29 de jul. de 2016

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21 maio 16

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No quiosque de flores no Catete um jovem pede rosas rosas. A vendedora lhe mostra um buquê em que cada flor é envolvida por uma rede, mantendo as rosas rosas em botão. 
O que é isso na flor? É a camisinha, explica a vendedora - para a rosa não ficar toda aberta. 
O rapaz olha também um cactos que está a venda. 
- Quero doze rosas rosas. 
Caminhou pela cidade e presenteou seu primeiro buquê: rosas rosas com camisinhas brancas.

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19 maio 16
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Na saída da barca, que leva os passageiros de Niterói para o Rio de Janeiro, um homem de mais de 60 anos se coloca ao lado da massa que cruza a estação a cada dez minutos. Enquanto as pessoas estiverem passando ele grita: “Taxi no estacionamento”, “Taxi no estacionamento”, “Taxi no estacionamento.” Seu trabalho é avisar que os táxis não visíveis estão disponíveis. Por determinação legal ele não pode usar uma gravação ou um cartaz. Assim ele grita aproximadamente três vezes a mesma frase a cada dez segundos, 18 vezes por minuto, 54 vezes por desembarque, 324 vezes por hora, 2268 “Taxi no estacionamento” por dia.

Carta aberta da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (Socine) sobre a extinção do Ministério da Cultura

17 maio 16

Carta aberta da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (Socine) sobre a extinção do Ministério da Cultura
É com indignação que descobrimos pelos jornais que os novos mandatários do Poder Executivo Federal decidiram extinguir o Ministério da Cultura.
Nossa indignação se deve, primeiramente, à forma autoritária e sem diálogo com a sociedade com que essa medida foi tomada. Nos estarrece que a cultura seja relegada a um segundo plano justamente no momento em que o país passa por tamanha crise política.
O que nos constitui como povo, como pessoas que possuem laços comuns e um sentido de comunidade, não é nosso comércio exterior, nosso sistema financeiro ou nossos projetos para a indústria - todos importantes - mas sim, nossa cultura.
É nossa cultura, que inventamos cotidianamente juntos, que nos une e que nos diferencia. Tornar a cultura secundária na organização do Estado é abdicar do povo como um todo, é dizer da irrelevância de nossa capacidade de inventar um lugar comum para vivermos.
Por esses e muitos outros motivos, nós da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual rejeitamos enfaticamente a extinção do Ministério da Cultura.
Socine

desafios

17 maio 16

Desafios
1
Como pensar a institucionalidade da política sem o PT e as pessoas e políticos próximas ao partido? Por mais que tenhamos sido críticos ao governo Dilma, por mais que a agenda do PT tenha se distanciado da agenda da esquerda – basta ver o que dizem hoje Sanders ou Corbyn,– não parece possível refazer um projeto democrático hoje que não passe pelas pessoas ou políticos ligados ao PT. Pode ser uma dura realidade, mas a votação do impeachment deixou isso claro. Qualquer discurso de esquerda que apenas negue o PT é enfadonho e beira o ridículo.
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Os críticos de Dilma que fazem questão de dizer que Temer é um governo de continuidade operam cinicamente, sem perceber que perdemos justamente toda margem de ação. No governo Dilma, estávamos perdendo muitas batalhas, mas não havia jogo jogado. O que dizer desse início de Temer? As primeiras ações foram para marcar a impossibilidade do diálogo, a irrelevância dos movimentos sociais.
Enumerar os equívocos de Dilma não é tarefa difícil, fico curioso para saber as aberturas desse novo governo.
O primeiro desafio é: reinventar uma batalha. Reinventar um capo de ação. Arrancar do autoritarismo- que extingue ministérios como o da cultura - a máscara do consenso. Não há harmonia, não há tranquilidade. Nosso desafio é refazer um campo de disputa onde o diálogo e o enfrentamento se façam possíveis.
3
O triste ainda é que Dilma cai sem grandes enfrentamentos. As pautas que poderia ser bombásticas nunca efetivamente chegaram a ser pautas: reforma política, reforma tributária, aborto, imposto sobre herança, taxação do mercado financeiro, legalização das drogas, substituição de matriz energética, etc, nada disso chegou a estar na agenda de Dilma. Uma queda tímida.
Se as pautas mobilizadoras estivessem na mesa, a revolta seria muito maior. Assim, o segundo desafio é o mesmo: reinventar uma batalha. Reinventar um capo de ação. Refazer um laço que marque o dissenso com os novos poderes do executivo. Alguns retrocessos se tornaram insuportáveis e é daí que sairão as novas batalhas.
12 maio 16

Acordar com um silêncio mais intenso que o comum. Com olhares que duram menos entre as pessoas, com bons dias constrangidos. Uma atmosfera, que tanto destoa da cínica alegria dos apresentadores de televisão, é a primeira marca da gravidade do que acontece agora.
Até pouco tempo atrás parecia haver espaço para o pensamento, para a crítica, para as falas dissonantes. E agora? 
Durante meses o que vimos foi a irrelevância dos argumentos, a retirada da reflexão sobre o que nos acontecia. Um processo que hoje parece nos tomar de forma aguda. O que significa pensar, criticar e agir politicamente nas nossas pequenas esferas de ação, diante do abismo que se construiu entre o que é o nosso cotidiano e pensamento e o que é o Estado, a mídia, os poderes financeiros.
Talvez a sensação de golpe apareça antes de tudo pela irrelevância de nós mesmos.
O silêncio pesado do dia se dissolverá, mas essa sensação de irrelevância precisa deixar marcas, é dela que talvez consigamos tirar algo.
Escrevo no dia que tudo aponta para a irrelevância de qualquer escrita, de qualquer pensamento. Mas como fazer diferente? Sairemos de casa, para o partido, para a universidade, para rua, no dia em que tudo isso perde um pouco o sentido, mas como fazer diferente?
Bom dia

‘My name is Sadiq Khan and I’m the mayor of London!’


