualquer gasto de mais de 8 mil reais precisa ser licitado, por exemplo. Vivemos uma situação de desconfiança generalizada e para nos prevenirmos contra a corrupção gastamos fábulas, retiramos os funcionários e professores de seus projetos, esvaziamos as energias de todos que desejam a universidade forte e ativa. 
A burocracia aliada à centralização de recursos aparece como estratégia de esvaziamento do ensino público e gratuito. Por um lado é muito mais fácil não fazer nada, uma vez que qualquer ação demanda energias enormes, por outro, não há independência e acesso a verbas que não passem por uma máquina que consome as energias e as próprias verbas. Assim, estão dados os argumentos para o mundo privado, muito menos regulado e mais ágil.
 
Para combater a corrupção no serviço público vivemos hoje um processo de destruição deste. Uma destruição que começa pelos modos de vida. Burocratizar é evitar a independência de alunos, professores e funcionários que poderiam efetivamente criar, pesquisar e se engajar com a universidade e com a comunidade. 
Essa energia da universidade é preciso domesticar, esvaziar e submeter os críticos virtuais a um sistema de favores que acompanha a burocracia.
 

Se desejamos uma universidade forte, me parece que é nesses campos que as lutas se apresentam.
Curiosamente, não se trata propriamente de um problema de dinheiro, mas de independência e liberdade, coisas talvez arriscadas demais para os poderes organizados.











24 de out. de 2013

snowden, angela e dilma

As relações internacionais vivem um momento dos mais interessantes.

Snowden e o Guardian revelam que os Estados Unidos monitoraram 35 líderes mundiais, entre eles a Sra. Merkel.

O presidente dos Estados Unidos conversava com o primeiro ministro de um país pelo celular, esse número era repassado para o NSA e, a partir daí, o que esse ministro conversava com o seu netinho ou com a presidenta do Brasil era monitorado pelos estadunidenses.

Mas o que é genial é a resposta americana. Trataremos isso pelos meios diplomáticos. "The [NSA] revelations have clearly caused tension in our relationships with some countries, and we are dealing with that through diplomatic channels.”

Ou seja, os Estados Unidos agem como bandidos e piratas mas desejam resolver os problemas com as regras que regem as relações entre estados.

O problema é que os invadidos, Merkel ou Dilma, não podem abertamente reagir como a situação demanda. Em público, apenas podem cancelar viagens, expor desconfortos ou fazer discursos.

Mas, o que seria do maior interesse é saber como enfrentam uma ação de trapaceiros com outras trapaças.

Se Alemanha ou Brasil respondem nos campos diplomáticos, como desejam os US, não há interesse nenhum dos estados unidos em mudar a prática.

Angela e Dilma têm bons motivos para uma conversa reservada para pensarem juntas em algumas estripulias.

19 de out. de 2013

Faixas exclusivas

Com 30 passageiros em pé o ônibus percorreu a ponte Rio-Niterói em uma hora.
Sem faixa exclusiva para coletivos, na maior parte do tempo ele ficou entre um Gol e um outro ônibus.
O Aterro estava parado. Sem faixa para coletivos, os trinta passageiros permaneceram em pé atrás de um BMW.
No fundo do ônibus uma senhora comentou: deveria haver uma faixa exclusiva para ônibus.
De boca em boca a ideia óbvia chegou ao motorista.
Quando o BMW andou 5 metros, o motorista andou 20 e passou por cima do BMW e foi até Copacabana criando uma faixa exclusiva.

14 de out. de 2013

A Europa e a contagem dos mortos

O tempo vai passar e teremos esquecido a morte dos mais de 200 africanos indo em direção à Europa. A naturalização de uma tragédia de tais proporções é parte da naturalização da própria Europa excludente ou do capital como um todo. É o preço a pagar. Todos negros.
Se levarmos a tragédia a sério, se tirarmos as reais consequência dessas mortes, é toda a lógica da globalização das mercadorias e das fronteiras para os humanos que seria colocada em cena.
Par que tudo fique como está, a tragédia vira um problema dos africanos, da pobreza, do navio superlotado, etc. É o esforço de contexto que fica de fora, como se as mortes não tivessem nenhuma continuidade com o tipo de produção e circulação da riqueza no mundo.
Poucos eventos falam tanto sobre nosso tempo. Infelizmente as vidas comuns não tem lugar na gestão dos vivos, apenas na contagem dos mortos.

