22 de fev. de 2011

Ana Paula Santana, entrevista no O Globo




Tentando entender a entrevista da Ana Paula Santana, nova secretária do audiovisual (SAV/MINC).
            Na verdade, meu esforço é para não entender rápido demais a entrevista, uma vez que ela é repleta de elementos que indicam que a Secretaria do Audiovisual está abrindo mão de ser um contrapeso ao mercado e à retórica da indústria para se adequar à lógica que domina o audiovisual comercial no cinema e na TV. O discurso da secretária está distante do que tem aparecido de forte e potente no cinema e no audiovisual contemporâneo, uma força que passa pelas periferias, coletivos, festivais, cineclubes, distribuição digital, pontos de cultura, etc. Ou seja, uma produção e um acesso pautados por uma relação pós-industrial de trabalho, criação e também estética. Uma relação que não é um projeto utópico de cinema, mas uma contingência, um estado de coisas no qual estamos inseridos. (escrevi sobre isso em: Por um cinema Pós-Industrial na revista Cinética).
            Vamos a alguns pontos da entrevista:
            A ideia de coletivos criativos pode ser ótima. Como sabemos, grande parte da produção mais inventiva que tem circulado em festivais e mostras no Brasil e no mundo foi gerada em coletivos que em suas equipes e formas de trabalho questionam a tradicional hierarquização que o cinema herdou da indústria. O que Ana Paula parece desconsiderar na entrevista é que muitos coletivos criativos já existem no Rio e em São Paulo, como sempre, mas também em Belo Horizonte, em Fortaleza, Recife ou em Porto Alegre, apenas para citar os grupos mais ativos e bem sucedidos. Explicita-se nesses grupos uma ruptura tipicamente pós-industrial entre centro e periferia. Entretanto, o que a secretária espera desses grupos é que eles façam planos estratégicos, inventem marcas, sejam empreendedores. Espera que eles se adequem ao mercado e à lógica industrial. O que a secretária talvez não tenha tido ainda a possibilidade de ver é que esta produção já passa pelo mercado – ser exibido em Roterdã, por exemplo, é uma forma de estar no mercado -,  mas que ela se faz longe dos moldes da indústria, longe da lógica que faz com que o processo seja uma passagem ideal da ideia ao produto. Temos hoje a felicidade de ver uma produção que está em Berlin e Cannes, ganhado Brasília e Tiradentes, mas que não é feita dentro da lógica da indústria. No meu entender, apostar em processos é perceber o que existe e potencializa-los, o que é completamente diferente de uma modelização para as demandas do mercado ou para os buracos da cadeia produtiva. Na verdade, o próprio mercado não espera uma modelização, ele é feito com uma intensa demanda de invenção. Pensar com o mercado é pensar em formas de incorporar e potencializar o descontrole da criação existente.
            Assim, temo que o que a secretária chama de processo criativo é, na verdade, uma engenharia de produção em que o filme é um produto que deve fazer parte uma cadeia produtiva. Ou seja, os “processos” que não fomentarem a cadeia, não gerarem produtos competitivos, não devem existir. Dentro da lógica interna de sua reflexão, não há problema em pedir que os coletivos façam planos de negócio, criem marcas, e tudo que acompanha tal lógica – publicidade, público alvo etc - mas dentro da lógica do cinema pós-industrial, o mercado não os antecede. Ou seja, o mercado é o que pode se aproveitar dessas invenções, mas domesticá-la é uma forma de matar a criação.
            No momento em que a cultura se torna o paradigma do capitalismo, não podemos, nós da cultura, nos tornarmos nostálgicos da disciplina das indústrias. O exemplo de processo criativo dado na entrevista é paradigmático desse equivoco. O processo que Ana Paula Santana descreve do FICTV é, em certa medida, parecido com o bem sucedido DocTV, com uma diferença fundamental. O Processo do DocTV potencializava a criação descentralizada em que o mercado era um possibilidade, não o fim. Assim, não se estabelecia público alvo ou adequação a essa ou aquela classe. Quando o próprio estado decide fazer a separação entre arte para rico e arte para pobre – classe C, D e E, como falou Ana Paula – ele se torna um legitimador da falta de democracia em que alguns tem direito a certas experiências sensíveis outros não. Não é papel do estado decidir o que pode a sensibilidade do pobre.
            Se a arte ainda tem alguma potência é justamente a de dar a qualquer a possibilidade de uma relação estética com o mundo. Quando a escolha do que cada um deve ver é entregue para o mercado, como insinua Ana Paula, estamos, por um lado mimetizando o que a Globo, o SBT e a Record já fazem, por outro esvaziando toda possibilidade criativa tanto do público como dos produtores. O que a secretária coloca na entrevista é que para ela o gosto do espectador já existe, só precisa ser mapeado e atendido. Entretanto, se o cinema guarda alguma potência é justamente a possibilidade inventar formas de estar e se relacionar com o mundo, para criadores e espectadores,  formas que não são antecipáveis por planilhas, público alvo, marca, ou mercado.
            Se o cinema é uma indústria, minha argumentação não tem sentido algum. Entretanto não só o cinema não é uma indústria, como estamos em uma era pós-industrial e é no mundo atual, com suas possibilidades e limites, que somos demandados a pensar.
            Há ainda um outro ponto. Ana Paula Santana diz na entrevista algo que ouvimos também o cineasta Cacá Diegues dizer em recente palestra em Tiradentes: “que a produção se desenvolva no sentido de achar o público para sua obra”  Tal colocação parte do princípio que toda obra tem as mesmas possibilidades mercadológicas, o mesmo acesso às salas, a mesma publicidade, etc. Assim, privatizamos o fracasso e culpabilizamos os artistas e produtores. Não ser um sucesso torna-se um desacordo entre filme e público e não parte de condições dadas: falta de salas, salas ocupadas de maneira nada democrática, falta de filmes nacionais nas TVs, etc. Dizer que o filme nacional não atinge o público porque os realizadores o desprezam é o que mais interessa aos donos do mercado atualmente. Além, é claro, de colocar de lado o valor histórico e simbólico que uma obra pode ter, para além da imediata aprovação do mercado. Uma semana em Tiradentes com centenas e centenas de pessoas que raramente vão ao cinema assistindo a filmes que circulam na Europa, bastaria para vermos que o problema é menos das obras do que da organização do audiovisual contemporâneo.
            Finalmente, ao comentar a Carta de Tiradentes, ela diz que o circuito alternativo gera público mas não gera renda. Pois essa feliz constatação vai no âmago do problema contemporâneo. Os filmes existem e podem existir em número muito maior, o público os deseja, mas as salas não são feitas nem para esses filmes nem para esse público, pelo menos por enquanto. O que fazemos? Enquadramos a criação e inventamos produto para as roletas ou potencializamos a criação e o acesso? É o papel do estado que está em jogo.

19 de fev. de 2011

Zizec e Globo News - "O Afeganistão se tornou fundamentalista porque ficou enredado na política mundial."

