
11 de jun. de 2010
5 de jun. de 2010
Beijos Proibidos e Lola Montès
Enorme prazer essa semana com dois filmes intensamente criativos, inventores de mundos enlouquecidos, independentes.
Lola Montès, do Max Olphus, que Deleuze disse ser um cristal inviolável.
Cristal perfeito.
Não há nada que possa destruir aquele mundo que se descolou de qualquer coordenada espacial ou temporal.
O filme é invenção dentro do inventável!
O outro filme é Beijo Proibidos, do Trufaut. Um roteiro de uma liberdade deliciosa. Cheio de entradas e estranhamentos.
Leaud em seu esplendor.
São filmes que no lugar de nos prolongar alguma emoção ou humor conhecido, nos invadem com mundos inimagináveis. Como se ao lado do cotidiano e do que conhecemos, um outro mundo aparecesse.
Merci la vie!
Lola Montès, do Max Olphus, que Deleuze disse ser um cristal inviolável.
Cristal perfeito.
Não há nada que possa destruir aquele mundo que se descolou de qualquer coordenada espacial ou temporal.
O filme é invenção dentro do inventável!
O outro filme é Beijo Proibidos, do Trufaut. Um roteiro de uma liberdade deliciosa. Cheio de entradas e estranhamentos.
Leaud em seu esplendor.
São filmes que no lugar de nos prolongar alguma emoção ou humor conhecido, nos invadem com mundos inimagináveis. Como se ao lado do cotidiano e do que conhecemos, um outro mundo aparecesse.
Merci la vie!
US- resta a força bruta
O evidente declínio do império americano só tenderá a radicalizar o uso da força.
A reação americana ao acordo Brasil/Turquia/Irã é parte disso.
O terror de estado praticado por Israel também.
Teremos nas próximas décadas urgencia em lidar com o fim de um império que cada vez mais tentará fazer valer seu poder pela força.
A reação americana ao acordo Brasil/Turquia/Irã é parte disso.
O terror de estado praticado por Israel também.
Teremos nas próximas décadas urgencia em lidar com o fim de um império que cada vez mais tentará fazer valer seu poder pela força.
14 de mai. de 2010
Programa da Dilma na TV
O programa do PT exibido essa semana segue o padrão "história de vida".
O Lula diz que o que ele mais admira na Dilma é a sua história.
É uma forma do Lula se perpetuar, ninguém terá uma história melhor que a dele.
O Serra vem fazendo a mesma coisa, cada vez que fala conta a história do pai, do sofrimento, da família popular.
O Lula empregnou ainda mais a política como lugar de quem merece estar ali pelo sofrimento e pelo sucesso pessoal.
Marcante ainda no programa é que a Dilma e o Lula não falam para o espectador, mas para alguém fora do quadro.
NInguém acredita mais na fala para todos, como no JN. No final da campanha cada candidato contará sua história pessoal sussurando no ouvido de alguém.
Para manter a intimidade e a presença popular, Dilma vai ao interior conversar com uma senhora que recebeu luz em sua casa. Tudo está lindo e ela, representante do povo, termina o "encontro" agradecendo. "Muito obrigado por ter feito isso pra nós". Constrangedor. Já imaginou, uma entrevista com um professor universitário: - O prédio novo foi construido, muito obrigado por ter feito isso pra nós! O personalismo que esse tipo de eleição fomenta é desastroso e o pessoal da publicidade e do PT não consegue inventar nada fora disso. Uma pena.
Uma pena que um governo com tantos pontos fantásticos se rebaixe a esse tipo de comunicação popularesca.
O Lula diz que o que ele mais admira na Dilma é a sua história.
É uma forma do Lula se perpetuar, ninguém terá uma história melhor que a dele.
O Serra vem fazendo a mesma coisa, cada vez que fala conta a história do pai, do sofrimento, da família popular.
O Lula empregnou ainda mais a política como lugar de quem merece estar ali pelo sofrimento e pelo sucesso pessoal.
Marcante ainda no programa é que a Dilma e o Lula não falam para o espectador, mas para alguém fora do quadro.
NInguém acredita mais na fala para todos, como no JN. No final da campanha cada candidato contará sua história pessoal sussurando no ouvido de alguém.
Para manter a intimidade e a presença popular, Dilma vai ao interior conversar com uma senhora que recebeu luz em sua casa. Tudo está lindo e ela, representante do povo, termina o "encontro" agradecendo. "Muito obrigado por ter feito isso pra nós". Constrangedor. Já imaginou, uma entrevista com um professor universitário: - O prédio novo foi construido, muito obrigado por ter feito isso pra nós! O personalismo que esse tipo de eleição fomenta é desastroso e o pessoal da publicidade e do PT não consegue inventar nada fora disso. Uma pena.
Uma pena que um governo com tantos pontos fantásticos se rebaixe a esse tipo de comunicação popularesca.
30 de abr. de 2010
O Brasil pode mais!
Nem o PT seria capaz de elogio tão contundente e sutil ao governo Lula.
O Brasil pode mais!
A campanha da Globo, retirada do ar, é inacreditável.
(link)
Foi ao ar na mesma semana que Serra colocava o seu slogan na rua.
(link)
As duas com o mesmo slogan que reverencia o atual governo.
As más linguas dizem que era uma estratégia da Globo para fazer campanha para o Serra, mas não é não. É pior.
Entre as pessoas da Globo e do Serra não há distância, elas estão nos mesmos restaurantes, nos mesmos sites, no mesmos cafezinhos depois da reunião. Trata-se de uma só galera.
- O que o Serra vai dizer?
- Pois é? Robada né?
- Só dá pra dizer que vai manter.
- O bolsa Família, o PAC, etc.
- Robada né?
- Cada coisa que fala que vai mudar perde voto!
- O negócio é que dá pra fazer mais coisa.
- Isso é verdade
- Ainda tem pobre né?
- Dá pra vender a Petrobrás, essas coisas...
- Pois é... No Brasil ainda tem coisa pra fazer.
- O Brasil pode mais né?
- Pode sim.
- Falou, deixa eu ir que o pessoal tá me esperando.
- Dupla ou simples?
- Dupla, com essa minha barriga a quadra tá ficando grande.
- Abração
- Outro
O Brasil pode mais!
A campanha da Globo, retirada do ar, é inacreditável.
(link)
Foi ao ar na mesma semana que Serra colocava o seu slogan na rua.
(link)
As duas com o mesmo slogan que reverencia o atual governo.
As más linguas dizem que era uma estratégia da Globo para fazer campanha para o Serra, mas não é não. É pior.
Entre as pessoas da Globo e do Serra não há distância, elas estão nos mesmos restaurantes, nos mesmos sites, no mesmos cafezinhos depois da reunião. Trata-se de uma só galera.
- O que o Serra vai dizer?
- Pois é? Robada né?
- Só dá pra dizer que vai manter.
- O bolsa Família, o PAC, etc.
- Robada né?
- Cada coisa que fala que vai mudar perde voto!
- O negócio é que dá pra fazer mais coisa.
- Isso é verdade
- Ainda tem pobre né?
- Dá pra vender a Petrobrás, essas coisas...
- Pois é... No Brasil ainda tem coisa pra fazer.
- O Brasil pode mais né?
- Pode sim.
- Falou, deixa eu ir que o pessoal tá me esperando.
- Dupla ou simples?
- Dupla, com essa minha barriga a quadra tá ficando grande.
- Abração
- Outro
24 de abr. de 2010
Cineastas e Imagens do Povo, no CCBB
Enorme prazer de ver hoje no CCBB alguns filmes da mostra Cineastas e Imagens do Povo.
Aruanda, é um filme lindo. Com todas as questões, mas ali está o chão seco, o homem, o barro.
Me basta.
A Pedra do Reino, a mesma coisa. A voz do garimpeiro, a mão da criança na pá. Está tudo ali.
Não é possível julgarmos os filmes por conta de um gesto, de uma voz off e esquecer que as imagens estão ali, nos afetando.
Brasília segundo Feldman, Essas imagens existirem já seria o suficiente. Está tudo ali. A voz se esvanece com o tempo, as denúncias se dissolvem na magia de um país que se esboça nas imagens. O encanto e o desastre de Brasília estão absolutamente presentes.
Congo, ora, que filme infinito.
Lavra-dor, inventivo, forte.
Com todos esses filmes, Bernardet, os realizadores e agora os curadores dessa mostra, mais que fazer cinema, estão inventando um país, gostemos dele ou não, há uma invenção ali. Memória viva e pulsante dos últimos 40 anos. Ver e presenciar essa invenção em uma sala de cinema é inesquecível.
Aruanda, é um filme lindo. Com todas as questões, mas ali está o chão seco, o homem, o barro.
Me basta.
A Pedra do Reino, a mesma coisa. A voz do garimpeiro, a mão da criança na pá. Está tudo ali.
Não é possível julgarmos os filmes por conta de um gesto, de uma voz off e esquecer que as imagens estão ali, nos afetando.
Brasília segundo Feldman, Essas imagens existirem já seria o suficiente. Está tudo ali. A voz se esvanece com o tempo, as denúncias se dissolvem na magia de um país que se esboça nas imagens. O encanto e o desastre de Brasília estão absolutamente presentes.
Congo, ora, que filme infinito.
Lavra-dor, inventivo, forte.
Com todos esses filmes, Bernardet, os realizadores e agora os curadores dessa mostra, mais que fazer cinema, estão inventando um país, gostemos dele ou não, há uma invenção ali. Memória viva e pulsante dos últimos 40 anos. Ver e presenciar essa invenção em uma sala de cinema é inesquecível.
Marco Aurélio Mello "A ditadura foi um mal necessário"
Continuando o Post anterior.:
Se Piñera ainda tem esse prestígio, no Brasil a falta de uma Comissão da Verdade sobre o regime militar, como propõe o Plano Nacional dos Direitos Humanos 3, é o que permite que Marco Aurélio Mello, Ministro do Supremo nomeado pelo primo, Fernando Collor, diga que a ditadura militar foi um mal necessário. (http://www.redetv.com.br/portal/Video.aspx?113,24,89352,Jornalismo,E-Noticia,Marco-Aurelio-Mello-Bloco-3 - Aos 15min.)
Isso não é uma opinião que um ministro possa dar em público. É um insulto.
Se o argumento de Mello é que havia um perigo que se avizinhava, o forjado perigo comunista que tanto interessava os golpistas, mesmo argumento utilizado por Pinochet, então todas as ditaduras latino-americanas foram um mal necessário.
Mas o que, exatamente, foi um mal necessário?
Os mais de 100 mil torturados no Cone Sul?