5 maio 16

É claro que vivemos uma duríssima crise política no país.
Os poderes em tensão. O legislativo tirando um presidente eleito e sem crime, o judiciário retirando o presidente da câmara por uma decisão de uma pessoa apenas e ao mesmo tempo, esse mesmo judiciário organizando suas agendas a partir de interesses específicos. 
A evidencia da ausência de uma centralidade que organize tudo isso traz problemas, mas também deveria ser celebrada. É impressionante como boa parte da esquerda passou a pensar a política apenas como forma de atuação do e com o Estado, deixando de olhar para o próprio Estado como aquilo que precisa de limites constantes.
Na atual crise, no temor de que o vice assuma e produza um desmonte de algumas boas políticas implantadas nesses anos de PT, a briga deveria ser antes por mais democracia, menos centralidade, mais participação popular no orçamento e nas ações locais, menos presença do Estado como interventor moral.
A centralidade excessiva do Estado parece não perturbar direita e esquerda, pelo contrário. Quanto mais poderoso e centralizador for o Estado, mais ele parece interessar aos membros de todos os poderes.
Não vejo hoje uma agenda de esquerda que não passe fortemente pela defesa de um Estado que, por um lado se faça presente lá onde as forças do capital produzem desigualdades, diminuindo as potencias de ser e agir e, por outro, se faça ausente, entregando para comunidades, movimentos, cidades, as decisões sobre as formas de atuação, distribuição de gastos, etc.
A educação é um bom exemplo. O MEC propõe hoje uma Base Nacional Curricular Comum, inviabilizando toda a autonomia das escolas na decisão sobre os currículos, homogeneizando verticalmente os saberes. Autonomia, invenção e liberdade, que deveriam reger as práticas da esquerda, encontram no Estado um limite, ao mesmo tempo em que o Estado promove sua própria centralidade.
Sim, a crise é dura, e um dos aprendizados que poderíamos ter é de que enquanto as ações do Estado não tiverem como norte o singular, as diferenças, o heterogêneo, continuaremos vivendo essas crises como se fosse o fim do mundo.
Quando vejo os três poderes se engalfinhando, não deixo de ter certa alegria.
18 abril 16

Primeiro ponto da reforma política.
Incluir a família, como tanto prezam nossos representantes.
Qualquer criança que saiba ler já pode se candidatar. 
Certamente teríamos um congresso bem melhor.
17 abril 16

Pela democracia X pela família
O povo antes da casa ou a casa antes do povo?
13 abril 16


Das mais duras realidades que a atual situação política nos coloca é que a democracia parece não ser um valor universal no país.
Basta dez minutos de Globo News, algumas conversas – eventualmente familiares – ou uma escuta atenta por transportes públicos, para percebermos o desprezo pela política e pela democracia.
A grande mídia manipula, engana e é responsável pelo consenso que se forma contra o estado de direito; essa é nossa percepção mais imediata, intensamente repetida. Quando dizemos que manipulam e enganam, pressupomos o enganável e o manipulável – que são sempre os outros. Nós sabemos que a grande mídia mente, os outros não. Essa distinção não me parece tão óbvia. Preciso no mínimo desconfiar dessa separação tão rígida entre os esclarecidos e os ignorantes.
Levemos a sério a transformação e o acesso à universidade; o acesso ao consumo e aos bens que possibilitam conforto e informação; levemos a sério as importantes lutas que se intensificaram nos últimos anos, levemos a sério que depois de quatro governos do PT há um país com importantes diferenças.
Nos cabe então a pergunta, como pode essa população ser enganada? Como pode ser manipulada pela mídia?
A grande mídia é reflexo e produção de mundo.
Na atual conjuntura a grande mídia é golpista sim, mas talvez sem enganar ninguém.
A urgência dos ganhos, da competição de todos contra todos, do hedonismo quantitativo, dos sujeitos que devem se administrar como empresas e das defesas de territórios de fala das identidades proprietárias, é a lógica que domina os modos de ser contemporâneos. Não estamos livres dela.
Dentro dessa lógica, a espera e a escuta necessárias para a política, a construção de um espaço comum não pautado pela competição, o respeito às regras que garantem igualdades e processos conflituosos sem eliminação dos “inimigos”, tudo isso parece algo absolutamente obsoleto.
Novamente. Sim, a mídia é golpista, mas talvez não esteja separada das formas golpista que temos construído no cotidiano.
O golpismo cotidiano é aceitar a competição generalizada em que a não eliminação do outro é coisa para os derrotados.
Breve, toda simples acusação que dissocia a mídia dos modos de ser contemporâneos em que a democracia e o estado de direito são questões secundárias, encobre o lugar onde as disputas estão efetivamente se dando: nos modos de vida. Modos esses que a mídia participa mas não produz sem intensa colaboração.
Ser contra o impeachment hoje é dar algum limite à lógica golpista que transcende o impeachment.

derrubar o muro

11 abril 16



Derrubar o muro.
Esse muro feito em Brasilia, que inicialmente achei que era piada, é das coisas mais tristes que conseguimos produzir.
A lógica da separação, da fronteira, do condomínio, levada para a praça pública, materializada com o mais triste dos símbolos.
Se os manifestantes de esquerda aceitarem estar de um dos lados do muro, sua causa está perdida.
Todo militante de esquerda deveria, antes de qualquer coisa, antes de ser contra o impeachment, derrubar o muro.