O Zizec falando é sempre divertido e com bons exemplos.
A Globo News consegue fazer um corte no momento que ele vai falar de Lula.
Minuto 14:38. Chega a ser patético.
http://www.youtube.com/watch?v=qdkrKeRPpYg

16 de fev. de 2011

O MinC e a economia criativa



            Se era o embate que a nova equipe do MinC desejava com os interessados na instauração de novas regras para o uso da internet, o que passa por uma revisão dos direitos autorias, esse embate foi amplamente instaurado.
            Depois de um mês de governo há um profundo mal-estar em muitos atores da cena cultural brasileira, principalmente entre aqueles que mais apoiaram a eleição da presidenta Dilma. O mal-estar e a frustração talvez nos cegue para a discussão em torno da entrada das economias criativas no ministério. Me pergunto então: o protagonismo dado à chamada economia criativa no MinC é parte de uma mesma concepção privatista e liberal, como a que pretende abandonar os anos de debates feitos em torno do Direito Autoral?
            No momento em que o Minc vem sendo bombardeado por todos os lados é importante tentarmos encontrar as linhas de continuidade ou descontinuidade entre, por exemplo, a retirada do Creative Commons do site e a instauração de uma Secretaria da Economia Criativa.
Vamos ver...

            A noção de economia criativa foi usada pela primeira vez na Inglaterra, no governo de Blair em 1997, com o nome de Indústrias Criativas. Nesse momento, a definição de indústria criativa é: “indústrias baseadas na criatividade, nas qualidades e no talento individual” que tem “o potencial de criar prosperidade e empregos fazendo uso da propriedade intelectual” (Creative industries mapping document, 1998). Se é essa a definição que move o ministério, não há dúvida que a mesma lógica que o fez o abandonar o CC, move também a pasta da economia criativa. Mas, podemos estar enganados.
            De qualquer maneira, parece que há duas formas de entendermos essa economia. A primeira é focada no potencial econômico da criação. Ou seja, onde há criação o estado deve intervir para poder tirar dali sua função econômica. Nesse sentido, a questão dos direitos autorais tal como vem sendo recolocada pela Ministra Ana de Hollanda, é absolutamente pertinente. A restrição de acesso à criação pode ser importante para a economia, pelo menos de forma imediata e localizada. Nesse primeiro caso, trata-se de funcionalizar e fomentar aquilo que pode, de maneira rápida e palpável, gerar dividendos. A cultura se torna uma comoditie e como comoditie, pode valer a pena a monocultura. Nessa mesma linha, aquilo que não pode ser funcionalizado, que não trará dividendo ou que não pode ser transformado em capital, material ou imaterial, segundo o julgamento do ministério, não deve ser fomentado. Nos perguntamos então: o Ministério da Cultura é o ministério que irá compartimentar a cultura entre aquelas que são economicamente interessantes e aquelas que não são?
            Bem, é claro que o ministério pode ter vários papéis ao mesmo tempo, entretanto, se a cultura é o que interessa, não seria papel do capital identificar o que pode se transformar em produto ou mercadoria? Ao que me parece, no momento que o ideal econômico vem para o interior do ministério estamos invertendo os papéis. Que a cultura é capturável pelo turismo, pela moda, pelas redes sociais, etc. Não há dúvida. O desafio do capitalismo é inventar modos de vida e isso a cultura faz cotidianamente. Mas, trazer para dentro do ministério uma secretaria que cuide dos modos de captura, é excessivo.
            Entretanto, pode ser que estejamos falando de outra coisa. É preciso pensar economicamente a cultura como invenção cotidiana, na arte e fora dela. É preciso pensar na vida antes de chegar no produto; a cultura na sua imanência. Talvez o ministério da Cultura venha a nos surpreender propondo uma renda mínima universal (RMI). Ou seja, se a cultura é o que interessa como valor no capitalismo contemporâneo, se a cultura e os modos de vida desgarrados, não repetitivos e inventivos, são aptos a serem transformados em mercadoria – da cidade, à camiseta, da favela à Garota de Ipanema. Então, deveríamos pensar em uma agência de recolhimento para taxar todo produto que se inspire nas formas de viver dos sujeitos e na inteligência coletivamente, ou seja, tudo. Tudo seria taxado e cada humano receberia uma renda mínima para viver e continuar alimentando a economia criativa.
            Os indícios que temos nesse início de governo indicam que o primeiro tipo de economia criativa será privilegiado, mas, como já estamos nos acostumando a tomar sustos. Vamos ver.


Outros textos:


A genial matemática da Miriam Leitão;

Salário mínimo conseguiu recuperação histórica em 16 anos

O texto dela diz: "Em 16 anos, a partir de 1995, período que pega os governos Fernando Henrique e Lula, o aumento acumulado foi de 121,78%. Ou seja, o salário mínimo conseguiu uma recuperação histórica."

 Veja os gráfico: o primeiro referente ao mínimo em dólar e o segundo relativo à quantidade de cestas básicas que um mínimo pode comprar.




10 de fev. de 2011

17:29
Talvez tenha sido esse o momento que Mubarak caiu.
Nesse exato momento a TV Estatal egípcia passou a transmitir as mesmas imagens da Al Jazeera.



duas horas depois: Errei!


20 horas depois:
A importância das redes sociais é enorme mas o golpe fatal é da grande mídia.

Mubarak cai.

Por um cinema pós-industrial

Os colegas da Cinética atualizaram hoje a revista com um artigo meu em que desdobro a fala que fiz na última Mostra de Tiradentes, já pensando o encontro que tivemos com a presidência da Ancine e os debates posteriores à Carta de Tiradentes.

Por um Cinema Pós-industrial

A questão hoje parece ser: como potencializar uma produção cinematográfica que soube se inventar em meio a condições novas, longe da lógica industrial. O papel do estado hoje é potencializar o descontrole.

9 de fev. de 2011

MinC, Caetano e direitos autorias


O Caetano escreveu um artigo infeliz no O Globo sobre direitos e acabei deixando de lado. Não é de hoje que as opiniões políticas dele são pautadas por um privatismo retrógrado em que a democracia não é um valor de base. 
Nesse artigo ele foi fundo: dizer "A internet que se vire" é o mesmo que dizer F...-se o mundo. 
O que impressiona é a possibilidade do ser humano ser tantas coisas ao mesmo tempo, em uma vida só.
Ser um compositor genial - e aqui não vai nenhum exagero - e ao mesmo tempo ficar assinando recibo de ignorância e preguiça intelectual.

Mas, esses muitos Caetanos são divertidos apenas, papo fofoca, Zona Sul.

Entretanto, o uso que o Minc fez do texto dele em seu site não é nada divertido e retrata a gravidade do que vem acontecendo nesse ministério.

Primeiramente o Ministério publicou o artigo do Caetano na íntegra, com a defesa da atual lei dos direitos autorais:

"É porque acho que devemos respeitar os direitos autorais. Sem concessões. A internet que se vire. Ela e toda sua multidão de internautas em blogs e redes sociais que se vejam na situação de introjetar as leis da vida off-line, a nossa vida. Daqui de fora, podemos exigir."

Em outra parte do texto havia um grande elogio à presidenta e uma crítica ao Lula. 

"Lula era muito show business (eu já sou saturado do elemento)" 

Em várias redes, muitos acharam um absurdo o Minc reproduzir o texto do Caetano. Certo, era uma forma de reafirmar o que a Ministra vem dizendo e fazendo contra as iniciativas que pretendem dar um limite nos abusos da lei do direito autoral que hoje trata o autor como alguém do século XIX fazendo uso da lógica industrial do século XX em um ambiente pós-industrial. Ou seja, pela manutenção do lucro do Sorocaba e Vitor Chaves (os artistas que mais lucraram no ECAD 2010) vale compor um mix perverso com conceitos e noções que atravessam os séculos e ignoram o mundo. 