Os 30 mil mortos na Argentina e destruição de uma geração?
A produção de países com extrema desigualdade social?
A OBAN e a participação de empresários no financiamento da repressão?
A lista de horrores seria bem extensa.
Depois de dizer isso, Mello volta para o supremo para julgar as mais importantes questões do país.
Se Piñera ainda tem esse prestígio, no Brasil a falta de uma Comissão da Verdade sobre o regime militar, como propõe o Plano Nacional dos Direitos Humanos 3, é o que permite que Marco Aurélio Mello, Ministro do Supremo nomeado pelo primo, Fernando Collor, diga que a ditadura militar foi um mal necessário. (http://www.redetv.com.br/portal/Video.aspx?113,24,89352,Jornalismo,E-Noticia,Marco-Aurelio-Mello-Bloco-3 - Aos 15min.)
Isso não é uma opinião que um ministro possa dar em público. É um insulto.
Se o argumento de Mello é que havia um perigo que se avizinhava, o forjado perigo comunista que tanto interessava os golpistas, mesmo argumento utilizado por Pinochet, então todas as ditaduras latino-americanas foram um mal necessário.
Mas o que, exatamente, foi um mal necessário?
Os mais de 100 mil torturados no Cone Sul?
Os 30 mil mortos na Argentina e destruição de uma geração?
A produção de países com extrema desigualdade social?
A OBAN e a participação de empresários no financiamento da repressão?
A lista de horrores seria bem extensa.
Depois de dizer isso, Mello volta para o supremo para julgar as mais importantes questões do país.
23 de abr. de 2010
José Piñera, o Chicago Boy em ação.
Em A Doutrina do Choque, Naomi Klein dedica uma parte importante de sua pesquisa ao Chile.
Nos anos 70, com o golpe contra Allende, o Chile se transforma em um país-teste para o liberalismo econômico radical, intelectualmente organizado por Milton Friedman e operado no Chile pelos Chicago Boys.
Os Chicago Boys era um grupo de jovens estudantes chilenos que nos anos 60 frequentam a Universidade de Chicago e são treinados para o liberalismo a la Friedman. Depois do golpe no Chile, eles são os principais responsáveis pela economia chilena.
Um dos Chicago Boys, até hoje orgulhoso com o título, era José Piñera. Formado em Chicago e Harvard.
Piñera foi responsável pela privatização da previdência social. Personagem importante no governo Pinochet.
Governo que nos 17 anos em que ficou no poder realizou coisas como:
Desmembrou as escolas públicas
Encontrou a hiperinflação e o desemprego de 30% da população em 1982.
Colocou em 1988 mais de 40 % da população abaixo da linha de pobreza.
Aumentou em 83% a renda dos 10% mais ricos.
Em 2007 o Chile estava entre os 10 países com a maior desigualdade do mundo.
A situação não foi pior porque Pinochet não privatizou a Codelco, estatizada por Allende e responsável por 85% das exportações chilenas.
Bem, pois apesar de ter sido peça importante nessa história de violência e aberrações sociais, Piñera ainda está no ar.
Para minha surpresa, cruzei com uma entrevista com ela feita pela Fox News. Piñera é tratado como um expert bem sucedido quando o assunto é previdência. Na Fox, ele diz o que os EUA tem que fazer. É simples; cada um paga 10% do que ganha, o governo não pode mexer nisso e no final da ele recebe o que economizou. Privatiza-se tudo. Em uma sociedade desigual, o estado simplesmente reforça a desigualdade.
Esse personagem ainda fazer parte do debate, é triste. Suas idéias pautarem a oposição ao governo Obama, é risível.
Nos anos 70, com o golpe contra Allende, o Chile se transforma em um país-teste para o liberalismo econômico radical, intelectualmente organizado por Milton Friedman e operado no Chile pelos Chicago Boys.
Os Chicago Boys era um grupo de jovens estudantes chilenos que nos anos 60 frequentam a Universidade de Chicago e são treinados para o liberalismo a la Friedman. Depois do golpe no Chile, eles são os principais responsáveis pela economia chilena.
Um dos Chicago Boys, até hoje orgulhoso com o título, era José Piñera. Formado em Chicago e Harvard.
Piñera foi responsável pela privatização da previdência social. Personagem importante no governo Pinochet.
Governo que nos 17 anos em que ficou no poder realizou coisas como:
Desmembrou as escolas públicas
Encontrou a hiperinflação e o desemprego de 30% da população em 1982.
Colocou em 1988 mais de 40 % da população abaixo da linha de pobreza.
Aumentou em 83% a renda dos 10% mais ricos.
Em 2007 o Chile estava entre os 10 países com a maior desigualdade do mundo.
A situação não foi pior porque Pinochet não privatizou a Codelco, estatizada por Allende e responsável por 85% das exportações chilenas.
Bem, pois apesar de ter sido peça importante nessa história de violência e aberrações sociais, Piñera ainda está no ar.
Para minha surpresa, cruzei com uma entrevista com ela feita pela Fox News. Piñera é tratado como um expert bem sucedido quando o assunto é previdência. Na Fox, ele diz o que os EUA tem que fazer. É simples; cada um paga 10% do que ganha, o governo não pode mexer nisso e no final da ele recebe o que economizou. Privatiza-se tudo. Em uma sociedade desigual, o estado simplesmente reforça a desigualdade.
Esse personagem ainda fazer parte do debate, é triste. Suas idéias pautarem a oposição ao governo Obama, é risível.
22 de abr. de 2010
O Globo vê coisas
Ibope: Serra amplia vantagem sobre Dilma
sem que nenhum dos dois candidatos tenham saído da margem de erro da pesquisa - Serra de 35% para 36% e Dilma de 30 para 29% - o jornal consegue fazer a manchete acima.
é baixo!
19 de abr. de 2010
Eu-empresa 1 - com Carlos Hilsdorf
As estéticas e discursos produzidas pelo mundo das empresas, o mundo corporativo, são altamente reveladoras de um desejo de mundo que abarca muito mais que as empresas. Como diz o consultor (de empresas e muito mais) Carlos Hilsdorf nessa entrevista para a CBN: "se nós aplicássemos as ferramentas de gestão a nós mesmo, seríamos um "ser humano-empresa" melhor. O ser humano-empresa deve perceber onde estão suas forças, fraquezas, riscos e oportunidades".
Genial. Definitivamente não é através de um mergulho interior, uma reflexão introdirigida que o sujeito se fará melhor para si e para o mundo. Não é esse homo-psychologicus que constrói e é construído pela corporação. Mas, também não se trata se um sujeito que se constrói ao se narrar, que vive uma certa liberdade fluida pós-moderna. A narrativa aqui não é da ordem da organização e filtragem da memória e da história pessoal em que se mescla vivências e experiências públicas e privadas.
O ser-humano empresa é de outra ordem. Claro, ele é alter-dirigido. Deve ser construído para o outro, mas para escolher esse outro - uma espécie de público alvo - há de se ter talento. Uma vez escolhido o público alvo do eu inicia-se um processo de gestão que pode ser dividido em dois momentos. Aquele em que se avalia as forças e fraquezas. Não interessa qualquer força ou qualquer fraqueza, essa avaliação é um princípio de gestão e não um princípio de vida, por mais que as duas se confundam. Logo, nenhuma avaliação pode ser uma questão de princípio mas de aplicação. Por exemplo, um sujeito caseiro, dedicado à família e à poucos amigos, isso pode ser uma característica não qualificável como força ou fraqueza, mas uma vez que a ordem de organização do eu é a via da gestão, essas características devem, certamente, ser revistas. Falta a esse eu-caseiro uma maior sociabilidade, assim como um maior potencial em abrir uma maior "carteira de relações".
O eu-empresa opera na absoluta funcionalização de todas as caracteríticas do humano.
Depois de avaliada as forças e fraquezas o eu-empresa pode entrar em ação. Ver o mundo como risco ou oportunidade. Certamente que estes dois pólos são aplicáveis a tudo. Do jogo de tênis com os amigos (quais amigos?) às operações com o cartão de crédito. No meio disso, certamente, o trabalho e o auto-conhecimento.
Como nos diz Carlos Hilsdorf, "o auto-conhecimento é um coisa estratégica".
Quando comentamos que no mundo contemporâneo a distinção entre vida e trabalho se tornou bastante fluida. O eu-empresa nos apresenta a fórmula acabada desse sujeito contemporâneo.
Genial. Definitivamente não é através de um mergulho interior, uma reflexão introdirigida que o sujeito se fará melhor para si e para o mundo. Não é esse homo-psychologicus que constrói e é construído pela corporação. Mas, também não se trata se um sujeito que se constrói ao se narrar, que vive uma certa liberdade fluida pós-moderna. A narrativa aqui não é da ordem da organização e filtragem da memória e da história pessoal em que se mescla vivências e experiências públicas e privadas.
O ser-humano empresa é de outra ordem. Claro, ele é alter-dirigido. Deve ser construído para o outro, mas para escolher esse outro - uma espécie de público alvo - há de se ter talento. Uma vez escolhido o público alvo do eu inicia-se um processo de gestão que pode ser dividido em dois momentos. Aquele em que se avalia as forças e fraquezas. Não interessa qualquer força ou qualquer fraqueza, essa avaliação é um princípio de gestão e não um princípio de vida, por mais que as duas se confundam. Logo, nenhuma avaliação pode ser uma questão de princípio mas de aplicação. Por exemplo, um sujeito caseiro, dedicado à família e à poucos amigos, isso pode ser uma característica não qualificável como força ou fraqueza, mas uma vez que a ordem de organização do eu é a via da gestão, essas características devem, certamente, ser revistas. Falta a esse eu-caseiro uma maior sociabilidade, assim como um maior potencial em abrir uma maior "carteira de relações".
O eu-empresa opera na absoluta funcionalização de todas as caracteríticas do humano.
Depois de avaliada as forças e fraquezas o eu-empresa pode entrar em ação. Ver o mundo como risco ou oportunidade. Certamente que estes dois pólos são aplicáveis a tudo. Do jogo de tênis com os amigos (quais amigos?) às operações com o cartão de crédito. No meio disso, certamente, o trabalho e o auto-conhecimento.
Como nos diz Carlos Hilsdorf, "o auto-conhecimento é um coisa estratégica".
Quando comentamos que no mundo contemporâneo a distinção entre vida e trabalho se tornou bastante fluida. O eu-empresa nos apresenta a fórmula acabada desse sujeito contemporâneo.
18 de abr. de 2010
Goldman Sachs entre o público e o privado.