Militância polícia

10 abril 16


Militância polícia
A polícia enquadra, aponta os culpados, organiza quem pode circular e quem não pode, quem pode falar e quem deve apenas escutar, define os que podem sair de casa e a que horas o toque de recolher encerra a todos.
Com a polícia pode haver revolta, mas não há argumentação, espera, humor, poesia ou diálogo.
A lógica policial impregnou a militância.
Por todos os lados os enquadramentos estão fechados e asseverados. Por vezes, mais do que isso, aquele que não milita é focado como o inimigo.
Nos últimos tempos, não tomar posições assertivas sobre a continuidade ou não do governo Dilma, por exemplo, virou um mal maior. A militância polícia aponta o dedo e diz da impossibilidade da dúvida ou do desinteresse mesmo.
Passado o século que viu as artes militantes descobrirem que não precisavam tratar seu público como receptores passivos, a militância polícia parece jogar no lixo o primeiro gesto fundamental em relação ao leitor/receptor: o outro pensa e sente e não precisa ser tutelado, organizado.
Em alguns meios, por exemplo, o uso do genérico masculino – amigos, caros – para se referir a um grupo multigênero, passou a ser visto sinal de preconceito. Em algum lugar alguém se levantará pra dizer: prezadxs vocês não vão militar não?
O mesmo vale para a radicalidade policialesca no uso linguagem em relação às questões de gênero. Caminhar entre noções e definições, em que o uso do termo opção sexual, por exemplo, - no lugar de orientação sexual - pode ser visto como um gesto fóbico faz com que poucos se arrisquem em campo tão minado.
A polícia sabe quem pode circular em certos espaço e quem não pode. A polícia esquadrinha, divide, separa.
Para andar em determinada parte da cidade é preciso ser identificado, usar as mesmas roupas, pertencer às mesmas facções. Como em uma cidade, os espaços abertos a todos se tornam também os espaços não políticos, clean, sem pichações ou marcas da presença humana. A militância polícia se adequa ao modo de ser das cidades, dividas entre os espaços impenetráveis para uns ou outros – favelas e shoppingcenters - e os vazios de política – novas praças com hiperpresença arquitetônico policial.
Com a polícia não se brinca – aprendemos isso cedo.
O que diria a militância polícia hoje de um filme como “Mato Eles?”, de Sérgio Bianchi, que com humor trata a questão indígena eventualmente se colocando no lugar do opressor para explicitar o massacre? Ou com a capa de 1978 do Charlie Hebdo que, para criticar os negacionistas da época, exacerba seus pontos de pontos de vista e coloca Hitler como o cara “super simpático”? A resposta não é difícil. Seriam massacrados primeiro por não terem direito de falar da questão indígena sem serem índios – a polícia sabe quem pode falar; segundo porque “com essas coisas não se faz humor” – a policia tem certezas e a inteligência do outro para entender o humor não pode ser considerada.
As recentes críticas ao trabalho de Rafucko, são exemplares. Quando o artista faz como Bianchi ou Charlie, exacerbando o lugar do opressor para desnaturaliza-lo, os críticos iluminados dizem: as pessoas não vão conseguir entender, eles vão ler ao pé da letra, eles vão achar que você está dizendo que é isso mesmo, que Hitler é simpático e que revistar negros indo para a praia no Rio de Janeiro são coisas legais.
O primeiro gesto da militância polícia é dizer: eu penso e você não. Eu sei e você não.
Desmontar a polícia não é simples. Ela organiza nossos mundos complexos. Desmontar a polícia é poder ir a qualquer lugar, circular sem fronteiras, partir do princípio de que todos pensam e são inteligentes, de que qualquer um pode ser um interlocutor, é poder incluir a dúvida, o humor, a poesia e a espera.
8 abril 16