5 de out. de 2013

Esquerda e direita

Provocado pelo amigo Felipe Lacerda, depois de um post em que eu fazia distinções entre esquerda e direita, senti a necessidade de reafirmar a existência de tais distinções, sobretudo pelas práticas.
Existem práticas de direita e de esquerda. Essas práticas são mais claras que partidos, políticos, pessoas. Mas, obviamente, alguns tendem às práticas de esquerda e outros não.
Poderíamos, como Deleuze, marcar a diferença apontando para o endereço postal: ser de direita é como o endereço que se coloca em uma carta: Primeiro a pessoa, depois a rua, o bairro e por último o país – o mundo, então, nem aparece.
Ser de esquerda seria o contrário.
Como pensava as manifestações, recorri a outro amigo dizendo: Ser de esquerda é fazer do grito das ruas uma voz, um discurso, um gesto político que precisa de resposta. Ser de direita é fazer desse mesmo grito um ruído incompreensível que apenas deve ser abafado, seja com as portas fechadas, seja com ruídos mais estridentes, bombas, por exemplo.
Independente da simplicidade dessas definições, elas ajudam a pensar as práticas.
O problema fundamental é que se esquerda e direita se constituem em práticas, quando dizemos que não há esquerda ou direita, estamos dizendo algo muito mais grave. Estamos dizendo que não temos como julgar tais práticas. Note que aqui não estou falando desse ou daquele partido, nem estou pensando as ilegalidades, mas me esquivando do cinismo que não vê possibilidade de escolha, uma vez que tudo se equivale. Estou me esquivando dos que entregam para os poderes instituídos os rumos da cidade, negando que há vida política onde não se espera, em quem não tem poder instituído.
Diria que ser de esquerda nesse momento é encontrar formas, invenções, forças para resistir à máquina despolitizante que atravessa muitos poderes instituídos – executivo, legislativo, universidade, mídias.

4 de out. de 2013

Democracia

Quando a direita está sob pressão o discurso é básico:
A razão deve prevalecer. As regras devem ser cumpridas.
Essa razão e essas regras dizem o seguinte: uma vez que um representante foi eleito ele recebeu carta branca para fazer o que quiser.
A ideia de democracia se torna assim a mais perversa, uma vez que as eleições se transformam em sinônimo de racionalidade e democracia. Essa lógica deixa de lado duas dimensões necessárias da democracia.
A primeira é que ela é processual. Ou seja, em um mundo ideal, os eleitos não seriam votos prontos, mas uma mediação constante do que acontece na sociedade.
A segunda é que as eleições não podem servir para excluir a participação popular. Não se trata de democracia direta, mas de uma tensão constante que a sociedade pode trazer aos representantes.
Se hoje as eleições são tão organizadas pelos poderes econômicos, torna-se ainda mais fundamental a participação constante da população.
Sim, as regras devem ser cumpridas e a regra fundamental da república deveria ser a democracia: o direito à política para aqueles que não possuem nem mandatos, nem poder econômico.
É isso que perturba os poderes estabelecidos: Como ousam os jovens, professores, moradores de rua, estudantes, desejarem a política e fazerem diferença no que já está estabelecido?
O que parece estar em jogo nas múltiplas manifestações que acompanhamos é o exercício desse direito; direito a tornar os poderes permeáveis aos desejos e modos de inventar a vida dos que não são os operadores do poder.

12 de set. de 2013

O desacordo



A proibição das máscaras nas manifestações aprovada pela Câmara do Rio e assinada pelo governador essa semana me parece mais um capítulo de uma truculência que atravessa várias instâncias de poder.
Nesse caso, a truculência é do poder legislativo e executivo. A truculência da polícia tem sido uma constante. A truculência legal aparece no caso das recentes prisões e da aluna da UFF que teve seu computador apreendido e agora retarda sua volta ao Brasil com medo de ser presa. A truculência da mídia se explicita a cada vez que manifestantes são organizados na chave do vandalismo. E assim seguimos com excessos de força em múltiplas formas dos poderes atuarem.
A força é uma das formas do poder se exercer, certamente não é a mais eficaz.
Quando o poder está internalizado e os sujeitos e comunidades corroboram os poderes nos pequenos atos do cotidiano, ele e muito mais sólido. Se no dia-a-dia os modos de vida corroboram as disciplinas, as constantes demandas por novos produtos, as formas de organização da cidade e as pautas da grande mídia, enquanto esperam as próximas eleições, então não há nada errado.
Se entre os processos subjetivos e a naturalização dos lugares de poder há uma comunhão, basta a esses poderes funcionarem através de micro adaptações aos movimentos da comunidade.
Entretanto, quando essas formas de vida, seus desejos e perspectivas de futuro, entram em desacordo com o que parecia natural, o consenso se desfaz.
Como escreveu o Guattari, não há revolução social sem revolução do desejo”

Quando o consenso desmorona, quando o papel que faz o congresso, a mídia, o espetáculo urbano, o governador e as demandas cotidianas do capital não fazem mais tanto sentido, o poder deixou de operar na modulação dos modos de vida e precisa refazer a unidade em torno de si.
Para garantir a sua centralidade e o consenso, a truculência desses poderes é a arma indesejável, mas disponível.

