24 de jun de 2015

I-Phone e trabalho


O filósofo francês Gilbert Simondon é um dos mais importantes pensadores da técnica do século XX.
Em uma entrevista de 1965 ele fala dos objetos técnicos e explica que existem dois tipos de objetos, os abertos e os fechados.
Objetos não são máquinas, eles tem uma certa relação com os corpos, podem ser achados, perdidos, abandonados, “eles tem uma certa autonomia, um destino individual”, diz ele.
Os objetos fechados, uma vez que eles saem das fábricas eles começam um processo de degradação porque eles não podem ter contato com a “realidade contemporânea”, a “realidade que o produziu”.
Já os objetos abertos possuem duas formas de relação com o mundo contemporâneo. 1) O gesto do utilizador o altera; ele deve ser um “conhecedor de suas estruturas internas”. 2) As pessoas que o consertam podem sempre mantê-lo novo; trocando peças, acrescentando elementos que podem melhorá-lo.
Bem antes dos i-phones Simondon já dizia que a perfeição de um objeto técnico está ligada à sua maleabilidade.
O que um i-phone traz de novidade, entretanto, é possuir as duas naturezas: ser aberto e fechado. Ser aberto – até certo ponto – em seu software e nos modos de uso dos usuários – e fechado em seu hardware, uma vez que as peças não podem ser trocadas, melhoradas.
Os objetos abertos, diz Simondon, não tem data, não envelhecem. Algo que certamente está distante da lógica da obsolescência programada da indústria de tecnologia.
Mas, a beleza da formulação de Simondon ganha uma dimensão política ainda mais aguda.
O que os objetos abertos – esses transformáveis e que não envelhecem - podem ensinar às crianças?, pergunta o entrevistador.
Simondon: Antes de tudo “o respeito pelo trabalho do outro”.
Genial.
O desrespeito pelo trabalhador é duplo, nas indústrias de tecnologia não apenas as condições de trabalho são frequentemente sofríveis, como a lógica descartável dos produtos os desrespeita mais uma vez quando trocamos de telefone ou computador. A descartabilidade dos objetos técnicos é o apagamento do trabalho do outro, no limite, do outro.

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