Mas, nesse primeiro momento não me pareceu um absurdo que o Minc colocasse o texto do Caetano ali. O site poderia ser um espaço de debate. Claro, seria importante acrescentar outros artigos: do Hermano Viana, do Sérgio Amadeu, do Leoni, etc. Reproduzir um texto, não significa, necessariamente, concordar com ele. 

O problema veio depois. O MinC decide editar o texto do Caetano retirando a parte crítica ao Lula.
É inacreditável a incompetência!

Ao fazer isso o Ministério assume o texto do Caetano como seu. De maneira definitiva assume uma posição em relação ao debate sobre os direitos autorais. Essa posição implica em um gigantesco desrespeito a todo o trabalho que foi feito durante os últimos anos. A proposta de revisão da lei que está no site do Minc (http://www.cultura.gov.br/consultadireitoautoral/) - espero que ali fique - recebeu milhares de propostas, foi muito debatida. Jogar esse trabalho fora seria absurdo mesmo se um governo de oposição assumisse. Nesse caso então....

O MinC está jogando fora o respeito e o trabalho reconhecido no Brasil e no Mundo. Esse é apenas mais uma caso. Mais do que fazer uma nova política, o interesse parece ser o esvaziamento intelectual do MinC retirando seu papel de propositor de políticas públicas e democráticas. Enquanto isso: Vale Cultura para serem gastos nos monopólios de sempre e praças standartizadas de Parintins (AM) a Santiago do Boqueirão (RS).


8 de fev. de 2011

Biolutas, para o Célio

Caro Célio,

Acho que existia uma alegria ontem no encontro que estava concretizando o Núcleo de Biolutas por conta de uma percepção generalizada de que há uma militância com questões próximas e que hoje quer atuar com mais força no campo institucional. Pessoas que apoiaram o governo Lula, apoiaram a eleição da Dilma e que agora desejam que essa militância não seja apenas algo que se faça de fora, mas que ela se torne também ativa, no interior do PT.

Um interior estranho, é claro. Muitos dos que estavam lá ontem trabalham na cultura e na universidade e a liberdade de pensamento é parte fundante desses trabalhos. Nesse sentido, Ivana e Beppo lembraram a Universidade Nômade e a permeabilidade com a sociedade que move o projeto. As questões ontem foram essencialmente pautadas pela necessidade de levarmos a frente uma agenda que considere as condições contemporâneas do trabalho e que aprofunde o legado do governo Lula no que tange o potencialização da vida (biolutas) de todos e sobretudo dos pobres.

Falando por mim, diria que o rumo que o Minc está tomando sinaliza para uma evidente necessidade de lutarmos internamente. Não é possível que um governo de continuidade, apoiado pelas forças mais progressistas da cultura, seja entregue aos poderes que tanto bateram no governo Lula, sobretudo por conta das ações democratizantes que você conhece tão bem. Parabéns pelo trabalho.


Ainda não há uma agenda, mas o André Barros se encarregará de fazer uma próxima convocação, espero que possas estar presente.

abraços
Cezar Migliorin

6 de fev. de 2011

O que é biopoder? Para um menino de 12 anos.

Meu filho de 12 anos me perguntou o que é Biopoder.

No Rio de Janeiro, a prefeitura decidiu, logo depois de eleita, fazer um "choque de ordem". Uma homenagem à nossa bandeira.
Um dos pontos centrais do choque é tirar os camelôs da rua. Muito bem. Em Copacabana então retirou-se todos os vendedores ambulantes de bebida, comidas, etc. Uma mês depois, o que vemos na rua? Ambulantes da Brahma vendendo chopp gelado. Bingo. Aquilo que os pobres inventaram e durante anos fizeram na rua, agora é capturado pelo capital.

É por ai....

Direitos autorais - ou como fazer a lógica industrial capturar as potências de vida





                             O debate em torno dos direitos autorias explicita a disputa em jogo em torno da criação. O direito autoral, na forma como é praticado hoje, coloca o artista na ponta da cadeia criativa, como se tudo que o antecede tivesse sido orquestrado por ele. Na lógica do direito patrimonialista, o artista se torna aquele que estanca o movimento criativo e coletivo e transforma o processo de criação, necessariamente transindividual, em produto privado. Isso significaria dizer que entre Vinicius de Morais e as moças que andam por Ipanema não há diferença de criação, que todos merecem o mesmo mérito? Talvez não. Cada vez que ouvirmos a canção de Vinícius, estaremos dando crédito ao poeta, pois ele organizou, de uma certa maneira, algo que não lhe pertence, as garotas e os acordes do violão. Assim, Vinícius merece o crédito e todo reconhecimento por essa determinada ordem, bela e poética, mas porque a criação deve parar ali? Porque este reconhecimento é necessariamente uma mercadoria? A lógica atual dos direitos autorias, sobretudo no que tange o direito de herança, estabelece que a cultura não é prioridade e sim a propriedade. Não seria a música do Vinícius mais um elemento no mundo, tão belo quanto o balançado das meninas que o compositor levou para a música?
                             O que está em jogo no debate em torno do direito autoral é a importância social de certas obras em que o artista não se torne um paralisador de um processo, como na indústria, e sim um agente em uma cultura em movimento. Haveria outro papel para o artista? Hoje, por exemplo, um filme não pode ser exibido em sala de aula sem pagar direito autoral e uma família tem o direito de privar a sociedade de um obra de um compositor durante 70 anos após sua morte. O anacronismo e a irresponsabilidade social de tais leis se tornam ainda mais graves quando os meios digitais permitem uma circulação infinita e gratuita dessas obras.
                             No campo da música, por exemplo, a possibilidade de se ganhar dinheiro fazendo cópias de discos durou um século, bem menos do que os milhares de anos de existência da música. Como vemos, a defesa dos direitos autorais atua pedindo escassez onde há abundância, barreiras onde pode haver acesso, interrupção criativa onde pode haver multiplicação, privatização no lugar de coletivização. Para refazer a lógica industrial no interior de uma era pós-industrial, sobretudo no campo da circulação de bens imateriais, a retórica de defesa do artista se tornou central. Essa centralidade é hoje frequentemente acompanhada da defesa do direito autoral, mas, mais do que isso, da defesa de um modelo hierarquizado e privatista, uma forma de administrar, e eventualmente destruir, uma potência de invenção e criação que está dada e que é comum.

15 de jan. de 2011

artigos da semana (fechando as abas do Firefox)



Uma semana repleta de artigos excelentes sobre questões urgentes:

1 - Batisti: (Pt.)
PELUSO PODE SER IMPEDIDO POR MANIPULAR CASO BATTISTI (link)

2 - Comunicação, Cultura digital, democracia: (Pt.)
Entrevista com a Ivana Bentes:

3 - Democracia – (FR)
Capítulo do novo livro do maurízio Lazzarato : Une lecture parallèle de la démocratie: Foucault et Rancière”


4 - Imagem (pt.)
Palestra com Didi-Huberman e Rancière

5 - Globalização, Território e identidade (FR)
La mondialisation fait-elle un monde habitable ?, Bruno Latour

6 - As mortes na região Serrana (RJ) e a mídia (PT)

4 de jan. de 2011

A cultura está no centro das disputas do capitalismo contemporâneo

Minha tia me ligou me dizendo que estou de má vontade com a nova ministra da cultura, a Ana de Hollanda. Não é verdade.
Estou atento, disse para ela.
Eu efetivamente ouvi o que ministra disse em seu discurso de posse e nesse discurso ela se colocou muito distante da dimensão necessariamente política e inclusiva que tem a cultura no momento. Fazer da cultura um agente da democracia é o legado do governo Lula.