Robert Zhurami é o principal agente da SEC Securities and Exchange Commission - agencia reguladora do governo americano- envolvido na investigação contra o Banco de Investimentos Goldman Sachs.
Durante 5 anos Zhurami foi "general counsel of the America" para o Deutsche Bank, até 2009.
Hoje, repercutindo o NYT e a Welt am Sonntag, o Globo faz uma matéria dizendo que o governo alemão está entre os que avaliam ir a justiça contra o GS.
Uma certa permissividade entre o público e o privado não é exclusividade latina, muito pelo contrário.
Detalhe, segundo o site Who runs Gov: Khuzami donated $4,300 in 2007, including $2,300 to Sen. John McCain (R-Ariz) . Ai!
Durante 5 anos Zhurami foi "general counsel of the America" para o Deutsche Bank, até 2009.
Hoje, repercutindo o NYT e a Welt am Sonntag, o Globo faz uma matéria dizendo que o governo alemão está entre os que avaliam ir a justiça contra o GS.
Uma certa permissividade entre o público e o privado não é exclusividade latina, muito pelo contrário.
Detalhe, segundo o site Who runs Gov: Khuzami donated $4,300 in 2007, including $2,300 to Sen. John McCain (R-Ariz) . Ai!
17 de abr. de 2010
Entrevista de Sérgio Besserman para a Veja
Sérgio Besserman tornou-se um especialista em Rio de Janeiro.
Como bom especialista ele circula entre o Jornal da Dez, na Globo News, a CBN e as páginas da Veja.
Constrói-se o espaço para o explicador da cidade.
Como bem desejam esses meios, os problemas da cidade são todos colocados na ordem da administração e qualquer reflexão de fundo, que exija pensar o modelo de desenvolvimento, baseado nos carros, na especulação e esquadrinhamento da cidade, na falta de reserva do solo para moradias populares, na elitização dos espaços de consumo, etc, não é questão.
Na entrevista da Veja SB explica o problema das favelas a partir de dois pilares.
1 - Falta racionalidade
2 - O estado é incompetente.
Claro que junto de seu discurso vem a acusação a todos aqueles que podem eventualmente serem críticos. Estes estão contaminados pelos "vícios populistas" que são produtores de favelas.
Mas, mesmo correndo o risco de ser "populista", entendo que a posição de SB, merece algumas considerações.
Primeiramente não é possível falar em remoção de favelas sem falar na organização urbana como um todo. O privilégio que certas áreas tem em relação a outras; no funcionamento dos transportes, nas ofertas de cultura, na organização imobiliária, na coleta de lixo, na existência de escolas e hospitais, etc, será sempre parte da existência das favelas.
Nesse sentido, não existe a possibilidade, fora de um certo cinismo elitista, de se falar de remoção de favelas sem que a cidade como um todo seja colocada em questão.
Ninguém mora em área de risco porque quer, mas porque avaliou os riscos e ali significa o menor deles. O risco de ficar longe de um hospital ou longe de uma escola para os filhos é parte do que leva uma família para uma favela.
Quando se fala que há uma população que vive em uma área de risco, devemos perguntar: mas de qual risco ela está se livrando fazendo essa opção?
Certo, não desejamos favelas, nem os moradores das favelas as desejam. Mas falar que elas são fruto do populismo deste ou daquele governante é esquecer que em TODAS as grandes cidades do Brasil e da América do Sul existe uma massa de pessoas vivendo em condições precárias e, claro, esses lugares se sustentam entre a desobediência civil e a ilegalidade. Tal ordem - ou desordem urbana - é parte de um modelo de desenvolvimento, em relação a isso, o Rio não tem nenhum privilégio. Caracas, Buenos Aires, Recife, para começar a lista com nomes bonitos.
Talvez a fala mais chocante de SB seja essa:
"as áreas favelizadas provocam uma acentuada degradação da paisagem da cidade, um ativo cujo valor é incalculável. Portanto, quando uma análise de custo-benefício revelar que a realocação de uma favela trará retorno financeiro e social elevado, por que razões não cogitar sua remoção?"
Primeiro porque tão degradante para a paisagem da cidade é um prédio como os que cercam a lagoa Rodrigo de Freitas, mas esse seria o menor dos problemas. O maior problema é pautar a ordem urbana pela valorização da paisagem e não por princípios democráticos. O que não significa que cada um pode ficar onde quiser, mas pensar qual a cidade mais inclusiva em termos de bem estar, circulação, acesso a serviços e bens? Certamente que o discurso da remoção baseada na valorização da paisagem não responde a esses princípios democráticos.
A fala do Besserman se instala em um discurso que parte de premissas corretas para tirar conclusões elitistas. Sim, as favelas são um problema, sim, existe ali um forte potencial para a ilegalidade e o estado é frequentemente conivente. Entretanto, a remoção sem uma reorganização e uma democratização urbana é de um simplismo primário.
As favelas são ruins, logo é preciso removê-las - eis a lógica que mantém as cidades como estão e se joga para longe aqueles que estão atrapalhando.
Como bom especialista ele circula entre o Jornal da Dez, na Globo News, a CBN e as páginas da Veja.
Constrói-se o espaço para o explicador da cidade.
Como bem desejam esses meios, os problemas da cidade são todos colocados na ordem da administração e qualquer reflexão de fundo, que exija pensar o modelo de desenvolvimento, baseado nos carros, na especulação e esquadrinhamento da cidade, na falta de reserva do solo para moradias populares, na elitização dos espaços de consumo, etc, não é questão.
Na entrevista da Veja SB explica o problema das favelas a partir de dois pilares.
1 - Falta racionalidade
2 - O estado é incompetente.
Claro que junto de seu discurso vem a acusação a todos aqueles que podem eventualmente serem críticos. Estes estão contaminados pelos "vícios populistas" que são produtores de favelas.
Mas, mesmo correndo o risco de ser "populista", entendo que a posição de SB, merece algumas considerações.
Primeiramente não é possível falar em remoção de favelas sem falar na organização urbana como um todo. O privilégio que certas áreas tem em relação a outras; no funcionamento dos transportes, nas ofertas de cultura, na organização imobiliária, na coleta de lixo, na existência de escolas e hospitais, etc, será sempre parte da existência das favelas.
Nesse sentido, não existe a possibilidade, fora de um certo cinismo elitista, de se falar de remoção de favelas sem que a cidade como um todo seja colocada em questão.
Ninguém mora em área de risco porque quer, mas porque avaliou os riscos e ali significa o menor deles. O risco de ficar longe de um hospital ou longe de uma escola para os filhos é parte do que leva uma família para uma favela.
Quando se fala que há uma população que vive em uma área de risco, devemos perguntar: mas de qual risco ela está se livrando fazendo essa opção?
Certo, não desejamos favelas, nem os moradores das favelas as desejam. Mas falar que elas são fruto do populismo deste ou daquele governante é esquecer que em TODAS as grandes cidades do Brasil e da América do Sul existe uma massa de pessoas vivendo em condições precárias e, claro, esses lugares se sustentam entre a desobediência civil e a ilegalidade. Tal ordem - ou desordem urbana - é parte de um modelo de desenvolvimento, em relação a isso, o Rio não tem nenhum privilégio. Caracas, Buenos Aires, Recife, para começar a lista com nomes bonitos.
Talvez a fala mais chocante de SB seja essa:
"as áreas favelizadas provocam uma acentuada degradação da paisagem da cidade, um ativo cujo valor é incalculável. Portanto, quando uma análise de custo-benefício revelar que a realocação de uma favela trará retorno financeiro e social elevado, por que razões não cogitar sua remoção?"
Primeiro porque tão degradante para a paisagem da cidade é um prédio como os que cercam a lagoa Rodrigo de Freitas, mas esse seria o menor dos problemas. O maior problema é pautar a ordem urbana pela valorização da paisagem e não por princípios democráticos. O que não significa que cada um pode ficar onde quiser, mas pensar qual a cidade mais inclusiva em termos de bem estar, circulação, acesso a serviços e bens? Certamente que o discurso da remoção baseada na valorização da paisagem não responde a esses princípios democráticos.
A fala do Besserman se instala em um discurso que parte de premissas corretas para tirar conclusões elitistas. Sim, as favelas são um problema, sim, existe ali um forte potencial para a ilegalidade e o estado é frequentemente conivente. Entretanto, a remoção sem uma reorganização e uma democratização urbana é de um simplismo primário.
As favelas são ruins, logo é preciso removê-las - eis a lógica que mantém as cidades como estão e se joga para longe aqueles que estão atrapalhando.
CQC, Barueri e o desejo de corrupção
Realmente, a matéria do CQC em Barueri é espetacular.
Como sabemos, espetacular não quer dizer que ela é boa, mas que nos mobiliza em sua dimesão excesiva.
É difícil não tirar grande prazer em ver corruptos e autoridades concentradas em suas auto-promoções sendo expostos ao ridículo.
Mas, se o programa nos dá toda essa satisfação é bom desconfiar.
Primeiramente, a TV assume um papel que faz com que o entretenimento ande junto do papel de polícia. Tal prática é corriqueira em programas populares que não só fazem as vezes da polícia mas também do juiz e do carrasco.
Investigar, julgar e penalizar são ações contíguas a uma mesma emissão, tudo isso com o ritmo do espetáculo, com a música bem escolhida, com a ironia e a precisão do humor dos rapazes do CQC.
Pois, o primeiro estranhamento diz respeito então a esse papel da TV.
É essa a televisão que queremos e que nos mobiliza? Policial e vingativa, fazendo justiça com as própria mãos. Note que este questionamento deve ser feito antes de a TV ter escolhido a causa - a corrupção, um assassino, um artista excentrico, não interessa.
Unir essa lógica da política com a do sistema de julgamento e punição é que me parece especialmente grave, não apenas por que entregamos para uma emissora privada o direito de escolher que investigação fazer e como julgar, mas, também, porque deixamos que a lógica do espetáculo tenha primazia sobre a lógica da justiça.
Podemos perceber bem no caso do CQC em Barueri o funcionamento que subsume o justo ao espetacular.
Antes de tudo, para o CQC, a corrupção é desejada.
Tudo começa com uma televisão de plasma de 32 polegadas. Há um abuso de poder econômico ai. Nas escolas públicas não há espaço simbólico para essa televisão. O que é o sonho de consumo privado o CQC leva para o espaço público, para escolas que lidam com outras carências, outros "sonhos".
O CQC, antes de documentar a corrupção é o corruptor. Claro que nada justifica o roubo que a funcionária da prefeitura faz, mas ao doar uma TV desse tipo para uma escola, o programa da Bandeirantes e seus anunciantes tratam o estado como o inimigo que deve ser humilhado em sua pobreza e fragilidade.