Talvez o provincianismo seja nosso também, mas é impressionante o tratamento que a grande mídia vem dando aos Panamá Papers.
O primeiro ministro da Islândia renunciou.
Cameron, primeiro ministro da Inglaterra, assume ter se beneficiado do paraíso fiscal através de contas do pai - e corre sérios riscos.
Sanders, pré-candidato democrata nos Estados Unidos, é lembrado pela ênfase com que se opôs ao tratado de livre comércio com o Panamá, em 2011: "O Panamá é líder mundial quando se trata de permitir que americanos ricos e grandes corporações fujam dos impostos nos Estados Unidos, levando seu dinheiro para esse paraíso fiscal.” Isso pode manter a série de vitórias que vem tendo nas primárias.
No nosso caso, uol, O Estado de S.Paulo e a RedeTV, tem exclusividade no acesso aos documentos vazados. A impressão que se tem é que funcionam como engavetadores. As matérias são lacônicas, não obtém nenhuma destaque ou simplesmente são abandonadas. Vale lembrar que “nossa” participação nos Panamá Papers não é nada pequena: membros de sete partidos, um juíz do supremo, o presidente da câmara, etc.
O engavetamento para o qual O jornalista Fernando Rodrigues colabora de maneira enfática cita uma pessoa que aparece nos arquivos da Mossack, ele escuta a pessoa, ou simplesmente a pessoa não responde e o interesse acaba.
Vejam o caso de André Meloni Nassar número dois do Ministério da agricultura e que responde pela Kátia Abreu (PMDB) quando ela não está. Ele aparece em um dos arquivos, não respondeu ao jornalista e talvez não mais ouçamos falar sobre o rapaz.
Dentre os tantos problemas que a atual crise traz, um deles é que nos tornamos monotemáticos.
Qualquer assunto fora da novela diária parece fadado ao desaparecimento. Sorte dos envolvidos na evasão de impostos e nas contas secretas reservadas aos riquíssimos.
Se um bom juiz de primeira instância levasse a sério os vazamentos do HSBC no ano passado e os Panamá Papers, pelo menos daria para mudar de canal.
7 abril 16

Esse é o momento.
Momento que poderíamos efetivamente assumir a democracia.
1- Qualquer cidadão sem condenação grave, morador do país há mais de um ano e maior de 18 anos pode se apresentar como candidato.
2- Um sorteio sem qualquer tipo regionalização é feito para substituir os 500 deputados – agora um pouco menos.
3- Os novos representantes escolhem um entre eles para ser o líder – primeiro ministro se quiserem.
4- Em quatro anos novo sorteio.

28 de mar. de 2016

A rua não está pronta

A rua não está pronta
Dos mais interessantes debates das últimas semanas diz respeito à forma como aqueles que se associam à uma tradição de esquerda se relacionam com os recentes eventos políticos.
Por um lado há os que estão nas ruas e mídias sociais contra o impeachment e em explícita defesa de Lula e Dilma. A cineasta Ana Muylaert chegou a chama-los de pai e mãe dos jovens pobres que hoje estão na universidade; uma construção no mínimo infantilizante das lutas políticas, dentro e fora das universidades. Exemplo do lugar apolítico que se quer dar a Lula.
Por outro lado, a esquerda crítica ao governo encontra uma boa oportunidade para enfatizar suas discordâncias. No limite, fazendo como parte da direita e contemporizando as ilegalidades do judiciário, a falta de legitimidade de Cunha e companheiros e os descalabros da grande mídia.
De certa maneira, os dois grupos têm tratado as ruas e as manifestações como se estas estivessem prontas, ou um exemplo da defesa “do pai”, ou como se dominadas pelos governistas.
Uma pena!
Quem esteve na manifestação do dia 18, na recente reunião do pessoal do teatro no Rio, etc, percebeu que o espaço está aberto, que as críticas ao governo são intensas e que há, sobretudo, um clima de reconquista do campo da esquerda. Seja contra a direita, seja contra o PT.
A inquietação das ruas é a própria inquietação necessária para que a política esteja presente.
O imobilismo hoje é achar que a rua está pronta. Não está.


28 DE MARÇO

Não vai ter golpe - naturezas políticas

Há uma diferença de natureza nas pautas e questões colocadas à direita e à esquerda.
Por um lado, uma parte da esquerda se une em torno de radicas críticas ao governo Dilma e diz: É isso mesmo, tem que cair. 
À direita, seja por preconceito de classe, gênero ou simplesmente por não ver diferença entre Dilma e Cunha, a conclusão é a mesma: o governo rouba, tem que cair. 
Há ainda os que estão contra o golpe jurídico-midiático, mas que se esforçam em embutir diversas outras pautas no debate.
Nos três casos há uma mistura de naturezas políticas.
O “não vai ter golpe” não pode depender de qualquer julgamento do governo, ele transcende qualquer avaliação. É esse o princípio democrático.
As cartas que dizem “não vai ter golpe” e defendem os ganhos dos últimos anos com o PT são infundadas, misturam essas duas naturezas. Os que dizem que o Dilma merece cair por conta da economia ou da educação, também misturam.
Hoje, o “não vai ter golpe” não deveria ter qualquer relação com o governo Dilma, apenas com a democracia.

Brasil / política

A política contra os gigantes – do capital, do estado, do poder centralizador – só pode ser feita juntando dois níveis de atuação. 
Por um lado há a luta pela informação, pela verdade, pelos lugares de fala, pelo enfrentamento com os inimigos que exploram e destroem. 
Mas esse não basta. É preciso a surpresa, a loucura, a falta de limites, o pé na porta, o desvio, a poesia, o estranho, o perturbador. Ou seja, tudo que não tem como ser negociado, tudo que não aceita a ordem do poder. 
Sem essa duas forças, o mais forte vencerá sempre.