Alguns pontos podem ser destacas no discurso da Ministra.

A centralidade da arte e não da cultura.
O risco de colocar a arte em primeiro plano está em se enfatizar o produto do artista, transformando o ministério da cultura em um produtor de espetáculos ou em um distribuidor de “cultura”. Uma grande Funarte, como disse o Belisards no twitter.
Ao centrar o ministério na arte há o risco de nos distanciarmos da noção de cultura que o Gil forjara já em seu discurso de posse, em 2003:
“Cultura como tudo aquilo que, no uso de qualquer
coisa, se manifesta para além do mero valor de uso.
Cultura como aquilo que, em cada objeto que
produzimos, transcende o meramente técnico. Cultura
como usina de símbolos de um povo. Cultura como
conjunto de signos de cada comunidade e de toda a
nação. Cultura como o sentido de nossos atos, a soma
de nossos gestos, o senso de nossos jeitos.”

Para mim cultura é isso. Um ministério tem o dever de possibilitar a plenitude da produção e da invenção cultural de um povo. Isso passa pela democratização das possibilidades sensíveis.
O trabalhador que passa 4 horas no ônibus não passa a ter acesso à "cultura" porque agora tem um vale-cultura. O que não quer dizer que o vale-cultura não seja importante.
A cultura deveria assim ser um ministério transversal a todo o governo, estar na mesa em todas as negociações centrais. Como pensar o desenvolvimento, a ciência e a tecnologia, a educação e a economia se o direito à plenitude do que pode, estética e sensivelmente, uma comunidade não é parte do problema.
É por isso que quando a nossa ministra finaliza o discurso dizendo que não há arte sem artista, eu fico preocupado. De maneira abrupta diria: sim, há arte sem artista, mas, mais importante que isso, há cultura para além da arte.
A centralidade do artista e do autor em detrimento dos processos
Da mesma forma que acredito que a cultura deveria ser transversal ao governo – assim como o meio-ambiente –, acredito que uma parte importante dos embates contemporâneos no interior do capitalismo se dá na luta pelo direito a plenitude dos possíveis do mundo contemporâneo. Acesso à informação, tempo para a reflexão e para a fruição, possibilidade de usufruir do mundo e de tudo que nada custa.
Como disse o Giusepe Cocco em um twitter: A cultura não é um setor e os "artistas" não são uma "classe" (no máximo uma corporação). A cultura é o cerne do valor hoje: relação!
Essa percepção de cultura retira do artista a centralidade nos processos culturais. Uma centralidade que pode ser extremamente conservadora se formos privilegiar o artista e não a democracia em questões como os direitos autorais, os acessos às mídias digitais, internet e softwares, etc. Ao privilegiar o artista retiramos do processo cultural o criador, o povo. Como disse ainda o Gil em seu discurso de posse, o problema do estado é ficar a altura da criação do povo.
Foi com essa percepção do estado que vimos nos últimos anos o Brasil assumir um importante papel no debate sobre o acesso à cultura tanto no consumo como na produção ligada à internet, necessariamente democrática, aberta e neutra, como expressado na carta à ministra escrita por diversos representantes da sociedade civil (http://culturadigital.br/cartaaberta/) Foi ainda com essa percepção do que é cultura que os Pontos de Cultura se tornaram uma das mais bem sucedidas iniciativas do governo Lula.
Por conta dessas questões, a cultura está no olho do furacão, no centro dos debates que influenciarão a vida de todos e no centro do que há de mais valorizado no capitalismo contemporâneo: a criação e a invenção das vidas mesmos. Não é por acaso que empresas como Google e Facebook se tornaram as mais valiosas no mundo atual.
Se o ministério da cultura for despolitizado, se tornando apenas um fomentador da arte e do consumo de arte estaremos abrindo mão de debater e influenciar o capitalismo lá onde ele é mais efetivo e poderoso, na cultura.

28 de nov. de 2010

Quero ser brasileiro.

Tupinambás, Nietzsche e o documentário Brasileiro, foi com esse trio que fiz minha última palestra na Universidade de Salzburg.

Falar fora de casa, para um público estrangeiro, é sempre estranho e curioso. A mistura entre Tupinambás e o alemão, no Brasil, causa algum estranhamento, aqui provou sorrisos de alegria. O Nietzsche parecia revitalizado, conectado com algo que o público jamais imaginara.

Comentando os textos de Eduardo Viveiros de Castro e a relação dos Tupinambás com os Europeus, a reação era de outra ordem. Brasileiros que vivem com austríacos se identificavam com a inconstância dos Tupinambás diante da constância dos europeus. Mas, há também os austríacos canibais, devoradores, talvez mais raros.

Ser brasileiro não é privilégio de quem nasce no Brasil ou ao sul do Equador. Esse fluxo-Brasil está ai disponível para quem se habilitar à entrar; tão sedutor, tão mobilizador e por vezes tão duro e horrível. Alguns tem no destino essa marca, como eu. Outros vão atrás, buscam sons, línguas, imagens, pessoas e ai vão fazendo variar a constância, seja ela portuguesa ou austríaca. Para esses que não tem o Brasil como destino, que estranha decisão; se associar a Tupinambás inconstantes, devoradores dos amigos e dos inimigos - de maneiras diferentes.

27 de nov. de 2010

O Rio de Janeiro é o mundo

De longe acompanho os eventos que tanto mobilizam a cidade do Rio de Janeiro.
Leio ótimo artigo  do Luiz Eduardo Soares sobre polícia, tráfico e mídia ao mesmo tempo em que recebo um mail da escolas das crianças suspendendo as atividades da tarde, por conta dos carros queimados, do clima de insegurança.
Em Salzburg neva e as pessoas circulam no mercado de natal. Não faço aqui uma montagem simplória entre a violência do Rio de Janeiro e a tranquilidade de Salzburg, não é isso. O que talvez me mobilize tanto no Rio é porque o mundo parece estar ali. Não há riqueza sem conflito, não há bem estar sem embate.
No Rio todo gesto parece ser político, urgente.
O que se passa no Rio nesse momento nos angustia porque nos exige ainda mais. Mais ação, mais mobilização, mais democracia.

26 de nov. de 2010

Neva em Salzburg

Terceiro dia em Salzburg e neva muito. A neve parece ser o que há de mais adequado para a cidade e para a paisagem.
Faz frio, todos estão em casa,  mas nas ruas há sempre muito pouca gente.
Não sei se em outros momentos isso muda muito.
De algum forma, essa tranquilidade de Salzburg não aparece sem susto. Para onde foi a bagunça, os pobres, os imigrantes, etc. O que aconteceu que a cidade ficou impenetrável, mesmo se as velhas muralhas não tem mais sentido.
Para onde foram os jovens que na madrugada andam na rua e ouvem música alta?
Salzburg parece dispensar o mundo. Parece não montar com nada. Os Mercedez e BMWs que transformam a neve em lama, quando os vemos em São Paulo, são humanizados pelos pedintes e pelo engarrafamento. Aqui não, andam livres e rápidos, param na faixa de pedestres e não encontram um pobre que possa provacar alguma mal estar, pelo menos para aqueles mais críticos, normalmente fora dos carros.
Aqui a riqueza não tem conflito. Os alpes protegem Salzburg.
Neva muito em Salzburg e aguardo a carona que me levará para a universidade onde dezenas de alunos de várias partes do mundo estudam português. Tentam, ao seus modos, abrir uma portinha nos Alpes, tentam tirar a neve do vidro de casa.
Acho que o cinema pode algo em relação a isso, talvez essa seja parte da alegria de estar aqui. Poder experimentar umas gotas de conflito.