O CQC escolhe ainda um período sem aulas para a doação.
Por todos os lados o CQC vai se garantindo, feliz por garantir o espetáculo, com a certeza de estar do lado certo, contente por corrigir a sociedade.
Como sabemos, espetacular não quer dizer que ela é boa, mas que nos mobiliza em sua dimesão excesiva.
É difícil não tirar grande prazer em ver corruptos e autoridades concentradas em suas auto-promoções sendo expostos ao ridículo.
Mas, se o programa nos dá toda essa satisfação é bom desconfiar.
Primeiramente, a TV assume um papel que faz com que o entretenimento ande junto do papel de polícia. Tal prática é corriqueira em programas populares que não só fazem as vezes da polícia mas também do juiz e do carrasco.
Investigar, julgar e penalizar são ações contíguas a uma mesma emissão, tudo isso com o ritmo do espetáculo, com a música bem escolhida, com a ironia e a precisão do humor dos rapazes do CQC.
Pois, o primeiro estranhamento diz respeito então a esse papel da TV.
É essa a televisão que queremos e que nos mobiliza? Policial e vingativa, fazendo justiça com as própria mãos. Note que este questionamento deve ser feito antes de a TV ter escolhido a causa - a corrupção, um assassino, um artista excentrico, não interessa.
Unir essa lógica da política com a do sistema de julgamento e punição é que me parece especialmente grave, não apenas por que entregamos para uma emissora privada o direito de escolher que investigação fazer e como julgar, mas, também, porque deixamos que a lógica do espetáculo tenha primazia sobre a lógica da justiça.
Podemos perceber bem no caso do CQC em Barueri o funcionamento que subsume o justo ao espetacular.
Antes de tudo, para o CQC, a corrupção é desejada.
Tudo começa com uma televisão de plasma de 32 polegadas. Há um abuso de poder econômico ai. Nas escolas públicas não há espaço simbólico para essa televisão. O que é o sonho de consumo privado o CQC leva para o espaço público, para escolas que lidam com outras carências, outros "sonhos".
O CQC, antes de documentar a corrupção é o corruptor. Claro que nada justifica o roubo que a funcionária da prefeitura faz, mas ao doar uma TV desse tipo para uma escola, o programa da Bandeirantes e seus anunciantes tratam o estado como o inimigo que deve ser humilhado em sua pobreza e fragilidade.
O CQC escolhe ainda um período sem aulas para a doação.
Por todos os lados o CQC vai se garantindo, feliz por garantir o espetáculo, com a certeza de estar do lado certo, contente por corrigir a sociedade.
Doutrina do Choque, de Naomi Klein.
Leio com grande interesse a Doutrina do Choque, de Naomi Klein.
Jornalismo americano engajado em demonstrar como o neoliberalismo dos últimos 30 anos dependeu de guerras, desastres naturais e políticos e muita tortura para poder implementar suas práticas. De Pinochet ao Iraque, passando pelo Katrina e o 11 de setembro, a autora constrói um quadro cheio de exemplos e ao mesmo tempo investigativo.
O primeiro capítulo do livro é dedicado a uma longa história que relaciona o estado americano e a tortura como método.
Voltarei ao livro.
Um dado: antes do furacão Katrina, New Orleans possui 123 escolas públicas, agora são 4.
Não para de pensar na remoção das casas do Alemão anunciadas na semana que as chuvas causaram tamanho estrago na cidade.
Para baixar o livro A doutrina do Choque, Naomi Klein: http://migre.me/xbtD (em inglês) - em Português lançado pela Nova Fronteira (o livro, instigante e de fácil leitura custa quase 80 reais. Esses editores... Ou estão boicotando ou são muito incopetentes mesmo.)
Jornalismo americano engajado em demonstrar como o neoliberalismo dos últimos 30 anos dependeu de guerras, desastres naturais e políticos e muita tortura para poder implementar suas práticas. De Pinochet ao Iraque, passando pelo Katrina e o 11 de setembro, a autora constrói um quadro cheio de exemplos e ao mesmo tempo investigativo.
O primeiro capítulo do livro é dedicado a uma longa história que relaciona o estado americano e a tortura como método.
Voltarei ao livro.
Um dado: antes do furacão Katrina, New Orleans possui 123 escolas públicas, agora são 4.
Não para de pensar na remoção das casas do Alemão anunciadas na semana que as chuvas causaram tamanho estrago na cidade.
Para baixar o livro A doutrina do Choque, Naomi Klein: http://migre.me/xbtD (em inglês) - em Português lançado pela Nova Fronteira (o livro, instigante e de fácil leitura custa quase 80 reais. Esses editores... Ou estão boicotando ou são muito incopetentes mesmo.)
Carteira de Relações
E ai ele me diz assim, tentando explicar porque não vai deixar a empresa em que está.
- Eu preciso também levar em conta que a "carteira de relações pessoais" que eu estou fazendo nessa empresa não tem preço.
Relações, carteira? O cinismo que leva alguém a dizer isso como se fosse algo normal agride.
A carteira de relações dele é anterior ao fim que pode ter uma relação. Por que estamos juntos? O que podemos fazer juntos?
Fiquei pensando na minha carteira de relações pessoais.... Não passei de uns 3 ou quatro autores, todos mortos.
- Eu preciso também levar em conta que a "carteira de relações pessoais" que eu estou fazendo nessa empresa não tem preço.
Relações, carteira? O cinismo que leva alguém a dizer isso como se fosse algo normal agride.
A carteira de relações dele é anterior ao fim que pode ter uma relação. Por que estamos juntos? O que podemos fazer juntos?
Fiquei pensando na minha carteira de relações pessoais.... Não passei de uns 3 ou quatro autores, todos mortos.
10 de abr. de 2010
Em meio à tragédia causada pela chuva e pelo capitalismo
Infelizmente nenhuma matéria em nenhum órgão de imprensa começou assim.
A chuva é muito importante, assim como o capitalismo é o nosso mundo hoje e não estou aqui para negá-lo, mas da mesma forma que o excesso de água causou as mortes, nossas opções por um determinado tipo de exploração das cidades também. E, essa exploração da cidade, fundada nas separações drásticas entre ricos e pobres em que a especulação é anterior ao bem estar urbano é próprio da inundação de capitalismo que nos afoga.
O que vimos em meio à tragédia foi uma culpabilização constante da população que mora nos morros e nas "áreas de risco". Para a mídia e muitos governantes, ser pobre é ser irresponsável para consigo mesmo, uma vez que ao morar em uma área de risco estaria colocando a vida em perigo e perante a sociedade, uma vez que os "invasores" não pagam os devidos impostos.
Repete-se isso incessantemente.
O vontade de não querer entrar no problema faz com que os defensores dessa organização criminosa da cidade fundamentem suas posições no preconceito mais deslavado.
Alguém pode imaginar que um morador de uma favela acha que está em plena segurança ali?
Alguém pode imaginar que ele não preferia estar na altura do asfalto, sem ter subir centenas de metros a pé?
Ou ainda, alguém imagina que agrada estar em um lugar com péssimas condições sanitárias?
Obvio que não.
Trata-se justamente de uma avaliação de risco.
As pessoas que moram nas ditas áreas de risco ali estão porque as opções que lhe são dadas trazem ainda mais risco.
Morar longe dos centros empregadores e o risco de não ter trabalho, o risco de ter uma escola pior para os filhos, o risco de não ter acesso a nenhum bem cultural, o risco de dormir no emprego depois de passar 2 horas em pé no trem.
Post com tom de desabafo, é verdade. Mas a tragédia na cidade serve antes para reafirmar um modelo de especulação do que para questioná-lo e isso é feito chamando pobre de burro e irresponsável.
Indico vivamente a entrevista com a Raquel Rolnick sobre a questão urbana nas grandes cidades : http://www.revistaforum.com.br/sitefinal/EdicaoNoticiaIntegra.asp?id_artigo=8037
A chuva é muito importante, assim como o capitalismo é o nosso mundo hoje e não estou aqui para negá-lo, mas da mesma forma que o excesso de água causou as mortes, nossas opções por um determinado tipo de exploração das cidades também. E, essa exploração da cidade, fundada nas separações drásticas entre ricos e pobres em que a especulação é anterior ao bem estar urbano é próprio da inundação de capitalismo que nos afoga.
O que vimos em meio à tragédia foi uma culpabilização constante da população que mora nos morros e nas "áreas de risco". Para a mídia e muitos governantes, ser pobre é ser irresponsável para consigo mesmo, uma vez que ao morar em uma área de risco estaria colocando a vida em perigo e perante a sociedade, uma vez que os "invasores" não pagam os devidos impostos.
Repete-se isso incessantemente.
O vontade de não querer entrar no problema faz com que os defensores dessa organização criminosa da cidade fundamentem suas posições no preconceito mais deslavado.
Alguém pode imaginar que um morador de uma favela acha que está em plena segurança ali?
Alguém pode imaginar que ele não preferia estar na altura do asfalto, sem ter subir centenas de metros a pé?
Ou ainda, alguém imagina que agrada estar em um lugar com péssimas condições sanitárias?
Obvio que não.
Trata-se justamente de uma avaliação de risco.
As pessoas que moram nas ditas áreas de risco ali estão porque as opções que lhe são dadas trazem ainda mais risco.
Morar longe dos centros empregadores e o risco de não ter trabalho, o risco de ter uma escola pior para os filhos, o risco de não ter acesso a nenhum bem cultural, o risco de dormir no emprego depois de passar 2 horas em pé no trem.
Post com tom de desabafo, é verdade. Mas a tragédia na cidade serve antes para reafirmar um modelo de especulação do que para questioná-lo e isso é feito chamando pobre de burro e irresponsável.
Indico vivamente a entrevista com a Raquel Rolnick sobre a questão urbana nas grandes cidades : http://www.revistaforum.com.br/sitefinal/EdicaoNoticiaIntegra.asp?id_artigo=8037
25 de mar. de 2010
"Be stupid"- Biopoder e a Diesel
Recentemente coloquei um link no Twitter para a mais nova campanha da Diesel.
Link
A primeira vista, trata-se apenas de mais um caso de cinismo, típico do modo como o capitalismo se legitima hoje.
Ou seja, be stupid - como nós - não critique, não pense, não reflita nem mesmo sobre o fato de eu estar te chamando a ser estúpido.
Como temos visto, a falência da crítica, como chamou o Safatle, está ligada à forma como o enunciado capitalista já contém as possíveis críticas que podem ser feitas ao capitalismo ou ao consumo.