24 de março

“revolução democrática”

“revolução democrática”
A mobilização contra o impeachment dos últimos dias trouxe uma atmosfera de urgência política para o campo democrático, o que não há muito não se via. 
A mobilização contra os abusos do judiciário, da mídia e dos atores políticos que desejam a queda de Dilma como forma de assumir o poder parece estar se tornado um movimento pela democracia. 
Se a mobilização é pela democracia ela não pode ser apenas pela continuidade do que já conhecemos, do governo Dilma como ele se apresenta, mas também por uma “revolução democrática”, como falava o Florestan.
Educação, política, mídia ... – um choque democrático nessas esferas.
Diria então que ser contra o golpe é inseparável de uma radicalização nas críticas a esse governo.
O pacto à direita está quebrado, o Lula da paz, que dá entrevista no JN no dia que ganha as eleições acabou. Se o impeachment não passar os enfrentamentos são ainda mais urgentes.
Não estamos entre o golpe e o que já existe, mas entre o golpe e a possibilidade de uma democracia radical.
Há uma vibração política nas ruas e o atual momento é o que de melhor poderia acontecer para esse governo.


23 de março

Moro destrói a Lava Jato

É só especulação, mas, por algum motivo, o Moro foi para o tudo ou nada na Lava Jato. 
Depois condução coercitiva de Lula e da ilegalidade das gravações, o juiz começou um processo deliberado para destruir a operação.
A primeira hipótese, claro, é entrar na velocidade do jogo político e não do processo jurídico. Uma velocidade bastante adequada à mídia que para derrubar Dilma não pode parar a narrativa da crise crescente. Todo dia é necessário algo que explicite que o abismo está mais próximo.
A segunda hipótese – que não exclui a primeira - é que a Lava Jato ficou grande demais. Convenhamos, os caras foram fundo. Condenar o Odebrecht a 19 anos... são raríssimos os países que conseguem tal feito.
A Lava Jato ficou maior que o Moro e os próximos a serem ouvidos e se tornarem réus não contribuem para a desestabilização do governo – Aécio e cia.
Em resumo. Ou Dilma cai rápido ou as investigações atingem os amigos.
Com essas duas opções, Moro acelera. Se Dilma cai e Lula é preso, resolvido. Se Dilma não cai, a operação – com suas investidas na ilegalidade - perde toda legitimidade e se dissolve, poupando os amigos.
O rapaz não é louco, se perdesse o controle seria bem melhor.


22 de março

Teatro em BH - Claudio Botelho

Teatro
O que aconteceu em Belo Horizonte na peça sobre o Chico Buarque é interessante.
Em um dado momento o ator introduz um tema do cotidiano na peça – impeachment, Dilma, etc. O público, no lugar de entender sua fala como parte da cena, aceita que a quarta parede está rompida e se manifesta; se opondo às considerações do ator. Aparentemente, a quebra dessa quarta parede não era algo esperado pelo ator, assim, a primeira aferição é de que, independente do que o ator dizia, havia ali uma explicita incompetência em manter a fala no campo da ficção.
Depois da peça, o ator disse: mas era ficção! Ora, a ficção não é algo que se avisa, mas algo que se cria. No momento em que o público reage, o ator perdeu a cena.
A outra opção é de que o espectador contemporâneo, por princípio, está presente. Ou seja, a quarta parede é fluida e porosa. A passagem do espectador à cena não encontra grande barreira. Assim, no momento que o público reage e surpreende o ator, é uma incompreensão do estatuto do espectador contemporâneo que faltou ao ator em questão. Ele se achava completamente protegido diante de espectadores passivos. Não foi o que aconteceu.
Nos dois casos, antes de concordar ou não com as opiniões de Claudio Botelho, o problema parece ser sua fundamental inadequação para o teatro.


20 de março

Manifestações pela democracia

Diria que as manifestações de sexta significaram uma certa retomada da política. Sutil, tênue, mas bem mais interessante que a polarização Dilma/Impeachment.
Curiosamente, à direita e à esquerda, muitos só quiseram ver a manutenção da polarização, como se sexta fosse apenas mais uma dobra do petismo. 
No meu entender houve, na sexta, um importante corte na atual conjuntura. Estavam mobilizados indivíduos e atores políticos que há muito se distanciaram do PT, que não se confundem com apoiadores de Dilma, mas que se colocavam novamente juntos na indignação em relação aos recentes acontecimentos político-mediáticos, explicitamente não republicanos.
Nesse sentido, não se trata de terceira via ou de apoio crítico, mas simplesmente de dizer que a política importa e que há uma democracia que precisará se impor. A política importa porque só com ela os dissensos e os embates poderão ter lugar sem serem esmagados pelos discursos raivosas que pregam a ação sem reflexão.
O sutil retorno da política talvez seja o que temos de mais importante agora.
Um retorno que parece refutar a semente do autoritarismo que se apresentou nas últimas semanas de maneira tão intensa. Há uma atmosfera política que nos últimos dias parece ter ganho corpo: das manifestações à alguns colunistas de grandes jornais, de uma exibição de uma peça em BH às infindáveis manifestações públicas de associações científicas, coletivos e tantos atores políticos.
Sexta-feira abriu um espaço que permite uma outra circulação das indignações em relação ao governo Dilma, além da lógica da ilegalidade. É tênue, mas não há outro começo possível.