1 de nov. de 2010

Tropa de Elite 2


José Padilha tinha razão, Tropa de Elite 2 comprova que ele não poderia votar em nenhum candidato para presidente. Para o diretor, está tudo errado! Milícias, tráfico, polícia e Brasília fazem parte de um mesmo sistema que o Capitão Nascimento e o filme conhecem bem e tratam de acusar. Não há saída, tá tudo dominado.
Movido pelo ressentimento, o Capitão denuncia e derruba as principais cabeças envolvidas com o crime, mas logo há novas peças para manter o sistema funcionando. Diante da corrupção que tudo abarca, ou não se faz nada ou se vira a mesa. Como nada indica que uma virada de mesa é possível, o melhor é não fazer nada mesmo, não votar em ninguém.
Padilha está acima dessa porcaria toda. Se é para sujar as mãos, que seja apenas com o sangue fake fartamente distribuído no filme.
Do lugar de quem sabe sobre o mundo e sobre a podridão da política, o filme pode berrar: Tá tudo errado. O público, feliz, volta para casa certo que existe alguém denunciando tudo-que-está-ai. Logo, não é preciso fazer nada mesmo. Não só não há saída possível, como já há quem denuncie. Nada mais inócuo para um filme que se quer político.
Se a inteligência é capacidade de ver diferenças onde só parece haver uniformidade, Tropa de Elite 2 é uma ode a imbecilidade. Na política é tudo igual, só tem ladrão, só tem corrupto. Se alguém escapa à essa regra -  Nascimento, Fraga ou Padilha -   não faz diferença nenhuma no sistema. A adequação desse discurso à ideologia que deseja a conservação do que é, da própria corrupção, das injustiças e desigualdades, é absoluta.
Tropa 2 se irmana ao discurso da grande mídia, que há muito já elegeu o estado como inimigo. É pela existência de forças democráticas, que passam pelo poder público também, que outras vozes podem dar limite aos poderes mais violentos, sejam eles ligados ao tráfico, à milícia, ou qualquer outra face do capitalismo.
É, Padilha, o mundo é Multiplex e não simplex, como twitava alguém outro dia. Ou apostamos nos espaços de embate e encontramos nas práticas as diferenças que forjam mundos em que um qualquer, vindo de qualquer lugar, possa fazer diferença na cidade - a política- , ou vamos ficar ai gritando, morrendo de vontade de dar porrada geral e talvez chegar à conclusão que essa é a única saída, se não para o país, pelo menos para o nosso gozo.

28 de set. de 2010

Eduardo Paes e os filmes-cabeça

Essa semana o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, avisou que a Rio Filme, responsável pela sala de cinema que será inaugurada em uma das maiores favelas do Rio de Janeiro, o Complexo do Alemão, projetará apenas filmes de grande apelo populular. - Nada de filme-cabeça, disse o prefeito.
Essa afirmação não é apenas um uma opção de programação, mas algo bem mais grave.
Não se trata apenas de dizer apenas o que o pobre deve ou não deve ver, mas de definir qual é a parte da população que
tem o direito de pensar a cidade e a vida. O recorte que Eduardo Paes é claro; a favela é um lugar de consumo e, como consumidores, essa parte da população deve ser incorporada à cidade. Entretanto, esse consumo deve dispensar a cabeça - os filmes e qualquer coisa que demande a reflexão - Ou seja, para favela, vale apenas a passividade de quem engole qualquer coisa. Consumir todos podem, mas pensar e interferir na cidade não. Trata-se de democratizar o consumo e restringir a política.

Elvis e Madona, de Marcello Laffitte.

Elvis e Madona é um filme delicioso. Assisti ontem em um Odeon lotado que apaludiu o filme diversas vezes durante a exibição e o ovacionou enquanto os créditos subiam.
Trata-se de um filme cheio de frescor e humor, com atuações excelentes. Elvis e Madona tem forte diálogo com um certo tipo de crônica de costumes cariocas tendo Copacabana como espaço central. Copa é mundo! Quem mora por aqui entende bem o que isso quer dizer. Todas as críticas que o filme poderia receber são secundárias diante do prazer em acompanhar os mundos que o filme inventa. Filme para milhões de espectadores!

22 de set. de 2010

rápidas - Brasil

Primeiro não acho que dá para chamar de pobre o que o consumo e as pesquisas de opinião chamam de Classe C.
O cara da favela que está no esforço de colocar o filho na escola e trocando de geladeira, não se diz pobre.

Segundo, os caras estão muito virulentos. O discurso agora compara nosso período a um janguismo tendo a Dilma como a perspectiva ditatorial - Jabor disse isso! Imbecilidade.

Agora, a Dilma ir para o enfrentamento com a Folha? Não dá, deixa pra lá os caras que optam por destruir qualquer credibilidade em favor de uma eleição perdida.

29 de ago. de 2010

A favela de Serra

Curioso o debate em torno da favela cenográfica que Serra usou em seu primeiro programa televisivo.
Por todos os lados ouvimos a cobrança de verdade. Mesmo pessoas do PSDB vieram dizer que foi um erro. No Estadão de hoje - domingo 29/08 - o José Gregori é rápido ao dizer que o problema fora corrigido já no segundo programa.
O que me parece curioso é a exigência de indicialidade em uma propaganda em que tudo é ficção. Não digo mentira, mas uma construção para o público, com objetivos claros e transparentes. Nenhum eleitor tem dúvida de que ali se trata de imagens e candidatos bem lustrados e modelados. Mas, no momento em que se mostra uma favela, ela deve ser verdadeira.
Ninguém do PSDB foi a público dizer que se trata de uma referência à favela ou que o partido não queria perturbar os moradores ou qualquer outra desculpa. Também eles concordaram. Se é favela tem que ser verdadeira.
A favela é verdade, último bastião do real. Não é por outra razão que todo turista que vem ao Rio deve ir a uma favela, deve ver o que a cidade tem ainda de original e puro. Não é outro o motivo da indignação em relação ao programa de Serra.
Quando for possível fazer uma favela fake em uma campanha eleitoral elas terão mudado de estatuto na cidade.