Seria estúpido aceitar a publicidade, comprar pelo valor da marca, participar do espetáculo fetichista do consumo; o público da Diesel sabe disso, logo: be Stupid.
Be stupid é o slogan que liberta para participar desse mundo Diesel sem culpa. Be stupid é Just do it bombado!
Mas ainda há mais.
O slogan é referido a outros valores. Por exemplo.
DIESEL- BE STUPID
"Are you doing something particularly stupid right now… like starting a band, building a tree house or creating art installation"
Ser estúpido é viver uma vida despojada, inventiva, criativa, guiada pelo coração e pelas utopias, pela experiências destemidas.
(veja os anúncios)
Ou seja, a Diesel entende que no mundo do qual ela participa, seria estúpido fazer coisas despropositadas, ligadas à arte, ao prazer desfuncionalizado, as empreitadas sem sentido. No capitalismo tradicional essas coisas não teriam lugar, seria estúpidas. Mas no mundo Disel não.
O que há como valor a ser capturado pelo Be stupid é profundamente ambíguo: por um lado, não pense no mundo em que essa marca te introduz, por outro, ao não pensar, viva a vida em sua plenitude. Aceitar o capitalismo em sua forma plena é um gesto contíguo - na lógica cínica- a aceitar a própria vida. Eis a lógica acabada do Biopoder contemporâneo que faz do que há de mais humano e vital - a criação, a experiência, a invenção de si e do outro - o seu mais importante valor.
A lógica cínica é o que faz com que esse texto não tenha sentido, uma vez que ele não tem como deixar mais explicita a estratégia da Diesel do que a própria Diesel. Para eles, qualquer tentativa de reflexão, como esta, é ser smart, logo negar a vida.
Link
A primeira vista, trata-se apenas de mais um caso de cinismo, típico do modo como o capitalismo se legitima hoje.
Ou seja, be stupid - como nós - não critique, não pense, não reflita nem mesmo sobre o fato de eu estar te chamando a ser estúpido.
Como temos visto, a falência da crítica, como chamou o Safatle, está ligada à forma como o enunciado capitalista já contém as possíveis críticas que podem ser feitas ao capitalismo ou ao consumo.
Seria estúpido aceitar a publicidade, comprar pelo valor da marca, participar do espetáculo fetichista do consumo; o público da Diesel sabe disso, logo: be Stupid.
Be stupid é o slogan que liberta para participar desse mundo Diesel sem culpa. Be stupid é Just do it bombado!
Mas ainda há mais.
O slogan é referido a outros valores. Por exemplo.
DIESEL- BE STUPID
"Are you doing something particularly stupid right now… like starting a band, building a tree house or creating art installation"
Ser estúpido é viver uma vida despojada, inventiva, criativa, guiada pelo coração e pelas utopias, pela experiências destemidas.
(veja os anúncios)
Ou seja, a Diesel entende que no mundo do qual ela participa, seria estúpido fazer coisas despropositadas, ligadas à arte, ao prazer desfuncionalizado, as empreitadas sem sentido. No capitalismo tradicional essas coisas não teriam lugar, seria estúpidas. Mas no mundo Disel não.
O que há como valor a ser capturado pelo Be stupid é profundamente ambíguo: por um lado, não pense no mundo em que essa marca te introduz, por outro, ao não pensar, viva a vida em sua plenitude. Aceitar o capitalismo em sua forma plena é um gesto contíguo - na lógica cínica- a aceitar a própria vida. Eis a lógica acabada do Biopoder contemporâneo que faz do que há de mais humano e vital - a criação, a experiência, a invenção de si e do outro - o seu mais importante valor.
A lógica cínica é o que faz com que esse texto não tenha sentido, uma vez que ele não tem como deixar mais explicita a estratégia da Diesel do que a própria Diesel. Para eles, qualquer tentativa de reflexão, como esta, é ser smart, logo negar a vida.
15 de mar. de 2010
sala de aula
As vezes, em sala de aula, é simplesmente perturbador que um aluno converse com outro ou que alguém saia de sala no meio de uma aula expositiva.
Tento não tomar como algo pessoal, mas fico pensando o que poderia fazer para que isso não aconteça.
Ao mesmo tempo, detesto aulas espetáculo. Aquelas em que o professor anda de um lado para o outro, alterna ritmos, faz o público rir, etc.
Lendo hoje uma aula do Deleuze sobre Bergson.Uma aula brilhante: link, percebo que o problema atinge a todos.
Ele precisa interromper duas vezes para reclamar de alunos que estão rindo e perturbando.
veja a sua fala: "vous m'emmerdez, vous savez, non cela ne peut pas durer, vous...ce n'est que cela me gêne, ou que cela me vexe mais cela m'empêche de parler vous comprenez, dés que j'ai les yeux sur vous je vous vois hilare alors que se soit un tic, ou que vous rigoliez dans le fond de vous même, moi cela m'est égal , mettez vous là bas, c'est très très embétant pour moi, un espèce de ricanement, c'est gênant, oui, oui, il me fait taire une idée"
um alento!
Tento não tomar como algo pessoal, mas fico pensando o que poderia fazer para que isso não aconteça.
Ao mesmo tempo, detesto aulas espetáculo. Aquelas em que o professor anda de um lado para o outro, alterna ritmos, faz o público rir, etc.
Lendo hoje uma aula do Deleuze sobre Bergson.Uma aula brilhante: link, percebo que o problema atinge a todos.
Ele precisa interromper duas vezes para reclamar de alunos que estão rindo e perturbando.
veja a sua fala: "vous m'emmerdez, vous savez, non cela ne peut pas durer, vous...ce n'est que cela me gêne, ou que cela me vexe mais cela m'empêche de parler vous comprenez, dés que j'ai les yeux sur vous je vous vois hilare alors que se soit un tic, ou que vous rigoliez dans le fond de vous même, moi cela m'est égal , mettez vous là bas, c'est très très embétant pour moi, un espèce de ricanement, c'est gênant, oui, oui, il me fait taire une idée"
um alento!
14 de mar. de 2010
Forcine e Audiovisual na Universidade
Nos últimos três dias participei do Forcine, o FÓRUM BRASILEIRO DE ENSINO DE CINEMA E AUDIOVISUAL, na UFF
Já postei no Twitter algumas decisões do Fórum que teve uma excelente fala do Giuseppe Cocco em uma mesa, apresentando sua reflexão sobre o trabalho no capitalismo contemporâneo.
Pensando nessas questões e no atual momento da tecnologia de cinema, aprovamos a proposta a ser encaminhada às agências de fomento de que o estado deve patrocinar pessoas e não apenas filmes.
Saídos da universidade, os jovens precisam 1 ou dois anos para poder se dedicar a trabalhos que não tenha imediata remuneração. Se não estamos atentos a esse momento da vida profissional, acabamos empurrando todos os jovens que não tem uma base financeira familiar para longe do cinema.
Percebemos que muitos para de filmar, escrever, fotografar, produzir, etc. Por conta de necessidade de ganhar 1000, 1500 reais mensais, deixam o cinema e o trabalho dedicado à criação.
Fora isso, os meios, câmeras, ilhas, etc estão dados; são acessíveis. Logo, são as vidas que precisam ser fomentadas.
Fora esse debate, que o representante da Ancine, Mario Diamante, disse ter achado uma ótima idéia. O Forúm é fundamental. Pensar em grupo quem, como e para que estamos formando milhares de jovens é fundamental.
Certamente que há divergências.
As vezes a Universidade é vista apenas como algo que deve entregar formados ao mercado. Sabe-se que a idéia de mercado é uma certa abstração nesse meio.
Paulistas e cariocas reclamam da falta de mercado. Mas, formamos pessoas em Manaus, Goiânia, Fortaleza, Aracajú, etc, etc. Que mercado podemos esperar para esses jovens, fora dos centros de produção audiovisual?
O que é formar para o mercado de Aracajú, por exemplo. A Universidade, a reflexão e a possibilidade de produção ali dentro, está muito na frente do "mercado" dessas cidades em termos estéticos. Ter o mercado como norte, nesses casos, é jogar a universidade para baixo.
Essa é, na verdade, uma dimensão altamente democrática da Universidade.
Alunos de qualquer Federal do Brasil tem praticamente a mesma condição técnica e intelectual, assim como o mesmo suporte para produzir audiovisual.
Algum tempo atrás fiz um post sobre a idéia que ontem foi aprovada como proposta do Forcine. Uma proposta pensada inicialmente em reunião de preparação do congresso.http://tiny.cc/MmcsB
Já postei no Twitter algumas decisões do Fórum que teve uma excelente fala do Giuseppe Cocco em uma mesa, apresentando sua reflexão sobre o trabalho no capitalismo contemporâneo.
Pensando nessas questões e no atual momento da tecnologia de cinema, aprovamos a proposta a ser encaminhada às agências de fomento de que o estado deve patrocinar pessoas e não apenas filmes.
Saídos da universidade, os jovens precisam 1 ou dois anos para poder se dedicar a trabalhos que não tenha imediata remuneração. Se não estamos atentos a esse momento da vida profissional, acabamos empurrando todos os jovens que não tem uma base financeira familiar para longe do cinema.
Percebemos que muitos para de filmar, escrever, fotografar, produzir, etc. Por conta de necessidade de ganhar 1000, 1500 reais mensais, deixam o cinema e o trabalho dedicado à criação.
Fora isso, os meios, câmeras, ilhas, etc estão dados; são acessíveis. Logo, são as vidas que precisam ser fomentadas.
Fora esse debate, que o representante da Ancine, Mario Diamante, disse ter achado uma ótima idéia. O Forúm é fundamental. Pensar em grupo quem, como e para que estamos formando milhares de jovens é fundamental.
Certamente que há divergências.
As vezes a Universidade é vista apenas como algo que deve entregar formados ao mercado. Sabe-se que a idéia de mercado é uma certa abstração nesse meio.
Paulistas e cariocas reclamam da falta de mercado. Mas, formamos pessoas em Manaus, Goiânia, Fortaleza, Aracajú, etc, etc. Que mercado podemos esperar para esses jovens, fora dos centros de produção audiovisual?
O que é formar para o mercado de Aracajú, por exemplo. A Universidade, a reflexão e a possibilidade de produção ali dentro, está muito na frente do "mercado" dessas cidades em termos estéticos. Ter o mercado como norte, nesses casos, é jogar a universidade para baixo.
Essa é, na verdade, uma dimensão altamente democrática da Universidade.
Alunos de qualquer Federal do Brasil tem praticamente a mesma condição técnica e intelectual, assim como o mesmo suporte para produzir audiovisual.