Quando há consenso em torno dos modos da comunidade se organizar e seus atravessamentos com as múltiplas práticas dos poderes, existem os excluídos dos dividendos dessa organização, mas quando o consenso se rompe, mesmo os incluídos se chocam com a cena que esses poderes tentam restabelecer à força.

Nas escadarias da câmara do Rio de Janeiro encontramos essa disputa por outra cena, uma disputa que não é apenas por esse ou aquele projeto, por essa ou aquela injustiça, mas uma expressão que se faz contra os lugares de fala instituídos, uma manifestação que no mínimo tem duas pautas centrais:
O que o poder faz e o próprio poder.

8 de set. de 2013

8 de setembro.


Tudo que acontece nas manifestações posteriores às jornadas de junho nos coloca novos desafios.
Em junho, questionava-se as manifestações por elas não terem um foco explícito; apesar dos questionamentos ligados à Copa das Confederações e à forma como esse evento trazia a tona uma elitização generalizada do espaço público. Espaço público este em disputa desde as primeiras manifestações em que a questão do transporte era central.
Apesar da diversidade de reivindicações, as manifestações estavam centradas em um desejo por uma dimensão comum da riqueza, seja no acesso aos jogos e legados, seja no acesso à riqueza da cidade, em que o transporte é necessário.
Junto às múltiplas reivindicações, as jornadas de junho foram marcadas pela ausência de lideranças, seja de indivíduos, seja de organizações tradicionalmente instituídas.
Desde então, e falo especialmente do Rio de Janeiro, vimos a radicalização desses dois aspectos: a reivindicação pelo direito à cidade, centrada na luta por uma CPI verdadeira sobre as relações entre políticos eleitos e empresários de transporte. E na radicalização do anonimato presente na multiplicação das máscaras e dos manifestantes que apenas reivindicam serem a multidão.
Como sabemos, a política do Rio está em grande parte sustentada pela conexão com o capital ligado ao transporte e à construção. O Porto Maravilha, por exemplo, a principal obra urbanística de preparação do Rio para as olimpíadas tem o seu espaço esquadrinhado pelas empreiteiras Odebrecht, OAS e Carioca; sendo que as duas últimas são as maiores doadoras da campanha do prefeito. Já Odebrecht, íntima do governo do estado, é dona, por exemplo, de todos os acessos hoje à Niterói, uma vez que é majoritária da CCR que controla a ponte, as barcas e ônibus que leva a Niterói.
Por essas razões, a CPI dos transportes se tornou questão central para a democracia e graças à ação de algumas centenas de manifestantes conseguiu-se explicitar o autoritarismo da câmara e do prefeito ao impossibilitarem que a CPI fosse instalada com a presidência entregue ao seu proponente. Temos hoje no Rio uma CPI em que todos os membros votaram contra a sua existência.
O segundo ponto, o anonimato, também encontrou nas manifestações pós-junho uma intensificação. Os mascarados viraram uma estética, uma marca que explicita um destemor em relação ao poder opressor: podem jogar o seu gás que aguentamos!
As máscaras marcam o “um qualquer” o mais um. Somo muitos, multiplicáveis mas sem nome, sem líder. No mundo das celebridades, tal anonimato é perturbador.
O curioso nisso é que essa estética que antes parecia restrita a um grupo, disseminou-se. No 7 de setembro eram muitas as variáveis dos jovens vestidos de preto, difícil hoje organizá-los como um grupo coeso e único, como gostaria a grande mídia e os poderes que os incriminam indiscriminadamente.
Me parece que o desafio é tirarmos as reais consequências dessa forma da política se fazer presente hoje; em tensão com o direito à cidade e recusando a naturalização do espetáculo das celebridades que atravessa a política – cineastas inclusive.
Como me perguntava um amigo: o que você propõe no lugar das eleições que reorganizam os poderes em torno do capital?
Sinceramente, não sei, só sei que aqueles que ocupam as escadarias da câmara do Rio trouxeram novos componentes, absolutamente necessários, para a política.

sinopse Rio

O moço faz campanha do prefeito na televisão, empresta sua cara e fama inflada por uma grande emissora e depois recebe 750 mil do mesmo prefeito para fazer um institucional para uma empresa da prefeitura.
Na sequencia volta ao jornal da mesma emissora e mostra sua indignação contra os que não cumprem as regras e com os políticos que recebem dinheiro de empreitaras - prefeito que para quem ele fez campanha, por exemplo.
Pra fechar, tudo na legalidade, nos pede para não nos alterarmos e mantermos a calma.

Uma vidraça quebrada no Leblon