20 de ago. de 2010

Carta aberta sobre as cotas na UFRJ

Carta aberta sobre as cotas na UFRJ


Ao contrário do que pretendem afirmar alguns setores da imprensa, o debate em torno de políticas afirmativas e de sua implementação no ensino universitário brasileiro não pertence à UFRJ, à USP ou a qualquer setor, "racialista" ou não, da sociedade. Soma-se quase uma década de reflexões, envolvendo intelectuais, dirigentes de instituições de ensino, movimentos sociais e movimento estudantil, parlamentares e juristas.
Atualmente, cerca de 130 universidades públicas brasileiras já adotaram políticas afirmativas - entre as quais, a das cotas raciais - como critério de acesso à formação universitária. Entre estas instituições figuram a UFMG, a UFRGS, a Unicamp, a UnB e a USP, que estão entre as mais importantes universidades brasileiras.
Em editorial da última terça-feira, 17 de agosto, intitulado "UFRJ rejeita insensatas cotas raciais", o jornal O Globo assume, de forma facciosa, uma posição contrária a essas políticas afirmativas. O texto desmerece as ações encaminhadas por mais de cem universidades públicas e tenta sugestionar o debate em curso na UFRJ. Distorcendo os fatos, o editorial fala em "inconstitucionalidade" da aplicação do sistema de cotas, quando, na verdade, o que está em pauta no Supremo Tribunal Federal não é a constitucionalidade das cotas, mas os critérios utilizados na UnB para a aplicação de suas políticas afirmativas.
Na última década, enquanto a discussão crescia em todo o país, a UFRJ deu poucos passos, ou quase nenhum, para fazer avançar o debate sobre as políticas públicas. O acesso dos estudantes à UFRJ continua limitado ao vestibular, com uma mera pré-seleção por meio do ENEM, o que significa um processo ainda excludente de seleção para a entrada na universidade pública. Apesar disso, do mês de março para cá, o debate sobre as cotas foi relançado na UFRJ e, hoje, várias decisões podem ser tomadas com melhor conhecimento do problema e das posições dos diferentes setores da sociedade em relação ao assunto.
Se pretendemos avançar rumo a uma democracia real, capaz de assegurar espaços de oportunidades iguais para todos, o acesso à universidade pública deve ser repensado. Isto significa que é preciso levar em conta os diferentes perfis dos estudantes brasileiros, em vez de seguir camuflando a realidade com discursos sobre "mérito" (como se a própria noção não fosse problemática e como se fosse possível comparar méritos de  pessoas de condição social e trajetórias totalmente díspares) ou sobre "miscigenação" (como se não houvesse uma história de exclusão dos "menos mestiços" bem atrás de todos nós).
Cotas sociais - e, fundamentalmente, aquelas que reconhecem a dívida histórica do Brasil em relação aos negros - abrem caminhos para que pobres dêem prosseguimento aos seus estudos, prejudicado por um ensino básico predominantemente deficiente. Só assim os dirigentes e professores das universidades brasileiras poderão continuar fazendo seu trabalho de cabeça erguida. Só assim a comunidade universitária poderá avançar, junto com o país e na contra-mão da imprensa retrógrada, representada por O Globo, em direção a um reconhecimento necessário dos crimes da escravidão, crimes que, justamente, por ainda não terem sido reconhecidos como crimes que são, se perpetuam no apartheid social em que vivemos.

Rio de Janeiro, 19 de agosto de 2010

Assinam os professores da UFRJ:

Alexandre Brasil - NUTES
Amaury Fernandes – Escola de Comunicação
André Martins Vilar de Carvalho - Filosofia/IFCS e Faculdade de Medicina
Anita Leandro – Escola de Comunicação
Antonio Carlos de Souza Lima – Museu Nacional
Clovis Montenegro de Lima - FACC/UFRJ-IBICT
Eduardo Viveiros de Castro – Museu Nacional
Denilson Lopes – Escola de Comunicação
Fernando Rabossi - IFCS
Fernando Alvares Salis – Escola de Comunicação
Fernando Santoro - IFCS
Flávio Gomes - IFCS
Giuseppe Mario Cocco - Professor Titular, Escola de Serviço Social
Heloisa Buarque de Hollanda – Professora Titular, Escola de Comunicação/FCC
Henrique Antoun - Escola de Comunicação
Ivana Bentes – Diretora, Escola de Comunicação
Katia Augusta Maciel - Escola de Comunicação
Leonarda Musumeci – Instituto de Economia
Lilia Irmeli Arany Prado – Observatório de Valongo
Liv Sovik – Escola de Comunicação
Liz-Rejane Issberner - FACC/UFRJ-IBICT
Marcelo Paixão – Instituto de Economia
Marcio Goldman – Museu Nacional
Marildo Menegat – Escola de Serviço Social
Marlise Vinagre - Escola de Serviço Social
Nelson Maculan - Professor titular da COPPE e ex-reitor da UFRJ
Olívia Cunha – Museu Nacional
Otávio Velho – Professor Emérito, Museu Nacional
Paulo G. Domenech Oneto – Escola de Comunicação
Renzo Taddei – Escola de Comunicação
Roberto Cabral de Melo Machado - IFCS
Samuel Araujo – Escola de Música
Silvia Lorenz Martins - Observatorio do Valongo
Suzy dos Santos – Escola de Comunicação
Tatiana Roque – Instituto de Matemática
Virgínia Kastrup – Instituto de Psicologia
Silviano Santiago, Professor emérito, UFF
Alabê Nunjara Silva, graduando em RI, UFRJ

4 de ago. de 2010

Post pessoal - Turquia

Amanhã vou para Istambul apresentar um trabalho no Visible Evidence.
Acho que pela primeira vez na vida vou para um país novo sem dedicar muito tempo tentando conhecer minimamente a história, a cultura, a comida, a música, a arquitetura, etc.
Essa situação me faz lembrar aqueles personagens do Bauman que percorrem o mundo sem sair de casa e chegam em qualquer hotel conseguindo acender as luzes no escuro, uma vez que os interruptores estão sempre no mesmo lugar, seja em Istanbul ou em Tókio.
Minha conexão até agora tem sido via Erkin Koray, um músico dos anos 60, ainda vivo. Ouvi dois discos brilhantes. Uma sonoridade que nos é familiar com ecos de todo experimentalismo e rock dos anos 60 e, ao mesmo tempo, fortemente turca, marcada pela presença do Bağlama e da Darbouka que é aquela percussão que produz um som bem seco.
Ao mesmo tempo, cheguei a pensar em inventar dispositivos para explorar a cidade. Não sair de um bairro, durante toda a estada, por exemplo. Mas tudo parece tão complexo e grande que meus poucos dias sem trabalho se resumirão ao turismo óbvio: Reina Sofia, Mesquita Azul, Grande Bazar.
Erkin Koray próximo, vou a cata dos lugares que dialogam com essa música.

Campanha do OMO - da soap-ópera ao soap-control

Veja o link para a nova campanha da OMO (sabão em pó). Matéria da Advertising Age.

A campanha é baseada na seguinte premissa. O prêmio irá até o ganhador e não o ganhador até o prêmio.

O consumidor compra o sabão e de repente é surpreendido pelo prêmio que bate na sua porta sem que ele jamais tenha dado o endereço para qualquer pessoa.

Essa nova campanha do Omo é o retrato desse caldeirão em que se misturam o controle policial, o espetáculo - que inclui a soberba tecnológica - e o capitalismo biopolítico.

Trata-se de um tubo de ensaios para as futuras ações do comércio.

Atrelado a um chip, as caixas de sabão poderão informar ao supermercado que o sabão está acabando e uma nova caixa será entregue na casa do consumidor.

Com o gps, esse material poluente poderá ser monitorado e encaminhado aos depósitos com reciclagem.

Como se vê, as vantagens são evidentes. Para isso, precisamos "apenas" permitir que tudo que consumimos venha acompanhado de um micro-chip, permitindo que tenhamos nosso consumo monitorada em filigrana e que o caminho de nosso consumo seja monitorado. Ainda não ouvi falar em GPS para alimentos, comeremos GPS?