Algum tempo atrás fiz um post sobre a idéia que ontem foi aprovada como proposta do Forcine. Uma proposta pensada inicialmente em reunião de preparação do congresso.http://tiny.cc/MmcsB
6 de mar. de 2010
Renda Básica de Cidadania: 3 artigos
Selecionei 3 bons artigos sobre Renda Básica de Cidadania:
10 propostas sobre Renda Básica
Artigo de 2000 baseado em pensadores que refletem sobre o atual estágio do capitalismo: Negri, Lazzarato, Gorz, Hardt. Um dos pontos levantados é, justamente, a atualidade da Renda Mínima no estágio pós-fordista do capitalismo. Segundo a autora, trata-se de pensar o capitalismo separado do conflito capital trabalho.
Renda Básica: renda mínima garantida para o século XXI?
Este é um artigo muito abrangente sobre a Renda Básica, escrito por um dos criadores do BIEN - O Basic Income Eartn Network, Philippe Van Parijs. O BIEN tem um enorme congresso programado para este ano em São Paulo.
Parijs tem um ótimo livro sobre o tema escrito com Yannick Vanderborght.
Renda Básica para o Iraque
Nesse artigo Suplicy defende a Renda Básica como forma de estabelecer novas relações sociais em lugares que foram degradados por guerras. A proposta é interessante, sobretudo por explicitar que o que interessa, em muito desses casos, não é que a sociedade se reconstrua com independência.
10 propostas sobre Renda Básica
Artigo de 2000 baseado em pensadores que refletem sobre o atual estágio do capitalismo: Negri, Lazzarato, Gorz, Hardt. Um dos pontos levantados é, justamente, a atualidade da Renda Mínima no estágio pós-fordista do capitalismo. Segundo a autora, trata-se de pensar o capitalismo separado do conflito capital trabalho.
Renda Básica: renda mínima garantida para o século XXI?
Este é um artigo muito abrangente sobre a Renda Básica, escrito por um dos criadores do BIEN - O Basic Income Eartn Network, Philippe Van Parijs. O BIEN tem um enorme congresso programado para este ano em São Paulo.
Parijs tem um ótimo livro sobre o tema escrito com Yannick Vanderborght.
Renda Básica para o Iraque
Nesse artigo Suplicy defende a Renda Básica como forma de estabelecer novas relações sociais em lugares que foram degradados por guerras. A proposta é interessante, sobretudo por explicitar que o que interessa, em muito desses casos, não é que a sociedade se reconstrua com independência.
27 de fev. de 2010
Documentário e Fra-Angélico
Estou cá a pensar a questão do encontro no cinema documentário quando cruzo com o Bergala:
"Na nossa cultura cristã, todo encontro entre duas figuras pode, em certas condições e sob certas circunstâncias, vir a ser uma Anunciação, um eco distante dessa figura fundadora da Anunciação." (Nul mieux que Godard)
Ora, o encontro só interessa como acontecimento. O que pode Maria?
Uribe e o estado de direito
A suprema corte colombiana votou ontem o pedido de Uribe pelo direito a uma nova reeleição, seria seu terceiro mandato.
Uribe perdeu, 7X2.
É interessante ver presidentes como Uribe ou FHC que apesar de terem sido eleitos legitimamente, dentro das regras do jogo democrático, na hora de deixar o governo se prestam a esse papelão. Chavez nem se fala.
Bom ver na Colômbia os poderes funcionando de forma independente.
A fragilidade democrática, a mesma que faz com que Uribe demande uma nova reeleição, é expressa, por exemplo, em uma carta aberta do ex-presidente César Gavíria em que parabeniza Uribe por acatar a decisão. Era imaginável então que ele pudesse não acatar?
vídeo de Uribe - em que ele assume o papel de professor sobre o estado de direito para assumir a derrota.
Uribe perdeu, 7X2.
É interessante ver presidentes como Uribe ou FHC que apesar de terem sido eleitos legitimamente, dentro das regras do jogo democrático, na hora de deixar o governo se prestam a esse papelão. Chavez nem se fala.
Bom ver na Colômbia os poderes funcionando de forma independente.
A fragilidade democrática, a mesma que faz com que Uribe demande uma nova reeleição, é expressa, por exemplo, em uma carta aberta do ex-presidente César Gavíria em que parabeniza Uribe por acatar a decisão. Era imaginável então que ele pudesse não acatar?
vídeo de Uribe - em que ele assume o papel de professor sobre o estado de direito para assumir a derrota.
26 de fev. de 2010
Félix Guattari entrevista Lula
Uma preciosidade. (download) (original da Elianne Ivo, obrigado)
Lula é entrevistado em 1982 por Guattari.
Fundado em 1980, o PT estava prestes a apresentar seus primeiros candidatos em uma eleição.
Lula, com 37 anos, fala de um desejo de país que atravessou esses anos todos e que se realiza nesses seus dois governos, apesar de tantas diferenças.
Os mais críticos ao governo Lula verão uma entrevista cheia de contradições. Lula recusa qualquer apoio ao PMDB, fala em estatização de Bancos, etc.
No meu caso, sou tocado por uma enorme percepção da política mesmo, do que era ou não possível fazer, dos embates que se colocariam e da necessidade democrática.
"é preciso estar com os pés no chão, e saber que os processos de transformação não se dão porque queremos, mas sim em virtude das forças políticas sobre as quais eles se apóiam."
Ontem - dia 26.02.10 - O Globo ainda fazia uma matéria sobre a visita de Lula a Cuba ignorando a relação que o Brasil tem hoje com a América Latina, ignorando o que Lula foi fazer naquele país, como se o PT apoiasse um certo modelo de estado.
Nessa entrevista, FG pergunta se Lula vê o PT adotando algum modelo constituído, de tipo soviético, chinês ou cubano.
Lula - Não, de forma nenhuma. E aliás, nem francês, nem sueco!
ainda:
"é preciso criar condições que nos permitam não depender nem do imperialismo americano nem do imperialismo soviético"
É curioso ainda ver alguns assuntos na ordem do dia:
Lula: Minha posição é que as Malvinas pertencem à Argentina.
O final da entrevista é também revelador.
Guattari agradece e Lula devolve fazendo uma pergunta pragmática:
O partido socialista na França "está colocando em prática o que propunha antes das eleições?"
Guattari fala longamente e Lula continua demandando mais de seu interlocutor.
Uma das últimas palavras de Lula:
"A grande força, a melhor arma do PT é justamente isto - o não dogmatismo."
Lula é entrevistado em 1982 por Guattari.
Fundado em 1980, o PT estava prestes a apresentar seus primeiros candidatos em uma eleição.
Lula, com 37 anos, fala de um desejo de país que atravessou esses anos todos e que se realiza nesses seus dois governos, apesar de tantas diferenças.
Os mais críticos ao governo Lula verão uma entrevista cheia de contradições. Lula recusa qualquer apoio ao PMDB, fala em estatização de Bancos, etc.
No meu caso, sou tocado por uma enorme percepção da política mesmo, do que era ou não possível fazer, dos embates que se colocariam e da necessidade democrática.
"é preciso estar com os pés no chão, e saber que os processos de transformação não se dão porque queremos, mas sim em virtude das forças políticas sobre as quais eles se apóiam."
Ontem - dia 26.02.10 - O Globo ainda fazia uma matéria sobre a visita de Lula a Cuba ignorando a relação que o Brasil tem hoje com a América Latina, ignorando o que Lula foi fazer naquele país, como se o PT apoiasse um certo modelo de estado.
Nessa entrevista, FG pergunta se Lula vê o PT adotando algum modelo constituído, de tipo soviético, chinês ou cubano.
Lula - Não, de forma nenhuma. E aliás, nem francês, nem sueco!
ainda:
"é preciso criar condições que nos permitam não depender nem do imperialismo americano nem do imperialismo soviético"
É curioso ainda ver alguns assuntos na ordem do dia:
Lula: Minha posição é que as Malvinas pertencem à Argentina.
O final da entrevista é também revelador.
Guattari agradece e Lula devolve fazendo uma pergunta pragmática:
O partido socialista na França "está colocando em prática o que propunha antes das eleições?"
Guattari fala longamente e Lula continua demandando mais de seu interlocutor.
Uma das últimas palavras de Lula:
"A grande força, a melhor arma do PT é justamente isto - o não dogmatismo."
23 de fev. de 2010
O Globo, Folha e o desespero (post desabafo, envergonhado)
É assustador o tom que as organizações Globo vão assumindo.
Jabor fala de Dilma e do PT com uma violência descabida, faz uma defesa de FHC e incentiva um Flu X Flu entre as partes. Triste.
Miriam Leitão propõe um golpe na Venezuela. Diz que não haverá nada de produtivo na America Latina com Hugo Chavez. Triste, preguiçoso. não se dá ao trabalho de ver o que acontece. A legalização dos quase 50 mil bolivianos que estavam ilegais no Brasil, o final dos confrontos entre Peru e Equador, o respeito às populações indígenas em todo o continente, a integração entre Brasil e Argentina, etc. Miriam é o palanque que Chavez quer. Ela compra o espetáculo.
O Globo Online de hoje repercute a matéria da Folha contra Dirceu. Objetivo? A Globo não pode deixar passar uma ação governamental de Banda Larga. A incapacidade deles de universalizar é evidente. Lembre-se que o Brasil só perde para a Bolivia, proporcionalmente, em número de assinantes de TV a cabo. Pois são eles que querem universalizar a banda larga?
É a velha estratégia. Folha, Globo e adivinhe qual será a capa da Veja?
Desespero no ar. São esses caras que falam em liberdade de imprensa? Essas pessoas que defendem a liberdade para poderem falar e escrever apenas o que patrão quer?
Triste ver pessoas inteligentes defendendo os poderes mais retrógrados e anti-democráticos.
Jabor fala de Dilma e do PT com uma violência descabida, faz uma defesa de FHC e incentiva um Flu X Flu entre as partes. Triste.
Miriam Leitão propõe um golpe na Venezuela. Diz que não haverá nada de produtivo na America Latina com Hugo Chavez. Triste, preguiçoso. não se dá ao trabalho de ver o que acontece. A legalização dos quase 50 mil bolivianos que estavam ilegais no Brasil, o final dos confrontos entre Peru e Equador, o respeito às populações indígenas em todo o continente, a integração entre Brasil e Argentina, etc. Miriam é o palanque que Chavez quer. Ela compra o espetáculo.