20 de março

Brazil

Dear friends,
A personal point of view on recent events in Brazil . trying to answer some friends ..
There is something serious occurring in Brazil.
Since last year an important investigation on corruption in financing political campaigns is happening. This investigation managed to put extremely powerful people, such as Marcelo Odebrecht, in jail.
But since the beginning it has being putting all its efforts on people closely related to PT, the workers party, in power since 2003. There are no saints in PT, but, in the last two weeks, this same investigation, with a great deal of help from Globo Media Corporation, has broken basic democratic and republican rules.
Their main goal is to put Lula, the ex-president, in jail and push Dilma Roussef, the current president, out of government.
In the last few days, Lula was forcefully taken to the judge in charge – Sergio Moro – to make his statements. But he has never refused to collaborate with the investigation. His testimony was taken at an airport with a plane from the police parked on it.
The worst case happened three days ago. Lula’s phone calls with Dilma Roussef were recorded and released on the same day to the media by the police. They contained no revelation at all, but the media has done all it could to produce more anger against both of them.
Huge protests in the whole country have been held in the last few days. Lots of people in the streets demanding Dilma's resignation and, yesterday, crowds in the streets saying "não vai ter golpe" – "There won’t be a coup."
Yes, there is something serious going on. The media, the opposition – mainly from the right wing - and a great part of the judiciary are breaking democratic rules to remove Dilma from government.
The matter now is not whether we like her, PT or Lula, but is one of respect for young Brazilian democracy.

20 de março

Invenção e desamparo. - pol´tica

Momento de grande desafio para a tradição de esquerda.
Por um lado a necessidade de uma intensa luta pela democracia, pelo estado de direito. Por outro a necessidade de nos autorizarmos a fragilidade do momento, a falta de referências, a ausência de um salvador. 
Elevar lula a esse papel hoje me parece um ato de desespero e revanchismo. Até lula, com seu brilhantismo, sabe que seu retorno como líder popular é um erro, uma evidência do seu próprio fracasso.
O norte dos democratas hoje me parece simples e árduo. Há um estado de direito e lutar contra os golpistas é uma necessidade - seja o sujeito de esquerda ou não. Isso e simples, mas duro. Mas, o mais difícil, é ter a democracia como norte sem um exemplo partidário. Hora de 
Invenção e desamparo.

18 de março

Velocidade Brasil

Velocidade 
A oposição ao governo utiliza uma estratégia da extrema velocidade para desarticular resistências, desmontar a ordem democrática e criar uma sensação de caos e desordem. 
Com a manipulação de informações - por vezes banais, irrelevantes ou descontextualizadas – se cria uma atmosfera de descontrole e desordem. 
A velocidade, nesse caso, é a eliminação da política e de qualquer possibilidade do debate e pensamento.
Hoje, quando me preparava para falar da tristeza em ver Lula no governo, mais um ataque da Lava-Jato, agora empenhada em destruir a própria Lava-Jato.
O que era uma ação com importantes gestos republicanos vai ganhando contornos cada vez mais autoritários e partidários. Uma lástima! Os acontecimentos de hoje deveriam chocar a qualquer um que deseja a democracia.
Sim, a volta de Lula ao governo é triste. Mais do que um líder, Lula agora chega como o pai salvador, o justiceiro injustiçado. A política não precisa mais de Lula.
Triste momento do país, entre um passado como esperança enfadonha e sem imaginação – Lula novamente. E uma oposição autoritária e ridiculamente cínica.
Se fosse possível desmontar um pouco essa velocidade em que nada se fixa, tudo já seria melhor.


16 de março

Conservadorismo e Lava Jato

Conservadorismo e Lava Jato
Os recentes acontecimentos com Lava Jato, Lula, Odebrecht etc vêm, infelizmente, aprofundando nossa crise política. Entretanto, esse não deveria ser o papel de uma importante operação contra o saque que o capital e as estruturas políticas fazem do bem público.
Primeiramente, como ser contra uma ação que expõe os principais operadores dessa íntima relação corrupta entre capital e estado? Como ser contra a investigação sobre as formas como megaoperadores – empreiteiras, bancos – centralizaram as ações de empresas estatais para que estas sirvam aos seus interesses? Como ser contra uma profunda investigação sobre a forma como essa união entre estatais e empreiteiras se tornou elemento chave na manutenção de certos poderes, destruindo possibilidades reais de democracia.
O desmonte dessa imbricada relação entre capital e poder político é mais que bem vindo.
Entretanto, dois movimentos conservadores podem jogar por terra um grande esforço.
O primeiro é óbvio: Moro e seu grupo não cessam de incorrer em injustiças e métodos de pressão bem pouco republicanos. Como é o caso das longas prisões sem julgamento, método que beira a tortura para forçar o acusado a aceitar uma delação premiada. Método esse defendido por Moro em artigo do final dos anos 90 sobre a operação “Mão Limpas” na Itália:
“Por certo, a confissão ou delação premiada torna-se uma boa alternativa para o investigado apenas quando este se encontrar em uma situação difícil.” (Moro)
O método do espetáculo ficou também mais evidente, claro, com a absurda condução coercitiva de Lula.
Em sua ação não equânime, espetaculosa e frequentemente autoritária, as investigações perdem seu caráter republicano e abrem espaço para o segundo ponto: a triste dicotomia entre Lulistas e seus opositores.
As características das ações da Lava Jato aprofundam a dicotomia entre esses grupos políticos, o que nada tem a ver com os reais problemas políticos do país.
Onde está o conservadorismo? Simples. No momento em que deveríamos efetivamente lidar com as questões ligadas à governabilidade, a corrupção como forma de governo, o fracasso de todos os governos recentes pós Collor em fazer uma reforma política e tributária no país, o que vemos? Uma nova polarização: Lula como mártir ou como exemplo de corrupção – segue-se a isso, gestos da mesma natureza: por um lado uma grande mídia constrangedora e golpista, como tradicionalmente o é, de outro um governo e seus partidários que olham para os fatos como se nada devesse ser feito e nossa única função fosse defender o pai – Nosso Lula.
Nos dois casos há um abandono da política e de qualquer perspectiva de futuro.
O conservadorismo é isso: está tudo certo no jogo, o problema é ganhar. Os últimos anos tem deixado claro que talvez o problema a ser enfrentado é o jogo e não a escolha dos vencedores e perdedores.