Claro que a Advertising Age acha tudo lindo! A intrincada relação entre estratégias de controle pessoal e consumo ainda está engatinhando.

2 de ago. de 2010

Sarkozy, imigração e escola

Sarkozy fechou a semana fazendo uma discurso forte em relação a imigração.

A posição mais contestada é a de retirar a nacionalidade francesa “de quem não a merece”, um gesto que os franceses chamam de déchéance. Sarkozy pretende criar os sem-nacionalidade (Lula podia bem dizer que está disposto a recebê-los), uma vez que no próprio discurso ele reclama de franceses de terceira geração que até hoje não se integraram.

Uma seqüência de absurdos. Acabei de ler o discurso com um nó na garganta. Certo, sabemos quem é Sarkozy, mas há uma radicalização do discurso em direção à extrema direita que, independente das questões eleitorais francesas, faz eco com a história da Europa do século XX, de nazismos e fascismos, e que sempre assusta quando se faz presente, sobretudo em um político no poder. Não é por acaso que depois desse discurso vários comentaristas compararam a atual posição do presidente com o regime de Vichy.

No meio disso tudo, uma coisa me impressiona no discurso. Sarkozy dedica muito tempo falando da escola. Não apenas de macro-políticas de educação, mas do cotidiano e da sala de aula.

Me parece que há algo evidente ai. Com sabemos, a escola pública francesa é muito forte, apesar do enfraquecimento que vem sofrendo nos últimos anos, com crescentes saídas de alunos de elite das públicas em direção às privadas. Nesse ambiente das escolas públicas, o embate se evidencia. O que nas cidades está isolado, banlieu e centro, nas escolas não. Ali, professores e administradores tem que conviver com o país que existe hoje e não com o ideal francês da direita. Como é possível dizer que a terceira geração de imigrantes não se integrou? Eles são o país, queiram ou não! Pois é na escola, sobretudo nas que não estão em Paris, que imigrantes, filhos e netos, convivem com aqueles que Sarkozy diz que "merecem" ser franceses. O seja, o país está se jogando na escola.

Tenho a impressão que a França irá "resolver" o problema como o Brasil. Ou seja, isolar a pobreza na escola pública e evitar assim a politização da escola. O discurso do presidente francês é claro. O problema da escola é um problema de imigração.

Por um lado é tão lamentável que a França tenha no poder esse discurso, essa prática, por outro, a escola ali ainda é um lugar de luta, enquanto aqui é um lugar de exclusão.

Fora isso, impressiona a falta de disponibilidade para que a escola seja pensada dentro de outro formato. Como tão bem aparece no “Entre os muros da Escola”, o modelo disciplinar é falido para uma grande parte da população. O que significa isso? Sarkozy tem a resposta: a população está errada e no limite pode perder a nacionalidade e ser expulsa.

31 de jul. de 2010

O evangelho Segundo Teotônio, (1984) de Vladimir Carvalho

Notas para uma conversa sobre o filme
Festival Brasileiro de Cinema Universitário 2010
Caixa Cultural -  30/08/2010