O Globo Online de hoje repercute a matéria da Folha contra Dirceu. Objetivo? A Globo não pode deixar passar uma ação governamental de Banda Larga. A incapacidade deles de universalizar é evidente. Lembre-se que o Brasil só perde para a Bolivia, proporcionalmente, em número de assinantes de TV a cabo. Pois são eles que querem universalizar a banda larga?
É a velha estratégia. Folha, Globo e adivinhe qual será a capa da Veja?
Desespero no ar. São esses caras que falam em liberdade de imprensa? Essas pessoas que defendem a liberdade para poderem falar e escrever apenas o que patrão quer?
Triste ver pessoas inteligentes defendendo os poderes mais retrógrados e anti-democráticos.
16 de fev. de 2010
Alasca, pré-sal e a renda mínima
O que fazer com o dinheiro do petróleo que entrará com o pré-sal.
Certo, nossos problemas como moradia, educação, transporte, saúde e comunicação são infindáveis, mas talvez o Alaska possa servir de exemplo.
No final dos anos 70 o Alasca torna-se um grande produtor de petróleo e, paralelamente, acontece uma discussão, o que fazer com o dinheiro que o estado recebe?
Em 1980 o governador Jay Rammond aprova a criação de um fundo com 50% dos royalties do petróleo. Em 1982 inicia um pagamento anual de uma renda mínima, fruto dos ganhos com o petróleo, a todo cidadão que habite no Estado do Alasca, há pelo menos um ano. Esta renda não está ligada a nenhuma condição outra que estar vivo.
Ninguém precisa se declarar pobre para ter direito ao que lhe pertence.
Crianças e jovens com menos de 18 anos, eram representados pelos pais e recebiam também suas partes.
Partindo do princípio de que a terra, no caso o petróleo, é um recurso de todos, seus dividendos devem antes serem distribuídos para que cada um decidisse o que fazer com os recursos. Trata-se de um aluguel da terra que é direito de todos.
O valor distribuido não é enorme, variou de 300 a quase dois mil dólares anuais, guardando uma média de mais ou menos 1200 dólares (cálculo em 2006). Para uma família de 5 pessoas, isso significa aproximadamente 900 reais mensais, por família.(ver:Basic income and increasing income inequality in Russia por Alexander Varshavsky)
Em artigos de pessoas que conheceram a realidade - Philippe Van Parijs, Suplicy - não há narrativas que digam que o povo do Alasca estava trabalhando menos por conta da renda mínima recebida anualmente.
Essa renda do petróleo do Alasca representa algo em torno de 7% do PIB, o necessário para garantir que o Alasca tenha a menor taxa de desigualdade de todos os estados americanos.
Desde a instituição desta renda o êxodo do Alasca diminuiu e a taxa de crescimento econômico é maior que a média americana. (ver: LE REVENU INCONDITIONNEL REPONSE AUX OBJECTIONS - Par Jacques Berthillier - octobre 2000)
Ah, mas os ricos não devem receber, dirão alguns.
Todos devem receber, o estado deve gerenciar mas não apontar quem deve ou não ter acesso a esse bem que pertence a todos. Os mais abastados provavelmente terão impostos maiores e uma parte da renda que receberam voltará para o estado.
A universalização impede o populismo e os gastos com a burocracia.
Uma renda-mínima à partir do pré-sal não trará benefícios políticos a longo prazo a ninguém. A renda mínima instituída a partir de um fundo obrigatório não ficará à mercê deste ou daquele governo. Desta ou daquela distribuição de renda.
O petróleo é um bem finito, mas o saber, o conhecimento não. O que hoje pode finaciar uma renda mínima universal para todos os brasileiros ainda é uma energia velha, parte de um capitalismo decadente e insustentável, entretanto, é com esse dinheiro que podemos financiar nossa entrada em outro sistema de produção de riqueza, aqueles ligados capitalismo pós-industrial e cognitivo, ou, como dizia Gorz, no pós-capitalismo.
Referências:
http://www.basicincome.org/bien/papers.html (grande quantidade de artigos apresentados nos congressos do BIEN - Basic Income Earth Network que este ano acontece no Brasil: http://www.bien2010brasil.com/)
Renda básica de Cidadania, Eduardo Suplicy, L&PM Pocket
Renda básica de Cidadania, Yannick Vanderborght e Philippe Van Parijs
Certo, nossos problemas como moradia, educação, transporte, saúde e comunicação são infindáveis, mas talvez o Alaska possa servir de exemplo.
No final dos anos 70 o Alasca torna-se um grande produtor de petróleo e, paralelamente, acontece uma discussão, o que fazer com o dinheiro que o estado recebe?
Em 1980 o governador Jay Rammond aprova a criação de um fundo com 50% dos royalties do petróleo. Em 1982 inicia um pagamento anual de uma renda mínima, fruto dos ganhos com o petróleo, a todo cidadão que habite no Estado do Alasca, há pelo menos um ano. Esta renda não está ligada a nenhuma condição outra que estar vivo.
Ninguém precisa se declarar pobre para ter direito ao que lhe pertence.
Crianças e jovens com menos de 18 anos, eram representados pelos pais e recebiam também suas partes.
Partindo do princípio de que a terra, no caso o petróleo, é um recurso de todos, seus dividendos devem antes serem distribuídos para que cada um decidisse o que fazer com os recursos. Trata-se de um aluguel da terra que é direito de todos.
O valor distribuido não é enorme, variou de 300 a quase dois mil dólares anuais, guardando uma média de mais ou menos 1200 dólares (cálculo em 2006). Para uma família de 5 pessoas, isso significa aproximadamente 900 reais mensais, por família.(ver:Basic income and increasing income inequality in Russia por Alexander Varshavsky)
Em artigos de pessoas que conheceram a realidade - Philippe Van Parijs, Suplicy - não há narrativas que digam que o povo do Alasca estava trabalhando menos por conta da renda mínima recebida anualmente.
Essa renda do petróleo do Alasca representa algo em torno de 7% do PIB, o necessário para garantir que o Alasca tenha a menor taxa de desigualdade de todos os estados americanos.
Desde a instituição desta renda o êxodo do Alasca diminuiu e a taxa de crescimento econômico é maior que a média americana. (ver: LE REVENU INCONDITIONNEL REPONSE AUX OBJECTIONS - Par Jacques Berthillier - octobre 2000)
Ah, mas os ricos não devem receber, dirão alguns.
Todos devem receber, o estado deve gerenciar mas não apontar quem deve ou não ter acesso a esse bem que pertence a todos. Os mais abastados provavelmente terão impostos maiores e uma parte da renda que receberam voltará para o estado.
A universalização impede o populismo e os gastos com a burocracia.
Uma renda-mínima à partir do pré-sal não trará benefícios políticos a longo prazo a ninguém. A renda mínima instituída a partir de um fundo obrigatório não ficará à mercê deste ou daquele governo. Desta ou daquela distribuição de renda.
O petróleo é um bem finito, mas o saber, o conhecimento não. O que hoje pode finaciar uma renda mínima universal para todos os brasileiros ainda é uma energia velha, parte de um capitalismo decadente e insustentável, entretanto, é com esse dinheiro que podemos financiar nossa entrada em outro sistema de produção de riqueza, aqueles ligados capitalismo pós-industrial e cognitivo, ou, como dizia Gorz, no pós-capitalismo.
Referências:
http://www.basicincome.org/bien/papers.html (grande quantidade de artigos apresentados nos congressos do BIEN - Basic Income Earth Network que este ano acontece no Brasil: http://www.bien2010brasil.com/)
Renda básica de Cidadania, Eduardo Suplicy, L&PM Pocket
Renda básica de Cidadania, Yannick Vanderborght e Philippe Van Parijs
15 de fev. de 2010
Cinema Estação, é bom evitar
Dois finais de semana indo aos cinemas do Estação.
Saudades da época em que o Estação tinha interesse por cinema e respeitava o público.
Bastardos Inglórios no Barra Point e o som completamente rachado. Reclamei com o projecionista.
- Não há o que fazer, pode pegar o dinheiro de volta.
Mas o meu tempo, minha gasolina, meu desejo de cinema?
- Meu o que?
Bem,
esse final de semana foi o Fita Branca do Haneke.
Faltavam 2 minutos, eu estava na primeira fila, que fora ficar na reta do ar-condicionado tem uma boa visibilidade, quando o lanterninha abriu a porta de saída na minha frente.
Fora ter agido como montador - ó o desejo de cinema dele ai - avisando que o filme ia acabar. Jogou uma luz na minha frente.
Estragou o final do filme.
Que ódio!
Meu dinheiro de volta, Pedi. só consegui que o gerente me desse o direito de rever o filme.
Sorte que fui a pé, pelo menos a gasolina não vou gastar.
Saudades da época em que o Estação tinha interesse por cinema e respeitava o público.
Bastardos Inglórios no Barra Point e o som completamente rachado. Reclamei com o projecionista.
- Não há o que fazer, pode pegar o dinheiro de volta.
Mas o meu tempo, minha gasolina, meu desejo de cinema?
- Meu o que?
Bem,
esse final de semana foi o Fita Branca do Haneke.
Faltavam 2 minutos, eu estava na primeira fila, que fora ficar na reta do ar-condicionado tem uma boa visibilidade, quando o lanterninha abriu a porta de saída na minha frente.
Fora ter agido como montador - ó o desejo de cinema dele ai - avisando que o filme ia acabar. Jogou uma luz na minha frente.
Estragou o final do filme.
Que ódio!
Meu dinheiro de volta, Pedi. só consegui que o gerente me desse o direito de rever o filme.
Sorte que fui a pé, pelo menos a gasolina não vou gastar.
Infantilizar não é tratar o espectador como imbecil
Eduardo Escorel escreve na Folha (domingo 14.02) e diz que Globo Reporter infatiliza o público.
Escorel faz um bom diagnóstico do programa, chama atenção para a prática de transformar tudo em jogo e interacão voyeur, entretanto, tratar o espectador como imbecil é completamente diferente de infantilização.
As crianças são bem mais inteligentes e capazes do que o Globo Reporter, isso é certo.
Escorel faz um bom diagnóstico do programa, chama atenção para a prática de transformar tudo em jogo e interacão voyeur, entretanto, tratar o espectador como imbecil é completamente diferente de infantilização.
As crianças são bem mais inteligentes e capazes do que o Globo Reporter, isso é certo.
12 de fev. de 2010
Arruda e o PCC
Claro que é um prazer ver o Arruda preso.
Mas não é sem um forte estranhamento que vejo a polícia prender um governador.