8 de março

A Garota Dinamarquesa

A Garota Dinamarquesa é um filme curioso. Tudo acontece em torno do personagem que começa a se travestir, assume junta à companheira sua homossexualidade e finalmente se submete à primeira cirurgia na história para a retirada do pênis e a produção de uma vagina.
Entretanto, narrativamente, é no amor incondicional de sua parceira que o filme se centra. Apensar de tudo, ela está ao seu lado. Com idas e vindas, mas sempre presente. 
O que acaba dando as feições mais conservadoras ao filme – além de tantas opções estéticas, como apontou Bernardo Carvalho em recente crítica – é o fato de a mulher, mesmo movida por seu amor incondicional, não ter seu desejo alterado ou perturbado por tudo que acontece com o marido.
O filme se apoia assim em um jogo binário – ou ele é homem, ou ele é mulher. Se ele for homem, a relação com ela pode existir, se for mulher, não há sexo. A centralidade narrativa passa assim a ser totalmente pauta pela lógica heterossexual da mulher, inalterada, mesmo quando seu marido não para de escancarar as portas para outras possibilidades eróticas.
O que poderia ser uma história libertária, acaba se tornando uma história que corrobora a impossibilidade daquele homem, com seus desejos subversivos para a época, mudar qualquer coisa no seu entorno, nem mesmo a mulher que o ama.

Zica e ciência

Os acontecimentos associados ao Zica e os casos de microcefalia são reveladores do funcionamento de toda ciência. 
Subitamente, aqueles que deveriam dar as boas respostas e organizar as ações contra a epidemia se embaralham, falam sem muita certeza ou são absolutamente ineficazes. 
No momento que a ciência falha, são convocados todos os atores sociais que de alguma forma podem influenciar as tomadas de decisão e as origens do problemas.
Talvez os casos de microcefalia sejam causados por uma vacina ou talvez por um pesticida da Monsanto - gigante que além de pesticidas produz sementes suicidas. Mas, não são apenas as eventuais erros, também científicos – vacina, pesticidas – que são convocados, também as condições de saneamento e os poderes públicos que poderiam ter evitado a proliferação dos mosquito. Além disso, a epidemia acontece na véspera de uma Olimpíada, o que transforma o problema local em algo global que
envolve grandes investimentos.
Os mesmo poderes locais, junto com a mídia, precisam, se não conter o vírus, pelo menos administrar a informação sobre ele, controlar a circulação do que se sabe e diz sobre a doença. A OMS anunciou ontem grandes investimentos para combater o Vírus. A maior parte das verbas vai para conscientização, ou seja, mídia.
O Zica e os casos de microcefalia são assim reveladores do funcionamento da ciência - fundamentalmente suja e opaca, distante de qualquer assepsia ou isolamento.
Se algum dia a ciência foi animada pela curiosidade, pelo livre pensar ou pelo simplório desejo de melhorar o mundo, nesse caso estão evidentes os fatores sociais, econômicos, interesses de estado e multinacionais, estruturas de poder midiáticas e globais.
O que perturba a ciência é que o “sujeira” venha a tona, que a solução para um problema se torne um debate em que essa mistura opaca tenha influencia. Perturba a ciência que as operações em torno de um mosquito sejam um problema sem exclusividade dos homens e mulheres de branco em seus laboratórios.
A sujeira sempre esteve lá, a confusão de opiniões que circula no momento não é o contrário da ciência, mas ela mesma.

"Manifesto Contrassexual" de Beatriz Preciado.

Com mais de 10 anos de atraso acabo de ler o "Manifesto Contrassexual" de Beatriz Preciado.
A leitura é instigante e frequentemente bem humorada, o rigor teórico e a metodologia são inspiradoras.
Mas, o melhor, é a aposta política não essencialista ou conservadora na discussão de gênero. Como se livrar das separações dicotômicas homem/mulher e, ao mesmo tempo, não abandonar a crítica à centralidade hetero? Como pensar o feminismo sem o que ela chama de "feminismo separatista", que acaba por se confundir, por oposição, aos discursos heterocentrados e falocêntricos?
A Carla Rodrigues escreveu uma ótima resenha para a CULT.
última obs. Ah como seria bom se os psicanalistas transitassem por ai!

Carnaval

O carnaval no Rio de Janeiro me dá uma certeza: qualquer melhora do espaço urbano passa por uma intensa carnavalização. 
Há quatro dias a cidade está ocupada por pessoas que transpiram uma alegria com a rua e com todos que estão em torno. A mistura é muito intensa, a circulação dos carros é bem menor, a segurança é maior, anda-se a pé enormemente, as múltiplas opções sexuais são amplamente aceitas, os desejos e criações tomam formas imponderáveis . Há uma bagunça que antes de ser transtorno é a vida da cidade sendo vivida pelas pessoas que fazem dela uma cidade. Quando o louco é apenas mais um.
Não, não se trata de um carnaval eterno, mas da evidência de que muitos dos problemas das cidades - segurança, preconceitos, circulação – são resolvidos quando as ruas são ocupadas, quando se tem tempo e festa.