O evangelho Segundo Teotônio, 1984 de Vladimir Carvalho
A dificuldade em comentar esse filme está em grande parte na força do personagem.
A atenção precisa estar no detalhe, nas opções que podem parecer apenas "naturais" uma vez que se tenta documentar alguém, contando sua vida. Trata-se de atentar para óbvio, nenhuma vida está pronta para ser narrada, ou melhor, uma vida é uma narração com o real.
Guardo uma admiração pela obra engajada de Vladimir Carvalho. Uma obra que se engaja no que acredita, normalmente as boas causas - no meu ponto de vista, é claro -, uma obra disposta ao embate, um embate que Vladimir faz com as armas que tem  mão, a câmera, a montagem. Nesse engajamento,  Vladimir sempre se dedicou ao homem comum, aos pequenos gestos, ao trabalho, à forma de ocupar o tempo, mas claro, pautado por um aguçado sentido de liberdade, de resistência às opressões.
O evangelho Segundo Teotônio, é preciso destacar, se trata de um filme maduro, de um cineasta com mais de 20 anos de carreira e que se permite abordar um personagem difícil, sendo muito generoso com o filme e com o personagem. A marca de Vladimir aparece na maneira com que de identifica com Teotônio, pelo desejo de luta, um desejo amparado pelo desejo e curiosidade pelo povo. Também por uma liberdade desgarrada, freqüentemente quixotesca.
Como escreveu o Carlos Alberto Mattos: “O uso maciço da poesia e da música é outra característica destacada na obra do documentarista, que rejeita o purismo dos não-intervencionistas. Com isso, erigiu-se numa espécie de rapsodo, movido ora pela indignação, ora pela admiração, mas nunca pela curiosidade indiferente. Seus filmes operam no registro da empatia, deixando o autor transparecer em cada decisão de corte, em cada escolha sonora, em cada tijolo da edificação”.  (Carlinhos)
Os filmes de Vladimir são atravessados por essa admiração pelo homem simples, e, em Teotônio, essa é a chave para entendermos o personagem.
Desde o primeiro plano do filme a opção é clara. O plano geral se fecha em zoom deixando fora de  quadro o realizador e se concentrando no personagem, em Teotônio Vilela.
Certo, trata-se de um personagem ambíguo e é isso que o filme destacará, sobretudo nas entrevistas com políticos que o conheceram de perto.
Mas, mais do que isso, o filme me parece possui uma tese e essa é talvez o ponto mais importante da minha fala. A tese, talvez óbvia, diz mais ou menos o seguinte:
Teotônio era um homem de esquerda, na política entra para a direita para depois assumir posições nacionalistas e libertárias, mas essa passagem de um campo a outro, estava dada na sua história, na maneira como cresceu, na forma como lidou com o campo, com a natureza e com a gente simples.
Nesse sentido, talvez o filme, que começa com a música: Menestrel das alagoas, em que o refrão diz: quem é esse?
Talvez tenha chegado ao fim do filme sabendo quem era esse e com a montagem tentará explicitar para o espectador.
O filme é nitidamente dividido em duas partes.
1 - Na primeira, construída cronologicamente, acompanhamos a Gênese do Senador. O trabalho, o campo, o pai e a mãe, as memórias.
Nessa primeira parte, Vladimir faz uma costura entre dois tons: a informação e a digressão.
Por exemplo, ao falar do pai, descobrimos alguns dados biográficos do pai para logo nos concentrarmos em seu radical agnosticismo, essa digressão logo ganha um tom poético:
“Você me cutucou para o passado”: entra música - filme compartilha e corrobora a reflexão de Teotônio que nesses momentos é muito menos fundada na informação do que em uma certa experiência com o cotidiano, uma experiência que no limite é estética, da relação com os animais, com o aboio, atenta aos detalhes.
O milho arrebenta a terra, diz Teotônio, e o filme está lá para corroborar sua visão. A câmera entorta e a música simula o som do milho arrebentando.
É essa relação estética com o mundo, com a natureza, com os sons e com as pessoas é o que nos leva para a bela seqüência em um bar em que são contados causos, amigos são encontrados. O filme ali é um promotor de encontros afetivos, constrói o personagem junto ao povo, rindo, alegre.
- Os operários eram meus irmãos, diz Teotônio num certo momento, e nada no filme desmente essa percepção que o personagem tem de si.
Nessa primeira parte então a política não entra, apenas informações que são mediadas por uma relação afetiva com a vida e com as coisas e pessoas simples.
Parte 2
Com mais de 35 minutos de filme, depois de ter construído esse personagem empreendedor, ligado a natureza, disposto ao trabalho duro e afeito ao povo em sua dimensão poética, o narrador volta para nos dizer que por motivos externos -  a quebra do preço da açúcar,
-       Teotônio é obrigado a abraçar a política!
Essa frase é muito curiosa. Ela é dita pelo narrador (a). Trata-se de uma conclusão tirara pelo filme. A política não era uma opção, um destino - isso que Teotônio não gosta - mas uma obrigação. A política aqui é uma fatalidade.
Tal frase tem ecos platônicos, se quisermos. Segundo Platão, a pior pessoa para exercer o poder é aquela que deseja o poder. Tal percepção levaria à escolha daqueles que devem estar no poder a uma escolha feita por sorteio.
Talvez esse fosse o princípio democrático por excelência: Por dois motivos. Primeiro que o poder seria exercido por aqueles que não o desejam, segundo que o escolhido será aquele, ou aqueles, que não tem nenhuma legitimidade outra, além de ser do povo, para estar no poder, não é nem a aristocracia (poder dos melhores) nem a plutocracia (poder dos mais ricos) nem a Theocracia, (poder dos religiosos), nem a gerontocracia (Do grego geron, o mais velho - governo dos mais velhos).
Teotônio assume a política por questões pessoais e tem plena legitimidade democrática para estar ali: sai do povo e não tem legitimidade especial, nem faz da política um lugar para representar algo ao qual já pertence
Nesse sentido, Teotônio está no lugar de torna-se um sujeito político, ou seja, não ser aquele que representa, mas aquele que rompe relações estagnadas de classe e de identidades.
É justamente esse lugar que o filme dará ao político.
Essa segunda parte será pautada pela macro-política: questões de terra, de prisioneiros políticos, de greves no ABC, de eleições, presidência do PMDB, disputas palacianas etc.
Nesse momento o filme se abre para um novo registro, construído com entrevistas com pessoas que conheceram Teotônio e tem algo para falar sobre ele. Esse conhecedores, no informam,  sobretudo, que Teotônio era um inclassificável.
Os adjetivos vão todos nessa direção: inclassificável, paradoxal, autocrítico, complexo,  nem de direita e nem de esquerda.
Teotônio é obrigado a entrar na política e, de certa maneira, está acima dela.
- Ele é o Teotônio, como diz uma dos entrevistados. Tão solitário quanto naquelas noites e dias em que levava o gado. Teotônio é engajado mas não filiado, preso a idéias estanques.
Seu engajamento com causas populares e nacionalistas tem uma linha de continuidade com o homem que conhecemos no interior das Alagoas. E é assim que o filme constrói “um herói da anistia”
- Praticamente um socialista..., diz alguém.
Neste desgarramento engajado, Teotônio participa no início dos anos 80 - da redemocratização e em 80, faz a medição do confronto entre estado e trabalhadores
Com perspicácia, o filme dá especial atenção ao ABC, intuindo que ali se jogava o futuro do pais, certamente influencia o fato de termos nesse momento depoimentos fortes de Teotônio no calor da hora, em plena movimentação.
É nesse momento que o filme traz um plano emblemático, de grande importância na sua materialidade histórica. Em um plano, sem cortes, o filme passa de Teotônio para Lula, na rua, em plena mobilização do ABC.
Lula não pode falar, “fala com os advogados, é melhor.”
A força do documentário: A tensão está ali, em meio a uma situação que está se jogando ali, naquele instante.
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Na parte final do filme, temos mais uma espelhamento entre uma dimensão pessoal e os reflexos na política. A doença o torna um radical.
 - O Delfin é jumento,
 - O Langoni, descomposto
 - O Tuma é embaixador do arbítrio
Como presidente do PMDB, novamente ele está no centro, na tensão dos acontecimentos. No silêncio de Fernando Henrique ao lado de Teotônio. Henrique Cardoso vestido com velhas roupas de inverno, trazidas ainda da época do exílio, tenho a sensação que o filme ainda não sabe a significação histórica daquelas imagens. Henrique Cardoso está longe de se tornar presidente, Lula então.... Essa falta de contexto para aquelas imagens faz com que o filme se alongue, como que nos deixando claro que aquelas cenas ainda não se articulam.
Teotônio, no calor dos acontecimentos, defende a classe operária, “pode sentar com o presidente”, mal sabia ele que estava ali, cercado pelo classe operária que assumiria a presidência e não que sentaria com o presidente.
O filme percebe que ali  - nas greves, nas diretas, naqueles personagens - Henrique Cardoso, Lula, Covas, Ulisses - há algo acontecendo e, sem pressa, espera os discursos, deixa  o narrador minimante presente, retira as músicas, o realizador não aparece mais.
O discurso de Teotônio, de esquerda e contra o imperialismo, assume o filme e o silêncio do próprio filme é uma maneira de compartilhar e aderir ao discurso de “esquerda nacionalista” que ali se ensaia.
No final do filme, temos uma síntese das duas partes do filme que se juntam pela música dos créditos, a morte, a radicalidade revolucionária, a infância com o som do milho se rompendo. Somos apresentados assim à trajetória circular da vida de Teotônio, um desfecho ideológico e política em perfeita harmonia com o homem simples engajado com as coisas simples e essências.


25 de jul. de 2010

Philippe Descola no Quai Branly

Oi Barbara,

Na sequência dos teus comentários no twitter que reproduzo abaixo:

1 - Fui ver a tal da exposição onde o Philippe Descola propõe 4 classificações das imagens. Proposta boa mas apresentação simplória.

2 - Me parece q o Descola cai numa arapuca: como colocar lado a lado, em 4 categorias (animismo/totemismo/analogismo/naturalismo) fabricação histórica de imagem com fabricações que são, por desejo desejante, a-históricas??? FABRIQUE DES IMAGES: http://bit.ly/b805pX


Antes de tudo tive um prazer nessa exposição, uma certa experiência e curiosidade, maior que normalmente tenha nas exposições, seja no Branly ou em outros lugares em que as imagens desse tipo são expostas dentro de uma ordem cronológica ou geográfica. Nesse sentido, me agrada o esforço do Descola de encontrar linhas comuns que atravessam esses quatro modos de representação, para além do contexto, é verdade. Mas, não seria essa a possibilidade dessas imagens voltarem a existir, não sendo apenas objetos que presentificam outras culturas, alienadas - a não ser pelo colonialismo -  da nossa? Mais, esse gesto não se constitui em uma forma anacrônica de se fazer história, uma história pelos modos de ser do observador?

Fiquei ainda me perguntando se quando nos aproximamos do perspectivismo e do multinaturalismo ameríndio, via Viveiros de castro, não estamos fazendo um gesto parecido do Descola. Ou seja, operando passagens conceituais entre um universo "encantado", do animismo, por exemplo, e um universo histórico? 

Acho que, no limite, o Descola respeita esse universo em que humanos e não-humanos não estão separados, o que dificulta a própria história, não? Nesse sentido, acho que o ele não está interessado em história não - nem as categorias são históricas - , o esforço é de que aquelas imagens sobrevivam à partir do modo como elas operam como o mundo, do modo como elas aparece à partir de formas específicas de ver/estar no mundo.

Obrigado pela provocação. meu abraço