Parece haver muito pouca dúvida sobre o envolvimento do Arruda com a corrupcão, é certo que deveria ser preso. Mas, prender um governador eleito é também uma temeridade. A polícia e a justiça tem mais direitos sobre a liberdade do que a câmara, representante do povo que o elegeu?
Caimos então em uma armadilha. Mesmo preso Arruda deveria ter o direito de continuar governando, uma vez que ele ainda não foi condenado.
Confesso que tenho tanto medo da justiça que prende um governador quanto de um governador corrupto. Ou temos tanta confiança na justiça? ela nunca será usada para retirar do poder alguém por motivos políticos, por exemplo.
Por enquanto resta ao Arruda administrar o DF à moda PCC, com celulares contrabandeados para dentro do presídio.
Mas não é sem um forte estranhamento que vejo a polícia prender um governador.
Parece haver muito pouca dúvida sobre o envolvimento do Arruda com a corrupcão, é certo que deveria ser preso. Mas, prender um governador eleito é também uma temeridade. A polícia e a justiça tem mais direitos sobre a liberdade do que a câmara, representante do povo que o elegeu?
Caimos então em uma armadilha. Mesmo preso Arruda deveria ter o direito de continuar governando, uma vez que ele ainda não foi condenado.
Confesso que tenho tanto medo da justiça que prende um governador quanto de um governador corrupto. Ou temos tanta confiança na justiça? ela nunca será usada para retirar do poder alguém por motivos políticos, por exemplo.
Por enquanto resta ao Arruda administrar o DF à moda PCC, com celulares contrabandeados para dentro do presídio.
11 de fev. de 2010
Márcio Utsch - biopoder explícito
Como tenho especial interesse pela retórica em torno do trabalho no mundo contemporâneo, comprei a mais recente revista Época Negócios para ler uma matéria sobre a rotina de trabalho de cinco presidentes de grandes empresas.
Antes de chegar no texto, a primeira imagem da matéria já é extremamente reveladora dessa retórica.
Um dos retratados na matéria é fotografado de costas andando em um corredor em seu lugar de trabalho de mãos dadas com seus dois filhos. No final do corredor uma câmera de vigilância. Como diz o André Brasil, uma imagem dessas dispensa qualquer análise. Já está tudo ali, o lugar vigiado mas que permite a entrada da família, mas, sobretudo a fusão trabalho vida. Como escreveu o outro André, o Gorz, "não há mais fora do trabalho."
A rotina de trabalho que interessa a matéria inclui os filhos, a família, as atividades físicas, o consumo, a ocupação do tempo, a saúde etc. A rotina de trabalho é na verdade a vida."Quando Utsch está à mesa, todo almoço é de trabalho"
Mário Utsch, presidente da Alpargatas aparece na matéria em várias fotos, nas maiores ele aparece 1- em sua corrida matinal, 2 - fazendo embaixadinha 3 - sentado descontraído em uma mesa. Mas, nas corridas ele leva um gravador e grava todas as novas idéias e tudo que lembra que deve fazer. Ao chegar ao escritório entrega o gravador para a secretária deve ouvir e anotar as idéias que aparecem em meio à respiração ofegante.
Outro ponto curioso que impressiona o jornalista é uma reunião de Utsch com um dirigente de um clube de futebol. O presidente e os diretores não querem tomar nenhuma decisão naquele momento. "Tensão? Ao contrário. A reunião dura quase uma hora de incontáveis gargalhadas. E termina conforme o previsto, sem um acordo."
A vida se tornou, na retórica e na prática do trabalho contemporâneo, o que há para ser incorporado e modulado pelo capital, longe das práticas disciplinares. Já sabemos isso há uns 40 anos, mas, mais do que nunca essa prática se naturalizou. Tal modulação e controle encontra em uma frase de Utsch uma pérola dessa retórica que não dispensa uma boa dose de cinismo e que diverte o jornalista. "Motivação? É manter a galinha viva, a raposa com fome e o galinheiro aberto"
Antes de chegar no texto, a primeira imagem da matéria já é extremamente reveladora dessa retórica.
Um dos retratados na matéria é fotografado de costas andando em um corredor em seu lugar de trabalho de mãos dadas com seus dois filhos. No final do corredor uma câmera de vigilância. Como diz o André Brasil, uma imagem dessas dispensa qualquer análise. Já está tudo ali, o lugar vigiado mas que permite a entrada da família, mas, sobretudo a fusão trabalho vida. Como escreveu o outro André, o Gorz, "não há mais fora do trabalho."
A rotina de trabalho que interessa a matéria inclui os filhos, a família, as atividades físicas, o consumo, a ocupação do tempo, a saúde etc. A rotina de trabalho é na verdade a vida."Quando Utsch está à mesa, todo almoço é de trabalho"
Mário Utsch, presidente da Alpargatas aparece na matéria em várias fotos, nas maiores ele aparece 1- em sua corrida matinal, 2 - fazendo embaixadinha 3 - sentado descontraído em uma mesa. Mas, nas corridas ele leva um gravador e grava todas as novas idéias e tudo que lembra que deve fazer. Ao chegar ao escritório entrega o gravador para a secretária deve ouvir e anotar as idéias que aparecem em meio à respiração ofegante.
Outro ponto curioso que impressiona o jornalista é uma reunião de Utsch com um dirigente de um clube de futebol. O presidente e os diretores não querem tomar nenhuma decisão naquele momento. "Tensão? Ao contrário. A reunião dura quase uma hora de incontáveis gargalhadas. E termina conforme o previsto, sem um acordo."
A vida se tornou, na retórica e na prática do trabalho contemporâneo, o que há para ser incorporado e modulado pelo capital, longe das práticas disciplinares. Já sabemos isso há uns 40 anos, mas, mais do que nunca essa prática se naturalizou. Tal modulação e controle encontra em uma frase de Utsch uma pérola dessa retórica que não dispensa uma boa dose de cinismo e que diverte o jornalista. "Motivação? É manter a galinha viva, a raposa com fome e o galinheiro aberto"
3 de fev. de 2010
Audiovisual e Trabalho Imaterial
Precisamos pensar uma renda mínima para jovens produtores de audiovisual recém saídos das universidades.
Finaciar o cinema hoje é financiar a vida de quem produz e não os filmes (apenas).
Temos visto em festivais uma grande quantidade de filmes; curtas, longas, documentários, animação e ficção produzidos com orçamento zero.
Câmeras, microfones e ilhas de edição estão ao alcance de todos que freqüentam universidades e escolas de audiovisual.
A exibição é garantida em festivas quase diários, internet e TVs universitárias e públicas.
O custa da produção tende a zero, em muitos casos. O da distribuição também.
O que leva tantos jovens a pararem de produzir quando saem das escolas e universidades é a necessidade de ganhar 1.500 ou dois mil reais mensais e não a impossibilidade de terem seus filmes patrocinados.
Os filmes deixam de ser feitos pela necessidade de arranjar um trabalho, freqüentemente distante da criação.
Estes jovens não esperam que seus filmes sejam patrocinados, não querem apresentar projetos em editais, não querem encaixar suas produções nos moldes que o mercado demanda.
O problema contemporâneo é que já sabemos que não haverá emprego para todos. Essa é a lógica de um capitalismo industrial.
Garantir a produção audiovisual de centenas de realizadores é uma decisão ecológica.
No capitalismo contemporâneo o trabalho se separou do emprego.
A inclusão social pelo emprego acabou com o fim da hegemonia do capitalismo fordista.
É tarefa do estado liberar as potências criativas - nem moldar, nem modelar - mesmo que estas potências se voltem contra o estado.
Produzir cinema e arte é produzir novos mundo ainda não imagináveis.
Os números:
Se a cada ano forem oferecidas 1000 bolsas mensais de 2000 reais para jovens realizadores durante um ano chegamos ao seguinte número:
1000 X R$ 2000,00 x 12 (meses)= R$24.000.000,00
Uma revolução no audiovisual brasileiro custa o equivalente a dois longas brasileiros de grande orçamento!
Ao trabalho.
ps. Essas idéias foram aventadas em reunião da Universidade Federal Fluminense para a preparação do Forcine ( FÓRUM BRASILEIRO DE ENSINO DE CINEMA E AUDIOVISUAL). Presentes na Reunião: Prof. João Leocádio. Profa. Elianne Ivo, Profa. Aida Marques, Profa. India Mara Martins, Profa. eliany Salvatierra e Profa. Luciana Rodrigues.
Finaciar o cinema hoje é financiar a vida de quem produz e não os filmes (apenas).
Temos visto em festivais uma grande quantidade de filmes; curtas, longas, documentários, animação e ficção produzidos com orçamento zero.
Câmeras, microfones e ilhas de edição estão ao alcance de todos que freqüentam universidades e escolas de audiovisual.
A exibição é garantida em festivas quase diários, internet e TVs universitárias e públicas.
O custa da produção tende a zero, em muitos casos. O da distribuição também.
O que leva tantos jovens a pararem de produzir quando saem das escolas e universidades é a necessidade de ganhar 1.500 ou dois mil reais mensais e não a impossibilidade de terem seus filmes patrocinados.
Os filmes deixam de ser feitos pela necessidade de arranjar um trabalho, freqüentemente distante da criação.
Estes jovens não esperam que seus filmes sejam patrocinados, não querem apresentar projetos em editais, não querem encaixar suas produções nos moldes que o mercado demanda.
O problema contemporâneo é que já sabemos que não haverá emprego para todos. Essa é a lógica de um capitalismo industrial.
Garantir a produção audiovisual de centenas de realizadores é uma decisão ecológica.
No capitalismo contemporâneo o trabalho se separou do emprego.
A inclusão social pelo emprego acabou com o fim da hegemonia do capitalismo fordista.
É tarefa do estado liberar as potências criativas - nem moldar, nem modelar - mesmo que estas potências se voltem contra o estado.
Produzir cinema e arte é produzir novos mundo ainda não imagináveis.
Os números:
Se a cada ano forem oferecidas 1000 bolsas mensais de 2000 reais para jovens realizadores durante um ano chegamos ao seguinte número:
1000 X R$ 2000,00 x 12 (meses)= R$24.000.000,00
Uma revolução no audiovisual brasileiro custa o equivalente a dois longas brasileiros de grande orçamento!
Ao trabalho.
ps. Essas idéias foram aventadas em reunião da Universidade Federal Fluminense para a preparação do Forcine ( FÓRUM BRASILEIRO DE ENSINO DE CINEMA E AUDIOVISUAL). Presentes na Reunião: Prof. João Leocádio. Profa. Elianne Ivo, Profa. Aida Marques, Profa. India Mara Martins, Profa. eliany Salvatierra e Profa. Luciana Rodrigues.
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