7 de set. de 2015

Que horas ela volta? - notas sobre a politica no filme


    A maior invenção do filme da Anna Muylaerte é o personagem da filha de Val, interpretado pela Camila Mardila.
    Lembrar dos recentes “O som ao redor”, “Casa grande” e “Doméstica”, do Mascaro, parece pertinente na medida em que esses filmes colocam no centro da narrativa os embates de classe e os sistemas de opressão das elites que passam por relações de afeto.
    Mas, a singularidade do personagem de Jéssica é comparável ao magistral personagem do “Invasor”, de Beto Brant. Esses personagens não querem o dinheiro dos ricos, mas pedaços dos modos de vida. A piscina, o quarto com cama confortável, o ar condicionado, o sorvete. O Invasor seduz a filha do rico e uma relação se dá entre eles. Jéssica também seduz – quase a revelia, é verdade. A jovem perturba a ordem da casa em diversas esferas.
    O que ela traz para a casa é um subversivo princípio de igualdade. “Não sou melhor, mas também não sou pior”. O princípio de igualdade sensível é expresso na cena da piscina e na forma como Jéssica “invade” o quarto de hóspede e pula na cama macia, rompendo a barreira que separa quem tem direito ao frescor do ar condicionado e quem não tem – sua mãe. Jéssica não espera o convite, enfia o pé na porta e usufrui de tudo que por direito não deveria ser exclusivo de uns e não de outros. Só um invasor rompe a barreira que organiza as sensibilidades em uma sociedade onde a opressão de classe pouco choca.
    A personagem de Jéssica inaugura então uma narrativa da emancipação de Val. Depois de desmontar a ordem do que é alto e baixo – as notas, a vivacidade, o preço do sorvete, a curiosidade – a personagem se revolta em perceber a mãe submissa aos esquadrinhamento da casa. Jéssica é movida pelo esforço individual, pela necessidade de sucesso pessoal, diferentemente do jovem de sua idade, Fabinho, envolto nos excessos do mundo familiar. Quando Jessica se revolta e vai embora, depois da decisão da dona de casa de isola-la no canto das domésticas, todas as rupturas que ela produziu não são suficientes para afetar a família rica que celebra o fracasso do filho com um intercâmbio na Austrália – a escolha deste país é mais uma das ótimas opções de roteiro. Mas, pior, a invasão de Jéssica e seu compartilhamento fugaz do mundo dos ricos também não é suficiente para mobilizar Val. A exuberante personagem interpretado pela Regina Casé precisa ainda do elemento melodramático para efetivar a ruptura. Ela precisa cuidar da família, fazer o papel de mãe que não pôde fazer com a própria filha.
    Enquanto Jéssica era a invasora e perturbava a distribuição dos direitos da casa grande, a política estava sendo feita. No momento em que Val deixa a casa para assumir o neto afetada pela possibilidade de reinventar a vida da filha, as coisas voltam aos eixos. Os pobres morando no lugar dos pobres, correndo contra o tempo, como pobres, e os ricos com suas vidas de viagens, motoristas e prazeres, como ricos. Os pobres fixos em seus territórios - com a esperança de um sucesso pessoal – e os ricos desterritorializados, com a vida ganha por princípio. Essa virada narrativa tende a esvaziar a força política do filme.
    A virada melodramática esvazia a invasão como gesto político e, apesar do final feliz – a família junta, o sucesso de Jéssica e a ruptura da circuito que coloca filhos separados de mães – a divisão de classe não sofre qualquer abalo. O embate é esvaziado pela forma como o melodrama se sobrepõe ao enfrentamento. Val provavelmente arrumará um novo emprego, como diarista talvez, enquanto a família de Fabinho terá o trabalho de conseguir uma nova empregada doméstica que continuará sem ar condicionado.  Assim, a luta de classe se dissolve na forma como o opressor não é afetado.
    Se não é no interior da narrativa que a transformação política se faz, sobretudo porque não podemos dizer que Val - ou a família rica - está agora tocada pelo princípio de igualdade efetivado por Jéssica, como o filme se coloca então como discurso político?
    Resposta óbvia, tendo o espectador como objeto. O que o filme pede então os espectadores? Pensado como um filme político, que forma de engajamento do espectador o filme pode esperar? Primeiramente que reconheçamos que há um mundo sensível na vida dos pobres e que esse mundo não é segundo em relação à sensibilidade dos ricos. Para construir isso o filme precisou de uma família muito rica, com uma mãe para quem as palavras de Val não existem, para contrastar com uma doméstica carinhosa, criativa e sensível, mas que não sai de seu lugar de submissão, a não ser pela virada melodramática. O filme pede ainda que o espectador não compactue com a alienação e preconceito dos ricos, uma vez que essas são as formas de fazer menor quem é igual – Jéssica. Não é pouco, é verdade, mas esses modos de engajamento do espectador são tênues diante da manutenção da tragédia da divisão de classe que o final feliz privado encobre.
      Enquanto Jéssica  invadia ela se colocava como portadora de um direito e de uma sensibilidade lá onde uma igualdade não se efetivava. No final feliz do filme a igualdade continua não se efetivando, mas o sucesso pessoal aparece como saída. Jéssica e seu filho talvez escapem, o mundo não.